paraíso das vidas anormais

Mari Hart- Photo & Soul's, Marcha das Vadias Rio de Janeiro

Mari Hart- Photo & Soul’s, Marcha das Vadias Rio de Janeiro

Há uma narrativa de vida das pessoas normais. Todxs nós sabemos bem qual é, é a história mais contada de sempre. Toda a gente conhece o seu princípio, meio e fim, toda a gente sabe mais ou menos os passos que é suposto seguir para a fazer acontecer, toda a gente vai andando por essa narrativa, mais ou menos à frente, com pequenos ajustes de personalização. A narrativa já não é a mesma dos nossos avós, sabemos. É, de facto tem algumas diferenças. Agora supostamente temos maior liberdade nas nossas escolhas e podemos realmente fazer umas excursões fora da narrativa – género Erasmus da vida – e depois voltar ao tronco principal. Supostamente há uma grande diferença entre aquilo que era uma mulher no tempo da minha avó e aquilo que é uma mulher agora. Eu não vejo assim tanta diferença, só nuances. Na verdade, o que é esperado de mim agora é tudo o que era esperado dela. E mais algumas coisas. A narrativa das pessoas normais – ou pelo menos as pessoas normais privilegiadas – envolve mais ou menos estas coisas com alguma personalização: é suposto termos formação, é suposto trabalharmos em qualquer coisa, é suposto termos amigos, é suposto termos a pessoa com quem partilhamos a vida, é suposto termos uma casa com essa pessoa, é suposto eventualmente mais tarde termos filhos (um pelo menos) com essa pessoa, é suposto termos um carro, é suposto termos férias, é suposto termos outra pessoa se aquela não for boa o suficiente ou fizer asneira, é suposto passarmos para a pessoa seguinte, já não é muito suposto casarmos mas fica sempre bem e eventualmente fazemos isso, é suposto que crianças façam parte do plano, é suposto é suposto.

Depois há a vida das pessoas para quem estas suposições óbvias não encaixam. A narrativa destas pessoas falha alguns destes pontos, ou mesmo todos, ou parte de pressupostos que tornam impossível que estas suposições aconteçam. Essa narrativa transgressora, marginal, ilegítima é uma narrativa que poucos conhecem e que poucos contam. É também uma narrativa em que a discriminação é vivida como parte integrante. Na verdade, a discriminação é a suposição possível para as narrativas de transgressão. Não estou a falar de grandes violências, de coisas de vida ou de morte, de perigo real que tantas pessoas com vidas transgressoras têm como único factor garantido. Essas acontecem como pontos de absurda violência que olhamos sempre como acontecimentos inesperados e específicos e nunca como problemas sociais – mas que o são. Estou a falar agora daquelas mini-micro-violenciazinhas que quase temos vergonha de dizer porque parecem tão pouco importantes perante coisas realmente graves. O problema é que são estas micro-coisinhas que acontecem a cada momento, todos os dias, todos os anos, sem nenhuma ou pouca alteração ao longo do tempo. Muitos acreditam que vivemos já numa sociedade muito mais aberta à diferença e muito mais igualitária. Em alguns países e em alguns contextos isto é verdade e mesmo aqui em Portugal é verdade. Mas as micro-agressões são tão micro e tão pervasivas e tão presentes que permitem a ilusão de que não há discriminação, originando vídeos como este que vendem Portugal como um paraíso sem homofobia.

O paraíso em que as pessoas com narrativas transgressoras vivem é muito diferente daquele em que o Lorenzo e Pedro acham que vivem. É um paraíso onde tens medo de falar da tua namorada no trabalho porque toda a gente sabe que já tens um namorado e ias ter que explicar toda a tua vida no escritório só para poderes dizer uma frase. Ou pior, iam assumir que já não tinhas namorado, ou achar que o estás a trair. Por isso calas. É um paraíso onde a tua mãe diz que não pode ir a tua casa porque vives com parte da tua constelação familiar e portanto “a casa não é só tua”, ignorando obviamente que na narrativa das pessoas normais “a casa” também não é só de uma pessoa. É um paraíso onde por mais que fales das pessoas com quem estás com os teus pais, eles perguntam sempre sobre a namorada do teu irmão e nunca sobre as pessoas com quem namoras. Ou perguntam mas de forma completamente diferente e nunca com o mesmo tom de legitimidade na voz. É um paraíso em que quando se fala de futuro, o teu nunca é referido ou considerado. É um paraíso em que és um desapontamento porque não vais ter filhos de acordo com a narrativa que é suposta, mesmo que nunca tenhas dito que não os querias ter e mesmo que digas que gostarias de educar filhos com outra pessoa, mesmo que não fossem biologicamente teus. É um paraíso onde dezenas de conversas não são tidas contigo porque nem vale a pena falar nisso. É um paraíso em que a tua história é difícil de explicar e contar e mesmo depois do esforço não é realmente compreendida. Muitos amigos são compreensivos, mas sabes que lhes é, mesmo assim, uma realidade estranha. É um paraíso em que optas por não contar a tua história centenas de vezes porque estás cansadx ou porque não te apetece explicar tudo. É um paraíso em que nunca és vista de acordo com a tua identidade e sempre como outra coisa qualquer: hetero, mono. E para que isso não aconteça tens que fazer um sublinhado em cima de tudo o que fazes e mil coming outs todos os dias. É um paraíso em que por causa disso acabam a dizer que não precisas de chamar tanto a atenção sobre ti e que tu própria te sentes exausta de ter que te “representar” a cada momento porque é a escolha entre isso e ser normalizada, apagada, ignorada. Então obviamente que escolhes lutar. É um paraíso em que já tens a tua casa, pagas as tuas contas, tens o teu emprego e mesmo assim as esperanças nunca estão depositadas em ti e sempre noutro. É um paraíso em que às vezes pensas: “bastava mudar uma coisa nesta equação e eu passava a ser a melhor filha do mundo”.

E isto é só a ponta do iceberg. O resto é: comentários na rua, olhares invasivos, pessoas que na rua me dizem que devo morrer, nunca dar um beijo sem ter alguém a olhar, nunca falar da minha vida no emprego, nunca ter reconhecimento pelo que sou e vivo, levar com as histórias normativas e ter que calar, nunca receber presentes nas diversas fases da minha narrativa (ao contrário do que acontece com as narrativas normais), raramente ter ajuda e compreensão pelos meus problemas porque poucos fazem ideia de quais são. Saber que não há guiões para mim, que muitas vezes nem há quem saiba como é estar nos meus sapatos, saber que se eu não falar disto [quase] ninguém falará.

Bem-vindxs ao paraíso das vidas anormais.

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About Fhrynne

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