ondas

A água é fresca mas não tenho frio. Estamos nuas, não me importo. A vergonha que tive deixei-a no areal. As ondas chegam com força, embatem no meu corpo nu e não faz mal. É agreste esta força do mar, só lhe sinto o poder que me atira ao chão e me transporta. Sinto-me diferente. Como se uma vida se tivesse passado entretanto e eu saí do outro lado do tempo e sou a mesma e sou outra. Tenho dor. O mar está a levar essa dor para longe, grito. Ela grita também. Somos atiradas contra a areia e rimos. Tenho o cabelo colado à cara, o corpo frio, a pele onde pousou o sol quente por baixo, mas as gotas por cima, estou cheia de areia, engulo água, mas tudo vale a pena. Este é mais um dia, é mais um dia depois da dor, durante a dor, mas escolhi o mar, escolhi o sal, escolhi estar nua com ela e passarmos essas horas a esquecermos a dor, a lembrar-nos dela a cada momento. Pensei que devia ter frio mas só depois de ser atirada e levada por mil ondas é que esse frio chega. A manhã torna-se tarde, ficamos ao sol só o tempo de sentirmos o corpo quente e de nos perdermos numa nova conversa, numa conversa que nunca parou e que continua sempre. Sinto-me virada do avesso. Não tenho o coração cá fora porque o tive que guardar algures entretanto, mas tudo o resto está cá fora. Às vezes falo sem dor e é como se estivesse a recordar coisas boas de outra vida. A dor parece que só me atinge mais tarde, quando estou sozinha, quando já falei tanto e me deixei ir a sítios que não sabia. Como estar nua numa praia e não me importar. Como aperceber-me que o meu corpo está vivo ainda e responde ao mar e não saber como. Como é que estás ainda vivo? Como é que ainda gosto de ti e me sinto bem neste corpo? Senti no mar. No mar senti que esse corpo era meu ainda. Que ainda podia fazer coisas com esse corpo, que ainda podia deixar-me ir a zonas fora das minhas fronteiras, talvez amar (?), pelo menos o corpo ainda pode amar, mesmo que mais nada. Pode amar o mar, pode amar a sensação de me perder, pode sentir-se expandir para fora do que me conforta e ficar aí a sentir as coisas todas com uma força que me extravaza.

Não quero que este seja o último dia de verão.

Nunca disse isto antes, mas não quero. Preciso do mar, preciso de voltar ali e sentir-me nua e vulnerável e deixar-me ficar nisso umas horas, mais umas horas. O tempo começou a passar de forma diferente, gira à volta de mim agora, à volta do que estou a tentar fazer comigo, do que não consigo fazer, do vazio que sinto, mas não estou vazia. Avancei para as ondas frias e deixei-me estar com elas, não estou vazia, estou cheia de perda e de medos e de espaços abertos e agora o que fazer com isso? Temos conversas na praia, conversas que nunca acabam. Volto a expôr-me a falar de mim, das minhas coisas, volto a ser vulnerável, mas sim, não totalmente, não, estou magoada. Estou tão magoada, é difícil recomeçar. Difícil voltar a confiar, difícil não me sentir votada ao silêncio, ao desaparecimento. Estou a continuar a falar porque não morri. Dói, é sinal que estou viva e que algo aqui dentro continua a funcionar. Todos os dias vou mais um bocadinho, às vezes ando para trás e sinto-me de volta ao abismo. Outros dias há ondas, como hoje, ondas e ondas e ondas de coisas boas e no fim choro. Não estou bem, estou a sofrer, não faz mal. As ondas continuam, para cima flutuo, viajo, estou a ir longe, para baixo, vou ao fundo, embato na areia, não faz mal, levanto-me, lá vem outra onda, mergulho, volto ao de cima, lá vem mais uma, vou com ela, rio, dói-me, vou ao chão, rio, tenho um vislumbre de felicidade, mas não, ainda dói, estou noutra onda, o sol está quente, a água fria, mas não sinto frio, só me sinto, ouço-a rir e levantar-se e enfrentar as ondas, eu levanto-me, estou nua contra a parede de espuma que rebenta contra as minhas pernas, as minhas pernas resistem, estou a enfrentar aquela onda, a minha cona enfrenta aquela onda, forte, explosiva, sou um corpo, tenho um corpo. Oh. Estive feliz. Dói. Foi-(se) um amor. Dói. A dor não passa, mas muda. E eu tenho outras ondas para apanhar.

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