Estamos fartas. Estamos vivas. Somos fortes.

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Se somos mulheres ou de outros géneros e identidades minoritárias sabemos o que é sair à rua sempre com medo. Sabemos que o medo raramente nos larga. Não importa a hora do dia, o que estejamos a fazer, em que parte da cidade estejamos. Sabemos que é pior se estivermos sozinhas. Ou não. Na verdade não importa muito, porque há uma história nossa para cada circunstância.

Estava com amigas.

Era meio-dia.

Estava a sair do trabalho. Abri a porta e dei dois passos.

Era noite. Estava a voltar para casa.

Estava sentada no metro.

Estava à espera da minha mãe.

Tinha saído de fato de treino, despenteada.

Estava no ginásio.

Fui ao supermercado.

Estava em casa.

Estava entre amigos.

Estava com o meu namorado.

Milhares de lugares. Milhares de circunstâncias. É diário. São 24 horas, sobre 24 horas. No dia seguinte, sabemos que vai ser igual. A violência tem mil caras e gestos e ocorrências. Às vezes ninguém diz nada. Às vezes, na verdade, não há uma acção que consigamos descrever: “ele fez isto”. Às vezes, ele simplesmente está ali, a olhar para nós. Às vezes é um olhar quando passámos. Incómodo. Invasivo. Não têm que nos tocar, porque nós sentimos. Nós sentimos isso – todos os dias. É uma violência aceitável, tão comum, tão presente, que a aprendemos como normal. Em vez de ela acabar, nós aprendemos todas a viver com ela. Nunca ninguém nos ensinou nada disto de forma clara. Não temos aulas sobre como sobreviver a isto. Os nossos pais não nos falaram disto. O que sabemos, ouvimos por aí, conselhos que todas conhecemos e interiorizámos: não voltes tarde, não andes sozinha, não fales com estranhos. Coisas soltas que todas sabemos como se realmente tivéssemos andado na mesma escola.

Todos os dias eu vou trabalhar e sinto isso. No meu caminho nos transportes públicos, é como um jogo de que ninguém fala, mas que todas nós conhecemos intuitivamente. Estejamos como estivermos, cansadas ou não, felizes ou não, irritadas ou não, distraídas, a ler, a ouvir música, a falar ao telefone. Todas nós o fazemos:

ver por onde vamos

escolher onde nos sentamos

ver quem está na carruagem antes de entrar

baixar os olhos

não ir por ali

ver um grupo de homens e sem pensar mudar para o outro lado do passeio

encolher as pernas no lugar

ocupar o mínimo de espaço

não responder

não sorrir

ou sorrir, com medo, aterrorizadas

não confrontar

ignorar

fingir que não se ouve… e não se vê

continuar caminho

olhar em frente

Todos os dias quando chego a casa – porque tenho a sorte de viver num espaço seguro para mim – respiro de alívio. O passo apressado até casa, de chaves na mão, em riste (só para o caso de…), olhar antes de abrir a porta, ouvidos alerta. Entrar rápido, fechar a porta, garantir que está fechada. Gestos que fazemos sem pensar. Mais um dia passou e eu tenho a sorte de estar bem e de ter passado por mais um dia. Tenho sorte. Que triste é eu sentir que tenho sorte – que triste nós sentirmos que temos sorte por não nos acontecer algo horrível. Que triste sentirmos-nos afortunadas por não ter acontecido nada de pior que piropos, olhares, comentários.

Que insanidade é esta que nos faz sentir com sorte por termos saído à rua sem agressão?

Não conheço uma única mulher que não tenha uma história destas para contar.

E esta nossa vida de todos os dias – nunca estar em lado nenhum sem esta constante vigilância, aprendida, natural, inevitável – é apenas a ponta do icebergue. Oh há mais. Há mais por baixo.

E quando esta violência de séculos – este crime humanitário contra uma parte da população – não está só na rua? Perpetrada por desconhecidos? Quando está em nossa casa, no nosso quarto, nos nossos companheiros, nos nossos familiares próximos, nas pessoas em quem confiamos? E quando essa agressão é diária, absoluta e completamente invisível? Quando nem sequer é física, mas está lá e destrói, lentamente, continuadamente? E quando as marcas que temos são descredibilizadas, de nada servem? E quando nem marcas há, que se vejam? Quando não conseguimos falar? Ou não podemos? Quando não podemos sair?

Esta é a história de tantas e tantas de nós. Silenciada e normalizada, as que levantam a voz enfrentam o mundo todo. Delas diz-se tudo: que só podem estar a inventar; que querem é atenção; que foram elas que provocaram; que têm que pensar nos filhos e ficar; que têm que ficar porque é o marido; que estão a mentir; que estão a exagerar; que estão loucas; que não sabem o que dizem; que estavam de saia; que estavam bêbadas; que estavam na rua àquela hora; que estavam a pedi-las. Deles: nada. São elas que têm que o viver e reviver. São elas que têm que gritar e nem assim ser ouvidas.

Quase todas as mulheres fortes que conheço passaram por uma destas histórias de violência. De medo. Estão vivas, são as sobreviventes. Muitas outras, no mundo, estão mortas. Todas elas são fortes. As vivas e as mortas. As que falam, as que não podem falar. As que gritam, as que simplesmente estão lá, anónimas, sem nada dizer. As que pegam no megafone e gritam palavras de ordem. As que se sentam num canto a ouvir. As que vão de mãos dadas, com amigues, com amores. As que vão sozinhas, apenas consigo. As que não podem ir. As que não se aproximam e ficam a ver, de longe. As que ainda conseguem rir. As que perderam o riso. As que dançam. As que choram. As que falam, falam, falam – uma, outra vez, de novo. As que dizem: sim, foi isto que aconteceu comigo. As que nada dizem. As que tiveram que correr para salvar a sua vida. As que não puderam correr. As que lutaram, as que não tiveram como. As que ainda lá estão, agora mesmo. As que saíram. As que não podem sair.

Por todas elas. Estamos fartas. Estamos vivas. Vamos continuar.

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About Fhrynne

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