feminina não é sinónimo de fraca

Este texto é a Parte III de uma série de textos:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Quanto mais me torno eu mesma, mais desapareço
Rowan Ellis

Desde que comecei a escolher a minha própria roupa que a uso para expressar as minhas identidades. Durante muitos anos não pensava em como as coisas que vestia me ajudavam a performar um dado género; pensar sobre isso veio com o feminismo e com o coming out. Sempre me senti bem com a maneira como me visto, embora o meu estilo me tenha feito alvo de discriminação tanto em casa como na rua. Há muitos anos atrás fui agredida fisicamente na rua, numa estação de comboios, por estar vestida de forma gótica, com botas de biqueira de aço. Lembro-me que depois cheguei a ouvir de familiares, que a culpa da agressão era em parte minha, por atrair olhares com a minha forma de vestir e por andar de botas em pleno verão. A injustiça desta agressão ficou comigo até hoje. Como gótica, nunca fui invisível. Os olhares na rua eram e são constantes. Como gótica eu era identificável e isso tinha um lado positivo – de pertença a uma comunidade, de reconhecimento perante outres que partilhavam este gosto, de possibilidade de aproximação a outras pessoas (fiz muitas amizades que foram potenciadas/desenvolvidas por partilha deste estilo); e negativo – que me tornava alvo de discriminação, que me ostracizava de alguns contextos, que me pré-julgava e que me trouxe muitos conflitos em casa. A minha forma de vestir, de me expressar, foi considerada coisa de jovem, passageira, uma fase, uma mania. Mais de dez anos depois, a fase ainda não passou. O estilo cresceu e mudou-se comigo, mas o tom negro e alternativo manteve-se.

Quando me fiz lésbica e poliamorosa, fui percebendo que a minha identidade gótica mascarava as minhas identidades queer. Apresentava-me como pessoa alternativa e, de alguma forma, marginal, mas o estilo feminino, o cabelo comprido, as cores que sempre misturei com o preto, remetiam-me para uma identidade heterossexual, sempre reforçada quando vista com um meu companheiro que é um homem cis.

Sentia isto em particular em espaços LGBT, onde à minha volta quase ninguém tinha um estilo semelhante e quase todas as pessoas lésbicas que conhecia eram masculinas. Nunca pensei em mudar o cabelo ou a forma como me vestia. Ou melhor, pensei, mas era um pensamento solto e não algo que fosse fazer. Estava habituada a estar em margens e queria usar essa posição em que estava para mudar as coisas, mesmo que tivesse que me afirmar lésbica todos os dias. Era isso que fazia quando estava nesses espaços com o meu companheiro. Era isso que fazia sempre que falava em contexto de activismo. Encontrei nas pessoas bissexuais a comunidade com a qual mais me identifico, precisamente por partilharmos esta experiência de invisibilidade. Nunca me senti discriminada entre pessoas bissexuais, pelo contrário, encontrei eco para a minha sensação de desindentificação com um único modelo do que é ser queer.  As pessoas femininas, trans* e bis acumulam invisibilidades, semelhantes àquelas que eu como lésbica queer vivo.

Além da invisibilidade, havia ainda o feminino que eu performava, e que me inseria num binário de género que eu no meu activismo procurava sempre combater. Como feminista sentia medo de ser demasiado feminina, medo de me identificar com padrões de beleza nocivos, medo de engajar com um género pré-definido para me encaixar num dado papel. Apesar desse receio, eu sempre quis lutar contra o patriarcado e os estereótipos mantendo a minha forma de me expressar/vestir de forma feminina. Uma parte de mim continua a ter medo, mas agora eu quero concentrar os meus esforços em perguntar porque é que tenho medo. Agora eu quero tornar alvo das minhas questões, precisamente, este medo e ir ao encontro da pergunta central: o que é o feminino? Haverá mais do que uma forma de ser feminina? É um ser ou um fazer? Como é que me faço/nos fazemos femininas? O que é que no feminino é construção patriarcal, e o que é que no feminino é empoderamento?

Sim, há um feminino patriarcal, que nos prescreve comportamentos e acções e nós, pessoas feministas, queremos combater esse feminino porque sabemos que nos coage, nos magoa, nos conforma. Esse é o feminino que nos é dado como de segunda categoria, o frágil, o histérico, o falso, o que precisa de protecção masculina. Se somos lésbicas, não o queremos nas nossas vidas, porque representa o reverso do masculino, o complemento do homem, queremos erradicá-lo.

Este feminino também me perturba, também me preocupa. Não é com este feminino que eu me procuro expressar.

O que é que eu posso fazer para combater este feminino que me aprisiona a um papel de género e em que medida consigo usar componentes deste feminino, revertendo-as, apoderando-as, modificando-as para fazer algo diverso? Quanto do feminino que eu faço todos os dias é construção patriarcal e quanto pode ser meu? Um exemplo: a indústria de coméstica é parte do capitalismo e patriarcado. Vemos essa construção exposta neste vídeo. Mas ao mesmo tempo, para mim, a autora do vídeo está a mostrar-me e abrir-me a possibilidade de um outro feminino poderoso. Sim, às vezes é muito dificil perceber a linha ténue. Onde está o que aprendi como próprio de menina e onde está o que quero fazer porque me empodera? Será que quando uso sapatos de salto é porque quero ou porque me habituei a associar saltos com uma dada ideia de elegância, que depois é transformada vista por mim como empowering? E será que essa transformação não faz parte do próprio empoderamento ou é apenas uma auto-ilusão? Quando é que fazer as coisas como uma menina se tornou um insulto, que mais tarde se torna na única verdade sobre nós?

Haverá algum feminino que possa não ser patriarcal? Eu quero responder que sim.

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Petitemarine

 

Tanto falamos de masculinidades não tóxicas, e outras masculinidades e tão pouco falamos de outras feminilidades. Estamos tão investidas em procurar outros masculinos que nos esquecemos de procurar femininos não normativos, rebeldes, revolucionários. Se não os há, ou se os há pouco, porque não fazê-los? Não é isso que estamos já, tantas de nós a fazer?

Entre as pessoas bissexuais, trans*, (algumas) lésbicas e pessoas queer que pude conhecer encontrei um espaço de vivência das identidades que não as encaixota e que as valoriza e acarinha. Eu conheço tantas pessoas femininas e fortes, incríveis, activistas, revolucionárias, maravilhosas. Vocês provavelmente também, basta olharem à vossa volta. Vamos parar de apagar estas pessoas e vamos começar a vê-las nas suas performances revolucionárias e femininas. Vamos parar de olhar para saltos altos como sinónimo de fraqueza e vamos sim olhar para a pessoa que os usa e para o que ela faz com a sua vida, os desafios que enfrenta, as discriminações com que luta.

Eu quero acreditar em femininos poderosos e felizmente tenho vindo a perceber que não preciso de acreditar, basta-me continuar a encontrar exemplos disso, reais. Olho para as pessoas femmes incríveis neste projecto e vejo mil possibilidades infinitas de fazer femininos e de fazermos femininos extraordinários.

Vamos explodir com o feminino encapsulante e fazê-lo finalmente nosso, de todas e todes, inclusivo, transversal e transinclusivo, fora do binário, fluído e dinâmico.

E vocês, o que fazem todos os dias com o vosso feminino?

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About Fhrynne

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