Monthly Archives: Março 2016

feminina não é sinónimo de fraca

Este texto é a Parte III de uma série de textos:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Quanto mais me torno eu mesma, mais desapareço
Rowan Ellis

Desde que comecei a escolher a minha própria roupa que a uso para expressar as minhas identidades. Durante muitos anos não pensava em como as coisas que vestia me ajudavam a performar um dado género; pensar sobre isso veio com o feminismo e com o coming out. Sempre me senti bem com a maneira como me visto, embora o meu estilo me tenha feito alvo de discriminação tanto em casa como na rua. Há muitos anos atrás fui agredida fisicamente na rua, numa estação de comboios, por estar vestida de forma gótica, com botas de biqueira de aço. Lembro-me que depois cheguei a ouvir de familiares, que a culpa da agressão era em parte minha, por atrair olhares com a minha forma de vestir e por andar de botas em pleno verão. A injustiça desta agressão ficou comigo até hoje. Como gótica, nunca fui invisível. Os olhares na rua eram e são constantes. Como gótica eu era identificável e isso tinha um lado positivo – de pertença a uma comunidade, de reconhecimento perante outres que partilhavam este gosto, de possibilidade de aproximação a outras pessoas (fiz muitas amizades que foram potenciadas/desenvolvidas por partilha deste estilo); e negativo – que me tornava alvo de discriminação, que me ostracizava de alguns contextos, que me pré-julgava e que me trouxe muitos conflitos em casa. A minha forma de vestir, de me expressar, foi considerada coisa de jovem, passageira, uma fase, uma mania. Mais de dez anos depois, a fase ainda não passou. O estilo cresceu e mudou-se comigo, mas o tom negro e alternativo manteve-se.

Quando me fiz lésbica e poliamorosa, fui percebendo que a minha identidade gótica mascarava as minhas identidades queer. Apresentava-me como pessoa alternativa e, de alguma forma, marginal, mas o estilo feminino, o cabelo comprido, as cores que sempre misturei com o preto, remetiam-me para uma identidade heterossexual, sempre reforçada quando vista com um meu companheiro que é um homem cis.

Sentia isto em particular em espaços LGBT, onde à minha volta quase ninguém tinha um estilo semelhante e quase todas as pessoas lésbicas que conhecia eram masculinas. Nunca pensei em mudar o cabelo ou a forma como me vestia. Ou melhor, pensei, mas era um pensamento solto e não algo que fosse fazer. Estava habituada a estar em margens e queria usar essa posição em que estava para mudar as coisas, mesmo que tivesse que me afirmar lésbica todos os dias. Era isso que fazia quando estava nesses espaços com o meu companheiro. Era isso que fazia sempre que falava em contexto de activismo. Encontrei nas pessoas bissexuais a comunidade com a qual mais me identifico, precisamente por partilharmos esta experiência de invisibilidade. Nunca me senti discriminada entre pessoas bissexuais, pelo contrário, encontrei eco para a minha sensação de desindentificação com um único modelo do que é ser queer.  As pessoas femininas, trans* e bis acumulam invisibilidades, semelhantes àquelas que eu como lésbica queer vivo.

Além da invisibilidade, havia ainda o feminino que eu performava, e que me inseria num binário de género que eu no meu activismo procurava sempre combater. Como feminista sentia medo de ser demasiado feminina, medo de me identificar com padrões de beleza nocivos, medo de engajar com um género pré-definido para me encaixar num dado papel. Apesar desse receio, eu sempre quis lutar contra o patriarcado e os estereótipos mantendo a minha forma de me expressar/vestir de forma feminina. Uma parte de mim continua a ter medo, mas agora eu quero concentrar os meus esforços em perguntar porque é que tenho medo. Agora eu quero tornar alvo das minhas questões, precisamente, este medo e ir ao encontro da pergunta central: o que é o feminino? Haverá mais do que uma forma de ser feminina? É um ser ou um fazer? Como é que me faço/nos fazemos femininas? O que é que no feminino é construção patriarcal, e o que é que no feminino é empoderamento?

Sim, há um feminino patriarcal, que nos prescreve comportamentos e acções e nós, pessoas feministas, queremos combater esse feminino porque sabemos que nos coage, nos magoa, nos conforma. Esse é o feminino que nos é dado como de segunda categoria, o frágil, o histérico, o falso, o que precisa de protecção masculina. Se somos lésbicas, não o queremos nas nossas vidas, porque representa o reverso do masculino, o complemento do homem, queremos erradicá-lo.

Este feminino também me perturba, também me preocupa. Não é com este feminino que eu me procuro expressar.

O que é que eu posso fazer para combater este feminino que me aprisiona a um papel de género e em que medida consigo usar componentes deste feminino, revertendo-as, apoderando-as, modificando-as para fazer algo diverso? Quanto do feminino que eu faço todos os dias é construção patriarcal e quanto pode ser meu? Um exemplo: a indústria de coméstica é parte do capitalismo e patriarcado. Vemos essa construção exposta neste vídeo. Mas ao mesmo tempo, para mim, a autora do vídeo está a mostrar-me e abrir-me a possibilidade de um outro feminino poderoso. Sim, às vezes é muito dificil perceber a linha ténue. Onde está o que aprendi como próprio de menina e onde está o que quero fazer porque me empodera? Será que quando uso sapatos de salto é porque quero ou porque me habituei a associar saltos com uma dada ideia de elegância, que depois é transformada vista por mim como empowering? E será que essa transformação não faz parte do próprio empoderamento ou é apenas uma auto-ilusão? Quando é que fazer as coisas como uma menina se tornou um insulto, que mais tarde se torna na única verdade sobre nós?

Haverá algum feminino que possa não ser patriarcal? Eu quero responder que sim.

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Petitemarine

 

Tanto falamos de masculinidades não tóxicas, e outras masculinidades e tão pouco falamos de outras feminilidades. Estamos tão investidas em procurar outros masculinos que nos esquecemos de procurar femininos não normativos, rebeldes, revolucionários. Se não os há, ou se os há pouco, porque não fazê-los? Não é isso que estamos já, tantas de nós a fazer?

Entre as pessoas bissexuais, trans*, (algumas) lésbicas e pessoas queer que pude conhecer encontrei um espaço de vivência das identidades que não as encaixota e que as valoriza e acarinha. Eu conheço tantas pessoas femininas e fortes, incríveis, activistas, revolucionárias, maravilhosas. Vocês provavelmente também, basta olharem à vossa volta. Vamos parar de apagar estas pessoas e vamos começar a vê-las nas suas performances revolucionárias e femininas. Vamos parar de olhar para saltos altos como sinónimo de fraqueza e vamos sim olhar para a pessoa que os usa e para o que ela faz com a sua vida, os desafios que enfrenta, as discriminações com que luta.

Eu quero acreditar em femininos poderosos e felizmente tenho vindo a perceber que não preciso de acreditar, basta-me continuar a encontrar exemplos disso, reais. Olho para as pessoas femmes incríveis neste projecto e vejo mil possibilidades infinitas de fazer femininos e de fazermos femininos extraordinários.

Vamos explodir com o feminino encapsulante e fazê-lo finalmente nosso, de todas e todes, inclusivo, transversal e transinclusivo, fora do binário, fluído e dinâmico.

E vocês, o que fazem todos os dias com o vosso feminino?

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Porque é que precisas tanto de dizer que és lésbica?

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No meu último artigo recebi um comentário que me irritou, mas que ao mesmo tempo soa como tanta coisa que já ouvi mil vezes, tanto que fiquei entre o “vou ignorar” e o “isto precisa de uma resposta”. Como acabo geralmente a cair para a segunda hipótese, achei que o comentário merecia uma boa resposta, não por consideração à pergunta, mas porque há perguntas cuja existência prova precisamente o quão longe estamos de uma sociedade não discriminatória.

A leitora Pi, que ficará de certeza feliz por ter uma resposta (provavelmente com o tempo que passou já pensava que eu tinha desistido do meu lesbianismo militante e ofensivo para heteros) fez o seguinte comentário:

“Sigo há algum tempo este blogue e fico bastante confusa com certas coisas que as vezes são escritas. Não sei se são inseguranças da escritora (o que aceito) ou mal-interpretações, por isso vou fazer perguntas afim de perceber o que este texto realmente quer dizer, pois tenho curiosidade!

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?
2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Já que pareço confundir as pessoas, vou responder o mais claramente possível às perguntas.

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?

A resposta simples e que deveria ser óbvia para toda a gente é: porque tenho direito a isso. A minha identidade é um direito, tão inalienável como qualquer outro Direito Humano. Ser reconhecida e respeitada na minha identidade é um direito de ser pessoa.

Mas como parece que esta ideia é rebuscada, vou elaborar.

Somos todes hetero até prova em contrário. Ora eu não sou hetero. Eu não quero ser vista como hetero. Alguém pode alegar: “eu não preciso de andar a dizer que sou hetero! Eu vivo a minha sexualidade discretamente, porque é que tu não fazes o mesmo?” Resposta simples: eu não sou tu. E não sou hetero. A minha sexualidade não está validada, representada e privilegiada 24 horas por dia, em todos os lados, em tudo o que se consome, vê, cria. A minha identidade não está sancionada, bonificada, carimbada, presenteada, elogiada, posta no pedestal. Isto serve também para aquelas pessoas que dizem que as Marchas do Orgulho LGBTQIA não fazem sentido porque ninguém vê as pessoas heterossexuais a desfilar na avenida com bandeiras hetero. Errado. Como diz o autor deste artigo, a vida já é uma marcha heterossexual constante, todas as horas, todos os dias em todas as situações, com bastantes bandeiras – o que é o casamento se não a maior bandeira dos últimos séculos, com inúmeros privilégios? – mas esta marcha ninguém a vê enquanto tal, ela é a norma e portanto invisível, omnipresente.

Uma pessoa hetero não tem que desejar ser vista como hetero. Não tem que querer ser visível porque já é. Automaticamente. O pressuposto de heterossexualidade está vivo e de boa saúde e é aplicado a toda gente, sem ser preciso dizer nada. As pessoas hetero têm a sua identidade como dado adquirido, a tal ponto que só quando estão entre pessoas LGBTQIA é que sentem necessidade de se afirmar: “ah, mas eu sou hetero, não jogo nessa equipa”. Uma pessoa lésbica não tem este privilégio. Uma pessoa lésbica, se quiser que a sua identidade exista, tem que a afirmar continuamente. Isto não quer dizer que toda a gente é obrigada a fazer coming outs ou a viver a sua identidade de forma visível: isso deve ser sempre uma escolha da própria pessoa.

No entanto, uma pessoa lésbica não será lésbica para ninguém se não tiver maneiras de o dizer, representar, partilhar. Poderão dizer: “ah, mas será na mesma, para si própria, o importante é a pessoa saber quem é, que necessidade há de andar a dizer?” Geralmente seguem-se a isto questões sobre não haver necessidade nenhuma de chamar a atenção, de viver publicamente aquilo que é do íntimo, que aquilo que nós fazemos entre quatro paredes é connosco e que ninguém tem nada com isso, só não precisamos de ir para a rua exibir o que somos. A isto a minha resposta é curta e grossa: vão-se foder. Ou isso, ou digam-me quando foi a última vez que viveram a vossa heterossexualidade entre quatro paredes. Digam-me os casamentos que andaram a fazer em privado e em segredo, falem-me de nunca levarem os maridos para o jantar da empresa, ou de todas as vezes que fingiram não ter namorado no jantar de natal com a família. “Ah mas eu tenho namorado e não andamos a comer-nos na rua”. Parabéns. Sabem o que se chama a isto? Opção pessoal. Agradecemos que tirem de cima de outres as vossas opções pessoais. Se estão tão preocupades com a nossa discrição, sugiro que sejam discretes. Deixem de passear a vossa heterossexualidade em todo o lado. São as mesmas pessoas tão interessadas em que sejamos discretes, que nos convidam para a sua festa de casamento com toda a pompa e circunstância possível. Demonstrações de afecto na rua devem ser uma decisão das pessoas intervenientes. A forma como alguém vive a sua sexualidade, identidade de género e/ou orientação ou identidade (a)sexual é algo que só diz respeito a essa pessoa e que não deve ser prescrito, determinado ou condicionado por outres.

Mas a visibilidade não é uma questão, apenas, de opção pessoal. É uma questão política. Fazer-me e dizer-me lésbica e poliamorosa é um acto político. Se eu não existo, não tenho direitos. Se eu não existo, não é preciso ter atenção às coisas que me afectam. Não se trata de fazer uma caixa para me pôr e me limitar, mas sim de reivindicar uma existência e depois desconstruir a partir daí. As identidades são importantes para conseguirmos falar das opressões específicas.

Estas opressões específicas são ameaças às vidas das pessoas LGBTQIA e MOGAI (Marginalized Orientations, Gender identities, And Intersex). As pessoas heteronormativas não sabem o que isto é, nunca o viveram. De que ameaças falo? A ameaça da invisibilidade; a ameaça da inexistência legal e de direitos; a ameaça de vermos as nossas vidas e identidades patologizadas; a ameaça de ficarmos sem emprego ou de nunca virmos a ter um devido à nossa identidade; a ameaça de sermos expulses de casa ou renegades pelas famílias de sangue; a ameaça da segregação social, do isolamento, da depressão, da homo/les/bi/transfobia, entre outras; a ameaça às nossas vidas quando somos alvo de crimes de ódio; a ameaça constante de sair à rua e ser alvo de olhares, comentários ou agressões. E podia continuar. Podemos alegar que estas ameaças não acontecem só com pessoas LGBTQIA – na verdade, acontece muito mais com algumas destas pessoas do que com outras. Mas a especificidade destas ameaças é dupla: as pessoas LGBTQIA e MOGAI são estatisticamente mais afectadas e a sociedade normativa é a grande responsável e veiculadora destas ameaças. Diria mais, as pessoas heteronormativas são responsáveis por estas ameaças cada vez que são coniventes.

2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Aquilo que tu consideras ser a minha hostilidade é uma resposta justificada à hostilidade que as minhas diversas identidades recebem todos os dias. Quando uma pessoa queer/assexual/trans*/bi/não-mono seja o que for se defende de agressões diárias, há sempre alguém, privilegiade, que vem dizer: “calma, não te estou a agredir”. Errado. Estás. O teu privilégio e ausência de reflexão e verificação desse mesmo privilégio é uma agressão constante. Esta pergunta, a que estou a responder, é uma agressão. É uma piada de mau gosto dizer que os meus textos perseguem as pessoas heterossexuais – eu até gostava de me rir mas não consigo porque este tipo de comentário acontece sempre que uma pessoa queer fala da sua identidade e aponta privilégios. A frequência com que isto acontece mostra que esta questão não diz respeito aos meus textos ou à minha atitude, mas sim a uma atitude geral de descredibilização do que as pessoas queer dizem e uma visão de “perseguição de heteros” que apaga aquilo que realmente acontece: é que, hei, caso ainda não tenham reparado, vivemos num mundo que persegue toda a gente que não o é. Heterofobia não existe, tal como racismo invertido não existe, tal como sexismo contra homens não existe, tal como cisfobia não existe – enquanto questões sistemáticas, omnipresentes e estruturantes.Esta pergunta diz mais sobre quem a faz do que sobre mim. Revela ausência de reflexão sobre privilégios. Em vez de me perguntares porque é que persigo heteros, porque é que não te perguntas a ti mesma porque é que te sentes atacada quando escrevo e falo sobre a minha identidade? Porque é que falar sobre ser lésbica te ameaça? Provavelmente é porque te deixa desconfortável. Nunca é confortável sermos confrontades com o nosso próprio privilégio. Eu sou lésbica, queer não-monossexual, poliamorosa e mulher – identidades que me trazem muitas discriminações e micro-violências diárias. Ainda assim, eu sou privilegiada em muita coisa: sou branca, sou cis, tenho um emprego, tive educação superior, nunca passei fome, sou normativamente funcional/com um corpo considerado funcional, sou considerada magra, ainda sou carnista/tenho uma dieta omnívora… Algumas destas características são de tal forma difíceis de reconhecer como privilégios que tive dúvidas ao dar um nome a algumas, tendo tido que pedir ajuda a pessoas que sabem mais do que eu, incluindo pessoas que não têm estes privilégios. Cada dia descubro mais uma coisa em que sou privilegiada e custa-me, deixa-me desconfortável, fico defensiva. Nunca é fácil confrontarmos-nos com isso. Experimenta. Deixa-te ficar no desconforto. Reconhece o privilégio que possas ter. Ouve os gritos de outres. Não imponhas. Ouve. E usa o que tens para fazer mais do que ser conivente.

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