não quero sentir que sou demasiado

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Percebi hoje que em todas as relações românticas que tive houve sempre momentos em que me senti demasiado.

Ou demasiado tímida, ou demasiado intensa, ou demasiado infantil, ou demasiado exagerada, ou demasiado ansiosa, ou demasiado controladora, ou demasiado indiferente, ou demasiado egoísta, ou demasiado querida, ou demasiado exigente, ou demasiado impaciente, ou demasiado. Demasiado.

Demasiado eu?

Como todas as mulheres, eu fui ensinada a estar atenta aos momentos em que posso ser demasiado. Ou as pernas demasiado abertas, ou a saia demasiado subida, ou os lábios demasiado pintados, ou as unhas demasiado grandes, ou o riso demasiado alto, ou o decote demasiado acentuado, ou as tatuagens demasiado visíveis, ou os pelos demasiado compridos, ou o choro demasiado alto, ou a voz demasiado alta, ou a postura demasiado assertiva, ou as ideias demasiado fixas, ou as opiniões demasiado expostas. Neste mundo com milhares de milhões de humanos, há sempre alguém, algures, disposto a dizer-nos aquilo que está errado em metade dessa humanidade, especialmente aquilo que está a mais. E nós ouvimos. A todo o momento estamos atentas àquilo que em nós pode ser demasiado. Nas relações com homens cis nós não queremos ser as chatas, as dependentes, as carentes, as intensas, as inseguras, as histéricas. Tentamos ser a quantidade exacta de mulher, nada mais, nada menos. Tentamos que fique tudo no sítio devido, desde as nossas opiniões à linha do nosso decote. Nem demais (puta), nem de menos (freira). Tentamos por tudo manter-nos numa zona qualquer que seja aceitável. Um nível de mulher aceitável. Aceitável para os outros, claro, que a nós ninguém nos pediu a opinião. As opiniões ficam do lado do demais, por isso tentamos ao máximo guardá-las para nós ou sermos as maiores especialistas do mundo no tema para, aí com um mínimo de segurança, nos arriscarmos a dá-las.

Eu estou cansada de fazer concessões à zona aceitável criada para mim, embora continue a passar a maior parte dos meus dias bem dentro dela. A vantagem de estar há algum tempo sem relações românticas é que, no silêncio e na solidão, começo a perceber o que quero e a única coisa de que tenho a certeza até agora é: eu não quero voltar a ser demais e eu não quero dar demais. Porque é que uma mulher tem que saber cuidar e dar apoio emocional e antecipar necessidades do seu companheiro, mas de um homem nunca podemos esperar isso? O que é verdadeiramente revolucionário nas relações entre pessoas do mesmo sexo é a possibilidade de existência de uma relação entre iguais. E sim, eu sei que na prática não é assim tão linear, mas a possibilidade está lá. Sei que continuei a ter alguns destes mesmos problemas em relações com pessoas do mesmo sexo, mas… mas é muito mais fácil isso acontecer numa relação homem/mulher cis porque o esquema está montado para isso.

Eu não quero ser de novo a pessoa que compreende, que procura contacto, que dá carinho, que fornece apoio, que pede desculpa primeiro, que tenta a reconciliação, que pensa em tudo, que tem a solução, que oferece as prendas mais românticas, que prepara jantares, que pensa sempre no que é preciso, que antecipa problemas e os resolve, que dá o ombro para chorar e os olhos para rever trabalhos e as suas ideias para que a outra pessoa consiga os seus objectivos de vida. E também não quero ser a pessoa que precisa de mais atenção, que precisa de mais tempo, que quer mais carinho, que diz mais o que sente, que faz grandes declarações patéticas. Não quero ter que pedir tudo, quero ser entendida e compreendida – e não, eu não estou a dizer que quero que me leiam a mente, mas sim que quero que os homens saibam o que é empatia e trabalho emocional e que se querem estar em relações então que aprendam a saber ouvir e a amar as pessoas com quem estão. Por uma vez, eu não quero ser a pessoa patética, quero que alguém seja patético por mim e não me faça sentir demasiado.

As minhas necessidades básicas não têm que ser tratadas como se fossem exigências do outro mundo. Ou como a Penny Reid disse (mais ou menos assim): eu não tenho que arder até às cinzas, para aquecer outrém. Porque se eles são suficientes, com os defeitos que têm, nós também temos que ser.

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About Fhrynne

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