Monthly Archives: Setembro 2016

ondas

A água é fresca mas não tenho frio. Estamos nuas, não me importo. A vergonha que tive deixei-a no areal. As ondas chegam com força, embatem no meu corpo nu e não faz mal. É agreste esta força do mar, só lhe sinto o poder que me atira ao chão e me transporta. Sinto-me diferente. Como se uma vida se tivesse passado entretanto e eu saí do outro lado do tempo e sou a mesma e sou outra. Tenho dor. O mar está a levar essa dor para longe, grito. Ela grita também. Somos atiradas contra a areia e rimos. Tenho o cabelo colado à cara, o corpo frio, a pele onde pousou o sol quente por baixo, mas as gotas por cima, estou cheia de areia, engulo água, mas tudo vale a pena. Este é mais um dia, é mais um dia depois da dor, durante a dor, mas escolhi o mar, escolhi o sal, escolhi estar nua com ela e passarmos essas horas a esquecermos a dor, a lembrar-nos dela a cada momento. Pensei que devia ter frio mas só depois de ser atirada e levada por mil ondas é que esse frio chega. A manhã torna-se tarde, ficamos ao sol só o tempo de sentirmos o corpo quente e de nos perdermos numa nova conversa, numa conversa que nunca parou e que continua sempre. Sinto-me virada do avesso. Não tenho o coração cá fora porque o tive que guardar algures entretanto, mas tudo o resto está cá fora. Às vezes falo sem dor e é como se estivesse a recordar coisas boas de outra vida. A dor parece que só me atinge mais tarde, quando estou sozinha, quando já falei tanto e me deixei ir a sítios que não sabia. Como estar nua numa praia e não me importar. Como aperceber-me que o meu corpo está vivo ainda e responde ao mar e não saber como. Como é que estás ainda vivo? Como é que ainda gosto de ti e me sinto bem neste corpo? Senti no mar. No mar senti que esse corpo era meu ainda. Que ainda podia fazer coisas com esse corpo, que ainda podia deixar-me ir a zonas fora das minhas fronteiras, talvez amar (?), pelo menos o corpo ainda pode amar, mesmo que mais nada. Pode amar o mar, pode amar a sensação de me perder, pode sentir-se expandir para fora do que me conforta e ficar aí a sentir as coisas todas com uma força que me extravaza.

Não quero que este seja o último dia de verão.

Nunca disse isto antes, mas não quero. Preciso do mar, preciso de voltar ali e sentir-me nua e vulnerável e deixar-me ficar nisso umas horas, mais umas horas. O tempo começou a passar de forma diferente, gira à volta de mim agora, à volta do que estou a tentar fazer comigo, do que não consigo fazer, do vazio que sinto, mas não estou vazia. Avancei para as ondas frias e deixei-me estar com elas, não estou vazia, estou cheia de perda e de medos e de espaços abertos e agora o que fazer com isso? Temos conversas na praia, conversas que nunca acabam. Volto a expôr-me a falar de mim, das minhas coisas, volto a ser vulnerável, mas sim, não totalmente, não, estou magoada. Estou tão magoada, é difícil recomeçar. Difícil voltar a confiar, difícil não me sentir votada ao silêncio, ao desaparecimento. Estou a continuar a falar porque não morri. Dói, é sinal que estou viva e que algo aqui dentro continua a funcionar. Todos os dias vou mais um bocadinho, às vezes ando para trás e sinto-me de volta ao abismo. Outros dias há ondas, como hoje, ondas e ondas e ondas de coisas boas e no fim choro. Não estou bem, estou a sofrer, não faz mal. As ondas continuam, para cima flutuo, viajo, estou a ir longe, para baixo, vou ao fundo, embato na areia, não faz mal, levanto-me, lá vem outra onda, mergulho, volto ao de cima, lá vem mais uma, vou com ela, rio, dói-me, vou ao chão, rio, tenho um vislumbre de felicidade, mas não, ainda dói, estou noutra onda, o sol está quente, a água fria, mas não sinto frio, só me sinto, ouço-a rir e levantar-se e enfrentar as ondas, eu levanto-me, estou nua contra a parede de espuma que rebenta contra as minhas pernas, as minhas pernas resistem, estou a enfrentar aquela onda, a minha cona enfrenta aquela onda, forte, explosiva, sou um corpo, tenho um corpo. Oh. Estive feliz. Dói. Foi-(se) um amor. Dói. A dor não passa, mas muda. E eu tenho outras ondas para apanhar.


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo.