Monthly Archives: Dezembro 2018

No próximo ano, aborrece-te.

birch-moon.jpg

Há quem diga que para ouvires a tua própria voz, precisas de tirar o volume ao resto do mundo. Sim, o silêncio é importante. Assim como o tempo que passas sozinha. O aborrecimento também é importante. Tendemos a encher todas as horas do dia com qualquer coisa. É raro estarmos só a fazer uma coisa. Se estamos a cozinhar, estamos a ouvir música ou um podcast. A jantar ligamos a TV ou vemos a Netflix. No intervalo bebemos um café a fazer scroll no telemóvel. Antes de dormir estamos no instagram. No caminho para casa estamos sempre a fazer outra coisa que nos distraia de estar a viajar. Estamos sempre a fazer qualquer coisa que nos distraia de estarmos a viver. Fazemos isto não só para escapar ao aborrecimento, mas também porque temos medo de não ter tempo. O tempo está sempre a escapar-nos e por isso tentamos fazer o máximo de coisas que gostamos ao mesmo tempo. Lemos um livro a seguir ao outro, sem pausas no meio porque já não temos tempo de vida para a lista de livros por ler. Raramente nos deixamos ficar com o que o livro nos deu. Raramente nos deixamos voltar a ele. Vemos o filme enquanto comemos, porque sabemos que despachando as duas coisas ao mesmo tempo ficamos com mais tempo depois. No meio disto, o mundo faz muito barulho e é fácil calá-lo com alguma distracção. Só não é fácil ficar realmente em silêncio. Fora do mundo. Deixar que o aborrecimento nos leve a ouvir a nossa voz. Há coisas extraordinárias que acontecem quando estamos aborrecidas. É nessa altura que começamos a olhar para coisas que nunca veríamos se estivéssemos ocupadas, se tentássemos enganar o aborrecimento. É quando estou mais aborrecida e não me tento distrair que começo a criar. Já escrevi no banho. Não literalmente, claro, mas na minha cabeça. Algumas das minhas melhores histórias surgiram quando estou a lavar o meu corpo, sem fazer mais nada. Outras quando estou a ouvir música, sem fazer mais nada. Outras à espera do comboio, sem fazer mais nada. Outras em viagens longas, sem fazer mais nada. É nessas alturas que percebo que ouvir a minha voz não implica baixar o volume ao mundo, mas sim afinar-me ao som do mundo. É o equilíbrio entre estar sozinha e no mundo. Encontrar essa zona de atenção profunda e solidão profunda, simultaneamente dentro e fora. Não é ignorar os outros e virar eremita – posso estar enganada, mas penso que falta sempre qualquer coisa ao eremita. É, antes, mergulhar no mundo, nos livros, nos outros e depois sair, fazer uma retirada estratégica e procurar o aborrecimento e a solidão. 

É algo muito difícil para mim. Todos os momentos do meu dia são passados em interrupções à minha voz interior. Raramente conseguimos ficar um dia só a ouvir-nos e a solidão ainda assusta, ainda nos confronta demasiado com a possível tristeza, com a ansiedade de partilhar algo e não ter com quem o fazer, com o nosso discurso interno que tantas vezes não é sequer bom para nós. Mas, talvez por isso mesmo, o aborrecimento seja necessário. Quanto mais ouvimos a nossa voz, mais ela vai fluir. Quanto mais nos deixarmos ouvir o mundo, mais ele vai fazer parte de nós, em vez de ser simplesmente um lugar onde estamos de passagem. 

Fotografias e Tatuagens por Leonor Lima.

Este texto era suposto ser sobre o Yule, a lua cheia e as duas tatuagens que acabei de fazer: A Sacerdotisa (Arcano Maior do Tarot) e a árvore. Queria escrever sobre a importância de ouvirmos a nossa voz intuitiva e sobre como essa voz me salvou a vida. Para mim, este estar no mundo e ouvir a minha própria voz é representado pela Sacerdotisa que tatuei. Era suposto ser também um texto sobre a Lua da Bétula, que começa hoje no calendário celta e que se prolonga até 20 de janeiro. Para quem acredita no poder das sincronias, é fácil olhar para todos estes momentos – o Solstício de Inverno, a última Lua Cheia do ano, a Lua da Bétula, a celebração das festas e o virar do ano – e ver o momentum que os abarca a todos, a forma como todos estes acasos não são acasos.

Muitas pessoas associam a chegada do Inverno a um período negro ou mais depressivo, mas para mim o Inverno coincidiu sempre com momentos de renovação profunda. Foi no Inverno que nasci, foi no Inverno que iniciei relações amorosas e que as terminei, foi no Inverno que comecei a fazer terapia, foi no Inverno que cortei definitivamente com pessoas que me faziam mal, foi no Inverno que saí de casa, foi no final do Inverno que arranjei um novo emprego, foi no Inverno que me despedi da minha avó, foi no Inverno que tatuei a Sacerdotisa e a árvore. Todos os momentos de viragem na minha vida dizem respeito ao Inverno e este ano não foi excepção, até porque quando nos tornamos conscientes de um padrão, de um momentum, melhor o conseguimos canalizar e à sua energia para as mudanças que precisamos de fazer, quase se como o universo conspirasse. Estou a terminar o ano em cima de mais um ponto de viragem profunda: finalmente, estou a cortar com o padrão antigo; finalmente fiz o luto e percebi que afinal não perdi o que pensei que tinha perdido. Do outro lado da dor, encontrei o que ganhei e não sabia.

Foi por isso que este Inverno tatuei a Sacerdotisa, carta II do tarot. Esta carta passou meses a aparecer-me em leituras. Eu voltei este ano a estudar tarot, algo que tinha abandonado há muitos anos, na mesma altura em que abandonei a escrita e deixei de ouvir a minha voz. A coisa boa de ter voltado à minha voz, é que tudo o que ela mais valoriza voltou com ela e por isso eu voltei ao paganismo e voltei à escrita. Não sou de modo nenhum especialista em tarot, mas quero partilhar convosco a minha interpretação pessoal da carta Sacerdotisa, como desenhada na minha perna.

A Sacerdotisa está na fronteira entre os dois mundos. Ela está sozinha e no mundo. Ela está em silêncio, a ouvir a sua voz e a do mundo. Ela não desliga o sentir do pensar, não pensa sem sentir. Ela viaja entre os reinos do consciente e do inconsciente. Ela sabe que o mundo não é o que parece. Sabe, porque passa tempo sozinha, porque não se distrai do mundo. Sabe, porque sente o mundo e porque sabe o seu lugar nele. Ela está virada para dentro e para fora, na verdade, sabe que o dentro e o fora são uma mesma coisa, não existem um sem o outro. Ela é regida pela lua, mas não está sob a lua, ela é com a lua, ou seja, ela sabe trabalhar com a lua para obter o que deseja. 

Ela diz-nos para acedermos ao nosso próprio poder, ouvirmos a nossa voz, mesmo que ela seja minoritária, mesmo que ela não seja racional. Ela ajuda-nos a distinguir entre a voz dos nossos medos e a voz da nossa intuição. Para ouvirmos a nossa voz, temos que estar quietas. Temos que nos sentar com a nossa voz. Silêncio, noite, viagem, escrita, meditação. Ela diz-nos: olha o teu potencial. Todos esses sonhos, planos, ideias, olha para o teu imenso potencial. Tu tens tudo o que precisas, agora usa-o. Ela não te explica tudo, em vez disso, nós temos que fazer o caminho e mergulhar no mistério, ir como Perséfone até ao submundo e voltar. Ela pertence à noite e à escuridão. Nas nossas noites mais longas, sabemos que há sempre o dia seguinte. Como a dor da tatuagem na pele, há sempre o chegar ao outro lado – da margem, da noite, da dor – e saber que valeu a pena. Ela é coroada com um pássaro e as hastes do veado, símbolo do poder terreno, da renovação cíclica que é a nossa vida. O pássaro e as hastes são ar e fogo. Mas ela é também a serpente e a lua nas suas três fases. A serpente e a lua são terra e água. Todos os quatro elementos estão presentes. A serpente é a linha. Uma linha sem princípio nem fim, que quando se anima é capaz de criar todas as representações, gerar todas as metamorfoses. Ela é a completude, assim como a árvore que tatuei na outra perna. A árvore é um círculo. Tem raízes estendidas para o chão, ramos estendidos para o céu. Ela é enraizamento e voo. Assentar os pés na terra e olhar para o mundo. Deixar os ramos fluir com o vento e não se deixar quebrar.

Mas para não quebrarmos, há coisas que precisamos de fazer. Ouvirmos a nossa verdade, sozinhas. Darmos um passo de cada vez no sentido do que queremos. Tratamos de nós primeiro. Isso pode implicar pormos pontos finais em histórias que temos com algumas pessoas, em padrões que temos. Pode implicar irmos para a terapia. Pode implicar voltar atrás, para depois andar para a frente. Pode implicar voltar a acreditar em alguma coisa que deixamos que fosse perdida. Pode implicar ficarmos sozinhas durante tempo suficiente para sabermos quem somos e o que queremos dos outros. Nós, mulheres, passámos tanto tempo a ser o que os outros querem que sejamos, que muitas vezes não sabemos se isso é o que queremos ou outra coisa qualquer. Não conhecemos os nossos desejos, os nossos sonhos, duvidamos das nossas capacidades, mas quase sempre somos mais incríveis do que pensamos.

A única coisa que te desejo para o próximo ano é que te aborreças. Que oiças a tua voz de Sacerdotisa. 

Simbologia e interpretação do tarot inspirada em diversas fontes, abaixo indicadas:
  • Dicionário dos Símbolos, de J. Chevalier e A. Gheerbrant
  • Holistic Tarot, de Benebell Wen
  • Biddy Tarot
  • Labyrinthos
  • Learntarot
Anúncios