Porque é que precisas tanto de dizer que és lésbica?

gayroller.png

No meu último artigo recebi um comentário que me irritou, mas que ao mesmo tempo soa como tanta coisa que já ouvi mil vezes, tanto que fiquei entre o “vou ignorar” e o “isto precisa de uma resposta”. Como acabo geralmente a cair para a segunda hipótese, achei que o comentário merecia uma boa resposta, não por consideração à pergunta, mas porque há perguntas cuja existência prova precisamente o quão longe estamos de uma sociedade não discriminatória.

A leitora Pi, que ficará de certeza feliz por ter uma resposta (provavelmente com o tempo que passou já pensava que eu tinha desistido do meu lesbianismo militante e ofensivo para heteros) fez o seguinte comentário:

“Sigo há algum tempo este blogue e fico bastante confusa com certas coisas que as vezes são escritas. Não sei se são inseguranças da escritora (o que aceito) ou mal-interpretações, por isso vou fazer perguntas afim de perceber o que este texto realmente quer dizer, pois tenho curiosidade!

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?
2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Já que pareço confundir as pessoas, vou responder o mais claramente possível às perguntas.

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?

A resposta simples e que deveria ser óbvia para toda a gente é: porque tenho direito a isso. A minha identidade é um direito, tão inalienável como qualquer outro Direito Humano. Ser reconhecida e respeitada na minha identidade é um direito de ser pessoa.

Mas como parece que esta ideia é rebuscada, vou elaborar.

Somos todes hetero até prova em contrário. Ora eu não sou hetero. Eu não quero ser vista como hetero. Alguém pode alegar: “eu não preciso de andar a dizer que sou hetero! Eu vivo a minha sexualidade discretamente, porque é que tu não fazes o mesmo?” Resposta simples: eu não sou tu. E não sou hetero. A minha sexualidade não está validada, representada e privilegiada 24 horas por dia, em todos os lados, em tudo o que se consome, vê, cria. A minha identidade não está sancionada, bonificada, carimbada, presenteada, elogiada, posta no pedestal. Isto serve também para aquelas pessoas que dizem que as Marchas do Orgulho LGBTQIA não fazem sentido porque ninguém vê as pessoas heterossexuais a desfilar na avenida com bandeiras hetero. Errado. Como diz o autor deste artigo, a vida já é uma marcha heterossexual constante, todas as horas, todos os dias em todas as situações, com bastantes bandeiras – o que é o casamento se não a maior bandeira dos últimos séculos, com inúmeros privilégios? – mas esta marcha ninguém a vê enquanto tal, ela é a norma e portanto invisível, omnipresente.

Uma pessoa hetero não tem que desejar ser vista como hetero. Não tem que querer ser visível porque já é. Automaticamente. O pressuposto de heterossexualidade está vivo e de boa saúde e é aplicado a toda gente, sem ser preciso dizer nada. As pessoas hetero têm a sua identidade como dado adquirido, a tal ponto que só quando estão entre pessoas LGBTQIA é que sentem necessidade de se afirmar: “ah, mas eu sou hetero, não jogo nessa equipa”. Uma pessoa lésbica não tem este privilégio. Uma pessoa lésbica, se quiser que a sua identidade exista, tem que a afirmar continuamente. Isto não quer dizer que toda a gente é obrigada a fazer coming outs ou a viver a sua identidade de forma visível: isso deve ser sempre uma escolha da própria pessoa.

No entanto, uma pessoa lésbica não será lésbica para ninguém se não tiver maneiras de o dizer, representar, partilhar. Poderão dizer: “ah, mas será na mesma, para si própria, o importante é a pessoa saber quem é, que necessidade há de andar a dizer?” Geralmente seguem-se a isto questões sobre não haver necessidade nenhuma de chamar a atenção, de viver publicamente aquilo que é do íntimo, que aquilo que nós fazemos entre quatro paredes é connosco e que ninguém tem nada com isso, só não precisamos de ir para a rua exibir o que somos. A isto a minha resposta é curta e grossa: vão-se foder. Ou isso, ou digam-me quando foi a última vez que viveram a vossa heterossexualidade entre quatro paredes. Digam-me os casamentos que andaram a fazer em privado e em segredo, falem-me de nunca levarem os maridos para o jantar da empresa, ou de todas as vezes que fingiram não ter namorado no jantar de natal com a família. “Ah mas eu tenho namorado e não andamos a comer-nos na rua”. Parabéns. Sabem o que se chama a isto? Opção pessoal. Agradecemos que tirem de cima de outres as vossas opções pessoais. Se estão tão preocupades com a nossa discrição, sugiro que sejam discretes. Deixem de passear a vossa heterossexualidade em todo o lado. São as mesmas pessoas tão interessadas em que sejamos discretes, que nos convidam para a sua festa de casamento com toda a pompa e circunstância possível. Demonstrações de afecto na rua devem ser uma decisão das pessoas intervenientes. A forma como alguém vive a sua sexualidade, identidade de género e/ou orientação ou identidade (a)sexual é algo que só diz respeito a essa pessoa e que não deve ser prescrito, determinado ou condicionado por outres.

Mas a visibilidade não é uma questão, apenas, de opção pessoal. É uma questão política. Fazer-me e dizer-me lésbica e poliamorosa é um acto político. Se eu não existo, não tenho direitos. Se eu não existo, não é preciso ter atenção às coisas que me afectam. Não se trata de fazer uma caixa para me pôr e me limitar, mas sim de reivindicar uma existência e depois desconstruir a partir daí. As identidades são importantes para conseguirmos falar das opressões específicas.

Estas opressões específicas são ameaças às vidas das pessoas LGBTQIA e MOGAI (Marginalized Orientations, Gender identities, And Intersex). As pessoas heteronormativas não sabem o que isto é, nunca o viveram. De que ameaças falo? A ameaça da invisibilidade; a ameaça da inexistência legal e de direitos; a ameaça de vermos as nossas vidas e identidades patologizadas; a ameaça de ficarmos sem emprego ou de nunca virmos a ter um devido à nossa identidade; a ameaça de sermos expulses de casa ou renegades pelas famílias de sangue; a ameaça da segregação social, do isolamento, da depressão, da homo/les/bi/transfobia, entre outras; a ameaça às nossas vidas quando somos alvo de crimes de ódio; a ameaça constante de sair à rua e ser alvo de olhares, comentários ou agressões. E podia continuar. Podemos alegar que estas ameaças não acontecem só com pessoas LGBTQIA – na verdade, acontece muito mais com algumas destas pessoas do que com outras. Mas a especificidade destas ameaças é dupla: as pessoas LGBTQIA e MOGAI são estatisticamente mais afectadas e a sociedade normativa é a grande responsável e veiculadora destas ameaças. Diria mais, as pessoas heteronormativas são responsáveis por estas ameaças cada vez que são coniventes.

2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Aquilo que tu consideras ser a minha hostilidade é uma resposta justificada à hostilidade que as minhas diversas identidades recebem todos os dias. Quando uma pessoa queer/assexual/trans*/bi/não-mono seja o que for se defende de agressões diárias, há sempre alguém, privilegiade, que vem dizer: “calma, não te estou a agredir”. Errado. Estás. O teu privilégio e ausência de reflexão e verificação desse mesmo privilégio é uma agressão constante. Esta pergunta, a que estou a responder, é uma agressão. É uma piada de mau gosto dizer que os meus textos perseguem as pessoas heterossexuais – eu até gostava de me rir mas não consigo porque este tipo de comentário acontece sempre que uma pessoa queer fala da sua identidade e aponta privilégios. A frequência com que isto acontece mostra que esta questão não diz respeito aos meus textos ou à minha atitude, mas sim a uma atitude geral de descredibilização do que as pessoas queer dizem e uma visão de “perseguição de heteros” que apaga aquilo que realmente acontece: é que, hei, caso ainda não tenham reparado, vivemos num mundo que persegue toda a gente que não o é. Heterofobia não existe, tal como racismo invertido não existe, tal como sexismo contra homens não existe, tal como cisfobia não existe – enquanto questões sistemáticas, omnipresentes e estruturantes.Esta pergunta diz mais sobre quem a faz do que sobre mim. Revela ausência de reflexão sobre privilégios. Em vez de me perguntares porque é que persigo heteros, porque é que não te perguntas a ti mesma porque é que te sentes atacada quando escrevo e falo sobre a minha identidade? Porque é que falar sobre ser lésbica te ameaça? Provavelmente é porque te deixa desconfortável. Nunca é confortável sermos confrontades com o nosso próprio privilégio. Eu sou lésbica, queer não-monossexual, poliamorosa e mulher – identidades que me trazem muitas discriminações e micro-violências diárias. Ainda assim, eu sou privilegiada em muita coisa: sou branca, sou cis, tenho um emprego, tive educação superior, nunca passei fome, sou normativamente funcional/com um corpo considerado funcional, sou considerada magra, ainda sou carnista/tenho uma dieta omnívora… Algumas destas características são de tal forma difíceis de reconhecer como privilégios que tive dúvidas ao dar um nome a algumas, tendo tido que pedir ajuda a pessoas que sabem mais do que eu, incluindo pessoas que não têm estes privilégios. Cada dia descubro mais uma coisa em que sou privilegiada e custa-me, deixa-me desconfortável, fico defensiva. Nunca é fácil confrontarmos-nos com isso. Experimenta. Deixa-te ficar no desconforto. Reconhece o privilégio que possas ter. Ouve os gritos de outres. Não imponhas. Ouve. E usa o que tens para fazer mais do que ser conivente.

0

Anúncios

About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: