Monthly Archives: Outubro 2016

és a feminista perfeita?

14f6a5e8616d468eb3c381666f16ca46

o que é que achas?

se achas que sabes sempre o que é consentimento

se achas que abuso é preto no branco

se sabes sempre ver logo quem é feminista

se sabes julgar do alto da tua pose feminista

se te tatuas com feminismo em todo o lado

e se por isso te achas mais feminista do que a vizinha

se nunca te enganas ou és incoerente

se achas que nunca jamais em tempo algum serias abusadora

se achas que tudo o que fazes está sempre certo

se fazes posts a denunciar tudo o que vês

se respondes a toda a agressão

com mais agressão

verbal

banal

e pões palavras na boca de quem não as tem

se achas que podes chegar e falar pelas pessoas envolvidas

se achas que a tua voz é o que lhes dá força

as salva, coitadas

do jugo do inimigo

se te sentes a falar pelas oprimidas

se achas que és a voz de uma comunidade

não.

 

 

tu não és mais feminista

eu não sou mais feminista

do que quem não faz nada disto

aliás,

não sou mais feminista por escrever isto

mas estou farta

farta que te aches sempre mais, melhor,

segura da tua única verdade

aquela que apregoas

generalizas

tu chegas e vês logo tudo

não há nada que não saibas

o que não sabes,

sentes,

na pele.

é a tua experiência

então sabes

sentes

que a minha é iludida

desfasada

julgas-me com o que sentes

e os teus sentimentos justificam tudo

porque se tornam

verdade.

dea15a9eba3f1e9fc427dbb4a849423f

mas não percebes que te podes enganar

não percebes que é fácil ser feminista

e trair,

magoar,

enganar,

abusar.

pensas que estás

nas olimpíadas do feminismo

essa é a tua grande luta.

não és mais feminista do que ninguém

se a tua lógica é um dedo no ar

acusatório

olhem, olhem para estas pessoas que se dizem X e não são!

cada vez que calas a voz das outras para pôr a tua

não estás a ser feminista

se calhar este meu texto não é feminista

não faz mal

eu não quero estar nessa competição

de dedo em riste

PC em riste

competindo para ver quem tem o facebook mais feminista

quem é activista desde que se levanta até que dorme

atenta a ver onde estão as falhas dos outros para podermos apontar

e ganhar

ganhar o quê?

9d54e7f99606fe245012dbba65886cb0

ser feminista é ser perfeita?

quantas feministas conheço eu que já me calaram?

que já silenciaram vozes dissonantes das suas?

em quantos espaços feministas me senti eu bem?

online – nenhum

de todos me fui embora

ninjas, heroínas, brancas

não diferem assim tanto de mim

só não me acho uma ninja de nada

alguns dias só estou a tentar continuar

vamos ver quem é mais

fufa

feminista

activista

boa poly

mente aberta

descomplexada

esclarecida

quem denunciar mais ganha

quem levantar mais o dedo ganha

oh não

não levantes a voz

olha o tone-policing

olha a comunicação não-violenta

somos todas

vigiadas

tramadas

não escrevemos sem medo da reacção

oh quem me vai cair em cima depois disto

quantas quantas

olha, estás a fazer aquilo que denuncias

so what?

será que ajuda?

será que faz ainda pior?

só não me vendas o teu feminismo como melhor

porque falas em género neutro

e termina tudo em e

ou x

e és sempre mais inclusiva

mais reactiva

mais in your face

e nunca tens medo

de nada

nem de ninguém

nem de apontar dedos

ou talvez não

porque depois acontece a vida

e que se dane a inclusão

olha a merda

dá trabalho

pois

é mais fácil fazer posts

mas a guerrilha online é importante

as palavras são refúgio e armas

eu uso-as também como terapia

mas depois

o consentimento é fodido

poly é lixado porque

não é fazer o que queremos

quando queremos

porque queremos

ao ritmo que

nos dá

na real gana.

é saber o meu limite

o teu

e de toda a gente

e estar disposta a todos os dias

todos os dias descobrir mais

pensar mais

falar mais

tentar de novo

errar e tentar outra vez

voltar atrás

andar devagar

mesmo quando queremos ir a voar…

e sem dedos no ar

sem acusações

sem procurar o bode expiatório

a atitude mais não-feminista

a pessoa que está a fazer a merda

e que é o problema

guess what

relações têm sempre problemas

de mais do que uma pessoa

esquece a suposta culpada

onde queres largar a tua responsabilidade

atitudes não-feministas

são o pão de cada dia

mesmo,

incrível,

entre activistas, feministas, corajosas, inseguras, sensíveis.

se algum dia consegues

passar 24 horas

sem uma

parabéns

toma uma medalha

oh parabéns

és a maior

feminista

do

mundo

mas eu, eu só consigo ser feminista às vezes

pois, não dá sempre

às vezes digo coisas que são muito pouco feministas

o que importa é que

sei isso.

penso

aprendo

tento de novo

e sei, sei que nunca vou ser sempre feminista

perfeita

incrível

tu és feminista de manhã à noite?

boa

bom para ti

eu fico contente com os momentos em que sou

em que consigo ser

apesar da merda de sociedade em que vivemos

e quando não sou

não consigo

não quero ter que me culpar

martirizar

chega de cristianismos

a coisa menos feminista que podemos fazer é entrarmos em culpas

não faz mal se és só feminista na net

e então?

só nao te aches melhor.

toda a gente faz merda

feminista ou não

toda a gente

isto é um processo

feminismo não é uma cena acabada

que pegas e dizes: tá aqui

espeta a etiqueta em cima

pronto, tá feito

‘olhó feminismo

fresquinho

acabadinho de sair

o meu é melhor que o teu

porque eu denuncio

tudo

e falo assim:

iuzomis

omis

male tears para o pequeno almoço!

se há um homem,

de certeza que é ele o problema

pois como posso ser eu?

sou uma gaja tão feminista

minoritária

oprimida

ó p’ra mim

sou tão oprimida

mas sou branca

tenho casa

sou jovem

posso estudar

sair à noite

comprar roupa

eh pá, sou privilegiada em algumas coisas

mas falo assim:

iuzomis

entao ‘tá tudo bem

eu chego e sei sempre

avalio logo a situação

dedo em riste

check your privilege

call out

mas só do que me interessa

eu é que sei

cheiro manipulação à distância

porque a verdade é só uma.

olha, não fizeste trigger warning

mas eu lembro-te

olha, sou simpática

vês

estou a alertar-te

porque eu sou

esclarecida

consciente

iluminada.

quantas vezes

também já o fiz

entramos na lógica

e depois é difícil sair

feminismos são muita coisa

alguns eu nem sequer gosto

pára de achar que a etiqueta te defende

não vai resolver quando tu própria

te tornas naquilo que criticas

mas claro,

contigo isso nunca acontece, não é?

estás imune a isso.

o que interessa

é o que fazes depois

quando parares de te ocupar

com os dedos apontados às outras

talvez aí

tenhas tempo

para trabalhares em ti

pára de te ver como coisa acabada

não aches que atingiste o topo da sabedoria já

se não

o que vais fazer com o resto da tua vida

se as perguntas têm todas resposta

se não tens dúvidas

se te cobres de certezas da cabeça aos pés

se sabes sempre onde está o inimigo

se já lhe puseste um letreiro

e atiras as sete pedras que tens na mão

e não,

não estou a dizer para tolerares agressão

estou a dizer que

as nossas retóricas feministas

às vezes embrulham-se

e tornam-se tão pouco feministas

analisa-te

repensa-te

não faz mal dizer

eu errei

enganei-me

fiz mal

agora estou a fazer outra coisa

não faz mal

perceber

que falhas

não faz mal

que as tuas escolhas mudem

que percebas e voltes atrás

que haja incoerências

não faz mal

se simplesmente

não sabes.

eu tenho mais medo das certezas

sobre elas foram construídas religiões

e ditaduras

fiquemos pela dúvida

a filosofia saiu daí, mas é demasiado masculina

por isso usemos as perguntas

as nossas

todos os dias eu duvido

todos os dias me pergunto o que raio estou a fazer

cada

vez

sei

menos.

quanto mais pessoas amo

menos sei

como é que isto se faz

bem.

whatever.

 

07544de953bc38a8082ff6d459eda186

olha, conta a tua história

não pares de falar

nada é demasiado pessoal

mas não aches que a tua história

fala por outros

não aches que é a verdade

há mil verdades

não te sintas o arauto da verdade de toda a gente

não tentes com a tua história calar as outras verdades

nem menorizá-las

deixa de ser uma questão do que tu “sentes”

quando impões isso a outras pessoas

não, ninguém é sempre feminista

aceita isso

não, não és a feminista perfeita

não vês

que estás a naturalizar

uma nova opressão

aquela que cala as pessoas com quem tiveste

problemas pessoais

ou que se calhar

dizem uma coisa

e depois chega a vida e fazem outra

então,

não és como aqueles textos bonitos que escreves

não és nada assim

és uma pessoa horrível

as outras pessoas deviam todas saber

o mundo inteiro devia saber

que não és como os textos que escreves.

pois não

pessoas não são textos

pessoas não são escrita

pessoas dizem muita coisa

que não fazem

mas mais que isso:

pessoas mudam

pessoas crescem

pessoas fazem coisas diferentes

portanto

podes parar de cristalizar as pessoas

para as meteres na tua definição delas?

podes perceber que pessoas não são coisas

congeladas no tempo

e que se movem

e que se mudam?

pára de achar que só tu é que sabes

o que é legítimo

e pára de

te cobrires

de puro feminismo

que te torna

autoridade

na vida de toda a gente

que julgas

a partir do que sentes

porque és

mais consciente

e nunca tens medo

e por isso estás cheia de certezas.

fica com a medalha

fica com a reputação

de boa

incrível

feminista

activista.

ou então

sei lá

deixa-te disso.

Imagens: ambivalentlyyours.tumblr.com; a-thousand-words.tumblr.com; br.pinterest.com.


Curar corações partidos com Virginia Woolf por Inês Rôlo

Texto que escrevi para a Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

untitled2

Este livro salvou-me duas vezes.
Não me curou o coração partido em nenhuma delas,
nem me tirou da tristeza ou escuridão,
mas disse-me que não estava lá sozinha.
Estava eu, Virginia, as suas personagens e milhares de pessoas neste mundo.

Cada vez que tento explicar a alguém porque é que To The Lighthouse (Rumo ao Farol) é tudo para mim enredo-me em mil ideias ou fico sem palavras. Digo apenas: “lê. E se puderes, lê no original, não leias traduções”. É impossível explicar porque é que Virginia Woolf é um mundo em si mesma – e uma forma de pensar sobre os mundos interiores, mundanos, imaginários – a alguém que nunca a leu. Uma vez fui a um clube de leitura sobre este livro. Estavam 40 pessoas na sala. Cada uma disse o que a marcara mais no livro. E numa sala cheia de gente que leu o mesmo livro…

View original post mais 564 palavras


Nós temos tão poucas ferramentas do coração

a40bd7c58c950ff5e1db1dbf8c8f2fc2

Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt

 


Fake it, till you make it

we-are-all-broken-thats-how-the-light-gets-in-quote-1.jpg
Faço coisas, faço muitas coisas e falo com pessoas e digo o que sinto e por dentro estou a morrer. De dor, de insegurança, de achar que nunca mais vou sentir amor ou ser amada ou seja o que for. As coisas boas são uma ilusão, nunca conhecemos ninguém realmente. Podemos achar que sim, mas às vezes os nossos piores medos tornam-se mesmo realidade. Às vezes aquela pessoa vai mesmo deixar-nos, às vezes não vai mesmo escolher-nos e tentar novamente, às vezes vai mesmo prometer coisas que não pode ou consegue cumprir e nós vamos acreditar e depois vamos ficar com um buraco por dentro, onde estava a centelha que nos fazia confiar. Somos empurradas contra a parede porque ou nunca mais acreditamos em ninguém ou simplesmente continuamos a acreditar e reconhecemos que é muito possível que volte acontecer.
Nada de novo aqui. As pessoas fazem merda. As pessoas magoam-se. Sofrer faz parte da vida. Ok. Eu sei. Não é a primeira vez que sofro.
Continuo a fazer coisas. Tento convencer-me de que ainda valho a pena. Para mim, para outros. Fake  it, till you make it. Fake it, till you make it. Às vezes dou por mim a forçar-me a rir. Não, não estou bem, não estou feliz, estou só a tentar não parar de sentir coisas, de estar com pessoas. Que sentido é que faz? Sinto que uma das piores coisas da minha vida aconteceu e eu ainda me rio? Faço piadas? Encolho os ombros para a amiga que olha para mim “mas vocês eram tão queridas uma com a outra, gostavam tanto uma da outra, como é que isso aconteceu?”

Olha, eu não sei. Estou magoada. Sinto-me abandonada e trocada, não sei como é que isto foi acontecer, mas sei que todo o amor do mundo que tínhamos uma pela outra não fez como que fossemos capazes de nos entender. Não conseguimos. Falhámos. Lá atrás, eu lembro-me, houve crises de ansiedade muito más e eu achei que era tudo culpa minha, mas a verdade é que tenho que parar de me culpar. Não foi culpa minha, uma relação nunca acaba por culpa de uma só pessoa, são precisas pelo menos duas para fazer merda. E a verdade é que ela desistiu, desistiu de mim, desistiu de tentar e foi à procura da vida dela para outro lado. Chega. A pessoa com quem eu partilhava a minha vida todos os dias quis ir-se embora. De um momento para o outro fez aquilo que me prometeu sempre que não faria. Foi a segunda vez que isto aconteceu. E desta vez eu fechei todas as portas que antes tinham ficado abertas. Nunca tinha fechado as portas a esta pessoa. Mesmo com a porta fechada, sabemos que as pessoas ficam, algo delas fica e só o tempo leva o que magoa.

Este texto é ridículo, cheio de lugares-comuns.

Porque é que voltei a escrever? Porque é que estou a fazer isto e tantas outras coisas? Como é que tenho energia para ir trabalhar e agarrar novas responsabilidades? Como é que me estou a permitir voltar a falar de sentimentos com pessoas? É que eu não acredito em mais ninguém. Eu não vejo porque é que alguém há-de olhar para mim, não vejo onde está o interesse e ao mesmo tempo continuo ali. Porque é que faço isto? Se calhar tenho medo de desaparecer. Se calhar é porque as pessoas continuam a querer estar comigo, também não entendo. Como é que ainda acontecem coisas boas? Como é possível que no meio disto ainda haja vozes de quem nunca me deixou e continua lá? Como é possível existirem novas pessoas? Olha, eu estou a gostar de ti. Como é que eu ainda consigo responder a isto? É que eu não estou a funcionar bem por dentro, não estou. Não sei responder a coisas boas.

Continuo. O dia a dia parece outra vida, uma sucessão de coisas que faço para continuar a existir. Olhem, vêem? Estou a viver ainda.

Mas depois volta tudo. Basta uma memória, um cheiro, um lugar, um objecto. É engraçado como as pessoas ficam nas coisas. Devia ser simples porque as coisas podem ser eliminadas. É o que faço, metodicamente. Trouxe umas pedras verdes que apanhei numa praia banhada pelo mar Coríntio na Grécia. Eram para ela, mas entretanto atirei-as para as ondas do oceano Atlântico. Preciso de não ver mais algumas coisas, pô-las onde não as veja, mas nesse momento já as vi e já doeu. As redes sociais multiplicam isso, mesmo quando fizemos tudo o que podemos para nos proteger há sempre uma amiga de uma amiga de uma amiga que vai pôr uma fotografia e trazer tudo outra vez. Tenho a certeza que isto é ridículo, que muitas pessoas estão a pensar: é normal, faz parte do processo, tens que passar por isso, acontece a toda a gente. Sim, é. E então?

O mais estranho é que no meio disto percebi algumas coisas. Apercebo-me lentamente de tudo o que deixei para trás, de tudo o que deixei de fazer antes. Só me apercebo porque agora estou a fazer essas coisas. No meio disso, sem reparar, abri novas portas: a outras pessoas, a outras coisas que nunca tinha feito e também reabri portas a quem já cá estava e sentiu a minha falta. São só frestas, porque não, não consigo escancarar as portas, mas estão ali e a luz entra. A luz ainda entra.