E se?… imaginando um mundo com milícias de amor e solidariedade

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No autocarro, uma mulher grita para o homem que está com ela: “já disse que não quero mais falar contigo, deixa-me em paz!”. Repete isto mais três vezes. Eu decido que se ela tiver que voltar a dizê-lo me vou levantar e vou perguntar ao homem se não ouviu o que ela disse. Mal decido isto eles saiem do autocarro. Já na rua, quando o autocarro vai arrancar novamente, ainda a ouço gritar: ” deixa-me em paz! Não quero!!! “. O grito ecoa pela rua. Nunca se ouve a voz do homem, só a presença supostamente silenciosa. Dentro do autocarro, os passageiros riem-se. Na verdade, são só as outras mulheres que ali estão que riem. E eu percebo de quem se estão a rir. Estão a rir-se dela. De uma mulher que está a dizer a alguém que se afaste. Que pare. Que não lhe toque e não lhe dirija palavra.

Eu não tenho vontade nenhuma de rir.

E no resto do caminho todo dou por mim a pensar: E se? Como seria um mundo diferente deste cheio de riso, inacção e indiferença? Não um mundo de justiça pelas próprias mãos, mas um mundo de união, de dar as mãos, de apoio, de vozes que se levantam contra o silêncio e o apagamento?

E se….

em vez de rirem todas as mulheres daquele autocarro – a grande maioria das pessoas que ali estavam – se levantassem e o confrontassem? E se em vez de rirem perguntassem àquela mulher se ela precisava de ajuda, de alguma coisa? E se em vez de fingirem que não vêm dissessem alguma coisa? Algo como: já chega, não ouviu o que ela está a pedir?

E de repente na minha cabeça surgiu a ideia – que obviamente já existe nos feminismos, académicos, utópicos e ficcionais – e se fosse sempre assim? Em todo o lado?

Na rua.
No café.
Na escola.
No trabalho precário.
Em casa.

E se fosse assim a todo o momento? Quando vamos a passar na rua e uma de nós é chamada sem o querer? Quando vamos a sair do autocarro e alguém nos manda um piropo que nunca quisemos ouvir? Quando andamos à noite depressa e com medo? E se em vez de indiferença, todas nós, todas sem excepção, nos apoiássemos? E se em vez de olharmos para a outra e pensarmos: “olha, não devias estar com essa saia tão curta”, se em vez disso nos levantássemos e levantássemos a voz e disséssemos antes: “o que é que tens a ver com a roupa que ela está a usar? Tens algum problema?”. E se subitamente em todo o lado, todas nós fizéssemos isto? No comboio, no metro, a caminho da padaria, a caminho da discoteca, no supermercado, no carro, com amigos, sem amigos.

E se todas as mulheres – cis, não cis – não aceitassem nem mais uma agressão? E se não aceitassem de facto e não apenas teoricamente ou em slogans de manifestações? E se cada vez que uma de nós tivesse que dizer “não quero” as outras estivessem lá a dizer “não ouviste o que ela disse?”. E se isso não fosse apenas em dias especiais ou dias internacionais das mulheres ou dias contra a violência?

E se a partir de agora, nunca mais nenhuma de nós aceitasse assédio no trabalho? Se denunciássemos cada frase sexista, cada comentário depreciativo por causa do nosso género, cada piadinha infeliz dita à mesa do café ou à hora de almoço? E se isso deixasse de ser apenas missão de algumas – as feministas, ou loucas, ou histéricas – e passasse a ser a missão de todas? De todas as etnias, de todas as idades, de todos os contextos sociais, de todos os backgrounds, em todos os lados onde há uma de nós? E se todas passássemos a ser histéricas? E loucas? E se nunca mais em lado nenhum pudesse haver um comentário sexista a cair na risada geral? Ou no silêncio desconfortável de algumas? Ou na conivência de todxs? E se nunca mais fosse normal uma piada de louras? Ou de pretas? Ou de gajas?

E se… se o normal passasse a ser nós, todas, juntas, a nunca mais tolerar uma única agressão?

E se em casa, nas nossas famílias, as nossas mães levantassem a voz por nós e nós por elas? E pelas nossas irmãs? E se nunca mais um acto de violência cometido em “privado” ficasse privado?

E se a violência que recebemos – sexual, homofóbica, étnica, you name it – deixasse de ser normal? Se a cada micro-momento dessas múltiplas violências de todos os nossos dias, cada uma de nós levantasse a voz e dissesse: CHEGA. E se cada vez que uma de nós estivesse a passar por uma agressão nunca estivesse sozinha? Se em cada momento soubéssemos que não estamos sozinhas? Quantas de nós levantariam a voz depois? Quantas de nós sabendo que a sua voz tem ecos que a antecedem e precedem, quantas de nós não falariam?

Se nunca mais fosse normal não sermos ouvidas num debate? Se nunca mais fosse normal criticar a forma como saímos à rua? Se nunca mais fosse normal o nosso espaço pessoal ser invadido? Se nunca mais fosse normal sermos educadas de forma diferente porque somos mulheres? Se nunca mais fosse normal pagarem-nos menos para fazermos o mesmo? Se nunca mais fosse normal rirem-se de nós por nos defendermos? Se nunca mais fosse normal calarmos-nos quando algo nos afecta?

E se nunca baixássemos os braços?

Sim, ficaríamos exaustas. Mas mudaríamos o mundo todo.

Sim, eu sei que isto é uma utopia. E sem que tem brechas. Brechas que deixam espaço a comportamentos manipulativos e a situações de injustiça. De gente que se aproveitaria deste estado de coisas. Mas não é isto já que vivemos diariamente? Não há já gente – tanta gente, o mundo todo – a aproveitar-se disto? Do nosso trabalho, das nossas palavras, da nossa vida? Do nosso sangue? Dos nossos úteros? Dos nossos corpos e sexualidades? De tudo?

E em silêncio continuamos. Com estatísticas e números e o peso de todos os dias e sempre uma nova notícia horrível. E se de repente isso não fosse normal? E se este texto tivesse muito menos “e ses”?

Estou a imaginar o impossível. E sei que esta utopia imaginada e escrita num intervalo de almoço do trabalho tem falhas. E sei que não fala por todas nós. Mas preciso de imaginar um mundo em que não existissem mais autocarros silenciosos. Nunca mais. E um mundo onde eu não tivesse medo de levantar a minha voz, como tive. Um mundo em que quando a minha voz se levantasse ela soasse como o trovão de todas as nossas vozes, juntas, jamais caladas.

O 8 de março vem aí e será mais um dia. Um dia para imaginarmos o impossível.

Toni Morrison

Toni Morrison

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