sou lésbica e não pareço

Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.

 

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About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

3 responses to “sou lésbica e não pareço

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