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Ele tem cenas, tu não

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Está quase a fazer um ano desde que estou sozinha, sem estar ou procurar estar numa relação romântica. No silêncio que a ausência de um interesse romântico deixa vago, abriu-se um espaço de possibilidades e a consciência da quantidade enorme de coisas que nós, mulheres, deixamos de fazer e ser quando estamos numa relação. Não vou fazer uma enumeração porque vocês provavelmente sabem do que estou a falar. Mas experimentemos: parem de ler e pensem em 3 coisas para as quais deixaram de ter tanto tempo como gostariam, desde que estão com alguém numa relação romântica.

Já está?

Se for difícil, estiverem muito apaixonadas e naquela fase inicial da relação em que só vos ocorre tudo o que de maravilhoso fazem a dois, então façam este exercício: imaginem que a relação acabou há 3 meses e pensem no que estariam a fazer neste preciso momento.  

Partilho as minhas: ler, escrever, ouvir música com headphones.

Todas elas passei a fazer menos ou nada quando estive em relações. Todas elas voltaram a ter primazia na minha vida desde que estou sozinha. Se vos disser que as 3 coisas acima são as que mais gosto de fazer, acho que percebem o problema.

Mas claro, não é assim tão simples.

E por não ser, vou-vos falar das minhas amigas e de relações heterossexuais. Nenhuma das minhas amigas é heterossexual e, no entanto, quase todas elas têm relações com homens neste momento. E as relações heterossexuais (ou vistas enquanto tal) têm na vida delas (e na minha) um impacto significativo.

Facto importante para esta história: todas as minhas amigas são mulheres feministas, independentes e fortes. Tal como eu.

 

“Liguei-lhe. Afinal já não vamos estar juntos hoje, porque surgiram cenas e ele vai estar com um amigo. Diz que aparece aqui amanhã.”


Soa familiar?

Quando ele diz que tem cenas, que é como quem diz, coisas para fazer, coisas dele, isso não quer dizer que ele não gosta de ti. Bom, até pode querer dizer isso, mas a grande maioria das vezes não quer dizer isso.

Só quer dizer uma coisa: ele, ao contrário de ti (de mim), foi ensinado a gostar dele próprio. Antes de mais nada.

Ele, ao contrário de ti (de mim), sabe que as “cenas” dele têm importância, que vêm primeiro. E ele até gosta de ti, mas a questão é: ele, ao contrário de ti (de mim), gosta dele primeiro. Só depois é que ele gosta de ti. Por isso ele tem “cenas”. “Cenas” quer dizer que ele tem uma vida além de ti e que essa vida é inalienável. Que nada se sobrepõe a ela.

Também quer dizer o seguinte:

Ele, ao contrário de ti (de mim), foi ensinado que isto é válido. Que isto não faz dele egoísta, pelo contrário. Estas “cenas” são o que fazem dele quem ele é. Nada é mais importante que o seu tempo pessoal, que os seus amigos, que os seus planos. E se, lá no meio disso, der para encaixar estar contigo, então óptimo. Se não der, então paciência, há-de dar no dia a seguir, tu podes, não podes?

E mesmo que não possas, passas a poder.

A diferença entre ti e ele é apenas esta: ele sabe que o tempo dele é dele por direito. Ele sabe que o tempo dele não precisa de argumentos ou justificações, que a única coisa que é preciso é que seja dele. É que ele, ao contrário de ti (de mim), foi ensinado a gostar de si mesmo. E aprendeu.

Reparem como, para ele, isto nem sequer é um assunto. Como não se justifica porque não há nada para justificar. Como não fica a remoer. Como não se culpa. Como assume que é okay a vossa combinação passar para o dia seguinte, sem problemas. E como vocês (eu) correm a mudar todos os planos do dia seguinte para poderem estar com ele, porque a outra opção é não o ver mais essa semana e vocês (eu) não querem isso.

Querem estar com eles, mais do que querem estar com vocês mesmas.

Um homem é sempre a sua própria prioridade. A lógica por detrás da forma como organizam o seu dia são eles mesmos e nunca os outros. E reparem, também, como eles dispõem do vosso tempo à vontade. Porque o vosso (meu) tempo existe para isso. É sempre o tempo da relação. E a escolha injusta, terrível é vossa (nossa). Vais prescindir de estar com ele, como uma espécie de castigo a ti mesma? Vais, à laia de vingança, dizer não e ficar o resto da semana triste, porque afinal já não vais estar com aquela pessoa de quem gostas? Ou vais engolir o sapo e fazer o possível para que dê? E vejam aqui como as vossas (nossas) opções nunca são leves ou simples. Se calhar o que gostaríamos era de dizer: olha, agora quem não pode sou eu. E íamos à nossa vida. Mas o problema está aí. Nós já o fizemos ser parte importante da nossa vida. Ele já está sempre, a todo o momento, a ser equacionado como parte da nossa vida. Ir à nossa vida já o implica a ele. E ele não está nem aí.

A sociedade aprova que ele tenha as suas “cenas”. Toda a gente compreende que um homem tenha o seu espaço, o seu tempo, os seus amigos, as suas saídas. Esse espaço e esse tempo têm valor. Teoricamente toda a gente compreende isso numa mulher, mas na prática… bom, a prática não se compadece muito dos discursos politicamente correctos. A prática é a seguinte:

Nós, mulheres, nunca temos “cenas”.

Ou melhor, até temos. As nossas cenas envolvem quase sempre, outros. Eles, claro. E depois, toda a gente e mais um par de botas. Se sobrar algum tempo depois disso, aí talvez esse seja nosso.

Se és mulher sabes que as tuas “cenas” são facilmente alteráveis, desmarcadas, adiadas. Sabes que o tempo que te sobra a ti é escasso, condicionado aos momentos em que outros não estão a precisar de ti. Sabes que o tempo que tens para ti te parece (e o sentes), quase sempre, como roubado a outrem. É um tempo que experimentas sempre com culpa. Ou são os filhos a que não estás a dar atenção, ou os pais que ignoraste, ou o namorado com quem não estiveste, ou a amiga que não ouviste ou o favor que não fizeste. O espaço de uma mulher é compreendido se for para outro alguém usufruir dele: namorados, maridos, filhos, pais, famílias, idosos. Conheço uma mulher – uma mãe – que lê no carro, estacionada em frente a casa, porque esse é o único momento do dia em que o consegue fazer sem ser interrompida. Se for para casa, lá estarão o marido e três filhos para encher o seu espaço e tempo. Este tempo é retirado aos filhos, à casa, não é dela. É um acto ilícito. Feito a coberto. Pleno de culpa.

O nosso espaço é o espaço da relação com (todos) os outros.

Nunca é nosso. Nunca é da tua relação contigo mesma.

Essa, nós já sabemos como se quer: inexistente.

E nós: disponíveis, acima de tudo.

Todas as mulheres incrivelmente fortes que conheço são pessoas fantásticas sozinhas. Mas quando aparece alguém nas vidas delas, elas diminuem-se. São outras. Não deixam de ser as minhas amigas, mas reduzem-se sempre de algum modo. Lentamente, mas de forma constante, as suas “cenas” deixam de ser suas. As suas conversas focam-se mais neles. Os seus tempos-livres cruzam-se com os deles quase sempre. O seu tempo passa a ser gerido em volta do tempo deles e do estar com eles. As suas preferências passam a ter as deles em conta. Os seus tempos comigo são interrompidos por conversas com eles. O seu humor, a forma como se sentem, passa a ter tudo a ver com o que acontece com eles. Quando um homem aparece nas nossas vidas deitamos tudo ao ar para viver um possível grande amor. Ele não. Porque ele aprendeu a lição: ele é o seu grande amor.

E eu? Eu fiz exactamente isto tudo que acabei de descrever. Eu sou elas também. Durante a maior parte da minha vida adulta, eu fui assim. Meses depois de ter acabado com todas as minhas relações, meses depois desta desintoxicação, começo a sentir o abismo de diferença, não apenas em mim, mas nelas.

Porque a coisa realmente cruel é que, quando as minhas amigas amam, amam-se menos a si mesmas. São menos elas mesmas. Por um lado, parecem felizes, intensas, sorridentes. Mas também caem mais facilmente na absoluta infelicidade, de um momento para o outro. Do tudo para o nada em segundos. Uma ausência de resposta dele, a mensagem a que não respondeu, o telefonema que não fez, uma mudança de planos de última hora, o tudo ou o nada que ele faça muda irrevogavelmente quase tudo. Estes homens, que estão com as minhas amigas, têm o poder de lhes mudar o dia com quase nada. Aliás, nada – o que eles não dizem, não fazem, as coisas que não lhes ocorrem – são precisamente aquilo que as pode fazer passar de um bom dia, para um dia mau. É o que desequilibra a frágil balança das vidas que fazemos para os outros.

E tudo porquê? Porque elas (eu) já fizeram o seu dia à volta daquela pessoa, assim como os sonhos e o seu possível futuro. Porque não importa o quão feministas somos, quão independentes, quão adultas. Temos a lição bem estudada: cuidar dos outros, viver para os outros, ajudar os outros. Estar lá para quem amamos.

Ele deu prioridade à vida dele. Tu deste prioridade a ele, como sempre te ensinaram a fazer.  E não, ele já não é a tua vida como o teu avô foi a vida da tua avó, o centro das suas rotinas, tarefas e responsabilidades. Não, ele não é a tua vida. Ainda não. Mas para lá caminha. Porque na tua cabeça ele já é parte central da tua vida. Tu já fizeste espaço para ele, lentamente já começaste a rearranjar tudo à tua volta, quase sem notares, de forma que os teus planos e horários consultam os dele primeiro e já começaste a encher os teus tempos livres de coisas que com ele se relacionam. Tu vais estar sempre a dar mais, porque no fundo vocês estão a dar coisas diferentes. Tu deste tudo, ele está a dizer-te que existe uma coisa que ele não dá e que é a vida dele. Ele não se vai anular por ti. E tu – tu não tens ferramentas para fazer outra coisa.

Poderíamos ver isto como algo extraordinário, que demonstra como as mulheres têm a capacidade única de pensar fora do seu umbigo, de ter empatia. Esta força poderia mudar o mundo. Em vez disso, é a perversão desta força que mantém o mundo exactamente como ele é. Por sistema, este olhar para fora significa que nunca olhamos para dentro. Que tal não nos é permitido. Quanto mais damos de nós a outros, mais afastadas acabamos umas das outras. Porque o que acontece quando as minhas amigas têm namorados é que eu tenho menos delas. Eu, que em todo o caso as conheço há bem mais tempo que qualquer um dos namorados e que muitas vezes ainda cá estou depois de eles já terem passado à história da vida emocional delas – eu passo a ser a estranha e desconhecida. Eu passo a ser a pessoa que vêm de vez em quando. Porque aquilo que todas nós um dia tememos que acontecesse, acontece de facto. As pessoas vão viver as suas vidas e aos 30 anos as suas vidas são a casa e o companheiro/filhos. As suas vidas já não são as amigas. O desejo profundo de sermos amadas afasta-nos de quem nos ama – de quem é também a nossa vida emocional.

Na presença de outros, o nosso impulso, bem treinado, reforçado é a nossa profunda, brutal anulação.

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Primeiro tens que gostar de ti: eis um pensamento que está muito em voga, mas cuja prática não podia ter caído mais em desuso entre mulheres. Em tudo quanto é blogue lá o vemos, no Pinterest colecionamos versões dele, no Instagram mostramos ao mundo o que fazemos com o tempo para nós. Criamos todo um discurso à volta de algo que ou não fazemos realmente, ou implica uma autêntica revolução nas nossas vidas, que vai muito além de partilhar uma imagem bonita.

Gostar de ti implica muitas coisas desagradáveis. Implica conheceres-te e para te conheceres precisas de passar imenso tempo só contigo. Sem te tentares distrair de ti mesma. Implica aprenderes a estar sozinha e não apenas sozinha à espera que aconteça alguma coisa que mude esse teu estado, ou sozinha à procura de alguém novo. Também não implica cuidares de ti ou gostares de ti para que alguém repare nisso e se apaixone por quem és. Não é algo que estás a fazer para outra pessoa. O objectivo não é o outro mas tu mesma.

Mas nós mulheres não estamos habituadas a pensar que somos o nosso próprio objectivo. A nossa própria pessoa especial. Todas conhecemos esta ideia, todas a repetimos a nós mesmas, numa luta constante entre a mulher que gostávamos de ser e a que somos na prática. Tudo isto parece óbvio. Tudo isto é fácil de dizer.  

Não é fácil de fazer. Implica pensares em ti e só em ti. Implica também que te vais sentir sozinha. E que vais ter que lidar com isso. Que te vais sentir egoísta. E que vais ter que lidar com isso. Que outros te vão dizer (ou pensar) que és egoísta. E que vais ter que lidar com isso. Que vão existir noites em que vais querer tudo menos isso. E que vais ter que lidar com isso.

O que eu tenho feito este ano é: deixar de responder a mensagens; ausentar-me durante horas porque estou a ler ou a escrever; não dizer boa noite a ninguém, por regra, antes de me deitar; não ficar a tentar ajudar quando nem em mim consigo pensar; dizer: agora não posso, estou ocupada. E não interessa se o meu ocupada é: estou sentada em cima das mãos sem fazer nada – é válido que eu decida fazer nada com o meu tempo. Nada é melhor do que o tempo que tenho tido só para mim, absolutamente meu e não partilhável. Não traduzível para compreensão de outrem, não capitalizável. Mas eu sei que ainda não aprendi a lição: sei que nunca respeitaria este tempo para mim se tivesse alguém. Se me apaixonasse. Não é um ano que me (nos) vai mudar. Mas é um princípio.

No meio da tua solidão vais encontrar-te a ti. Vais também encontrar muitas coisas que não gostas. Se calhar precisamos muito de nos perguntar porque é que toda a gente é sempre mais importante que nós. Porque é que quando temos namorado o tempo que é nosso passa a ser a excepção e não a regra. Porque é que nos sentimos culpadas sempre que assim não é. Porque sim, cada vez que eu não respondo a uma mensagem, sinto-me egoísta. Cada vez que não estou lá para dar um ombro, sinto-me má pessoa. Cada vez que digo estou ocupada sinto que podia ter feito um esforço maior. À minha volta a sociedade, na voz de gente bem intencionada e necessitada de ombros, corrobora a minha culpa. A minha mãe corrobora a minha culpa. As pessoas que mais nos amam corroboram a nossa culpa. E eles corroboram a nossa culpa sempre que, por algum motivo, não os apoiamos.

Mas ao mesmo tempo vais abrir um espaço que nunca esteve lá e, se estiveres disposta a não o encher com palha, vais ter a oportunidade de gostar tanto de ti que, quando vier a próxima pessoa, se calhar já gostas tanto do que descobriste que não estás disposta a prescindir nem um bocadinho disso. Tal como eles.

Essa pessoa que vai gostar de ti de forma incondicional precisas de ser tu. E tu tens que saber que, mesmo que mais ninguém no mundo aprecie o prazer da tua companhia, tu aprecias e isso é suficiente.  

 

Como esta história acabou:

“Olha, ainda bem que ele não veio hoje.

Acabou por ser um dia importante.

Tratei de imensa coisa.

Lavei roupa. Falei com o senhorio e fui tomar café com um amigo.

Falei imenso contigo

E à noite estive a escrever.”

 

E por ela ter falado comigo, eu escrevi este texto.

Porque quando nós temos tempo para nós, só para nós, podemos tudo.


Imagens: willowing.org http://bit.ly/2yTXQYQ; http://bit.ly/2AWcctq

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