Monthly Archives: Fevereiro 2016

do medo de ser feminina

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Arte de Alice Eris Urchin

Quando escrevi sobre ser lésbica e ser feminina, senti medo. Escrevi o texto cheia de insegurança, com o conforto de saber que ao menos aquilo é a verdade sobre mim mesma, mas cheia de um medo permanente de ser criticada, julgada, de ser considerada tonta ou de o texto não ser visto como importante… ou seja, com medo de ser “vista como feminina”. Uma parte de mim tinha medo de aquele texto ser ridículo e por isso contive algumas coisas e não disse tudo o que podia ter dito sobre ser feminina. O medo era um bocadinho semelhante àquele que sentia quando amigas minhas conheciam o meu quarto pela primeira vez. Durante anos pedi desculpa pela overdose de cor-de-rosa presente – era a cor dominante no meu quarto. Quando um dxs meus companheirxs lá entrou pela primeira vez pedi-lhe desculpa pela quantidade de rosa e tentei dizer-lhe que aquilo não me representava assim tanto. Era um quarto de menina e eu sentia vergonha. Ele não ligou. O meu quarto hoje, que já não é decorado pela minha mãe, tem como cores dominantes o violeta e roxo. A minha cama é branca e cheia de torneados, parece uma cama de contos de fadas e fui eu que a escolhi. Tenho peluches em cima da cama. Montei o meu próprio quarto e é o mais feminino cá de casa. Nunca mais pedi desculpa a ninguém, mas às vezes ainda tenho medo. Foi mais ou menos isto que aconteceu quando escrevi sobre ser feminina. Sabia que pelo menos as pessoas próximas de mim iriam entender e não me julgar e que algumas outras pessoas queer femininas iriam encontrar ali eco – e assim foi. Muitas delas vieram falar comigo e dizer-me que não estou só e descobri aí que talvez a solução para este medo passe por estarmos juntas e falarmos sobre isto. Expormos a discriminação diária de que somos alvo e falarmos deste medo de nos mostrarmos femininas e por isso podermos ser ridicularizadas.

Mas também houve comentários contrários a estes, de quem não compreende o que é parecer lésbica, ou que acha o assunto de todo desnecessário. Engraçado como cada vez que um assunto é especificamente feminino, há toda uma tendência para o considerar de somenos importância. Ora, o que é isso de parecer lésbica? Isso não é relevante. Suponho que quem diga isto nunca tenha estado num espaço lésbico/queer e sido imediatamente colocada na caixa das hetero, vendo apagada a sua identidade, experiência e sensação de pertença. Ou que quem diga isto, nunca tenha olhado à sua volta à procura de referências e não encontrado ninguém que se pareça consigo. Quando me identifiquei como lésbica, as únicas lésbicas/dykes que eu conhecia e admirava como pessoas intelectualmente respeitáveis eram masculinas: Wittig, Butler, Rich, Rubin. Algumas que são mais conhecidas na cultura popular, têm também a mesma tendência para um visual masculino: Ellen DeGeneres, Adriana Calcanhoto, Jodie Foster, Lea Delaria. Não é por acaso que tenho tanta dificuldade em lembrar-me de alguma que seja conhecida e que seja visivelmente lésbica. Talvez por isso tenha ressoado tanto em mim o coming out feito pela Ellen Page, e mesmo ela adopta agora cada vez mais um visual masculino.

Se eu pensar nas lésbicas que conheço, em Portugal, século XXI, se olhar para as pessoas que me dizem ser lésbicas, abertamente, e para as primeiras que conheci, encontro uma ou duas que são femininas na sua apresentação e forma de estar. 99% das restantes são mulheres butch/com apresentação masculina. Quando entrei para o Clube Safo (há 2/3 anos) não havia na direcção uma única mulher que fosse simultaneamente lésbica e usasse saias. Ou melhor, havia: era eu. Não havia uma única mulher, além de mim, com cabelo que passasse os ombros. Não havia uma única mulher além de mim, que se identificasse como lésbica e usasse maquilhagem. Todas as restantes lésbicas vestiam calças, usavam camisas masculinas ou tshirts, cabelo curto e roupa prática em todas as situações em que estivemos juntas. Não é de todo coincidência que a única outra pessoa que era feminina, como eu, fosse bi. Todas as amigas mais próximas que tenho e que são lésbicas, são masculinas (tirando uma ou duas exceções). Para elas, é irrelevante pensar sobre parecer lésbica porque nunca tiveram um problema de invisibilidade. São fufas em todo o lado e a discriminação diária com que levam está lá para dizer isso.

É muito bonito dizer e pensar que as lésbicas não se têm que parecer com nada, mas para realmente levar essa ideia em diante, é preciso não ignorar o calling out feito por lésbicas femininas invisíveis. Dizer “ah as lésbicas não têm que se parecer com nada” quando sempre se foi lésbica visível, é falar a partir do desconhecimento do que é ver a sua identidade apagada em todas as situações, e ignorar o que é ter que fazer coming out todos os dias. É ignorar também que a ideia de senso comum do que é uma lésbica não tem efeitos performativos na vida das pessoas. Era giro que ser lésbica não tivesse que corresponder a nenhum visual/forma de apresentação. Mas se não corresponde a nenhum visual, então porque é que há um conceito do que é parecer lésbica? Porque é que há mulheres que são vistas como fufas e outras não? Porque é que há mulheres que levam com discriminação na rua por terem ar de fufas e outras não? Porque é que o que as distingue é sempre a presença/ausência de características masculinas? O que é que faz com que uma mulher com cabelo curto seja mais facilmente vista como lésbica e uma fufa de cabelo comprido seja considerada uma mulher hetero? O que se faz com conceitos como o gaydar, usados pelas próprias pessoas LGB? Que noções estamos a usar quando vamos a um bar LGB e nos sentimos bem lá porque sabemos que estão ali pessoas como nós? O que acontece quando o que encontramos nesses espaços são pessoas todas muito semelhantes entre si e nós somos the odd one out? O que acontece quando olho à minha volta e quero encontrar lésbicas como eu e as mulheres mais semelhantes a mim que encontro são mulheres bi?  Com a ideia de que o parecer lésbica não importa para nada, negamos a importância de encontrarmos pessoas semelhantes a nós, que nos ajudem a sentir seguras e validadas nas nossas identidades.

“Mas será que temos que ser identificáveis o tempo todo?”, perguntou-me uma pessoa, depois de ter visto o meu artigo. Quando se fala sobre a importância de visibilidade de algumas identidades – por exemplo, poly, trans, femme – há sempre vozes a perguntar isto. Eu vejo estes comentários na mesma linha exacta em que vejo as vozes de pessoas hetero, como a minha mãe, que me diz que eu posso ser o que sou desde que não precise de chamar a atenção para mim mesma. “Ninguém tem que saber, já viste alguma marcha de heterossexuais? Claro que não, porque a vida íntima das pessoas não é para ser divulgada assim dessa maneira”, cito uma pessoa imaginária que resume as milhares que pensam assim. Será que temos que ser identificáveis como gays e lésbicas o tempo todo, ou basta só em momento definidos para isso, por exemplo, uma vez por ano na marcha? Engraçado como nunca ninguém diz isto a pessoas heterossexuais – curiosamente elas não andam com a bandeira hetero, mas são sempre identificadas e visíveis enquanto tal, todo o ano, em todo o lado, no natal, no ano novo, nas festas de casamento, nos jantares lá em casa e em todos os direitos e privilégios que têm acima dos comuns mortais invisíveis. Qual é a necessidade de sermos visíveis todo o ano como aquilo que somos? Se calhar, é a necessidade de não sermos vistos como aquilo que não somos, o tempo todo, todo o ano em todo o lado, façamos o que fizermos, andemos com quem andarmos e passemos pelas discriminações que passarmos. O facto de eu não ser vista como lésbica não me impede de passar por todo um conjunto de micro-agressões diárias que, curiosamente, acontecem todo o tempo, todo o ano.

Era bonito viver num mundo em que não fossem necessárias caixinhas para nada, mas a maioria das pessoas que eu vejo a advogar pela abolição das caixinhas, são as mesmas que se mantém a si mesmas bem arrumadinhas na sua caixinha e que sempre estiveram seguras de ter um lugar de pertença. Eu, como lésbica femme, não tenho nenhum lugar de pertença, a não ser entre mulheres bi que levam com a mesma invisibilidade. O nosso lugar de pertença é o lugar das invisíveis.

Como eu, há muitas. Mas é difícil sabermos quem somos porque somos invisíveis. É difícil para nós formarmos comunidade como minoria quando somos constantemente vistas como parte da maioria hetero e cis. Mas nós somos a maioria invisível. Não nos reconhecemos na rua. Quando vejo outra mulher como eu, penso que ela é hetero e o problema começa logo aí. Eu faço parte da mesma construção de preconceito. Nós não nos conseguimos juntar porque não nos conseguimos ver. E uma fufa que sempre foi vista como fufa não faz ideia do que isso é e precisa de nos ouvir. As butch, passando por todo o preconceito que passam, têm ainda a pequena segurança de se poderem identificar mutuamente. De se reconhecerem. O poder do reconhecimento é imenso, nem que mais não seja para nos dizer que não estamos sozinhas no mundo. E partir daí nasce a possibilidade de se poderem apoiar, juntar, criar algum tipo de comunidade. Mesmo no meio da invisibilidade lésbica, há algum porto seguro no reconhecimento mútuo entre pares, na segurança de vermos exemplos de nós mesmas e podermos dizer: eu também sou assim. Para as femme não há nada disto. Há o mundo heterossexual com os seus exemplos monopolizantes de mulheres femininas. O resto, o imenso mundo de mulheres cis queer, bi, e não cis, genderqueer, fufas, trans femme, todo esse mundo, tem que ser descoberto nas nossas redes a cada coming out diário.

Portanto… será que temos que ser identificáveis o tempo todo? Sim, pelas nossas vidas e sobrevivência, sim. Só nos encontramos se falarmos. Uma fufa butch muitas vezes não precisa de dizer a outra que o é e será reconhecida na mesma. Nós, femme, nós temos que falar e falar e falar e levar com uma quantidade imensa de sexismo, femmefobia, lesbofobia, bifobia e transfobia. Comum a todas estas fobias está aquela de que falamos tão pouco em meios LGBT: a misoginia. E o problema está aí, nesse medo imenso do feminino e do que o feminino pode trazer. Que raio de lésbicas somos nós que temos tanto problema com o feminino? Que raio de comunidade somos nós que só tornamos visíveis algumas das nossas pessoas e contribuímos, com a nossa linguagem, os nossos espaços, os nossos hábitos, para continuamente apagar algumas de nós? Que raio de lógica nos faz contribuir para a ideia de que o feminino tem algo de errado e que não queremos associar connosco, tentando expurgá-lo dos homens gays efeminados, das pessoas trans e das lésbicas femme? O que faz com que feminino seja menos bom e porque é que continuamos sempre a valorizar o masculino mesmo em espaços queer e que se definem pela ausência de homens? Porque é que não temos pessoas femininas a falar nas nossas comunidades e, acima de tudo, a serem ouvidas? Porque é que as nossas vozes e valores são ainda e sempre masculinos?

São perguntas que ficam para continuar a reflectir, em conjunto, nos próximos textos. Este texto é parte de um conjunto de textos sobre femmephobia e invisibilidade:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Parte III – feminina não é sinónimo de fraca

Parte IV – femmephobia é misoginia (por escrever)
Parte V – femmes em todo o lado (por escrever)
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sou lésbica e não pareço

Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.