Hemingway escreveu um livro sobre poliamor e gender bending??…

… que na verdade é um livro sobre relações abusivas?!

CONTENT WARNING: este texto refere comportamentos de abuso psicológico e emocional

ALERTA DE SPOILERS: texto inclui spoilers da história e citações do livro

Terminei de o ler ontem. O Jardim do Éden. Não sei se é um livro conhecido ou não, sei que nunca tinha ouvido falar dele até alguém mo oferecer e dizer: “olha, este livro tem uma relação entre três pessoas, e uma delas muda de género um dia”. Ao que eu pensei: “Quê? O autor de O Velho e o Mar, que muitos de nós lemos na escola, escreveu um livro queer?” Era uma prenda e li-o de ponta a ponta. Descobri entretanto que na versão original o livro tinha 800 páginas (em vez das 200 e pouco que li) e que Hemingway passou 15 anos a escrevê-lo e que a história é em grande parte auto-biográfica e que o autor nunca a viu editada, pois só foi publicada postumamente em 1986.

Todas as sinopses que li sobre o livro estão erradas e não descrevem minimamente o que se passa no livro. Várias delas falam de um casal que de repente se apaixona por uma mulher, e de um affair que se desenvolve entre o homem e essa nova mulher. Não é bem isto que se passa.

Nas primeiras páginas conhecemos os recém-casados David e Catherine, jovens e felizes e em lua de mel por praias da Europa, nadando nus e bronzeando-se todos os dias, comendo os mais diversos petiscos e bebendo continuamente. Todo o livro é um contínuo de bebidas pela manhã, ao almoço, à tarde, ao cair do dia, acompanhados de petiscos e mais uma bebida, vinho na praia, um copo de outra bebida ao almoço, um copo entre conversas, um copo a acompanhar o jantar, um copo à noite antes de deitar. Bebidas, sol, praia, mar. Eles dormem, comem, bebem, dormem a sesta, comem, bebem, nadam, fazem amor, dormem, comem, bebem, num constante percurso de dormir e comer e dormir e falar e dormir e beber. Somos embalados e ficamos sequiosos e não sabemos como pode continuar uma vida composta só por amor, comer e beber, embora pareça um sonho.

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Neste contínuo, conhecemos David e Catherine e descobrimos um dia que ela, Catherine, não quer ser mais ela, Catherine, e sim, quer ser um ele. A mudança acontece com um corte de cabelo. Catherine vai à cidade e corta radicalmente o cabelo curto, como o de David. Quando volta diz: «As pessoas estúpidas vão pensar que é estranho. Mas temos de nos orgulhar. Eu gosto de ter orgulho.»

Tão simples este acto de enunciação. Tão bom.

«Não me chames rapariga.», diz.

Agora David é que é a rapariga e os papéis invertem-se. «Estás a mudar – disse ela – Oh, sim, estás. Estás mesmo e és a minha Catherine. Queres ser a minha rapariga e deixar-me possuir-te?»

David diz sim e é aqui que a história começa realmente.

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Neste jogo, e continuando os dias de sol, pele queimada, bebidas frescas e petiscos saborosos, um dia conhecem Marita. Aqui entra a parte que todas as sinopses parecem errar. Aquilo que se passa na verdade é que Catherine e David conhecem Marita e Catherine se apaixona/encanta/tem um capricho por Marita e decide que ambos – ela e David, casados – vão ter uma relação com Marita. Ambos se envolvem sexual e romanticamente com Marita e entretanto Marita e David começam a aproximar-se mais, ao mesmo tempo que Catherine vai dando sinais de estar a ficar cada vez mais mentalmente instável, entrando numa sucessão de comportamentos obsessivos e controladores (que sempre tinham existido na relação e que se vão tornando cada vez mais evidentes).

É Catherine quem traz Marita para o hotel onde estão hospedados e a traz quase como uma oferta. A primeira vez que falam do que se está a passar, Marita diz:

«A tua mulher é maravilhosa e eu estou apaixonada por ela».

David responde: «Também estou.»

E Marita continua: «Também estou apaixonada por ti. Faz mal?»

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Os três envolvem-se às claras, havendo momentos para cada uma das relações inicialmente (Catherine e Marita, Marita e David, David e Catherine), mas sempre com a primazia dada à relação de David e Catherine (os casados). A partir daqui o caminho é sempre destrutivo.

Os sinais de que algo está errado estão lá desde o início: Catherine obriga David a pintar o cabelo como o dela, contra sua vontade. Obriga David a aceitar interacções sexuais que ele não pretende. Invade o espaço pessoal de David, revistando os seus papéis e histórias (David é escritor). Traz Marita para ficar com eles quando David explicitamente diz que não quer. Mais tarde, é David a dizer que Marita pode ficar dizendo-lhe: «Gostamos de ti e achamos que és muito decorativa». A primeira vez que David e Marita se beijam é por ordem de Catherine. Catherine e Marita envolvem-se primeiro sexualmente, e percebemos que David está desconfortável e inseguro com isso. Este primeiro envolvimento resulta em culpa para ambas. Depois, Catherine diz:

«Acho que só é interessante a primeira vez que o fazemos.»

Ao que Marita comenta:

«Sempre pensei que era estúpido. É uma coisa que as raparigas fazem quando não têm melhor para fazer.»

Nunca nenhuma delas tinha estado com uma mulher. Pena que este seja o fim de um dos poucos livros que inclui personagens visivelmente bissexuais.

Depois disto, o foco muda para Marita e David e percebemos que ambos estão emocionalmente a aproximar-se cada vez mais, ocultando isso de Catherine. Catherine, por sua vez, enlouquece cada vez mais, entrando em competição com Marita e acabando a destruir os cadernos de histórias de David. Eventualmente Catherine acaba a ir-se embora depois de uma cena em que tanto ela como David reconhecem verbalmente ter vontade de matar o outro (instável, não sabemos se vive). Marita e David ficam juntos e decidem casar-se, fechando o círculo. Percebemos obviamente que este não é um livro sobre poliamor, ou que pelo menos estas pessoas tentaram fazer uma coisa não-exclusiva da forma mais errada, patriarcal, desigual, desonesta e destrutiva possível.

Uma viagem meio embriagada ao coração negro do ciúme e do vazio de comunicação e um possível vislumbre da vida de Hemingway, que talvez afinal não tenha sido tão normal assim.

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About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

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