Ansiedade, meu amor

Quando estou a sufocar não consigo dizer que te amo. Quando estou a sufocar não sei se te amo ou não, sei só que dói e que gostava que a dor parasse, só não sei como. Tudo o que era bom há um minuto atrás desaparece e é substituído por outra coisa, como se nunca tivesse sido. Uma realidade falsa. No momento da ansiedade só a ansiedade é real, só essa é a verdade, a única que existe e de precisamos.

Quando estou a sufocar não consigo falar, não te consigo responder. Porque se te responder, não vai ser comigo que vais estar a falar, mas com ela. Ela é a ansiedade. É nessas alturas que falo mais, uma verborreia interminável e incontrolável, uma incontinência de coisas. Escrevo frases e frases e frases e envio em catadupa. Levas com elas. Não leio o que respondes porque não consigo reter informação. Não consigo acreditar no que me dizes, porque a ansiedade está a dizer-me que o que é verdade é o que ela diz. E tu estás a mentir. Eu não consigo falar, estou só a tentar respirar, a tentar parar as lágrimas e a sensação de que um pouco mais, um pouco mais e é o limite. Enquanto isso os meus dedos escrevem e magoam-te. Eu não consigo falar, mas ela consegue. Ela sabe sempre o que dizer, sabe sempre como o dizer da melhor forma para ela. Com espinhos. Com pontas afiadas. Espeta espeta espeta. Fura. Perfura. Eu também estou a ser perfurada ao mesmo tempo, mas incapaz de parar. Continuo a verborreia de coisas. As tuas respostas não contam para nada, estás a mentir. Eu sei a verdade, porque eu tinha imaginado que era isto que ia acontecer, e olha, aqui está, eu tinha razão, vês? Levo um puxão. Vês? Pergunta a ansiedade. Vês como não havia motivo para me combateres? Eu disse-te que isto de que tens medo ia acontecer. Eu disse-te para teres cuidado e te safares antes mas tu não quiseste ouvir e agora aqui está. Eu disse-te. Tu sabias. És uma idiota e mereces isto, já sabias que ia ser este o resultado.

Não, não te consigo dizer que vou conseguir ultrapassar isto. Não te consigo dizer que vai ser melhor porque neste momento só vejo que estou sem ar, que é demais, que o limite está ali e eu cheguei a ele e não, não vou conseguir ir além dele, tenho a certeza.
E quando estou assim não vou dizer que vai haver o dia seguinte. Vamos acabar, não vai dar, não consigo, não aguento. Porque é que sou poly? Porquê? Eu não consigo fazer isto. É melhor acabarmos. Eu não vou conseguir suportar esta dor cada vez que estiveres a conhecer outra pessoa e a interessares-te por ela. Eu não vou aguentar isto de todas as vezes.  Só sinto o peito pesado, a dor, o sufoco impossível.
E penso o pior. O pior é a realidade, é a única verdade. Penso que o que temo mais já está a acontecer. Em dias piores, tudo o que pode correr mal já foi pensado por mim mil vezes. Todos os cenários possíveis em que sou abandonada, em que me mentem, me enganam, me traem, em que sem saber faço figura de idiota – tudo o que pode acontecer de mau já foi pensado por mim. Eu não consigo sequer enumerar, ou dizer do que tenho medo, porque às vezes só tenho medo de perder e não sei porquê ou que forma isso tomaria. Sei uma coisa: nunca ninguém me apresentou um cenário mau em que eu não tivesse pensado já. Nunca.
Ansiedade é nunca ficar surpreendida com o que acontece porque já pensámos mil vezes nesse cenário e já sentimos o que isso nos ia trazer e de repente se acontece então sabemos que todo aquele sofrimento não foi em vão – era a ansiedade a avisar-nos para fugir rápido, mas nós ficámos ali e agora? Agora pagamos o preço.
Há uns anos atrás quase deixei de ser poly à conta disto. Quase acabei com o meu namorado. Foi um ano inteiro desta opressão que me tira tudo. Um ano inteiro no limite das minhas forças, um ano inteiro de desespero, de me sentir a quebrar, de fazer merdas, de discussões, de espetar e espetar e furar quem amo uma e outra vez e de me furar a mim mesma de cada vez.
Quando estou a sufocar podes dizer o que quiseres porque cada coisa que disseres é mentira. Podes dizer: “estou aqui para ti” e a minha ansiedade responde com a verdade. “Não, não estás”; “Ou sim, até quando mesmo?”; “Ah estás? Não se nota”; “Ah e quando estiveres a falar com a outra pessoa, também vais estar?”. Claro que não. Eu sei a verdade. Não vais estar. Não vai dar sempre. A minha ansiedade vai ter sempre a resposta para tudo o que me digas, vai sempre saber o que eu mereço e tu não. Vai sempre saber que vou acabar sozinha. Que não sou nada de especial. Que há sempre alguém melhor. Que vais descobrir em breve que outra pessoa é melhor.
A ansiedade também sabe que era mais fácil eu não ser poly. Sabe que isto é demasiado para mim, que é tão difícil que se vai provar mais tarde ou mais cedo que não dá. Que não dá para mim. A monogamia acomoda as nossas ansiedades. Se há um novo envolvimento, então podemos manter uma réstia do nosso ego, montar os cacos se nos partirem o coração, dizer merda de quem nos trocou e passar à frente sentindo que ultrapassaremos, mais tarde ou mais cedo, esse passado. E estaremos, como corre a lenda, mais fortes então. A nossa ansiedade fica acomodada, é afagada e acarinhada por quem nos apoia. No poly não há acolchoamentos destes. Está tudo ali em carne aberta e o que é um dia, no outro muda. Ou aguentamos a viagem, ou mais vale fazermos malas e irmos por outro caminho mais ameno.
A ansiedade não gosta deste caminho atribulado, cheio de mudanças. Gosta das coisas estáveis, seguras, iguais, em que sabemos com o que contar. O poly tem muito pouco disto. De um dia para o outro pode aparecer uma nova pessoa e aquela estabilidade a que nos estávamos a habituar pode esfumar-se de uma dia para o outro. Sem aviso, de repente. Puxa-se o tapete de debaixo dos pés. Falar faz-nos aguentar isto, diz a lenda do poly. Mas a ansiedade compadece-se pouco com conversas. As conversas dão-lhe a lenha para queimar tudo à volta. Porque o outro mente, ela diz a verdade. Fala. Diz. Força. Dá-me combustível e eu não deixarei pedra sobre pedra, queimarei tudo e ainda vou dançar por cima das cinzas do que era a tua vida, os teus amores, por isso fala. Dizes que me amas, a ansiedade exulta. Eu sei a verdade. Ela vai ganhar. Ela vence sempre por momentos, por mais conversas que se tenha. Por mais compreensão, segurança, por mais amor que se tenha, nada resulta contra ela, porque ela volta sempre. Mesmo que ganhemos por um momento, ela vai dizer-me: isto é a ilusão. Pensas que já acabou? Está apenas a começar. Isto é aterrorizante. É como se dentro de mim eu soubesse que não há saída porque ela vai sempre ter a mó de cima. E eu? Eu estou a escrever para ver se a afasto, mas hey, ela está a ganhar-me aos pontos, ela continua a ganhar, não conseguem ver?! Não vou conseguir ganhar.
Estou só a aguentar até ao próximo momento em que me vou abaixo. Ela diz-me isso mesmo. Que cada vez que supero, a seguir vou cair de novo. E isto nunca vai ter fim. Mesmo que eu fique melhor agora, mesmo que escreva este texto para a mandar embora. Bolas. Ela não vai embora. Não vai. Eu vou parar de escrever e ela vai ter ganho. Porque a verdade é que ela volta sempre e sempre e no fim vou ser eu e ela e perderei tudo porque ninguém gosta de ter relações com ela, a ansiedade. As pessoas querem ter relações com outras pessoas e não com doenças. Pelo menos é isso que ela me diz. No final seremos só nós, meu amor, ansiedade. O único verdadeiro amor, absolutamente mono e senhor do meu coração, pensamentos e sonhos. Para sempre.
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About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

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