aceitamos o amor que achamos que merecemos.

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Quando me apaixonei pela primeira vez, uma parte de mim achava que nunca mais seria possível apaixonar-me assim de novo. Apesar de ser poliamorosa, uma vozinha dentro de mim às vezes dizia que uma química destas não se encontra muitas vezes. A pessoa por quem me apaixonei e com quem ainda estou anos depois, sempre me disse que não era assim. Sempre me disse:

tem cuidado com os sempres e os nuncas. 
como é que podes saber o amanhã?
não digas nunca.
há muitas pessoas e cada pessoa é diferente e cada pessoa nos traz coisas únicas
mas como seria isso possível?
com tudo isto que eu sinto por ti?
vais conhecer mais pessoas. 
vais partilhar muita coisa boa com muitas pessoas diferentes.
as pessoas não se substituem. são únicas.
mas tu podes sentir amor por mais pessoas.
podes sentir desejo por pessoas por quem não estás apaixonada.
podes querer ir para a cama com uma amiga.
podes apaixonar-te mais vezes.
Vivi vários anos só apaixonada por uma pessoa, mas sempre poliamorosa. Compreendi que sim, podia sentir desejo por pessoas por quem não estava apaixonada. Compreendi que os meus nuncas tão certos eram verdades absolutas que não tinham fundamento. É preciso cuidado com as verdades absolutas porque elas nos mordem no rabo na primeira oportunidade. Eis as minhas: preciso de uma pessoa só para mim; não quero partilhar a pessoa que está comigo com mais ninguém; sou hetero; não me apaixono à primeira vista; relações à distância são uma treta e não funcionam; nunca vou foder com alguém que acabei de conhecer; nunca vou conseguir tomar a iniciativa de dizer a alguém que estou interessada; as pessoas não se interessam por mim; não sou capaz de intimidade com pessoas; não sou capaz de partilhar casa com ninguém.
Uma por uma, todas elas me morderam. O absoluto oposto destas verdades tão absolutas aconteceu. Uma por uma, todas foram desmontadas e provadas erradas.
Há pouco tempo percebi que estava apaixonada pela segunda vez na minha vida. E que continuo apaixonada pela pessoa com quem já estava. Estou apaixonada por duas pessoas. Ao mesmo tempo. E não tenho que escolher.
Sem verdades absolutas o caminho não foi/é tão seguro. Felizmente tenho a sorte de nunca ter tido que o fazer sozinha. Hoje sou uma pessoa muito diferente daquela que era há anos atrás. Sem estas verdades absolutas descobri que sou capaz de muito mais do que eu estava disposta a jurar a pés juntos. E isso foi uma das coisas que o poliamor me trouxe.
As pessoas poly falam muito daquilo que não têm ou que custa: o tempo a dividir pelas pessoas, as agendas complicadas, a gestão de sentimentos e expectativas e ciúmes. Mas poucas vezes falamos das coisas boas que relações com xs nossxs companheirxs nos trazem. A pessoa que eu era antes da minha primeira relação poliamorosa é bem diferente da que sou hoje. Eu aprendi muita coisa, cresci para lados que nunca pensei, fiz coisas que jurei que nada tinham a ver comigo só para descobrir que afinal tinham tudo a ver comigo. Muitas dessas coisas surgiram no contexto da relação em que estava: conseguir falar do que quero, saber ouvir, ter confiança para dizer o que sinto na cama ou fora dela, arriscar e experimentar, parar de fugir das coisas que quero, saber falar das coisas difíceis, saber admitir fraquezas, medos, fragilidades. Eu sentia-me emocionalmente incapaz durante grande parte da minha vida. Descobri que afinal eu não era incapaz coisa nenhuma. Descobri isso com outra pessoa, que nunca me deixou ficar a acreditar nessa versão de mim mesma. Munida com essa arma de amor, eu apaixonei-me novamente.
Mas não acaba aqui. Também esta pessoa por quem me apaixonei mais recentemente me traz coisas únicas e que eu posso levar comigo de volta. Esta pessoa trouxe-me esperança renovada, energia e força, não porque eu não as tivesse, mas porque elas se multiplicaram. Com ela tive que aprender a comunicar de outros modos e descobri que nem toda a gente tem que falar da mesma maneira para conseguir ser honesto e comunicar. Com ela percebi que podemos ter medo e isso não nos parar. Que podemos estar frágeis e mesmo assim ter a coragem de dizer o que queremos. De lutar pelo que queremos. Ela derrubou mais verdades absolutas e faz-me acreditar em mais versões de mim. Pela primeira vez eu pude compreender realmente o quão difícil é comprometer-nos com mais do que uma pessoa porque pela primeira vez não era teoria, era prática. E essa prática permitiu que pela primeira vez eu pudesse realmente estar nos “sapatos” do meu outro companheiro, que tem várias companheiras. Pela primeira vez eu compreendi realmente o sofrimento dele, as falhas, as confusões, as dificuldades, as fragilidades. Eu compreendi a fragilidade de fazer isto com respeito e cuidado com toda a gente, porque eu própria estava agora na mesma posição. E ao mesmo tempo também era capaz de entender os medos dela, porque tinha estado num lugar semelhante muitos anos.
As coisas que eu descobri com estas pessoas são algo bom que eu posso partilhar com outras pessoas. São algo que faz parte de mim e que eu posso dar a outrxs. São algo que faz parte destas pessoas que eu amo e que elas não têm que dar só a mim. Que elas partilham com outros amores seus. E essas pessoas podem levar isso com elas e partilhar com outras pessoas com quem estão, e essas com outras… por todo o lado.
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About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

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