Monthly Archives: Fevereiro 2017

não sou uma escritora

caf2bfbd12f22f7dd9b9750de0a7929a.jpg

Nunca me vi como escritora, mas sim como uma pessoa que escreve. Há uma real diferença entre estas duas coisas, para mim.

Eu que me reclamo com tantas identidades, nunca senti que pudesse reclamar esta para mim. Parece um pouco convencido estar a escrever sobre o facto de não ser escritora, para depois toda a gente me dizer que se escrevo sou escritora. Mas não sou. Eu tenho muito medo de me pensar como escritora, nunca me atreveria a tal. E não, não estou a falar destes textos, nem deste blogue, nem do que escrevo como activista – esses são os meus textos vivos, cá fora, desabafos mais que outra coisa, como este aqui. E também não me fazem escritora, são só a minha ferramenta de activismo e visibilidade e eu sei que sou boa com palavras e por isso uso-as.

Estou a falar de ficção, daquela que eu não escrevia há mais de sete anos e que foi a minha vida desde os 12 anos até aos 20 e poucos. Estou a falar da ficção que escrevo, e que é algo gigantesco na minha vida, mas que poucos leram e da qual estive afastada durante muitos anos.

Não há nada, nada, que eu goste mais de fazer do que escrever. Não há nada, nada, nada no mundo para mim que se compare a estar a escrever ficção.

Escrever ficção é muito estranho, não é como outras coisas que adoro fazer, não é como adorar ler, não. Escrever ficção para mim é uma obsessão, um sofrimento, um trabalho, um prazer alucinante e a coisa mais absorvente da minha vida.

Muitos diriam, então és uma escritora, isto é a tua grande paixão de vida. Sim, poderia ser, mas eu não me sinto digna, não sinto que estou lá, no mesmo nível de quem eu admiro como escritora, não, jamais. Eu, usar um mesmo termo para me descrever do que a Virginia Woolf? A J. K. Rowling? Estão loucos?!

Sim, não há nada no mundo que seja como escrever, para mim. Nenhum amor, nenhuma actividade, nenhuma sensação, nenhum trabalho, nada nada nada é como escrever ficção. Quando escrevo ficção eu não estou aqui. Ausento-me durante horas, perco noção do meu espaço, do meu tempo, da fome, da sede. Alucino, sim, alucino e eu sei que isto parece convencido, parece cliché, mas a verdade é que eu deixo de vos ver, vocês, pessoas da realidade, com quem me cruzo. É-me mais real aquele mundo em que passo a viver, que criei, que não existe se não na minha cabeça onde é realidade. E eu vejo-as, vejo aquelas pessoas que criei, sei como elas falam, o que vão fazer a seguir, vejo-as a olhar para mim e às vezes sei como elas reagiriam a qualquer coisa que eu diga. Enquanto as vejo, consigo continuar a escrever. O problema é quando paro subitamente de as ver e aí sei que aquela história morreu.

Às vezes vejo-as quando estou a tomar banho. Um flash e sai uma cena completa para a mesa do canto. Às vezes deito-me e antes de dormir, lá está, o puzzle monta-se sozinho. A caminho do trabalho, anoto diálogos inteiros, sei como uma porta é fechada, oiço a resposta perfeita, encontro o ritmo da frase, descubro o fim de um capítulo.

Nunca consegui perceber como é que há pessoas que não têm ideias, eu consigo ter ideias com base num papel no chão, aliás nem precisava do papel, bastava o chão mesmo ou o nada, mas isso é o mais fácil. O problema para mim não são as ideias, essas há aos pontapés e por isso é que para mim aqueles cursos de olhar a página em branco e vomitar qualquer coisa para lá não me assustam porque eu gostaria de ter uma outra vida só para as ideias que tenho.

O que me assusta verdadeiramente, o que é realmente difícil para mim não são as ideias, é a sequência, a coerência, a forma como as coisas encaixam umas nas outras, como as cenas se seguem numa lógica, numa semelhança com a realidade, mesmo que seja uma realidade surreal ou mágica, ou com regras que contrariam a lei da gravidade. O que interessa é que ali funcionem. O que é verdadeiramente difícil e aterrorizante é continuar. Continuar a ver aquelas pessoas e conseguir chegar ao fim com elas com o mesmo fôlego e entusiasmo com que comecei. O difícil é não as perder, não desistir, é continuar a vê-las, a senti-las e levá-las comigo até ao fim da sua própria história. E depois reler-me e corrigir-me e não me crucificar – mas eu acho que é impossível não o fazer.

Escrever ficção é para mim a coisa mais difícil do mundo – não é nada como escrever textos para este blogue, ou como falar em público (mesmo que eu fique tímida e com vontade de desaparecer), não é nada como fazer activismo e dar a cara, oh não. Escrever ficção é a pior coisa do mundo e é a coisa que eu mais amo no mundo. E por isso eu não sou escritora. Parece-me impossível ser escritora, com a minha ficção guardada na gaveta. E não, as minhas pastas de textos, os meus livros incompletos não são bons. Falta-lhes a estrutura, a completude, como a mim me falta. Será que algum dia vou ser escritora? Eu desisti de acreditar nisso. Estive incapaz de escrever ficção durante os últimos sete anos. Deixei de as ver, perdi-as, todo um mundo que criei foi pelo cano abaixo – e não, eu não vou lá buscá-las, obrigada. É bonito dizer: não desistas, volta, tenta de novo, continua. Mas não quando eu sinto que aquele mundo está morto. Durante anos pensei que não conseguiria pegar noutro, tenho demasiado medo de que também esse vá morrer. E sentia-me seca. Ocupei-me a viver e parece que não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ou bem que vivo, ou bem que escrevo e escrever substitui-me a vida, ponto.

Essa é a verdadeira página em branco para mim. O medo terrível de me apaixonar loucamente por um mundo e de o ver a morrer outra vez, o medo terrível de passar anos a viver num lugar, num tempo e com pessoas que vão desaparecer e morrer. E sim, eu sei que é como a vida e ainda aqui estou.

Há pouco tempo, não sei como, peguei noutro mundo. Este já estava feito – não fui eu que o fiz, eu só peguei nas personagens emprestadas e escrevi as cenas que vi reais dentro da minha cabeça. Ainda estou a lutar com esse mundo, porque sim, escrever ficção é uma luta solitária – e isso é outra coisa importante, é que eu só consigo escrever se estiver sozinha, quase como se não tivesse espaço mental e emocional para pessoas e personagens ao mesmo tempo. Quando escrevo estou o mais sozinha possível, mas não me sinto sozinha porque a noção de tempo desaparece e só nos sentimos sozinhos quando sentimos o tempo, ou não? Por enquanto ainda as vejo, estas personagens emprestadas com que estou a brincar. Há muito tempo que não sentia isto, é como estar a apaixonar-me de novo, numa autêntica NRE (New Relationship Energy) com a escrita, e sim, a escrita é um grande amor da minha vida. Morro de medo de deixar de as ver, de esta torrente ir parar abruptamente de novo e me deixar vazia. É um risco que corro, como tudo o que vale a pena na vida.

Só escrevi este texto aqui para me lembrar a mim mesma disto, porque de alguma forma me deixei esquecer nos últimos anos. Não me sinto digna de ser escritora porque escrever é a coisa mais séria da minha vida. E um dia, talvez, venha a ser mesmo a minha vida.

bc8442c318e48849a276367ff0a77ca4

Anúncios

liberdade, headbang e metal

ab682d7c8411d2eb6598db5c15603cdf.jpg

Acabo de vir de um concerto de metal. Não fui a centenas, mas já fui a muitos. Mas pela primeira vez fui a um concerto sozinha. Não combinei com ninguém, embora soubesse que lá poderia encontrar muita gente que conheço. De facto sei que algumas pessoas que conheço estavam lá, mas não vi nenhuma nem fiz por isso. Fui sozinha. E foi incrível.

Não consigo explicar bem a sensação que me provoca a música, quando é música que gosto realmente, que me irrompe pelo peito adentro, se aloja em recantos do meu cérebro e me brota dos lábios – sim, parece exagerado, parece um ritual, mas para mim é isso que um concerto é quando é incrível. Um ritual, uma experiência mágica fora do tempo e do espaço, uma experiência única para cada pessoa mas vivida em conjunto, com desconhecidos. Eu no meio de desconhecidos não me senti sozinha. Estava ali sem ninguém porque queria estar e ao mesmo tempo estava acompanhada por pessoas apaixonadas pela mesma música que eu. Há qualquer coisa maior que eu nestes momentos e essa sensação de ser eu mas ser muitos é alucinante. Por umas horas, somos. Somos pessoas apaixonadas por aquela música que cada um interpreta como quer, que diz a cada um uma coisa diferente, mas é como se houvesse qualquer coisa de comum por baixo disso.

No meio de desconhecidos eu perdi-me e encontrei-me e foi como todos os concertos incríveis a que já fui, mas melhor. Não tinha que pensar em mais nada, nem mais ninguém, estava ali a passar tempo comigo. E ao mesmo tempo estava a partilhar aquele momento com pessoas que nunca vi na vida. Os concertos de metal são estranhos. Para qualquer pessoa que esteja de fora parece de facto um ritual esquisito, de gente marginal. Para mim é encontrar encontrar um lugar onde não sou estranha. Num mar de pessoas vestidas de preto, eu sou eu e não sou eu, sou só mais uma pessoa e ao mesmo tempo mantenho a minha individualidade.

Curiosamente, a experiência de estar em concertos de metal é para mim muito estranha, mas não pelos motivos que poderiam parecer a quem vê de fora. É que, nos concertos de metal, eu nunca fui assediada. Obviamente não tenho a ilusão de que isso não acontece, infelizmente sei que as mulheres não estão livres disso em lado nenhum. Mas para mim, felizmente, isso nunca aconteceu e na verdade muitas vezes experienciei a estranheza profunda de estar rodeada de homens e de masculinidade e essa masculinidade não me agredir. Sim, a heterossexualidade é retumbante, a masculinidade está lá e existe e actua, os homens dão em cima de mulheres também nos concertos de metal e tudo dentro do metal é organizado para manter as mulheres mulheres e os homens homens e nada ou muito pouco de ambiguidades. Mas depois a música e a própria cultura masculinizada do metal faz aqui algum trouble.

Olho à minha volta, neste concerto a que fui sozinha, a plateia é quase toda masculina, tenho homens enormes, altos, fortes à minha frente, atrás, ao meu lado. Há algumas mulheres e raparigas. Elas estão com os namorados, algumas como eu estão sozinhas, outras estão com amigas, outras estão com as namoradas – sim, estamos lá. Neste concerto em particular, estavam muitos mais homens que o habitual – a banda que fui ver só tem homens e isso reforça. Esta banda tem algo de particular para mim porque eu não oiço homens a fazer metal e estes são uma das poucas excepções. A minha política e paixão são as mulheres que fazem metal. Neste caso, fui ouvir homens e ver homens, rodeada de homens. Mas por estranho que pareça, estive num ambiente mais safe que o habitual no meu dia-a-dia. Estes homens, altos, sérios, vestidos de preto, que me rodeavam não me ameaçaram. Não. Pelo contrário, cada vez que sem querer me tocavam sem qualquer tipo de intenção – acontece num espaço apertado em que toda a gente está em movimento – pediram-me desculpa. Esqueci-os e perdi-me na música. Não sei explicar o headbang, nem porque o faço, sei que ali, no ritual-concerto, o corpo move-se, responde ao ritmo, à vibração e segue o seu caminho. Há qualquer coisa de surreal nesse movimento e no segundo em que levantamos a cabeça e sentimos outro ser humano ao nosso lado a fazer o mesmo e não o conhecemos mas naquele momento estamos os dois a vibrar com a mesma coisa. Levanto a cabeça e um rapaz ao meu lado está a fazer o mesmo que eu, olhar perdido e embevecido, olha para os seus heróis no palco. O seu olhar de adoração é apaixonado e eu rio por dentro desta terrível heterossexualidade e masculinidade que não é suficiente para roubar àquele rapaz o olhar de fascínio que lança aos homens no palco. Os amigos abraçam-no, ao rapaz. Um deles aproxima-se dele, feliz por o encontrar ali e afaga-lhe o cabelo com um carinho estranho e quase desfazado – mas ali, no ritual, faz sentido. Do meu outro lado, dois rapazes enormes estão a ter o concerto das vidas deles – percebo, pelos comentários. Há um momento em que se abraçam os dois e riem e depois passam algumas músicas abraçados, os corpos a moverem-se com a música, rindo e bebendo cerveja. Há um momento em que um diz ao outro: eu não te disse que era brutal? E beija-o no rosto, com entusiamo, o outro ri e diz: sim, pá, tens razão! Deduzo que são heterossexuais, claro. Há pouco pagaram duas cervejas a umas raparigas atrás de mim, uma delas mencionou ter namorado e eles, tudo bem, voltaram à música assim que o intervalo terminou. Gritavam pelos homens no palco – de repente parece que todos ali queremos aqueles homens do palco, não importa os nossos géneros. Eu sei que é só naquele momento, eu sei que lá fora o mundo continua igual e sei que mesmo ali as fronteiras estão traçadas, que as fãs que são mulheres ainda são vistas de lado, sei que ali o género está a ser tão policiado como em todos os outros lados. Mas depois há estes momentos, momentos em que eu – uma mulher sozinha – consigo ver um concerto rodeada de homens sem ser incomodada. Momentos em que estes homens se tocam e se abraçam e se beijam na cara, felizes, inebriados pela música, fascinados, alguns deles emocionados. Deixo-me ir e esquecer que existe um mundo lá fora em que nada é assim. O metal é uma música de emoções, de força, de luta, de revolução e é isso que o meu corpo quer ali. Canto e oiço as outras vozes ao meu lado. Por vezes há um daqueles momentos em que estamos silenciosamente a formar as palavras de uma música que nos toca e vemos que mais ninguém o está a fazer mas de repente lá está uma pessoa, algures, perdida como nós, com os olhos a brilhar e os lábios a formarem as palavras.

Os braços no ar, os dedos a formar o símbolo tão típico, um mar de gente de braços no ar com esse símbolo, os braços que se agitam ao ritmo da bateria, que ajudam a identificar quem conhece aquela música como o bater do seu próprio coração. As pessoas aos saltos, o fogo no palco, o calor das chamas a varrer-nos o rosto, os cabelos a agitar-se no ar e ninguém se importa, o headbang é contagiante, os braços, os saltos, pegam-se, propagam-se como fogo. As letras são dramáticas, diabólicas, sim, outras são belas, enternecedoras, românticas, todas elas reflectem alguma coisa sobre este mundo, a forma como vivemos. Não sei explicar porque é que o metal me faz sentir assim. Talvez seja por parecer falar apenas comigo e ao mesmo tempo dizer-me que não estou sozinha, que ali estão pessoas como eu que entendem, e mesmo que não entendam, não faz mal, porque a música já entendeu e já me disse algo, já me deu algo, já me levou para longe, já me deu bálsamo para a dor, já me salvou, já me acompanhou, já me saciou e já me deixou livre. São só momentos. Mas são momentos em que tudo faz sentido e em que relembro porque é que metal é para mim a melhor música do mundo. Hoje fez de novo sentido e ali, sozinha, com centenas de pessoas, encontrei-me de novo – ainda sou eu. E hoje levei-me a um concerto.

ef53d1576e67ee6673819b213dff1103.jpg