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Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires]: Parte II

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Fazer-me lésbica foi uma decisão. Uma decisão consciente, auto-reflectida, política, pessoal e amorosa. Não foi uma decisão que tomei só uma vez, mas sim uma decisão que tomo quase todos os dias. Fazer-me lésbica não é um acto acabado – daí o uso do verbo fazer. É um processo de auto-conhecimento e exploração. É uma decisão consciente e performativa que acontece porque eu quero.

Acontece por exemplo quando digo: eu sou lésbica. A linguagem faz com que isto aconteça e seja real. Cada iteração de “eu sou lésbica” faz-me lésbica. Cada vez que o repito sou sempre lésbica. Cada vez que o digo crio ondas, faço acontecer.

Apesar de ser um processo, deve ter havido um momento inicial. A primeira vez que disse “sou lésbica”. Seria muito mais giro se me lembrasse da história desse momento e o conseguisse narrar e dizer: “sim, foi neste dia, eu tinha voltado das compras e de repente tive uma iluminação e percebi! Sou lésbica. Fui a correr contar logo à primeira pessoa que encontrei e que ficou embasbacada a olhar para mim.”

Não, não foi isto que aconteceu. Até pode ter sido, mas se foi não me lembro. Não me lembro desse momento inicial e primeiro de “sou lésbica”.

Mas lembro-me, sim, de esse momento ir acontecendo. E aí encontro uma narrativa. Uma narrativa que percorre várias conversas em vários dias diferentes, ao longo de meses e depois anos – porque sim, continua hoje, mais de cinco anos depois. Uma narrativa de construção pessoal e inter-relacional que se foi fazendo. Essa narrativa foi acontecendo no meu fazer-me poliamorosa. E foi um esforço colaborativo. Sim, porque eu não me fiz lésbica sozinha. Obviamente que fui e sou a grande agente nesse processo e que sem essa minha agência e vontade nada disto teria acontecido e eu ter-me-ia feito noutra coisa qualquer. Mas eu partilhei essa minha vontade no contexto de uma relação poliamorosa e queer com um homem cis. E fui-me construindo lésbica precisamente depois de começar uma relação amorosa com um homem cis.

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Aqui parece residir o problema que muitas pessoas têm com a minha identidade. Para mim é simplesmente a cereja no topo do bolo (se eu gostasse de bolos) e não perco uma única oportunidade para meter este dado ao barulho, sempre muito naturalmente, como por exemplo no seguinte diálogo:

Pessoa aleatória: Ah ontem fui ao café.

Eu: Ah que engraçado. Por falar nisso, eu sou lésbica e ando com um homem, sabias?

Pessoa aleatória: [silêncio]

(não é bem assim, é mais como abaixo – e sim, esta aconteceu mesmo)

Local: Café algures no Porto. Eu sentada com umx namoradx. Pessoa acabada de conhecer  sentada à nossa frente.

Pessoa aleatória: Ah pois mas tu és lésbica. Eu prefiro homens, o que é que queres… Tenho um fantástico lá em casa…

Eu: Ah e quem é que te disse que eu não? Por acaso também tenho, está em Lisboa e gosto imenso dele.

Pessoa aleatória: [risos] -> a pessoa pensou que eu estava a gozar com a cara dela ou que já tinha definitivamente bebido demais.

Aqui é importante pensar nas condições específicas que contribuíram para este meu fazer-me lésbica numa relação com um homem e que são fundamentais para perceber porque é que isto é possível no meu caso (e quem sabe no de outras pessoas que assim queiram).

1. Esta relação é poliamorosa.

É poliamorosa da maneira que nós escolhemos fazê-la: aberta a várias pessoas e a vários tipos de laços possíveis com essas pessoas, dinâmica e portanto sempre cambiável e amorosamente exploratória e experimental. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que tenho nesta relação toda a liberdade para me experimentar lesbicamente – sozinha ou acompanhada – e de me pensar lesbicamente. Isto implicou, de uma forma muito menos poética, conversar. Conversar contínua e abertamente sobre desejos, vontades, expressões sexuais e sensuais e afectos. Foi no contexto desta relação que, em conversa, me apercebi que uma das relações mais centrais da minha vida era uma amizade romântica com uma mulher a quem eu chamava amiga. Foi em conversa com este homem cis com quem estou, que percebi que esta outra relação de amizade amorosa era central na minha vida, a ponto de ser tão relevante como qualquer relação sexual/amorosa/romântica (que eu na minha cabeça andava a tentar separar sem grandes bases). Só porque não tinha sexo, não deixava de ser lésbica, não deixava de ser amorosa, não deixava de fazer parte do meu construir-me lésbica.

Esta abertura para falar foi criada no contexto de um formato relacional em que falar é fazer relação. É fazer as formas de estar e de amar. E nós fomos fazendo estas formas e fomos fazendo uma relação não-exclusiva, baseada em confiança e partilha e em auto-hetero-descobertas múltiplas. E eu fui-me fazendo lésbica em conversas de café, em conversas de fim-de-semana, em conversas à noite ou jantares. E eu fui-me fazendo lésbica nas nossas explorações eróticas e nas explorações eróticas que partilhei com ele e com outras pessoas. E nas minhas explorações afectivas. Porque eu assim escolhi. Como meu projecto pessoal e relacional. E como parte da minha narrativa pessoal. A minha identidade lésbica é indissociável da minha identidade poliamorosa. Esta questão deu até origem a uma piada:

Eu: Eu podia ser perfeitamente monogâmica! Sou perfeitamente capaz de ser um dia.

Companheiro: Ai é? Então imagina lá estares numa relação monogâmica com um homem e nunca mais na tua vida teres uma relação – ou sequer essa possibilidade – com uma mulher?

Eu: Ah… [bloqueio]

Até hoje não consegui arranjar uma resposta que me convencesse a mim mesma.

2. Esta relação parece hetero. Mas não é. 

Esta foi sempre uma parte complexa de invisibilidade lésbica. Apesar de sermos uma mulher e um homem cis, numa relação romântica e sexual, temos um pequeno problema: é que além de não sermos mono, também não temos uma relação hetero.

Ambos consideramos que a nossa relação é queer – e este é o motivo principal pelo qual a relação não é hetero e é queer – sim, porque nós dizemos que é. E porque a fazemos enquanto tal.

Eu muitas vezes não me sinto a ter uma relação com um homem – aqui leia-se homem como quem diz “ser que tem supostamente as características masculinas consideradas norma nesta sociedade”. Sinto-me a ter uma relação com uma pessoa com uma série de características que eu posso atribuir a vários géneros diferentes e que, sendo cis, não tem uma série de características atribuídas à masculinidade. Posto de forma mais simples: o homem cis com quem eu ando, muitas vezes, não é masculino. E isso é parte do charme todo da coisa. E às vezes é masculino. Um masculino desconstruído e feminista. E isso é bom, porque no fundo eu não quero namorar com géneros mas com pessoas.

Obviamente que o facto de a relação não ser para nós hetero, não faz com que ela seja magicamente vista como nós queremos. Para 99% das pessoas nós somos hetero e esta é uma relação hetero e se por acaso saímos à rua só os dois até podem pensar que somos mono. Aí entra a nossa construção de nós mesmos e o que dizemos para activamente contrariar e questionar esta percepção automática. Claro que à vezes a sociedade engole-nos.

Outra parte complicada disto, é que eu posso dizer que a minha relação não é hetero e que eu sou lésbica… e depois posso começar a rezar para que as pessoas LGBT à minha volta percebam magicamente isto. O que acontece é que, claro, não percebem. E que me lêem como hetero ou bissexual (se eu conseguir dizer que gosto de mulheres). Outra coisa que resulta daqui é que tenho de estar constantemente a dizer que não sou hetero – se quero ser lida como não hetero – ou seja, o coming out é todos os dias, várias vezes por dia, potencialmente. Ou, quando as coisas correm bem, sou lida como bissexual e tenho que ainda assim fazer o coming out lésbico – isto nunca acaba.

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Um outro efeito disto é eu dizer – sou lésbica – mas não é isto que as pessoas ouvem. Ouvem antes: “ok, também gosta de experimentar com mulheres, mas ama é aquele homem. Vou pôr-me ao fresco”. No fundo, isto acaba a funcionar também como um filtro. Só vai dar-se ao trabalho de ver para além dos pré-conceitos quem realmente o quiser fazer. E quem tem problemas com a minha identidade está longe de ser uma boa pessoa para estar comigo.

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É difícil ser visível neste contexto. Mas mesmo sabendo isto, esta foi sempre a minha escolha diária. A de nunca me heteronormativizar. A de me fazer lésbica poliamorosa numa relação com um homem também. A de me fazer lésbica todos os dias.

Mais um passo numa viagem que ainda continua e que tem todos os dias novos contornos. Os últimos ficam para um novo texto.

Este texto é a continuação de um outro, que pode ser lido aqui.


E se?… imaginando um mundo com milícias de amor e solidariedade

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No autocarro, uma mulher grita para o homem que está com ela: “já disse que não quero mais falar contigo, deixa-me em paz!”. Repete isto mais três vezes. Eu decido que se ela tiver que voltar a dizê-lo me vou levantar e vou perguntar ao homem se não ouviu o que ela disse. Mal decido isto eles saiem do autocarro. Já na rua, quando o autocarro vai arrancar novamente, ainda a ouço gritar: ” deixa-me em paz! Não quero!!! “. O grito ecoa pela rua. Nunca se ouve a voz do homem, só a presença supostamente silenciosa. Dentro do autocarro, os passageiros riem-se. Na verdade, são só as outras mulheres que ali estão que riem. E eu percebo de quem se estão a rir. Estão a rir-se dela. De uma mulher que está a dizer a alguém que se afaste. Que pare. Que não lhe toque e não lhe dirija palavra.

Eu não tenho vontade nenhuma de rir.

E no resto do caminho todo dou por mim a pensar: E se? Como seria um mundo diferente deste cheio de riso, inacção e indiferença? Não um mundo de justiça pelas próprias mãos, mas um mundo de união, de dar as mãos, de apoio, de vozes que se levantam contra o silêncio e o apagamento?

E se….

em vez de rirem todas as mulheres daquele autocarro – a grande maioria das pessoas que ali estavam – se levantassem e o confrontassem? E se em vez de rirem perguntassem àquela mulher se ela precisava de ajuda, de alguma coisa? E se em vez de fingirem que não vêm dissessem alguma coisa? Algo como: já chega, não ouviu o que ela está a pedir?

E de repente na minha cabeça surgiu a ideia – que obviamente já existe nos feminismos, académicos, utópicos e ficcionais – e se fosse sempre assim? Em todo o lado?

Na rua.
No café.
Na escola.
No trabalho precário.
Em casa.

E se fosse assim a todo o momento? Quando vamos a passar na rua e uma de nós é chamada sem o querer? Quando vamos a sair do autocarro e alguém nos manda um piropo que nunca quisemos ouvir? Quando andamos à noite depressa e com medo? E se em vez de indiferença, todas nós, todas sem excepção, nos apoiássemos? E se em vez de olharmos para a outra e pensarmos: “olha, não devias estar com essa saia tão curta”, se em vez disso nos levantássemos e levantássemos a voz e disséssemos antes: “o que é que tens a ver com a roupa que ela está a usar? Tens algum problema?”. E se subitamente em todo o lado, todas nós fizéssemos isto? No comboio, no metro, a caminho da padaria, a caminho da discoteca, no supermercado, no carro, com amigos, sem amigos.

E se todas as mulheres – cis, não cis – não aceitassem nem mais uma agressão? E se não aceitassem de facto e não apenas teoricamente ou em slogans de manifestações? E se cada vez que uma de nós tivesse que dizer “não quero” as outras estivessem lá a dizer “não ouviste o que ela disse?”. E se isso não fosse apenas em dias especiais ou dias internacionais das mulheres ou dias contra a violência?

E se a partir de agora, nunca mais nenhuma de nós aceitasse assédio no trabalho? Se denunciássemos cada frase sexista, cada comentário depreciativo por causa do nosso género, cada piadinha infeliz dita à mesa do café ou à hora de almoço? E se isso deixasse de ser apenas missão de algumas – as feministas, ou loucas, ou histéricas – e passasse a ser a missão de todas? De todas as etnias, de todas as idades, de todos os contextos sociais, de todos os backgrounds, em todos os lados onde há uma de nós? E se todas passássemos a ser histéricas? E loucas? E se nunca mais em lado nenhum pudesse haver um comentário sexista a cair na risada geral? Ou no silêncio desconfortável de algumas? Ou na conivência de todxs? E se nunca mais fosse normal uma piada de louras? Ou de pretas? Ou de gajas?

E se… se o normal passasse a ser nós, todas, juntas, a nunca mais tolerar uma única agressão?

E se em casa, nas nossas famílias, as nossas mães levantassem a voz por nós e nós por elas? E pelas nossas irmãs? E se nunca mais um acto de violência cometido em “privado” ficasse privado?

E se a violência que recebemos – sexual, homofóbica, étnica, you name it – deixasse de ser normal? Se a cada micro-momento dessas múltiplas violências de todos os nossos dias, cada uma de nós levantasse a voz e dissesse: CHEGA. E se cada vez que uma de nós estivesse a passar por uma agressão nunca estivesse sozinha? Se em cada momento soubéssemos que não estamos sozinhas? Quantas de nós levantariam a voz depois? Quantas de nós sabendo que a sua voz tem ecos que a antecedem e precedem, quantas de nós não falariam?

Se nunca mais fosse normal não sermos ouvidas num debate? Se nunca mais fosse normal criticar a forma como saímos à rua? Se nunca mais fosse normal o nosso espaço pessoal ser invadido? Se nunca mais fosse normal sermos educadas de forma diferente porque somos mulheres? Se nunca mais fosse normal pagarem-nos menos para fazermos o mesmo? Se nunca mais fosse normal rirem-se de nós por nos defendermos? Se nunca mais fosse normal calarmos-nos quando algo nos afecta?

E se nunca baixássemos os braços?

Sim, ficaríamos exaustas. Mas mudaríamos o mundo todo.

Sim, eu sei que isto é uma utopia. E sem que tem brechas. Brechas que deixam espaço a comportamentos manipulativos e a situações de injustiça. De gente que se aproveitaria deste estado de coisas. Mas não é isto já que vivemos diariamente? Não há já gente – tanta gente, o mundo todo – a aproveitar-se disto? Do nosso trabalho, das nossas palavras, da nossa vida? Do nosso sangue? Dos nossos úteros? Dos nossos corpos e sexualidades? De tudo?

E em silêncio continuamos. Com estatísticas e números e o peso de todos os dias e sempre uma nova notícia horrível. E se de repente isso não fosse normal? E se este texto tivesse muito menos “e ses”?

Estou a imaginar o impossível. E sei que esta utopia imaginada e escrita num intervalo de almoço do trabalho tem falhas. E sei que não fala por todas nós. Mas preciso de imaginar um mundo em que não existissem mais autocarros silenciosos. Nunca mais. E um mundo onde eu não tivesse medo de levantar a minha voz, como tive. Um mundo em que quando a minha voz se levantasse ela soasse como o trovão de todas as nossas vozes, juntas, jamais caladas.

O 8 de março vem aí e será mais um dia. Um dia para imaginarmos o impossível.

Toni Morrison

Toni Morrison


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [mini-explosões queer]: interlúdio

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Pequena cena-exemplo de como a identidade lésbica queer pode provocar uma mini-revolução ou pequena explosão (aconteceu realmente, mas entretanto passaram anos e a cena é narrada com alguma imaginação dramática da parte da autora)

Há uns anos atrás, numa sala cheia de lésbicas (para quem quiser saber o que todas estas lésbicas estavam a fazer numa sala carregue aqui):

«Olá, eu sou lésbica e poliamorosa. Este aqui ao meu lado…» – aponta para homem cis de cabelo comprido – «…é um dos meus companheiros.»

*explosão de cérebros lésbicos*

*comentários para a vizinha do lado*

*lésbicas butch muito zangadas*

*eu-lésbica entre o contente com a provocação – tinha planeado obsessivamente dizer a frase tal e qual desta maneira para poder observar os seus efeitos em ambiente altamente lésbico-normal – e semi-aterrorizada com o ambiente agreste*

Primeira lésbica butch: Espanta-me que diga uma coisa dessas, aí sentada, com toda essa calma.

Segunda lésbica não-especificada: Porque é que não diz antes que é bissexual? Se está com um homem, tudo bem, mas ao menos admita que é bissexual.

Primeira lésbica butch: Você não pode dizer isto.

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Silêncio dramático.

*fim de narrativa*

Resposta a este magnífico cliffhanger e as relações entre poliamor e lesbianismo queer na Parte II: Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires] – ainda por escrever.

Nota: a autora não tem nada contra o Clube Safo, nem defende que as opiniões acima expressas são as do Clube Safo. Ademais, a autora faz parte do dito Clube e é uma das grandes interessadas na sua sobrevivência agora e para sempre.