Monthly Archives: Dezembro 2017

os meus amigos, a depressão e eu.

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Está a chegar ao fim mais um ano. Healing is not linear foi a frase que mais me acompanhou ao longo do ano em que mudei quase todas as linhas-mestras da minha vida, me debati com depressão, iniciei terapia e não deixei quase nada igual. Ainda me importo com o ano que aí vem, embora tenha vivido dois dos piores da minha vida. Suponho que quer dizer alguma coisa, eu ainda querer saber de 2018, mesmo que às vezes não me apeteça sair da cama, ou mexer-me ou ver pessoas.

Quando me sento com a minha solidão, consigo traçar uma linha que me levou até aqui, que me fez sobreviver mais um ano, mesmo que não haja ainda luz ao fundo do túnel. Há uns dias vi esta frase e pensei que fazia sentido: “There comes a point where you no longer care if there’s a light at the end of the tunnel or not. You’re just sick of the tunnel” – Ranata Suzuki. Partilhei-a porque às vezes eu gostava mesmo de acreditar nisto. De não querer saber se há a tal luz ou não. Por algum motivo que eu desconheço nunca consegui não querer saber. Nunca consegui convencer-me a desistir. E às vezes odeio isso.

Durante este ano amaldiçoei muitas vezes a minha resiliência. Aquela que me fez ir todos os dias para o trabalho, apesar da angústia, da ansiedade, das insónias, da vida a desmoronar-se. Aquela que me fez continuar a responder a mensagens de amigos, a estar em algumas ocasiões, a não desaparecer de vez. Aquela que me fez de novo refugiar-me na escrita e dar ainda alguma coisa de mim, como se fosse uma fina linha de um pano a desfiar, desfiar, mas que afinal estava a fiar, a tecer uma tapeçaria maior que eu, onde encontrei também outras pessoas de passagem, a tecer, a ler, a escrever, a chorar.

Eu às vezes odeio a minha resiliência. Odeio-a porque ela vos diz que eu vou sobreviver. Que eu vou sempre continuar. Que no fim do dia, por mais sozinha que eu me sinta, por mais horrível que seja a noite, por pouco que eu durma, vocês (e eu) sabemos que me vou levantar no dia seguinte e fazer o que é suposto. Eu vou voltar a responder, mesmo que não seja logo, eu não vou desaparecer um dia inteiro, eu vou sempre ter uma nova ideia ou força vinda não sei de onde. Quase como se eu não soubesse realmente fazer outra coisa. E às vezes eu gostava de não conseguir.

Tenho esta visão de mim como uma pessoa forte. Sei que é a mesma visão que todos os meus melhores amigos têm de mim. Mas o que eles às vezes não sabem é que ser sempre a forte tem um preço muito alto. E que eu o pago sozinha, por muito que vocês estejam aí. Sei que não fazem por mal. É bom por um lado saber que vocês vêem o melhor de mim. A Inês é forte. Ela consegue. Ela vai dar a volta.

E uma e outra vez eu lá dou a volta, mais uma, mais uma. E estou sempre lá.

Só que às vezes eu não queria estar. Às vezes eu gostava de poder não ser a forte.

Sabem o que é mais estranho? É que eu escrevi este texto para vos dizer que não estão sozinhos. Sou eu, mais uma vez, a dar a volta, a fazer alguma coisa com esta dor, não permitir que ela se feche sobre mim e me consuma. A minha ideia era dar-vos alguma coisa com isto.

Porque todos os meus melhores amigos, neste momento, têm depressão. Todas as pessoas fundamentais da minha vida estão com a sua saúde mental num caco. Todas as minhas pessoas estão ou em terapia ou a precisar; ou a sair de relações abusivas ou infelizes no trabalho ou desempregadas. A minha geração, a chegar aos 30, ou já neles, está sem dinheiro, precária, sem possibilidades de seguir sonhos, sem sonhos até e a lutar com problemas de saúde mental.

Muitos dos meus amigos estão em situações terríveis e eu só posso ver e ir dando o que posso, mas no fim não consigo fazer nada. Muitos de vocês estão em situações que eu sei que não conseguiria aguentar e de alguma forma vocês já sobreviveram a tanto e ainda aqui estão. Alguns de vocês estão de certeza a passar por coisas que eu nem imagino. Eu não sei toda a vossa história e vocês não sabem a minha, mas sei que estamos vivos. E todos os que já não estão – eu não sou melhor que eles. Eles, como eu, como vocês, fizeram tudo o que podiam. Não acho que sejam os desistentes. Acho que somos todos lutadores.

E eu não quero ser forte sempre, não quero, quero ir-me abaixo, mas mesmo indo, quero dizer-vos que não estão sozinhos. Eu vejo-vos. Cada um de nós está a fazer o melhor que pode.

Eu vejo-vos, eu vejo-vos, eu vejo-vos.

Eu vejo-vos na escuridão.

Também estou aqui.

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