Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se tiveres sorte]: Parte I

1780668_10201182847837632_1988650856_nComo se estivesse a ler palavras de uma estranha, leio algures num email de há 5 anos atrás, que eu (o eu da altura), não gosto do termo lésbica. Tento traçar uma linha desde então até ao presente, procurando os momentos de viragem, e encontro o termo lésbica nomeado mais de 790 vezes no meu arquivo de email. Para quem não gostava do termo, definitivamente usei-o muito.

Como é que cheguei aqui? Mas talvez esta não seja a melhor pergunta, porque o que me interessa mesmo é o caminho e não o fim. Como é que me fui fazendo lésbica todos os dias? Alguns pontos que encontro nesta história de me fazer lésbica, por uma ordem falsamente cronológica que é a que o meu cérebro recorda:

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L word. Sim, um autêntico cliché, mas esta série fez/faz parte do meu fazer-me lésbica. Vi-a às escondidas. Apesar de ser maior de idade, a minha mãe vigiava os programas que eu via na televisão e várias vezes me veio desligar o dispositivo quando eu estava a ver esta série, seguindo-se berros, críticas e censuras (é tarde, que programa é este, o que estás a fazer com a tua vida, não vais ver isto em minha casa). Uma das vezes desligou-me a TV a meio de uma cena de sexo oral de dez minutos, completamente empowering. Foi meio caminho andado para se tornar a minha série favorita e nunca mais perder um episódio. Vi todas as temporadas. Pela primeira vez estava a ver corpos de mulheres postos ali para serem vistos por outras mulheres. Tenho perfeita consciência dos problemas desta série. Sei que é uma representação irrealista, idealizada, de corpos brancos, tonificados, capazes, de mulheres de classe alta, com nenhuma representação de safer sex, com um enfoque claro na monogamia em série e quase ausência de representações de não-monogamias consensuais e responsáveis, enfim demasiada normatividade lésbica e pouco queer e imensa bifobia. Estes e outros problemas que este produto de Hollywood tem não apagam, no entanto, a importância destas representações no meu fazer-me lésbica: ver sexo lésbico em prime-time, ouvir mulheres falarem das suas atracções, problemas e relações de intimidade, estabelecendo redes de amizade e solidariedade, fazendo asneira, cometendo erros, dando passos em falso, fodendo, tudo isto foi importante. Ver, pela primeira vez, vários tipos de lésbicas, femininas, não femininas, masculinas, pessoas trans, pessoas com atitudes queer, ver mulheres que em tudo poderiam parecer hetero mas não o são, tudo isto fez parte do meu fazer-me lésbica.

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Momento polémico 1: talvez sem esta série eu não fosse lésbica. Sim, estou a dizer que o meu lesbianismo pode ser produzido culturalmente e ser resultado de um produto mediático. Provavelmente o L Word criou e produziu muitas lésbicas de diversos tipos e intensidades e colorações. Eu sou uma delas. [on a side note: eu ser do contra também deve ter provocado o meu lesbianismo, quanto mais me proibiram de ver a série mais lésbica me tornei, obrigada mãe.]

– Possivelmente decorrente do ponto anterior, tive uma enorme paixão platónica assolapada por uma rapariga na faculdade, com quem mal troquei meia dúzia de frases. Tinha cabelo cor-de-rosa, uma voz meio rouca, fumava e parecia uma versão da Shane mais sexy. Fomos colegas numa cadeira de fotografia, onde me fiz ainda mais lésbica caindo de amores por uma dúzia de fotógrafas que faziam auto-retratos, entre as quais Francesca Woodman e Claude Cahun, duas fotógrafas que me fizeram lésbica e queer e ainda mais feminista. Precisamente numa aula dessas, estava sentada ao lado da gaja de cabelo cor-de-rosa e sentia que não conseguia pensar (I can’t think straight). De repente, faltou a luz, e ela diz: “fuck me” (obviamente referindo-se ao incómodo da falta de electricidade). O meu cérebro entrou numa cena de autêntico L Word, where I would indeed fuck her and it would be totally normal and sexy. Em vez disso, obviamente fiquei petrificada no lugar a tentar respirar até a luz voltar. No resto do semestre tentei timidamente trocar umas frases com ela, sentindo-me totalmente desadequada para interacções sociais ou de qualquer outro tipo e logicamente tudo deu em nada. Entretanto percebi que ela tinha namorado e conclui então que se calhar ela era tudo menos lésbica (o que tem imensa piada, à luz da minha própria identidade hoje).

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Só fiz alguma coisa directa quanto à paixão platónica quando já tinha saído da faculdade, já era poliamorosa e já estava numa relação com um dos meus actuais companheiros, que foi precisamente a pessoa que me incentivou a não deixar isto em silêncio. Enviei-lhe uma mensagem numa rede social onde ainda tinha contacto e disse-lhe que ela tinha sido parte do meu fazer-me lésbica. Não houve resposta, mas eu também não estava à espera de nenhuma. Simplesmente, agora tinha skills que não tinha antes. Agora eu dizia as coisas claramente, ou pelo menos muito mais claramente que antes. Mais importante do que uma resposta, era a minha honestidade lésbica. E essa honestidade foi, e é, apoiada, também (mas não só) no contexto de uma relação poliamorosa com um homem cis heteroflexível.

Momento polémico 2: A Francesca Woodman e Claude Cahun fizeram-me muito lésbica. Sim, artistas e os seus produtos podem fazer lésbicas.

Momento polémico 3: Ser poliamorosa fez-me lésbica. Estar numa relação poliamorosa e queer com um homem cis heteroflexível fez-me lésbica. E no próximo texto vou explicar exactamente como é que, sim, alguns homens podem ajudar a fazer lésbicas. Principalmente se estão em luta constante com a sua masculinidade, se são também eles femininos em muita coisa e se estão interessados em construir relações não-normativas e que podem ser ressignificadas pelas pessoas que as fazem – a todo o momento.

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About Fhrynne

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