Monthly Archives: Dezembro 2015

lesbofobia de todos os dias

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Beijo a minha namorada na plataforma, damos as mãos e entramos para o metro cheio de gente. Procuramos um lugar para nos sentarmos juntas. Num hábito treinado em anos e anos de ser mulher e andar de transportes públicos, faço um rápido scan ao espaço e dirijo-me para um lugar que pareça mais seguro – que tenha pelo menos uma mulher, pessoas mais velhas ou homens de aspecto menos ameaçador (há um tipo de homem assim e nós sabemos todas qual é). Sentamo-nos, ela encosta-se a mim, ponho um braço à volta dela e beijo-a na cara, depois o meu braço encosta-se contra o peito dela e ficamos assim. Estamos ambas a fazer o que sempre fazemos: a avaliar o nível de lesbofobia à nossa volta. Já se tornou uma piada entre nós.

– Homofobia está em alta hoje, amor, não está?

Acontece em todo o lado. Na verdade, basta sair a porta de casa. Na rua, no supermercado, no cinema, no centro comercial, no médico, na sala de espera, no autocarro, no comboio, no metro, onde quer que estejamos, o que quer que estejamos a fazer. Olhares. Constantes. Como poliamorosa eu achava que já sabia o que era ser olhada constantemente na rua. Mas tinha estado sempre protegida pela presença de outro dos meus companheiros, um homem. E a presença de um homem muda tudo no desiquilíbrio de poder. Com ele, os olhares eram agressão, mas eram diferentes. Tinham outra resposta. Com a minha família poly somos muitxs. A força do grupo actua como resposta. Somos mais, resistimos juntxs. Quando estou só com a minha namorada não é assim. Não há força que nos ajude. Não há resposta que nos sustente. Somos só nós: vistas como duas mulheres, de mão dada. Nunca lhe dei um beijo em público sem ter alguém a olhar de forma crítica. Enojada. Incómoda. Invasiva. Objectificante. Depreciativa. Conhecemos cada um destes olhares. Imaginem o que seria se cada vez que beijassem alguém que amam estivessem a sentir um destes olhares. Ódio. Nojo. Imaginem sentir os olhares mesmo sem os verem, constantemente. Imaginem às vezes preferirem não dar esse beijo, para não terem que suportar essa agressão. Ou porque simplesmente não se sentem seguros para o fazer. Os olhares são a rotina. Com eles vem o resto. Comentários. Velados. Altos. Eu pensei que era cliché aquilo que imaginamos que as pessoas dizem, mas não, não era. Já os ouvimos todos, aqueles clichés. Aqui vão:

– Que desperdício.
– O mundo está perdido.
– Deviam morrer.
– Na minha terra eram mortas.
– Esta juventude…

Escolho não me lembrar de mais, mas ouvimos mais. Alguns são entredentes, de passagem, murmurados quando acham que não ouvimos. Outros são gritados do outro lado da rua, berrados contra nós. Outros são risos. Outros são piadas. A maior parte das vezes, a lesbofobia não tem coragem de falar. Sentimo-la à nossa volta como um peso. Para reagir, adaptei o tema de Lara Li, “Telepatia”, para Homofobia (ler com a melodia) e entoo no mesmo tom. Rimos sempre que faço isto. Alivia a tensão constante em que estamos a todo o momento, só por saírmos de casa.

A maior parte da lesbofobia não se ouve e quase não se vê, a não ser que sejamos o seu alvo. São olhares de nojo ou ódio puros, que duram viagens inteiras de transportes públicos. São olhares tão transparentes que conseguimos perceber o que as pessoas estão a pensar. Que sabemos que nos estão a desejar a morte. Sim. Até isso. Que se pudessem nos faziam mal. Outros são simplesmente silêncios carregados e olhares que não nos largam durante viagens inteiras de metro.

Como desta vez. De pé, do outro lado da carruagem, está um homem que não pára de nos olhar desde que esperávamos o metro na plataforma. Vem acompanhado de duas pessoas mais velhas, um homem e uma mulher, ambos com idade para serem nossos avós. Esses “avós” olham-nos com nojo, trocam impressões entre eles, com o sobrolho carregado. Como sempre, nós decidimos resistir. Não páro de a abraçar. Sei que é por isso que eles repararam em nós, mas recuso-me a retirar o braço. Ela vira-se para mim e beija-me. Eles estão a olhar. Directamente. Continuamente. Os “avós” e o homem. Nós as duas trocamos um olhar de entendimento. Sinto a tensão no corpo dela, sei que quer reagir. Murmuro: “não te passes”. Continuamos abraçadas, damos as mãos. O homem está há muito tempo a olhar para nós. Decido olhar para ele fixamente. Pagar-lhe na mesma moeda e ver se ele gosta. Muitos desistem quando lhes devolvemos o olhar. Ele pisca os olhos e desvia o olhar e depois volta. Leva a mão à barriga. Está enjoado. Percebo que ele está enjoado connosco. Está a respirar cada vez mais alto, mas não pára de olhar. Há momentos em que parece que vai vomitar e no entanto não se vira de costas para nós, aliás, tem todo o espaço para o fazer e ficar de costas, mas escolhe ficar de frente para nós, de pé, sem parar de olhar. Numa viagem de quase 30 minutos. Ele murmura coisas para os “avós”. Eles fingem que não estão a olhar para nós quando os olhamos, têm demasiado nojo para isso. Mas o homem não. Reconheço o olhar dele – cheio de nojo, mas excitado. Excitado connosco. É por isso que não pára de olhar. Quer comer-nos. Basicamente é isso. Quando percebo isto, quase vomito. O meu coração está a bater a mil. Quero um pretexto socialmente visível para lhe mandar um berro. Quero um pretexto socialmente visível para lhe dar um murro. Quero. Quero bater-lhe, quero espetar-lhe uma bota no meio das pernas. Não me afasto da Isabel. Ela está na mesma tensão que eu. Sei que não falta muito para ela se levantar e berrar para a carruagem toda. Já o fez antes. Mas aquilo que nos está a acontecer é invisível. Estamos a ser agredidas há 30 minutos numa carruagem cheia de gente e ninguém sabe e ninguém vê. Sinto vontade de gritar.

Estou a escrever isto passados dois dias do acontecimento e a minha memória já me faz partidas, como com tudo o que me custa lembrar. Comento com a Isabel e percebo que me esqueci de uma coisa. No mesmo momento em que estou a sentir vontade de gritar, alguém começa de facto a gritar. Uma mulher. Ao fundo da carruagem. A voz dela ecoa. Fala do fim, do reino dos céus, da salvação. Começa a aproximar-se. As pessoas na carruagem fingem que não vêem. O homem continua a olhar para nós, mas distrai-se momentaneamente com ela. A mulher chega perto de nós e, por obra do destino ou do espírito santo, começa a falar de pecado quando pára mesmo ao nosso lado. O meu coração está a bater com tanta força que me ressoa nos ouvidos. Aperto a mão dela na minha e continuamos abraçadas. Começo a pensar obsessivamente: “por favor não repares em nós, por favor não repares em nós”. Foi um micro-segundo, mas eu vi a expressão nos olhos do homem mudar e semi-sorrir. Sim, satisfeito. Satisfeito por aquela mulher estar parada ao nosso lado a falar de pecado e de almas condenadas ao inferno. Foi um micro-segundo. Posso ter imaginado. A mulher continua o seu caminho, alertando os passageiros para a sua profecia. Ninguém lhe liga realmente.

Finalmente o homem e os “avós” saem. A mulher que gritava já é passado. O homem continua a olhar-nos da plataforma. Mais um minuto e íamos reagir de alguma maneira e íamos ficar ainda mais em perigo. A tensão foi tal que me sinto fraca. Saímos na paragem seguinte e temos que parar. Isabel está quase a vomitar. Temos as mãos frias. Sabemos que não é a primeira e não será a última. Imaginamos mil vezes como seria se lhe tivéssemos gritado. Se tivéssemos exposto aquela agressão. Imaginamos se lhe tivéssemos dado um murro. Tinha vindo o caminho todo a imaginar outras coisas, nomeadamente o que faria se ele se aproximasse e tentasse tocar em nós. Tudo isto imaginamos, porque sabemos que se o fizermos seríamos nós a ficar em perigo. Sabemos que não podemos responder de nenhuma forma, porque somos duas mulheres contra um homem. O medo que sentimos às vezes é tanto que nem de mãos dadas conseguimos continuar. Há determinadas ruas em que não o fazemos. Há determinadas horas em que largar a mão é tentar manter um mínimo ilusório de segurança – ilusório porque continuamos a ser duas mulheres a andar na rua. Mas se damos as mãos, não ficamos mais fortes, como sempre me senti com o meu companheiro que é um homem. Não. Tornamo-nos um alvo.

No dia seguinte estou a voltar de metro, vinda do trabalho, livro na mão, procuro um lugar e sento-me. Levanto os olhos do livro e tenho um momento de autêntico pânico. À minha frente está o homem do outro dia. Levo alguns minutos a perceber que não é ele. Mas é tão parecido. Forço-me a ficar no lugar. Pego no livro. Com o medo que sinto não consigo ler mais do que a mesma frase. Mas não, não é ele. Já tinha imaginado mil coisas na minha cabeça. Todas elas horríveis. Não era ele, mas era outro homem. De olhar invasivo. Ou talvez não. Às vezes já não conseguimos saber. Sabemos é que em 99% dos casos sim, vai ser, mais um, mais um que nos olha como mercadoria ambulante. Mais um. Todos os dias. E quase ninguém fala disto.

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