Fake it, till you make it

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Faço coisas, faço muitas coisas e falo com pessoas e digo o que sinto e por dentro estou a morrer. De dor, de insegurança, de achar que nunca mais vou sentir amor ou ser amada ou seja o que for. As coisas boas são uma ilusão, nunca conhecemos ninguém realmente. Podemos achar que sim, mas às vezes os nossos piores medos tornam-se mesmo realidade. Às vezes aquela pessoa vai mesmo deixar-nos, às vezes não vai mesmo escolher-nos e tentar novamente, às vezes vai mesmo prometer coisas que não pode ou consegue cumprir e nós vamos acreditar e depois vamos ficar com um buraco por dentro, onde estava a centelha que nos fazia confiar. Somos empurradas contra a parede porque ou nunca mais acreditamos em ninguém ou simplesmente continuamos a acreditar e reconhecemos que é muito possível que volte acontecer.
Nada de novo aqui. As pessoas fazem merda. As pessoas magoam-se. Sofrer faz parte da vida. Ok. Eu sei. Não é a primeira vez que sofro.
Continuo a fazer coisas. Tento convencer-me de que ainda valho a pena. Para mim, para outros. Fake  it, till you make it. Fake it, till you make it. Às vezes dou por mim a forçar-me a rir. Não, não estou bem, não estou feliz, estou só a tentar não parar de sentir coisas, de estar com pessoas. Que sentido é que faz? Sinto que uma das piores coisas da minha vida aconteceu e eu ainda me rio? Faço piadas? Encolho os ombros para a amiga que olha para mim “mas vocês eram tão queridas uma com a outra, gostavam tanto uma da outra, como é que isso aconteceu?”

Olha, eu não sei. Estou magoada. Sinto-me abandonada e trocada, não sei como é que isto foi acontecer, mas sei que todo o amor do mundo que tínhamos uma pela outra não fez como que fossemos capazes de nos entender. Não conseguimos. Falhámos. Lá atrás, eu lembro-me, houve crises de ansiedade muito más e eu achei que era tudo culpa minha, mas a verdade é que tenho que parar de me culpar. Não foi culpa minha, uma relação nunca acaba por culpa de uma só pessoa, são precisas pelo menos duas para fazer merda. E a verdade é que ela desistiu, desistiu de mim, desistiu de tentar e foi à procura da vida dela para outro lado. Chega. A pessoa com quem eu partilhava a minha vida todos os dias quis ir-se embora. De um momento para o outro fez aquilo que me prometeu sempre que não faria. Foi a segunda vez que isto aconteceu. E desta vez eu fechei todas as portas que antes tinham ficado abertas. Nunca tinha fechado as portas a esta pessoa. Mesmo com a porta fechada, sabemos que as pessoas ficam, algo delas fica e só o tempo leva o que magoa.

Este texto é ridículo, cheio de lugares-comuns.

Porque é que voltei a escrever? Porque é que estou a fazer isto e tantas outras coisas? Como é que tenho energia para ir trabalhar e agarrar novas responsabilidades? Como é que me estou a permitir voltar a falar de sentimentos com pessoas? É que eu não acredito em mais ninguém. Eu não vejo porque é que alguém há-de olhar para mim, não vejo onde está o interesse e ao mesmo tempo continuo ali. Porque é que faço isto? Se calhar tenho medo de desaparecer. Se calhar é porque as pessoas continuam a querer estar comigo, também não entendo. Como é que ainda acontecem coisas boas? Como é possível que no meio disto ainda haja vozes de quem nunca me deixou e continua lá? Como é possível existirem novas pessoas? Olha, eu estou a gostar de ti. Como é que eu ainda consigo responder a isto? É que eu não estou a funcionar bem por dentro, não estou. Não sei responder a coisas boas.

Continuo. O dia a dia parece outra vida, uma sucessão de coisas que faço para continuar a existir. Olhem, vêem? Estou a viver ainda.

Mas depois volta tudo. Basta uma memória, um cheiro, um lugar, um objecto. É engraçado como as pessoas ficam nas coisas. Devia ser simples porque as coisas podem ser eliminadas. É o que faço, metodicamente. Trouxe umas pedras verdes que apanhei numa praia banhada pelo mar Coríntio na Grécia. Eram para ela, mas entretanto atirei-as para as ondas do oceano Atlântico. Preciso de não ver mais algumas coisas, pô-las onde não as veja, mas nesse momento já as vi e já doeu. As redes sociais multiplicam isso, mesmo quando fizemos tudo o que podemos para nos proteger há sempre uma amiga de uma amiga de uma amiga que vai pôr uma fotografia e trazer tudo outra vez. Tenho a certeza que isto é ridículo, que muitas pessoas estão a pensar: é normal, faz parte do processo, tens que passar por isso, acontece a toda a gente. Sim, é. E então?

O mais estranho é que no meio disto percebi algumas coisas. Apercebo-me lentamente de tudo o que deixei para trás, de tudo o que deixei de fazer antes. Só me apercebo porque agora estou a fazer essas coisas. No meio disso, sem reparar, abri novas portas: a outras pessoas, a outras coisas que nunca tinha feito e também reabri portas a quem já cá estava e sentiu a minha falta. São só frestas, porque não, não consigo escancarar as portas, mas estão ali e a luz entra. A luz ainda entra.
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About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover. Ver todos os artigos de Fhrynne

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