não sou uma escritora

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Nunca me vi como escritora, mas sim como uma pessoa que escreve. Há uma real diferença entre estas duas coisas, para mim.

Eu que me reclamo com tantas identidades, nunca senti que pudesse reclamar esta para mim. Parece um pouco convencido estar a escrever sobre o facto de não ser escritora, para depois toda a gente me dizer que se escrevo sou escritora. Mas não sou. Eu tenho muito medo de me pensar como escritora, nunca me atreveria a tal. E não, não estou a falar destes textos, nem deste blogue, nem do que escrevo como activista – esses são os meus textos vivos, cá fora, desabafos mais que outra coisa, como este aqui. E também não me fazem escritora, são só a minha ferramenta de activismo e visibilidade e eu sei que sou boa com palavras e por isso uso-as.

Estou a falar de ficção, daquela que eu não escrevia há mais de sete anos e que foi a minha vida desde os 12 anos até aos 20 e poucos. Estou a falar da ficção que escrevo, e que é algo gigantesco na minha vida, mas que poucos leram e da qual estive afastada durante muitos anos.

Não há nada, nada, que eu goste mais de fazer do que escrever. Não há nada, nada, nada no mundo para mim que se compare a estar a escrever ficção.

Escrever ficção é muito estranho, não é como outras coisas que adoro fazer, não é como adorar ler, não. Escrever ficção para mim é uma obsessão, um sofrimento, um trabalho, um prazer alucinante e a coisa mais absorvente da minha vida.

Muitos diriam, então és uma escritora, isto é a tua grande paixão de vida. Sim, poderia ser, mas eu não me sinto digna, não sinto que estou lá, no mesmo nível de quem eu admiro como escritora, não, jamais. Eu, usar um mesmo termo para me descrever do que a Virginia Woolf? A J. K. Rowling? Estão loucos?!

Sim, não há nada no mundo que seja como escrever, para mim. Nenhum amor, nenhuma actividade, nenhuma sensação, nenhum trabalho, nada nada nada é como escrever ficção. Quando escrevo ficção eu não estou aqui. Ausento-me durante horas, perco noção do meu espaço, do meu tempo, da fome, da sede. Alucino, sim, alucino e eu sei que isto parece convencido, parece cliché, mas a verdade é que eu deixo de vos ver, vocês, pessoas da realidade, com quem me cruzo. É-me mais real aquele mundo em que passo a viver, que criei, que não existe se não na minha cabeça onde é realidade. E eu vejo-as, vejo aquelas pessoas que criei, sei como elas falam, o que vão fazer a seguir, vejo-as a olhar para mim e às vezes sei como elas reagiriam a qualquer coisa que eu diga. Enquanto as vejo, consigo continuar a escrever. O problema é quando paro subitamente de as ver e aí sei que aquela história morreu.

Às vezes vejo-as quando estou a tomar banho. Um flash e sai uma cena completa para a mesa do canto. Às vezes deito-me e antes de dormir, lá está, o puzzle monta-se sozinho. A caminho do trabalho, anoto diálogos inteiros, sei como uma porta é fechada, oiço a resposta perfeita, encontro o ritmo da frase, descubro o fim de um capítulo.

Nunca consegui perceber como é que há pessoas que não têm ideias, eu consigo ter ideias com base num papel no chão, aliás nem precisava do papel, bastava o chão mesmo ou o nada, mas isso é o mais fácil. O problema para mim não são as ideias, essas há aos pontapés e por isso é que para mim aqueles cursos de olhar a página em branco e vomitar qualquer coisa para lá não me assustam porque eu gostaria de ter uma outra vida só para as ideias que tenho.

O que me assusta verdadeiramente, o que é realmente difícil para mim não são as ideias, é a sequência, a coerência, a forma como as coisas encaixam umas nas outras, como as cenas se seguem numa lógica, numa semelhança com a realidade, mesmo que seja uma realidade surreal ou mágica, ou com regras que contrariam a lei da gravidade. O que interessa é que ali funcionem. O que é verdadeiramente difícil e aterrorizante é continuar. Continuar a ver aquelas pessoas e conseguir chegar ao fim com elas com o mesmo fôlego e entusiasmo com que comecei. O difícil é não as perder, não desistir, é continuar a vê-las, a senti-las e levá-las comigo até ao fim da sua própria história. E depois reler-me e corrigir-me e não me crucificar – mas eu acho que é impossível não o fazer.

Escrever ficção é para mim a coisa mais difícil do mundo – não é nada como escrever textos para este blogue, ou como falar em público (mesmo que eu fique tímida e com vontade de desaparecer), não é nada como fazer activismo e dar a cara, oh não. Escrever ficção é a pior coisa do mundo e é a coisa que eu mais amo no mundo. E por isso eu não sou escritora. Parece-me impossível ser escritora, com a minha ficção guardada na gaveta. E não, as minhas pastas de textos, os meus livros incompletos não são bons. Falta-lhes a estrutura, a completude, como a mim me falta. Será que algum dia vou ser escritora? Eu desisti de acreditar nisso. Estive incapaz de escrever ficção durante os últimos sete anos. Deixei de as ver, perdi-as, todo um mundo que criei foi pelo cano abaixo – e não, eu não vou lá buscá-las, obrigada. É bonito dizer: não desistas, volta, tenta de novo, continua. Mas não quando eu sinto que aquele mundo está morto. Durante anos pensei que não conseguiria pegar noutro, tenho demasiado medo de que também esse vá morrer. E sentia-me seca. Ocupei-me a viver e parece que não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ou bem que vivo, ou bem que escrevo e escrever substitui-me a vida, ponto.

Essa é a verdadeira página em branco para mim. O medo terrível de me apaixonar loucamente por um mundo e de o ver a morrer outra vez, o medo terrível de passar anos a viver num lugar, num tempo e com pessoas que vão desaparecer e morrer. E sim, eu sei que é como a vida e ainda aqui estou.

Há pouco tempo, não sei como, peguei noutro mundo. Este já estava feito – não fui eu que o fiz, eu só peguei nas personagens emprestadas e escrevi as cenas que vi reais dentro da minha cabeça. Ainda estou a lutar com esse mundo, porque sim, escrever ficção é uma luta solitária – e isso é outra coisa importante, é que eu só consigo escrever se estiver sozinha, quase como se não tivesse espaço mental e emocional para pessoas e personagens ao mesmo tempo. Quando escrevo estou o mais sozinha possível, mas não me sinto sozinha porque a noção de tempo desaparece e só nos sentimos sozinhos quando sentimos o tempo, ou não? Por enquanto ainda as vejo, estas personagens emprestadas com que estou a brincar. Há muito tempo que não sentia isto, é como estar a apaixonar-me de novo, numa autêntica NRE (New Relationship Energy) com a escrita, e sim, a escrita é um grande amor da minha vida. Morro de medo de deixar de as ver, de esta torrente ir parar abruptamente de novo e me deixar vazia. É um risco que corro, como tudo o que vale a pena na vida.

Só escrevi este texto aqui para me lembrar a mim mesma disto, porque de alguma forma me deixei esquecer nos últimos anos. Não me sinto digna de ser escritora porque escrever é a coisa mais séria da minha vida. E um dia, talvez, venha a ser mesmo a minha vida.

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