Monthly Archives: Dezembro 2016

o ano não é novo, tu é que podes ser

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2016 foi um ano demasiado longo e difícil para muita gente. Eu não fui excepção. Se calhar não foi diferente de muitos outros anos, mas todo o ano que chega ao fim parece sempre ser o melhor e o pior naqueles últimos dias do calendário. O mundo em geral parece estar a chegar historicamente a um qualquer turning point, e quem não ignora a história reconhece os sinais. Na verdade, temos poucos motivos para achar que um 2017 com Trump, com guerra e com a extrema direita a ganhar terreno possa ser melhor que o ano que passou. Mas todas estas coisas são demasiadamente gigantes para as conseguirmos contemplar e inferir sobre o impacto que vão ter nas nossas vidas, especialmente se as nossas vidas são privilegiadas, como a minha. Então em vez de nos focarmos nesta big picture incomensurável, olhamos para o nosso ano, o que nos está próximo, quem nos está próximo.

Estes últimos dias do ano, por algum motivo, têm o condão de nos fazer olhar para trás e passar os olhos no que fizemos, no que não fizemos, no que nos aconteceu, no que queríamos que nunca tivesse acontecido. É só um calendário e na verdade é só mais uma coisa que não é natural e foi previamente definida assim – convencionada. É suposto chegarmos ao 31 de dezembro e o ano mudar para outro, novinho em folha. Um ano novo é como aqueles cadernos e blocos de notas lindíssimos, com as folhas todas em branco, por preencher, com capas promissoras, a que as pessoas loucas por este tipo de artigos não resistem e que dão logo vontade de ir buscar uma caneta e… escrever o quê? O bloco é tão bonito. Limpo, novo, à espera. Imaculado. Todo um mundo de possibilidades nele. O que podemos fazer com ele? Tudo. Qualquer sonho é possível. É isto que um ano novo promete sempre. Que qualquer história vai ser possível, que todas aquelas coisas que o ano velho não nos deixou fazer vão finalmente acontecer neste ano novinho em folha e que nós, inspirados pela simples existência de novos dias por utilizar, os vamos usar para todas estas coisas incríveis. E prometemos mudanças. Prometemos mudar hábitos, prometemos que o nosso tempo vai ser usado de outro modo. Desejamos-nos mutuamente um bom ano – um ano melhor que o velho. E por uns três dias parecemos alinhados, colegas, desconhecidos, pouco conhecidos, amigos, familiares, amores – todas as pessoas com quem nos cruzamos parecem alinhadas nesta mesma esperança de que um ano com dias por estrear vai ser melhor. Ficamos como que suspensos nesta esperança, aqueles últimos dias do calendário é suposto serem de festa, e é difícil escapar a esta sensação. Este ano, eu achei que não ia ter esta sensação, mas entretanto aqui está ela, apanhou-me. Sim, venha 2017, esse ano novo. Por dois dias estamos suspensos nesta esperança, olhamos os dias velhos a irem-se embora. Já consideramos velhos até os restantes dias de 2016 que ainda nem passaram, mas também esses já são velhos, já passaram. Estamos de olhos postos nos novos, sincronizados numa esperança de renovação. É um sentimento de partilha, quase pagão realmente, e talvez por isso nos juntemos, com comida e bebida. E há quem faça listas. Há quem se proponha metas. Há quem estabeleça objectivos. Há quem coma as passas ao ritmo dos desejos. Há quem diga que não faz nada disto mas depois secretamente tem uma lista escondida. Há quem jure que não tem qualquer esperança, sem sequer reparar que já a alimentou inconscientemente. E, claro, há quem realmente não queira saber de nada disto e decida considerar o calendário simplesmente isso, uma convenção.

Eu sou apanhada entre estas várias sensações. Sou a pessoar que adora cadernos novos e que nunca os acaba de preencher. Sou a pessoa que se lança a novos projectos e não os termina. Sou a pessoa que faz listas. E sou a pessoa que sabe que o ano novo é só a continuação do velho e que todas aquelas coisas enormes que estão a acontecer no mundo vão continuar o seu caminho até novos pontos de viragem. Tenho medo do mundo de 2017, tenho medo pelos meus direitos de minoria e pela minha vida de minoria. Tenho medo pelos meus amigos de minorias, tenho medo por todas as nossas vidas, tão fortes, tão frágeis. E tenho medo e esperança por mim. 2017 não vai ser um ano novo, mas eu sei que vou ser nova nesse ano. Sinto as mudanças a confluírem dentro de mim também para um qualquer ponto de viragem e apesar de não saber o caminho exacto, sei, como o outro, “que não vou por aí”. E saber por onde não se quer ir já é alguma coisa. Mas, percebi também, que mais importante do que saber, é ir fazendo, ir sabendo, ir. Não tenho que saber tudo. Não tenho que ter tudo decidido. É bom ter sonhos e objectivos. É bom sentir que se começa de novo, mesmo que o ano seja velho ou que o novo seja mais uma normatividade a que obedecemos. Estou a sentir-me a mudar e mudar é o que vou continuar a fazer, não tem que haver um destino concreto porque o caminho é o destino – é aí que passamos a maior parte da nossa vida. E ela é curta, tão curta, para sentir tanta coisa.

Por agora, apesar de este ter sido o melhor e pior ano da minha vida, prefiro lembrar-me das coisas pelas quais estou grata. E estou grata por tantas coisas e pessoas e momentos.

Trying to be still
I wanna believe in a love that wants me back
I wanna believe that I can turn it around
Wanna believe that these changes are changing me, chasing me to find my way out
Try to not be small
I wanna believe that someone never lets go
I wanna believe that I can turn it around
Wanna believe that these changes are changing me, chasing me to find my way out

Brooke Candy


a noite mais (demasiado) longa do ano

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Quando todas as noites parecem demasiado longas e os dias também. Yule é só mais um dia com demasiadas horas. Quando dás por ti com vontade de voltar a viver em livros porque a realidade é demais, demasiada para ti e estás cansada, exausta dos dias todos e das estratégias para sobreviver só mais um bocadinho, só mais um dia, só mais um passo, só mais uma conversa, só mais uma viagem, só mais um caminho para o trabalho, só mais, mais, mais. Mas há dias em que é demais.

E gostavas de poder ir viver para Hogwarts, gostavas que o mundo parasse e que a vida daquelas pessoas fosse de novo a tua realidade, a única coisa com que precisas de te preocupar. Screw this, fuck this, I’m going to Hogwarts. Agarras em fanfiction de má qualidade, mergulhas nas personagens que te são familiares e redescobres o quão fucked up elas estão e tu também. E dás por ti a rebentar de realidade, sem aguentar mais o peso de fazer tudo sempre da forma que te custa mais, cansada de para ti nunca haver uma pausa no caminho que escolheste, perguntas-te novamente porquê, porque é que continuas a escolher este caminho de gente doida, porque é que para ti nunca há a opção simples, aquela em que não é preciso pensar muito e basta fazer o que toda a gente faz. Por momentos, sentindo-te louca, perguntas-te porque é que não escolhes simplesmente esse caminho iluminado, mais seguro, cheio de gente a fazê-lo, milhares de pessoas a quem podes pedir direcções caso te enganes, previsível, igual, em que poderias ligar o piloto automático e tudo continuaria a correr bem porque a história já estaria escrita por ti e feita mil vezes por toda a gente. Pensas, como o Harry deve ter pensado tanta vez, ser Muggle é mais simples. Como será não ter o peso do mundo todo em cima, o peso de fazer tudo da maneira que dói mais, como seria não ter sempre que estar a mexer em todos os medos? Como seria poder descansar desta hiperrealidade, como seria se por um momento tu conseguisses parar de pedir ajuda, de tentar, de falar, de tentar chegar, como seria se te pudesses desligar. E custa trabalhar, custa todos os dias vires fazer a tua vida normal com tudo o que de nela é anormal a acontecer ao mesmo tempo. E custa  conteres o choro, continuares a pôr um pé à frente do outro, custa não conseguires ouvir música nenhuma porque as boas doem e as más doem. Custa especialmente nestes dias quando vês que outras pessoas que fazem este caminho sorriem e lançam abraços e sorrisos e são raios de sol e tu sentes-te um sol apagado e perguntas mais uma vez: como é possível? Esgotada. Sem mais onde ires buscar um novo começo. Acordas todos os dias sem saber porque é que ainda funcionas, porque é que ainda estás ali e ao mesmo tempo quando imaginas desaparecer sabes que nunca o farias. Porquê? Dói o suficiente para quereres desaparecer, mas aprendeste algures que nada do que sentes deve ser assim tão mau, então sabes que seja o que for tu vais aguentar porque não sabes fazer outra coisa. Descobres que é possível estar esgotada e esvaziada e ao mesmo tempo a transbordar e pensavas que isso não seria possível e odeias transbordar ainda porque só querias poder parar essa corrente. Na tua cabeça haveria duas possíveis soluções: ou transbordas amor e és como aquelas pessoas que são cheias de luz e dão e dão e têm sempre mais e há sempre uma luz ao fundo do túnel e o copo dá sempre para encher outra vez; ou apagas-te e desapareces e deixas de fluir e de dar e de pedir ajuda e acabas. O que é que acontece quando não és nenhuma destas versões e te sentes como uma coisa inacabada entre uma versão e outra, te sentes ao mesmo tempo acabada e vazia e a rebentar com sentir demasiado? O que acontece quando nem tu consegues acreditar mais quando dizes: não aguento. Quando tu sabes que amanhã vais conseguir outra vez, mas não vais ser essa pessoa transbordante, não, vai continuar a doer e vais continuar no meio entre estas duas coisas, incapaz de ser a pessoa feliz, incapaz de parar a dor, incapaz de parares de pedir ajuda e de falar e incapaz de parares de sentir. É como se não fosses Feiticeira e também não fosses Muggle. Quem és então?

Estás cansada de ser sobrevivente. Estás cansada da luta. Começaste a lutar pequena, respondeste sempre a tudo e agora gostavas de poder parar de responder, mas tornou-se tanto parte de ti. Não consegues parar e estás farta de ti própria, desse grito contínuo, desse transbordar que é bom e mau e que te impede de colapsar e tu querias poder colapsar e fazer o mundo parar. Querias que por um momento toda a gente percebesse que tu não aguentas mais, querias que por um momento toda a gente parasse e te visse, te visse aterrorizada e transbordante e fizessem o quê? Nem sabes. Nada. Só que te vissem, só que soubessem.


faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.