Monthly Archives: Julho 2015

Hemingway escreveu um livro sobre poliamor e gender bending??…

… que na verdade é um livro sobre relações abusivas?!

CONTENT WARNING: este texto refere comportamentos de abuso psicológico e emocional

ALERTA DE SPOILERS: texto inclui spoilers da história e citações do livro

Terminei de o ler ontem. O Jardim do Éden. Não sei se é um livro conhecido ou não, sei que nunca tinha ouvido falar dele até alguém mo oferecer e dizer: “olha, este livro tem uma relação entre três pessoas, e uma delas muda de género um dia”. Ao que eu pensei: “Quê? O autor de O Velho e o Mar, que muitos de nós lemos na escola, escreveu um livro queer?” Era uma prenda e li-o de ponta a ponta. Descobri entretanto que na versão original o livro tinha 800 páginas (em vez das 200 e pouco que li) e que Hemingway passou 15 anos a escrevê-lo e que a história é em grande parte auto-biográfica e que o autor nunca a viu editada, pois só foi publicada postumamente em 1986.

Todas as sinopses que li sobre o livro estão erradas e não descrevem minimamente o que se passa no livro. Várias delas falam de um casal que de repente se apaixona por uma mulher, e de um affair que se desenvolve entre o homem e essa nova mulher. Não é bem isto que se passa.

Nas primeiras páginas conhecemos os recém-casados David e Catherine, jovens e felizes e em lua de mel por praias da Europa, nadando nus e bronzeando-se todos os dias, comendo os mais diversos petiscos e bebendo continuamente. Todo o livro é um contínuo de bebidas pela manhã, ao almoço, à tarde, ao cair do dia, acompanhados de petiscos e mais uma bebida, vinho na praia, um copo de outra bebida ao almoço, um copo entre conversas, um copo a acompanhar o jantar, um copo à noite antes de deitar. Bebidas, sol, praia, mar. Eles dormem, comem, bebem, dormem a sesta, comem, bebem, nadam, fazem amor, dormem, comem, bebem, num constante percurso de dormir e comer e dormir e falar e dormir e beber. Somos embalados e ficamos sequiosos e não sabemos como pode continuar uma vida composta só por amor, comer e beber, embora pareça um sonho.

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Neste contínuo, conhecemos David e Catherine e descobrimos um dia que ela, Catherine, não quer ser mais ela, Catherine, e sim, quer ser um ele. A mudança acontece com um corte de cabelo. Catherine vai à cidade e corta radicalmente o cabelo curto, como o de David. Quando volta diz: «As pessoas estúpidas vão pensar que é estranho. Mas temos de nos orgulhar. Eu gosto de ter orgulho.»

Tão simples este acto de enunciação. Tão bom.

«Não me chames rapariga.», diz.

Agora David é que é a rapariga e os papéis invertem-se. «Estás a mudar – disse ela – Oh, sim, estás. Estás mesmo e és a minha Catherine. Queres ser a minha rapariga e deixar-me possuir-te?»

David diz sim e é aqui que a história começa realmente.

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Neste jogo, e continuando os dias de sol, pele queimada, bebidas frescas e petiscos saborosos, um dia conhecem Marita. Aqui entra a parte que todas as sinopses parecem errar. Aquilo que se passa na verdade é que Catherine e David conhecem Marita e Catherine se apaixona/encanta/tem um capricho por Marita e decide que ambos – ela e David, casados – vão ter uma relação com Marita. Ambos se envolvem sexual e romanticamente com Marita e entretanto Marita e David começam a aproximar-se mais, ao mesmo tempo que Catherine vai dando sinais de estar a ficar cada vez mais mentalmente instável, entrando numa sucessão de comportamentos obsessivos e controladores (que sempre tinham existido na relação e que se vão tornando cada vez mais evidentes).

É Catherine quem traz Marita para o hotel onde estão hospedados e a traz quase como uma oferta. A primeira vez que falam do que se está a passar, Marita diz:

«A tua mulher é maravilhosa e eu estou apaixonada por ela».

David responde: «Também estou.»

E Marita continua: «Também estou apaixonada por ti. Faz mal?»

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Os três envolvem-se às claras, havendo momentos para cada uma das relações inicialmente (Catherine e Marita, Marita e David, David e Catherine), mas sempre com a primazia dada à relação de David e Catherine (os casados). A partir daqui o caminho é sempre destrutivo.

Os sinais de que algo está errado estão lá desde o início: Catherine obriga David a pintar o cabelo como o dela, contra sua vontade. Obriga David a aceitar interacções sexuais que ele não pretende. Invade o espaço pessoal de David, revistando os seus papéis e histórias (David é escritor). Traz Marita para ficar com eles quando David explicitamente diz que não quer. Mais tarde, é David a dizer que Marita pode ficar dizendo-lhe: «Gostamos de ti e achamos que és muito decorativa». A primeira vez que David e Marita se beijam é por ordem de Catherine. Catherine e Marita envolvem-se primeiro sexualmente, e percebemos que David está desconfortável e inseguro com isso. Este primeiro envolvimento resulta em culpa para ambas. Depois, Catherine diz:

«Acho que só é interessante a primeira vez que o fazemos.»

Ao que Marita comenta:

«Sempre pensei que era estúpido. É uma coisa que as raparigas fazem quando não têm melhor para fazer.»

Nunca nenhuma delas tinha estado com uma mulher. Pena que este seja o fim de um dos poucos livros que inclui personagens visivelmente bissexuais.

Depois disto, o foco muda para Marita e David e percebemos que ambos estão emocionalmente a aproximar-se cada vez mais, ocultando isso de Catherine. Catherine, por sua vez, enlouquece cada vez mais, entrando em competição com Marita e acabando a destruir os cadernos de histórias de David. Eventualmente Catherine acaba a ir-se embora depois de uma cena em que tanto ela como David reconhecem verbalmente ter vontade de matar o outro (instável, não sabemos se vive). Marita e David ficam juntos e decidem casar-se, fechando o círculo. Percebemos obviamente que este não é um livro sobre poliamor, ou que pelo menos estas pessoas tentaram fazer uma coisa não-exclusiva da forma mais errada, patriarcal, desigual, desonesta e destrutiva possível.

Uma viagem meio embriagada ao coração negro do ciúme e do vazio de comunicação e um possível vislumbre da vida de Hemingway, que talvez afinal não tenha sido tão normal assim.


aceitamos o amor que achamos que merecemos.

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Quando me apaixonei pela primeira vez, uma parte de mim achava que nunca mais seria possível apaixonar-me assim de novo. Apesar de ser poliamorosa, uma vozinha dentro de mim às vezes dizia que uma química destas não se encontra muitas vezes. A pessoa por quem me apaixonei e com quem ainda estou anos depois, sempre me disse que não era assim. Sempre me disse:

tem cuidado com os sempres e os nuncas. 
como é que podes saber o amanhã?
não digas nunca.
há muitas pessoas e cada pessoa é diferente e cada pessoa nos traz coisas únicas
mas como seria isso possível?
com tudo isto que eu sinto por ti?
vais conhecer mais pessoas. 
vais partilhar muita coisa boa com muitas pessoas diferentes.
as pessoas não se substituem. são únicas.
mas tu podes sentir amor por mais pessoas.
podes sentir desejo por pessoas por quem não estás apaixonada.
podes querer ir para a cama com uma amiga.
podes apaixonar-te mais vezes.
Vivi vários anos só apaixonada por uma pessoa, mas sempre poliamorosa. Compreendi que sim, podia sentir desejo por pessoas por quem não estava apaixonada. Compreendi que os meus nuncas tão certos eram verdades absolutas que não tinham fundamento. É preciso cuidado com as verdades absolutas porque elas nos mordem no rabo na primeira oportunidade. Eis as minhas: preciso de uma pessoa só para mim; não quero partilhar a pessoa que está comigo com mais ninguém; sou hetero; não me apaixono à primeira vista; relações à distância são uma treta e não funcionam; nunca vou foder com alguém que acabei de conhecer; nunca vou conseguir tomar a iniciativa de dizer a alguém que estou interessada; as pessoas não se interessam por mim; não sou capaz de intimidade com pessoas; não sou capaz de partilhar casa com ninguém.
Uma por uma, todas elas me morderam. O absoluto oposto destas verdades tão absolutas aconteceu. Uma por uma, todas foram desmontadas e provadas erradas.
Há pouco tempo percebi que estava apaixonada pela segunda vez na minha vida. E que continuo apaixonada pela pessoa com quem já estava. Estou apaixonada por duas pessoas. Ao mesmo tempo. E não tenho que escolher.
Sem verdades absolutas o caminho não foi/é tão seguro. Felizmente tenho a sorte de nunca ter tido que o fazer sozinha. Hoje sou uma pessoa muito diferente daquela que era há anos atrás. Sem estas verdades absolutas descobri que sou capaz de muito mais do que eu estava disposta a jurar a pés juntos. E isso foi uma das coisas que o poliamor me trouxe.
As pessoas poly falam muito daquilo que não têm ou que custa: o tempo a dividir pelas pessoas, as agendas complicadas, a gestão de sentimentos e expectativas e ciúmes. Mas poucas vezes falamos das coisas boas que relações com xs nossxs companheirxs nos trazem. A pessoa que eu era antes da minha primeira relação poliamorosa é bem diferente da que sou hoje. Eu aprendi muita coisa, cresci para lados que nunca pensei, fiz coisas que jurei que nada tinham a ver comigo só para descobrir que afinal tinham tudo a ver comigo. Muitas dessas coisas surgiram no contexto da relação em que estava: conseguir falar do que quero, saber ouvir, ter confiança para dizer o que sinto na cama ou fora dela, arriscar e experimentar, parar de fugir das coisas que quero, saber falar das coisas difíceis, saber admitir fraquezas, medos, fragilidades. Eu sentia-me emocionalmente incapaz durante grande parte da minha vida. Descobri que afinal eu não era incapaz coisa nenhuma. Descobri isso com outra pessoa, que nunca me deixou ficar a acreditar nessa versão de mim mesma. Munida com essa arma de amor, eu apaixonei-me novamente.
Mas não acaba aqui. Também esta pessoa por quem me apaixonei mais recentemente me traz coisas únicas e que eu posso levar comigo de volta. Esta pessoa trouxe-me esperança renovada, energia e força, não porque eu não as tivesse, mas porque elas se multiplicaram. Com ela tive que aprender a comunicar de outros modos e descobri que nem toda a gente tem que falar da mesma maneira para conseguir ser honesto e comunicar. Com ela percebi que podemos ter medo e isso não nos parar. Que podemos estar frágeis e mesmo assim ter a coragem de dizer o que queremos. De lutar pelo que queremos. Ela derrubou mais verdades absolutas e faz-me acreditar em mais versões de mim. Pela primeira vez eu pude compreender realmente o quão difícil é comprometer-nos com mais do que uma pessoa porque pela primeira vez não era teoria, era prática. E essa prática permitiu que pela primeira vez eu pudesse realmente estar nos “sapatos” do meu outro companheiro, que tem várias companheiras. Pela primeira vez eu compreendi realmente o sofrimento dele, as falhas, as confusões, as dificuldades, as fragilidades. Eu compreendi a fragilidade de fazer isto com respeito e cuidado com toda a gente, porque eu própria estava agora na mesma posição. E ao mesmo tempo também era capaz de entender os medos dela, porque tinha estado num lugar semelhante muitos anos.
As coisas que eu descobri com estas pessoas são algo bom que eu posso partilhar com outras pessoas. São algo que faz parte de mim e que eu posso dar a outrxs. São algo que faz parte destas pessoas que eu amo e que elas não têm que dar só a mim. Que elas partilham com outros amores seus. E essas pessoas podem levar isso com elas e partilhar com outras pessoas com quem estão, e essas com outras… por todo o lado.