a depressão não passa com amor

Às vezes é difícil.
Quero explicar como é ter uma relação com uma pessoa que tem depressão. Como é amar uma pessoa que tem depressão. Só me ocorre:
Às vezes é difícil.

Não sei se tenho direito a escrever este texto. Eu não tenho depressão. Tenho outros problemas psicológicos, tenho ansiedade, mas nunca tive depressão. Não sei o que é ter depressão. Mas vivi e amei e amo muitas pessoas que tiveram/têm depressão. Só consigo escrever este texto porque não tenho depressão. Quero falar de como é difícil, mas quase sinto que não tenho esse direito. Ao mesmo tempo penso que talvez este texto possa dizer  alguma coisa a outras pessoas que vivem, amam, cuidam de companheirxs com depressão.

Uma das pessoas que amo tem depressão e está a fazer terapia. Estou a escrever este texto sobre ela e portanto ele só será publicado depois de ela o ler e de ela autorizar que seja publicado. Caso contrário, nunca será.

Esta pessoa passou por coisas horríveis. A sua auto-estima foi destruída. A sua vida foi controlada. Nunca teve um lar. Passou por coisas que eu não consigo sequer imaginar sem chorar. É uma pessoa a lutar para viver. Uma sobrevivente de horrores. Uma pessoa que esteve perto de desistir tanta vez e que está viva. Vejo-a sucessivamente a pôr-se nas situações que lhe causam ansiedade. Vejo-a a tentar por tudo reunir os cacos e construir não um edifício todo bem feitinho, mas uma nova construção, nunca antes vista. No último ano, esta pessoa conseguiu sair de uma relação abusiva que quase lhe tirou a vida. Esta pessoa terminou uma licenciatura, mudou de cidade, reconstruiu a sua vida longe, começou um mestrado. Tem planos, voltou a sonhar. Fez tudo isto à beira do abismo, consciente dele, consciente de que bastava um passo em falso e facilmente poderia voltar bem ao fundo dele. Cheia de medo. Com ataques de pânico. Sem dormir uma única noite sem pesadelos. E não, não estou a exagerar. Sem uma única noite de descanso. Não sei, honestamente, como foi possível ela fazer sequer metade do que fez.

Para mim, é das pessoas mais fortes e incríveis que já conheci.
Para mim, é uma heroína.

Mas não é assim que ela se vê. É como se alguém tivesse de repente tirado todo o contraste do mundo. Só existe um tipo de tom e só esse é visto por ela. Tudo o que faz bem ou de bom é tornado irrelevante. Não tem importância. Tudo o que corre menos bem, todas as pequenas falhas, tornam-se a única realidade. Definem-na. Determinam que é uma má pessoa. Mostram como nunca foi boa.

Uma coisa que para mim é simples, que se resolve com uma pequena conversa, para ela podem ser horas de sofrimento e auto-penalização. A culpa é maior que ela, enterra-a viva.

As coisas boas trazem-lhe dor. A primeira vez que lhe dei uma prenda ela não sabia como a receber. Nunca achou que merecesse prendas. Recebia amor com espanto, como se não se achasse digna disso. Tinha medo de dar prendas, por achar que nunca seriam adequadas por virem dela.

Pedia desculpa por existir. Ainda pede, às vezes. Como se não merecesse estar em casa, ter conforto, ter carinho, ou receber coisas boas.

Fomos sempre falando de tudo isto e continuando com cuidado. Lentamente algumas coisas melhoraram. Há menos medo. Há mais confiança. Pensei que tinha que simplesmente continuar a dar amor e apoio.

Mas eu sei que a depressão não passa com amor. Não se cura ninguém. Não se salva ninguém.

Fomos fazendo coisas boas. Cada coisa boa é mais uma dor. Quanto mais ela gosta de fazer uma coisa, mais difícil é para ela fazê-la. Estar ali. Por vezes tem que parar e ir embora. Às vezes sente vontade de desaparecer e nunca mais fazer nada bom. Eu tenho medo. Quero poder dar-lhe coisas boas, partilhar coisas boas, mas sei que depois vem sempre dor. Tento preparar-me para a dor. Levei tempo a adaptar-me. A saber que às vezes ela vai estar a ver um concerto que sempre quis ver e que vai estar com uma expressão de dor no rosto, embora queira estar ali, embora ame estar ali. Dói-me também. Fico desesperada. Tento dar beijinhos e fazê-la rir e às vezes resulta. Uma vez derrotei um ataque de pânico com beijinhos e acabámos as duas a rir e ela conseguiu dormir. Mas na maior parte das vezes é o ataque de pânico a vencer.

Outras vezes é o meu desespero a vencer. Choro, grito, tento dizer de novo que eu não vejo aquela pessoa que não vale nada – que ela diz que é. Digo: “por favor pára de dizer isso de ti, pára de achar que és uma merda e que tudo o que fazes é uma merda”. E dou exemplos de coisas que aconteceram, que provam que o que estou a dizer é verdade. Digo: “por favor, pára”. Mas o que eu quero dizer é “please make it stop”. Eu sei que não dá para parar. Eu sei que não é uma questão de querer. Eu sei que se ela pudesse dizer “pára, depressão”, já tinha dito. Eu sei que ela está a fazer tudo o que pode.

Mas aquilo que dói mais, que custa mais, é que eu vejo uma pessoa que ela não vê. Eu vejo uma sobrevivente. Eu vejo uma guerreira. Eu vejo uma pessoa que vence demónios ao pequeno-almoço enquanto eu ainda nem acordei. Ela vê uma pessoa que não vale nada. Que nunca faz suficiente. Eu amo a pessoa que ela não sabe que é, e amo a pessoa que está a lutar contra a depressão. É como vermos a mesma realidade com cores diferentes. Às vezes, em momentos raros, conseguimos ver as mesmas cores. Mas no resto do tempo, não.

Quero mais do que tudo conseguir ajudar, mas não sei como o fazer. Às vezes sinto até que desajudo. Muitas vezes é como se simplesmente só pudesse assistir a uma peça de teatro, na primeira fila, mas estou de mãos atadas e não posso intervir, mas posso falar e então falo, falo para o palco, falo, falo, peço para me explicarem o que se passa, peço ajuda para compreender, pergunto como posso ajudar, o que devo fazer, o que é preciso, se há mais alguma coisa que possa fazer, e quando não dá para falar quero gritar, mas em vez disso tento falar novamente. E tento respirar, relaxar o corpo até as cordas ficarem mais laças, solto as cordas, subo para o palco, e a única coisa que posso fazer é abraçá-la e esperar e ouvir. A única coisa que quero é que ela consiga concretizar os sonhos que, mesmo no meio do caos, conseguiu preservar. Vejo o imenso esforço que faz para conseguir fazer aquilo que para ela é tão difícil e quero que ela consiga. Quero que ela derrote esta doença. Esta doença não pode ficar com o melhor dela, não pode tirar-lhe o que sobra. Eu só quero que ela consiga continuar a provar a ela mesma que é mais que isto. E é exaustivo. Ela fica sem forças só por tentar. Eu não posso ajudar, não posso fazer por ela. A doença já a privou de tanto e continua a minar todos os esforços. A cada novo desafio eu quero que ela vença a batalha de todos os dias. A guerra, essa, só pode ser vencida com o tempo. Espero, com o coração apertado, que ela a ganhe. Não posso esperar mais nada.

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About Fhrynne

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