all over the place

eu não sou uma pessoa organizada. quer dizer, sou organizada em termos logísticos, quando há coisas que quero fazer, mas mentalmente sou uma pessoa desorganizada. no meio da minha desorganização costumo encontrar uma linha de continuidade e sigo-a. é uma maneira de me manter num caos organizado que só eu entendo.

estou a perder essa linha. ou melhor, a linha continua a existir mas eu não a consigo seguir. há demasiada coisa a acontecer, há demasiada informação, há demasiada coisa que eu quero fazer ao mesmo tempo. não estou a conseguir fazer nada. criei este blogue para conseguir seguir a linha, mas todos os meus blogues acabam mal começam. sim, estou a falar do fim de uma coisa que acabei de começar. se o que importa é o caminho e não o fim, então há algum sentido nisto. no entanto, cheguei a um ponto em que não consigo pensar.

giphy

o activismo está a esgotar-me. os activismos. é possível ser poly, lésbica, kinky, queer, feminista e tudo e tudo e tudo. mas é possível ser tudo e não ficar louca? não sei. se é sinal de uma mente saudável o facto de não estar ajustada a uma sociedade doentia, então devo estar no bom caminho. mas sinto-me exausta. sinto-me, eu mesma, doente. de dar tudo ao mesmo tempo em todo o lado.

os activismos estão a sugar-me. não há espaços seguros. não há comunicação não-violenta. há guerra e silenciamentos e opressões a serem jogadas todos os dias. eu mesma tornei-me violenta para me defender. arrogante para me proteger. vou para as reuniões activistas como quem vai para um campo de batalha e por isso vou armada. não falo com cuidado. chego e digo o que preciso de dizer. e sou agressiva. foda-se caralho merda. destilo raiva. é assim que estou a fazer activismo, movida a agressão, movida a defesas e contra-ataques. moves and counter-moves.

pergunto-me se não devia parar e qual é a razão para ficar. obviamente razões há muitas. é que se não for eu, provavelmente não há mais ninguém. pelo menos, não haveria ninguém que não seja da minha família, e portanto eu continuaria a ser afectada. não dá para fazer activismo como se fosse um hobby. não é como acordar e ir ao ginásio de manhã e pronto, está feito, põe-se de lado e passa à frente. o activismo dorme connosco, fode connosco, vive connosco e está todos os dias connosco – quando estamos no trabalho a fazer vida dupla, quando vamos na rua, quando fazemos escolhas, quando estamos a viver as nossas relações. deve haver gente a fazer activismo de uma maneira muito mais conveniente e confortável. eu sei que há. às vezes também gostava de ser assim.

mas pior que isso, há pessoas que fazem activismo-performance. talvez performance não seja o melhor termo por estar tão bem conotado com coisas queer-fofinhas. há pessoas que fazem activismo-máscara. activismo-para-o-outro-ver-que-eu-sou-tão-boa-pessoa. o activismo hipócrita está em todo o lado. para estas pessoas é normal ir a uma reunião silenciar outras. ou fazer estratégias para eliminar outrxs identidades e grupos. ou fazer eventos contra a violência e ser violentx e abusivx em privado. estas pessoas são consideradas boas activistas. têm nome e reputação. eu não estou no direito de as revelar, mas muitxs sabem quem são.

isto entretanto transformou-se num texto de denúncia. mas é só um texto de cansaço. activismos são só uma das coisas que faço, uma das linhas. o resto da minha vida é feito de poly-relações, poly-afectos, poly-complicações, poly-comunicações, poly-planos. e mais. precariedade. empregos das 9 às 5, contas para pagar, família de sangue e de obrigações, discriminações, invisibilidade, sexismos vários, conexões online, ansiedade, esgotamentos, textos queer everywhere.

sim, este texto é uma confusão. e não diz sequer metade.

exhaustion

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About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

2 responses to “all over the place

  • Tiago Alves Silva

    Isto tem-me passado muito pela cabeça nos últimos dias.

    Obrigada por isto.

    Gostar

  • Anabela Rocha

    Querida Inês, sempre promissora Inês: a vida, quando vivida criticamente, é já um grande activismo, o activismo do exemplo. E esse nunca cessará em ti. Quanto ao resto é importante reconhecer as nossas limitações (entre as quais o país em que vivemos não é a menor, pelas dificuldades que coloca em termos de massa crítica) e as nossas prioridades (em primeiro lugar deverá vir uma vida que nos permita pensar e fruir).
    Acompanhei o teu nascimento e crescimento activista e ter contribuído um pouco para ele é das coisas que mais me orgulho. Quando penso no teu futuro rezo apenas por uma coisa: não deixes nunca de escrever. Não pares o blog, um dia levar-te-à a voltares à investigação (que não tem valor por si mas enquanto contributo para todos). Está nisso a tua excelência, para isso cresceste e te formaste. Os activismos associativos continuarão, se não nas formas que conhecemos, noutras. Poderás sempre acompanhá-los duma forma menos consumidora da tua energia. Mas a originalidade da tua voz e a força do teu pensamento é o que trará mais frutos, porque é aí que vais mais longe do que muitos. Beijinhos

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