Author Archives: Fhrynne

About Fhrynne

queer. feminist. activist. lesbian. polyamorous. kinky. fairy. reader. bit antisocial. metal lover. feminist killjoy. aquarian. cat lover. polaroid and black & white photography lover. fantasy lover.

não sou uma escritora

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Nunca me vi como escritora, mas sim como uma pessoa que escreve. Há uma real diferença entre estas duas coisas, para mim.

Eu que me reclamo com tantas identidades, nunca senti que pudesse reclamar esta para mim. Parece um pouco convencido estar a escrever sobre o facto de não ser escritora, para depois toda a gente me dizer que se escrevo sou escritora. Mas não sou. Eu tenho muito medo de me pensar como escritora, nunca me atreveria a tal. E não, não estou a falar destes textos, nem deste blogue, nem do que escrevo como activista – esses são os meus textos vivos, cá fora, desabafos mais que outra coisa, como este aqui. E também não me fazem escritora, são só a minha ferramenta de activismo e visibilidade e eu sei que sou boa com palavras e por isso uso-as.

Estou a falar de ficção, daquela que eu não escrevia há mais de sete anos e que foi a minha vida desde os 12 anos até aos 20 e poucos. Estou a falar da ficção que escrevo, e que é algo gigantesco na minha vida, mas que poucos leram e da qual estive afastada durante muitos anos.

Não há nada, nada, que eu goste mais de fazer do que escrever. Não há nada, nada, nada no mundo para mim que se compare a estar a escrever ficção.

Escrever ficção é muito estranho, não é como outras coisas que adoro fazer, não é como adorar ler, não. Escrever ficção para mim é uma obsessão, um sofrimento, um trabalho, um prazer alucinante e a coisa mais absorvente da minha vida.

Muitos diriam, então és uma escritora, isto é a tua grande paixão de vida. Sim, poderia ser, mas eu não me sinto digna, não sinto que estou lá, no mesmo nível de quem eu admiro como escritora, não, jamais. Eu, usar um mesmo termo para me descrever do que a Virginia Woolf? A J. K. Rowling? Estão loucos?!

Sim, não há nada no mundo que seja como escrever, para mim. Nenhum amor, nenhuma actividade, nenhuma sensação, nenhum trabalho, nada nada nada é como escrever ficção. Quando escrevo ficção eu não estou aqui. Ausento-me durante horas, perco noção do meu espaço, do meu tempo, da fome, da sede. Alucino, sim, alucino e eu sei que isto parece convencido, parece cliché, mas a verdade é que eu deixo de vos ver, vocês, pessoas da realidade, com quem me cruzo. É-me mais real aquele mundo em que passo a viver, que criei, que não existe se não na minha cabeça onde é realidade. E eu vejo-as, vejo aquelas pessoas que criei, sei como elas falam, o que vão fazer a seguir, vejo-as a olhar para mim e às vezes sei como elas reagiriam a qualquer coisa que eu diga. Enquanto as vejo, consigo continuar a escrever. O problema é quando paro subitamente de as ver e aí sei que aquela história morreu.

Às vezes vejo-as quando estou a tomar banho. Um flash e sai uma cena completa para a mesa do canto. Às vezes deito-me e antes de dormir, lá está, o puzzle monta-se sozinho. A caminho do trabalho, anoto diálogos inteiros, sei como uma porta é fechada, oiço a resposta perfeita, encontro o ritmo da frase, descubro o fim de um capítulo.

Nunca consegui perceber como é que há pessoas que não têm ideias, eu consigo ter ideias com base num papel no chão, aliás nem precisava do papel, bastava o chão mesmo ou o nada, mas isso é o mais fácil. O problema para mim não são as ideias, essas há aos pontapés e por isso é que para mim aqueles cursos de olhar a página em branco e vomitar qualquer coisa para lá não me assustam porque eu gostaria de ter uma outra vida só para as ideias que tenho.

O que me assusta verdadeiramente, o que é realmente difícil para mim não são as ideias, é a sequência, a coerência, a forma como as coisas encaixam umas nas outras, como as cenas se seguem numa lógica, numa semelhança com a realidade, mesmo que seja uma realidade surreal ou mágica, ou com regras que contrariam a lei da gravidade. O que interessa é que ali funcionem. O que é verdadeiramente difícil e aterrorizante é continuar. Continuar a ver aquelas pessoas e conseguir chegar ao fim com elas com o mesmo fôlego e entusiasmo com que comecei. O difícil é não as perder, não desistir, é continuar a vê-las, a senti-las e levá-las comigo até ao fim da sua própria história. E depois reler-me e corrigir-me e não me crucificar – mas eu acho que é impossível não o fazer.

Escrever ficção é para mim a coisa mais difícil do mundo – não é nada como escrever textos para este blogue, ou como falar em público (mesmo que eu fique tímida e com vontade de desaparecer), não é nada como fazer activismo e dar a cara, oh não. Escrever ficção é a pior coisa do mundo e é a coisa que eu mais amo no mundo. E por isso eu não sou escritora. Parece-me impossível ser escritora, com a minha ficção guardada na gaveta. E não, as minhas pastas de textos, os meus livros incompletos não são bons. Falta-lhes a estrutura, a completude, como a mim me falta. Será que algum dia vou ser escritora? Eu desisti de acreditar nisso. Estive incapaz de escrever ficção durante os últimos sete anos. Deixei de as ver, perdi-as, todo um mundo que criei foi pelo cano abaixo – e não, eu não vou lá buscá-las, obrigada. É bonito dizer: não desistas, volta, tenta de novo, continua. Mas não quando eu sinto que aquele mundo está morto. Durante anos pensei que não conseguiria pegar noutro, tenho demasiado medo de que também esse vá morrer. E sentia-me seca. Ocupei-me a viver e parece que não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ou bem que vivo, ou bem que escrevo e escrever substitui-me a vida, ponto.

Essa é a verdadeira página em branco para mim. O medo terrível de me apaixonar loucamente por um mundo e de o ver a morrer outra vez, o medo terrível de passar anos a viver num lugar, num tempo e com pessoas que vão desaparecer e morrer. E sim, eu sei que é como a vida e ainda aqui estou.

Há pouco tempo, não sei como, peguei noutro mundo. Este já estava feito – não fui eu que o fiz, eu só peguei nas personagens emprestadas e escrevi as cenas que vi reais dentro da minha cabeça. Ainda estou a lutar com esse mundo, porque sim, escrever ficção é uma luta solitária – e isso é outra coisa importante, é que eu só consigo escrever se estiver sozinha, quase como se não tivesse espaço mental e emocional para pessoas e personagens ao mesmo tempo. Quando escrevo estou o mais sozinha possível, mas não me sinto sozinha porque a noção de tempo desaparece e só nos sentimos sozinhos quando sentimos o tempo, ou não? Por enquanto ainda as vejo, estas personagens emprestadas com que estou a brincar. Há muito tempo que não sentia isto, é como estar a apaixonar-me de novo, numa autêntica NRE (New Relationship Energy) com a escrita, e sim, a escrita é um grande amor da minha vida. Morro de medo de deixar de as ver, de esta torrente ir parar abruptamente de novo e me deixar vazia. É um risco que corro, como tudo o que vale a pena na vida.

Só escrevi este texto aqui para me lembrar a mim mesma disto, porque de alguma forma me deixei esquecer nos últimos anos. Não me sinto digna de ser escritora porque escrever é a coisa mais séria da minha vida. E um dia, talvez, venha a ser mesmo a minha vida.

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liberdade, headbang e metal

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Acabo de vir de um concerto de metal. Não fui a centenas, mas já fui a muitos. Mas pela primeira vez fui a um concerto sozinha. Não combinei com ninguém, embora soubesse que lá poderia encontrar muita gente que conheço. De facto sei que algumas pessoas que conheço estavam lá, mas não vi nenhuma nem fiz por isso. Fui sozinha. E foi incrível.

Não consigo explicar bem a sensação que me provoca a música, quando é música que gosto realmente, que me irrompe pelo peito adentro, se aloja em recantos do meu cérebro e me brota dos lábios – sim, parece exagerado, parece um ritual, mas para mim é isso que um concerto é quando é incrível. Um ritual, uma experiência mágica fora do tempo e do espaço, uma experiência única para cada pessoa mas vivida em conjunto, com desconhecidos. Eu no meio de desconhecidos não me senti sozinha. Estava ali sem ninguém porque queria estar e ao mesmo tempo estava acompanhada por pessoas apaixonadas pela mesma música que eu. Há qualquer coisa maior que eu nestes momentos e essa sensação de ser eu mas ser muitos é alucinante. Por umas horas, somos. Somos pessoas apaixonadas por aquela música que cada um interpreta como quer, que diz a cada um uma coisa diferente, mas é como se houvesse qualquer coisa de comum por baixo disso.

No meio de desconhecidos eu perdi-me e encontrei-me e foi como todos os concertos incríveis a que já fui, mas melhor. Não tinha que pensar em mais nada, nem mais ninguém, estava ali a passar tempo comigo. E ao mesmo tempo estava a partilhar aquele momento com pessoas que nunca vi na vida. Os concertos de metal são estranhos. Para qualquer pessoa que esteja de fora parece de facto um ritual esquisito, de gente marginal. Para mim é encontrar encontrar um lugar onde não sou estranha. Num mar de pessoas vestidas de preto, eu sou eu e não sou eu, sou só mais uma pessoa e ao mesmo tempo mantenho a minha individualidade.

Curiosamente, a experiência de estar em concertos de metal é para mim muito estranha, mas não pelos motivos que poderiam parecer a quem vê de fora. É que, nos concertos de metal, eu nunca fui assediada. Obviamente não tenho a ilusão de que isso não acontece, infelizmente sei que as mulheres não estão livres disso em lado nenhum. Mas para mim, felizmente, isso nunca aconteceu e na verdade muitas vezes experienciei a estranheza profunda de estar rodeada de homens e de masculinidade e essa masculinidade não me agredir. Sim, a heterossexualidade é retumbante, a masculinidade está lá e existe e actua, os homens dão em cima de mulheres também nos concertos de metal e tudo dentro do metal é organizado para manter as mulheres mulheres e os homens homens e nada ou muito pouco de ambiguidades. Mas depois a música e a própria cultura masculinizada do metal faz aqui algum trouble.

Olho à minha volta, neste concerto a que fui sozinha, a plateia é quase toda masculina, tenho homens enormes, altos, fortes à minha frente, atrás, ao meu lado. Há algumas mulheres e raparigas. Elas estão com os namorados, algumas como eu estão sozinhas, outras estão com amigas, outras estão com as namoradas – sim, estamos lá. Neste concerto em particular, estavam muitos mais homens que o habitual – a banda que fui ver só tem homens e isso reforça. Esta banda tem algo de particular para mim porque eu não oiço homens a fazer metal e estes são uma das poucas excepções. A minha política e paixão são as mulheres que fazem metal. Neste caso, fui ouvir homens e ver homens, rodeada de homens. Mas por estranho que pareça, estive num ambiente mais safe que o habitual no meu dia-a-dia. Estes homens, altos, sérios, vestidos de preto, que me rodeavam não me ameaçaram. Não. Pelo contrário, cada vez que sem querer me tocavam sem qualquer tipo de intenção – acontece num espaço apertado em que toda a gente está em movimento – pediram-me desculpa. Esqueci-os e perdi-me na música. Não sei explicar o headbang, nem porque o faço, sei que ali, no ritual-concerto, o corpo move-se, responde ao ritmo, à vibração e segue o seu caminho. Há qualquer coisa de surreal nesse movimento e no segundo em que levantamos a cabeça e sentimos outro ser humano ao nosso lado a fazer o mesmo e não o conhecemos mas naquele momento estamos os dois a vibrar com a mesma coisa. Levanto a cabeça e um rapaz ao meu lado está a fazer o mesmo que eu, olhar perdido e embevecido, olha para os seus heróis no palco. O seu olhar de adoração é apaixonado e eu rio por dentro desta terrível heterossexualidade e masculinidade que não é suficiente para roubar àquele rapaz o olhar de fascínio que lança aos homens no palco. Os amigos abraçam-no, ao rapaz. Um deles aproxima-se dele, feliz por o encontrar ali e afaga-lhe o cabelo com um carinho estranho e quase desfazado – mas ali, no ritual, faz sentido. Do meu outro lado, dois rapazes enormes estão a ter o concerto das vidas deles – percebo, pelos comentários. Há um momento em que se abraçam os dois e riem e depois passam algumas músicas abraçados, os corpos a moverem-se com a música, rindo e bebendo cerveja. Há um momento em que um diz ao outro: eu não te disse que era brutal? E beija-o no rosto, com entusiamo, o outro ri e diz: sim, pá, tens razão! Deduzo que são heterossexuais, claro. Há pouco pagaram duas cervejas a umas raparigas atrás de mim, uma delas mencionou ter namorado e eles, tudo bem, voltaram à música assim que o intervalo terminou. Gritavam pelos homens no palco – de repente parece que todos ali queremos aqueles homens do palco, não importa os nossos géneros. Eu sei que é só naquele momento, eu sei que lá fora o mundo continua igual e sei que mesmo ali as fronteiras estão traçadas, que as fãs que são mulheres ainda são vistas de lado, sei que ali o género está a ser tão policiado como em todos os outros lados. Mas depois há estes momentos, momentos em que eu – uma mulher sozinha – consigo ver um concerto rodeada de homens sem ser incomodada. Momentos em que estes homens se tocam e se abraçam e se beijam na cara, felizes, inebriados pela música, fascinados, alguns deles emocionados. Deixo-me ir e esquecer que existe um mundo lá fora em que nada é assim. O metal é uma música de emoções, de força, de luta, de revolução e é isso que o meu corpo quer ali. Canto e oiço as outras vozes ao meu lado. Por vezes há um daqueles momentos em que estamos silenciosamente a formar as palavras de uma música que nos toca e vemos que mais ninguém o está a fazer mas de repente lá está uma pessoa, algures, perdida como nós, com os olhos a brilhar e os lábios a formarem as palavras.

Os braços no ar, os dedos a formar o símbolo tão típico, um mar de gente de braços no ar com esse símbolo, os braços que se agitam ao ritmo da bateria, que ajudam a identificar quem conhece aquela música como o bater do seu próprio coração. As pessoas aos saltos, o fogo no palco, o calor das chamas a varrer-nos o rosto, os cabelos a agitar-se no ar e ninguém se importa, o headbang é contagiante, os braços, os saltos, pegam-se, propagam-se como fogo. As letras são dramáticas, diabólicas, sim, outras são belas, enternecedoras, românticas, todas elas reflectem alguma coisa sobre este mundo, a forma como vivemos. Não sei explicar porque é que o metal me faz sentir assim. Talvez seja por parecer falar apenas comigo e ao mesmo tempo dizer-me que não estou sozinha, que ali estão pessoas como eu que entendem, e mesmo que não entendam, não faz mal, porque a música já entendeu e já me disse algo, já me deu algo, já me levou para longe, já me deu bálsamo para a dor, já me salvou, já me acompanhou, já me saciou e já me deixou livre. São só momentos. Mas são momentos em que tudo faz sentido e em que relembro porque é que metal é para mim a melhor música do mundo. Hoje fez de novo sentido e ali, sozinha, com centenas de pessoas, encontrei-me de novo – ainda sou eu. E hoje levei-me a um concerto.

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o ano não é novo, tu é que podes ser

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2016 foi um ano demasiado longo e difícil para muita gente. Eu não fui excepção. Se calhar não foi diferente de muitos outros anos, mas todo o ano que chega ao fim parece sempre ser o melhor e o pior naqueles últimos dias do calendário. O mundo em geral parece estar a chegar historicamente a um qualquer turning point, e quem não ignora a história reconhece os sinais. Na verdade, temos poucos motivos para achar que um 2017 com Trump, com guerra e com a extrema direita a ganhar terreno possa ser melhor que o ano que passou. Mas todas estas coisas são demasiadamente gigantes para as conseguirmos contemplar e inferir sobre o impacto que vão ter nas nossas vidas, especialmente se as nossas vidas são privilegiadas, como a minha. Então em vez de nos focarmos nesta big picture incomensurável, olhamos para o nosso ano, o que nos está próximo, quem nos está próximo.

Estes últimos dias do ano, por algum motivo, têm o condão de nos fazer olhar para trás e passar os olhos no que fizemos, no que não fizemos, no que nos aconteceu, no que queríamos que nunca tivesse acontecido. É só um calendário e na verdade é só mais uma coisa que não é natural e foi previamente definida assim – convencionada. É suposto chegarmos ao 31 de dezembro e o ano mudar para outro, novinho em folha. Um ano novo é como aqueles cadernos e blocos de notas lindíssimos, com as folhas todas em branco, por preencher, com capas promissoras, a que as pessoas loucas por este tipo de artigos não resistem e que dão logo vontade de ir buscar uma caneta e… escrever o quê? O bloco é tão bonito. Limpo, novo, à espera. Imaculado. Todo um mundo de possibilidades nele. O que podemos fazer com ele? Tudo. Qualquer sonho é possível. É isto que um ano novo promete sempre. Que qualquer história vai ser possível, que todas aquelas coisas que o ano velho não nos deixou fazer vão finalmente acontecer neste ano novinho em folha e que nós, inspirados pela simples existência de novos dias por utilizar, os vamos usar para todas estas coisas incríveis. E prometemos mudanças. Prometemos mudar hábitos, prometemos que o nosso tempo vai ser usado de outro modo. Desejamos-nos mutuamente um bom ano – um ano melhor que o velho. E por uns três dias parecemos alinhados, colegas, desconhecidos, pouco conhecidos, amigos, familiares, amores – todas as pessoas com quem nos cruzamos parecem alinhadas nesta mesma esperança de que um ano com dias por estrear vai ser melhor. Ficamos como que suspensos nesta esperança, aqueles últimos dias do calendário é suposto serem de festa, e é difícil escapar a esta sensação. Este ano, eu achei que não ia ter esta sensação, mas entretanto aqui está ela, apanhou-me. Sim, venha 2017, esse ano novo. Por dois dias estamos suspensos nesta esperança, olhamos os dias velhos a irem-se embora. Já consideramos velhos até os restantes dias de 2016 que ainda nem passaram, mas também esses já são velhos, já passaram. Estamos de olhos postos nos novos, sincronizados numa esperança de renovação. É um sentimento de partilha, quase pagão realmente, e talvez por isso nos juntemos, com comida e bebida. E há quem faça listas. Há quem se proponha metas. Há quem estabeleça objectivos. Há quem coma as passas ao ritmo dos desejos. Há quem diga que não faz nada disto mas depois secretamente tem uma lista escondida. Há quem jure que não tem qualquer esperança, sem sequer reparar que já a alimentou inconscientemente. E, claro, há quem realmente não queira saber de nada disto e decida considerar o calendário simplesmente isso, uma convenção.

Eu sou apanhada entre estas várias sensações. Sou a pessoar que adora cadernos novos e que nunca os acaba de preencher. Sou a pessoa que se lança a novos projectos e não os termina. Sou a pessoa que faz listas. E sou a pessoa que sabe que o ano novo é só a continuação do velho e que todas aquelas coisas enormes que estão a acontecer no mundo vão continuar o seu caminho até novos pontos de viragem. Tenho medo do mundo de 2017, tenho medo pelos meus direitos de minoria e pela minha vida de minoria. Tenho medo pelos meus amigos de minorias, tenho medo por todas as nossas vidas, tão fortes, tão frágeis. E tenho medo e esperança por mim. 2017 não vai ser um ano novo, mas eu sei que vou ser nova nesse ano. Sinto as mudanças a confluírem dentro de mim também para um qualquer ponto de viragem e apesar de não saber o caminho exacto, sei, como o outro, “que não vou por aí”. E saber por onde não se quer ir já é alguma coisa. Mas, percebi também, que mais importante do que saber, é ir fazendo, ir sabendo, ir. Não tenho que saber tudo. Não tenho que ter tudo decidido. É bom ter sonhos e objectivos. É bom sentir que se começa de novo, mesmo que o ano seja velho ou que o novo seja mais uma normatividade a que obedecemos. Estou a sentir-me a mudar e mudar é o que vou continuar a fazer, não tem que haver um destino concreto porque o caminho é o destino – é aí que passamos a maior parte da nossa vida. E ela é curta, tão curta, para sentir tanta coisa.

Por agora, apesar de este ter sido o melhor e pior ano da minha vida, prefiro lembrar-me das coisas pelas quais estou grata. E estou grata por tantas coisas e pessoas e momentos.

Trying to be still
I wanna believe in a love that wants me back
I wanna believe that I can turn it around
Wanna believe that these changes are changing me, chasing me to find my way out
Try to not be small
I wanna believe that someone never lets go
I wanna believe that I can turn it around
Wanna believe that these changes are changing me, chasing me to find my way out

Brooke Candy


a noite mais (demasiado) longa do ano

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Quando todas as noites parecem demasiado longas e os dias também. Yule é só mais um dia com demasiadas horas. Quando dás por ti com vontade de voltar a viver em livros porque a realidade é demais, demasiada para ti e estás cansada, exausta dos dias todos e das estratégias para sobreviver só mais um bocadinho, só mais um dia, só mais um passo, só mais uma conversa, só mais uma viagem, só mais um caminho para o trabalho, só mais, mais, mais. Mas há dias em que é demais.

E gostavas de poder ir viver para Hogwarts, gostavas que o mundo parasse e que a vida daquelas pessoas fosse de novo a tua realidade, a única coisa com que precisas de te preocupar. Screw this, fuck this, I’m going to Hogwarts. Agarras em fanfiction de má qualidade, mergulhas nas personagens que te são familiares e redescobres o quão fucked up elas estão e tu também. E dás por ti a rebentar de realidade, sem aguentar mais o peso de fazer tudo sempre da forma que te custa mais, cansada de para ti nunca haver uma pausa no caminho que escolheste, perguntas-te novamente porquê, porque é que continuas a escolher este caminho de gente doida, porque é que para ti nunca há a opção simples, aquela em que não é preciso pensar muito e basta fazer o que toda a gente faz. Por momentos, sentindo-te louca, perguntas-te porque é que não escolhes simplesmente esse caminho iluminado, mais seguro, cheio de gente a fazê-lo, milhares de pessoas a quem podes pedir direcções caso te enganes, previsível, igual, em que poderias ligar o piloto automático e tudo continuaria a correr bem porque a história já estaria escrita por ti e feita mil vezes por toda a gente. Pensas, como o Harry deve ter pensado tanta vez, ser Muggle é mais simples. Como será não ter o peso do mundo todo em cima, o peso de fazer tudo da maneira que dói mais, como seria não ter sempre que estar a mexer em todos os medos? Como seria poder descansar desta hiperrealidade, como seria se por um momento tu conseguisses parar de pedir ajuda, de tentar, de falar, de tentar chegar, como seria se te pudesses desligar. E custa trabalhar, custa todos os dias vires fazer a tua vida normal com tudo o que de nela é anormal a acontecer ao mesmo tempo. E custa  conteres o choro, continuares a pôr um pé à frente do outro, custa não conseguires ouvir música nenhuma porque as boas doem e as más doem. Custa especialmente nestes dias quando vês que outras pessoas que fazem este caminho sorriem e lançam abraços e sorrisos e são raios de sol e tu sentes-te um sol apagado e perguntas mais uma vez: como é possível? Esgotada. Sem mais onde ires buscar um novo começo. Acordas todos os dias sem saber porque é que ainda funcionas, porque é que ainda estás ali e ao mesmo tempo quando imaginas desaparecer sabes que nunca o farias. Porquê? Dói o suficiente para quereres desaparecer, mas aprendeste algures que nada do que sentes deve ser assim tão mau, então sabes que seja o que for tu vais aguentar porque não sabes fazer outra coisa. Descobres que é possível estar esgotada e esvaziada e ao mesmo tempo a transbordar e pensavas que isso não seria possível e odeias transbordar ainda porque só querias poder parar essa corrente. Na tua cabeça haveria duas possíveis soluções: ou transbordas amor e és como aquelas pessoas que são cheias de luz e dão e dão e têm sempre mais e há sempre uma luz ao fundo do túnel e o copo dá sempre para encher outra vez; ou apagas-te e desapareces e deixas de fluir e de dar e de pedir ajuda e acabas. O que é que acontece quando não és nenhuma destas versões e te sentes como uma coisa inacabada entre uma versão e outra, te sentes ao mesmo tempo acabada e vazia e a rebentar com sentir demasiado? O que acontece quando nem tu consegues acreditar mais quando dizes: não aguento. Quando tu sabes que amanhã vais conseguir outra vez, mas não vais ser essa pessoa transbordante, não, vai continuar a doer e vais continuar no meio entre estas duas coisas, incapaz de ser a pessoa feliz, incapaz de parar a dor, incapaz de parares de pedir ajuda e de falar e incapaz de parares de sentir. É como se não fosses Feiticeira e também não fosses Muggle. Quem és então?

Estás cansada de ser sobrevivente. Estás cansada da luta. Começaste a lutar pequena, respondeste sempre a tudo e agora gostavas de poder parar de responder, mas tornou-se tanto parte de ti. Não consegues parar e estás farta de ti própria, desse grito contínuo, desse transbordar que é bom e mau e que te impede de colapsar e tu querias poder colapsar e fazer o mundo parar. Querias que por um momento toda a gente percebesse que tu não aguentas mais, querias que por um momento toda a gente parasse e te visse, te visse aterrorizada e transbordante e fizessem o quê? Nem sabes. Nada. Só que te vissem, só que soubessem.


faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.


o que estou a aprender sobre ser vulnerável

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Percebi há alguns anos que a honestidade emocional era para mim a coisa mais difícil e a mais indispensável. Foi mais ao menos na mesma altura em que percebi que quando amo alguém deixo de ter o coração na caixa toráxica e passo a tê-lo nas mangas das camisolas e logo atrás dos lábios, acima da garganta. Esta descrição pode ser anatomicamente estranha, mas é assim que vomito coração e faço coração com as mãos. Não fui sempre assim. Durante anos escrevi coração, não disse, não fiz. Vivi bastante tempo em páginas, por fora nada se passava, por dentro a revolução. Consegui sair das páginas, já não sei como fiz essa transição. Existe aquela expressão inglesa: “wearing your heart on your sleeve“. Quando se tem o coração aí temos que ter mais cuidado, ao andarmos na rua podemos deixá-lo cair, se usamos uma camisola mais larga ele pode não se segurar, e então no verão, com vestidos de alças e tshirts, bom, é arriscado, talvez colocado por dentro do pulso se segure. O coração nas mangas e atrás dos lábios é uma coisa complicada. Fechar a boca às vezes não é suficiente, quando escrevemos facilmente, ou choramos com tudo, quando temos uma daquelas caras transparentes que não conseguem esconder nada nem que a nossa vida dependa disso, então sai por todos os lados. Não com toda a gente. Sou selecta nisto porque tenho dificuldade em aproximar-me das pessoas e desconfio de quase todas, embora ao mesmo tempo queira sempre ver o melhor de pessoas que me pareçam minimamente interessantes. Mas esta coisa do coração está ligada com a honestidade emocional, aquela tão difícil e sem a qual não consegui viver nenhuma relação.

Estou a tentar falar de vulnerabilidade, mas também do seu complemento essencial a auto-preservação e o cuidado connosco. Vou deixar as metáforas do coração nas mangas. Durante anos escolhi fazer-me sempre vulnerável. Ainda é essa a minha escolha. Não soube estar em nenhuma relação íntima ou de amor sem essa vulnerabilidade primeira, que me fez sempre dizer o que se passava comigo, o que sentia, o que pensava. À conta desta honestidade vulnerável vi-me realmente em situações de vulnerabilidade – aquela que é má, que nos sujeita a diferenciais de poder. Não sabia proteger-me, nem cuidar-me, simplesmente dizia-me e esperava que outros compreendessem e mostrassem empatia. Fiz todos os coming outs assim, vulnerável, acreditando que os outros veriam a coragem disso e estenderiam a mão. Levei muitos anos a perceber que há relações que não merecem a nossa vulnerabilidade – aquelas que nos abusam, que nos fragilizam, que nos cobram, que nos ameaçam. A minha casa não foi um local seguro para a minha vulnerabilidade, foi um local de batalhas em que me agarrei a essa honestidade radical como a única arma que tinha na luta. Custou-me muito perceber que vulnerabilidade com agressão é receita para desastre, com consequências que levam anos a ser processadas.

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Apesar desta experiência, consegui ficar na vulnerabilidade perante outras pessoas e relações. Percebi que quando do outro lado não está agressão, mas pessoas que nos querem bem (o problema está na dificuldade de sabermos quem nos quer bem realmente), então temos um lugar para sermos vulneráveis com amor. Abrimos espaço para nós e para as outras pessoas. O poder da vulnerabilidade é que ela tem a capacidade incrível de trazer mais vulnerabilidade do outro lado. Se é num contexto de amor e respeito, a minha vulnerabilidade abre espaço à tua e abre espaço à nossa e juntas abrimos espaço a mais vulnerabilidades. Comecei a levar essa vulnerabilidade comigo para o activismo, lembrei-me de como ela já tinha sido arma para mim e usei-a de novo como arma, desta vez não para me defender de ataques, mas para me criar como activista e para abrir espaços. Percebi que para mim falar sempre a partir do pessoal me levava a essa honestidade e que não conseguia expurgar as minhas emoções desse relato. Então, perante pessoas estranhas e conhecidas, mas não próximas, decidi que não ia retirar as emoções. Sempre que falei sobre ser poly, falei das minhas emoções. Sempre que respondi a perguntas, respondi sem filtrar as emoções. As emoções passaram para o centro do meu activismo e de todas as minhas intervenções. Isto, claro, colocou-me numa posição frágil: falar de sentimentos perante uma plateia desconhecida não é seguro. Usar os sentimentos em interacções activistas não é algo seguro, como percebi da pior maneira possível quando tive “activistas” a dizerem-me que os espaços de activismo não são suposto serem espaços seguros e quando vi a minha confiança traída nestes espaços e interacções. Mais uma vez tive que perceber que a vulnerabilidade unilateral é perigosa, assim como a vulnerabilidade fora de espaços que não se constróiem feministas e seguros. Percebi também que às vezes mesmo sendo feministas e supostamente seguros não o são. Não temos uma cultura de vulnerabilidade nem de honestidade nos nossos activismos. E por isso, aquelas de nós que usam de vulnerabilidade estão em risco.

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Custa muito sermos vulneráveis quando uma relação em que o fomos acaba. Também percebi isso mais tarde. Recuperar a vulnerabilidade é assustador depois de o termos feito com alguém que se vai embora com tudo o que partilhámos. Quando pensei que nunca mais na vida conseguiria ser vulnerável assim, foi quando percebi que tinha que o ser ainda mais e o quão central isso realmente é. Percebi também que para mim só haveria uma forma de curar o coração partido e essa forma era… ser vulnerável outra vez. Mas, com uma grande diferença. Esta vulnerabilidade tinha que ser acompanhada de cuidado comigo e de auto-preservação. Percebi então que tinha estado anos a usar de uma vulnerabilidade incompleta, que me colocava em situações de fragilidade, em que eu dava tudo e outros nada, em que eu tentava sempre e outros não, em que eu estava em situações de desiquilíbrio de poder e isso me expunha ainda mais, em espaços não seguros e com pessoas que não estavam a guiar-se pela sua própria vulnerabilidade.

Há uma linha entre ser vulnerável e manter-nos numa situação em que somos alvo de agressão e abuso. Vulnerabilidade não é abrir-nos a quem nos violenta. Num contexto de relações assim, dar uma nova chance a alguém, reconstruir as pontes partidas, tentar de novo, pode ser a forma como voltamos ao contexto de abuso. Isso viola a nossa vulnerabilidade, além da nossa autonomia.

A linha é o cuidado connosco, é o nosso sentido de auto-preservação. Não pode haver vulnerabilidade – pessoal, política, activista – sem auto-preservação. É okay decidirmos com quem queremos e podemos ser vulneráveis e com quem não. É okay deixarmos de o ser com alguém porque algo mudou. Abrir o espaço da vulnerabilidade não tem só a ver com falar de sentimentos. Tem a ver com estar disponível para lidar com as consequências da nossa própria honestidade. Não basta sermos honestas. Do outro lado da nossa honestidade estão outras pessoas e sermos vulneráveis implica sabermos que há sempre essa parte. Implica responsabilidade por mim e por ti e por nós. Implica estar disponível para lidar com a vulnerabilidade da outra pessoa e saber dizer quando não estamos – porque auto-preservação. E por isso é importante saber quando não ser vulnerável – e isso eu ainda não sei, estou a aprender. Cuidar de nós também não é algo simples, é um processo que temos que ir fazendo e também nisso esta sociedade não nos ajuda, porque confunde cuidado com indulgência e confunde tudo isso com felicidade pré-formatada que serve a toda a gente.

Só depois disto conseguimos, acho, abrir espaço para sermos estúpidas, cometermos erros e sermos ridículas. A vulnerabilidade é aquele espaço também onde acontecem coisas estranhas como perguntar a alguém se a podemos beijar antes de o fazermos e enfrentar toda a estranheza – sem guião, sem buffer de segurança – que vem com isso. Enfrentar a weirdness desse momento, a possibilidade de haver um não do outro lado e sabermos isso, e toda a falta de jeito que temos para estas coisas do consentimento. A vulnerabilidade abre espaço para todas as conversas que temos antes de fazermos seja o que for, para revelarmos parvoíces que sonhamos, fantasias que temos e para nos sentirmos envergonhadas, tímidas ou sem jeito. Abre espaço para sermos nós e vermos as outras pessoas. Esta vulnerabilidade, feita com base no cuidado connosco e no respeito dos nossos limites, é coragem.

Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfare.” – Audre Lorde

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I’m gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Leonard Cohen

Outras leituras sobre vulnerabilidade/cuidado de si:

Selfcare as Warfare

Self-Care as Revolutionary

Vulnerability as a Key to Feminism

Toda as imagens são da autoria da artista Lora Mathis. Conheçam o trabalho desta artista sobre radical softness no Instagram @lora.mathis.


a arte de falhar no amor

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Hoje encontrei um cabelo teu numa almofada. Comprido, encaracolado, não é meu. Reconheço-o. Sei que é teu. Ao contrário de ti, ficou aqui. Deitei-o fora, para o lixo. Antes, ainda fiquei algum tempo, a mão fechada, o cabelo encaracolado a brilhar com os reflexos que vêm da janela. Já não voltas. Tenho o teu cabelo aqui, na cama onde dormiste tantas vezes, mas tu já não voltas. Largo o cabelo no lixo, não como se te deitasse ao lixo, não. Só largo, deixo cair o que sei que já não posso segurar, despeço-me outra vez e de novo penso como seria poder fazer isso com todas as memórias que ficam e que me assombram.

Não podemos dizer adeus às pessoas assim. Não há uma maneira de dizer adeus quando as pessoas ficam em tudo o que tocam, quando acabam a fazer parte de quem somos e do que vivemos. Até um cabelo, encaracolado, pode magoar. Um cheiro. Uma palavra que evoca outras. Todos os lugares por onde passámos, alguns onde não posso mais voltar. A Elizabeth Bishop dizia, depois de perder um amor da sua vida, a Alice Methfessel: “the art of losing isn’t hard to master”, mas percebemos que é bem o oposto disto. Um desastre, diz depois. Ou vários. Uma perda não se apreende só de uma vez. Pronto, foi-se, já está. Não.

Todos os dias perdemos mais um bocadinho. Uma ausência que fica, um gesto que se lembra e nos desfaz, uma voz que não está mais ali, um lugar onde já não vamos, um plano que se foi. Ou coisas mais pequenas ainda. As linhas no canto de uma boca, que só se formam com algumas expressões, que só é possível notar quando ficamos muito tempo a olhar para alguém, linhas suaves mas tão marcantes, que se tornam parte do que faz um rosto único. Ali estão elas, num meio sorriso passageiro, ali estão, oh, já se foram. Depois o rosto fica sério, as linhas quase desaparecem mas nós, nós que olhámos tanto, tanto tempo, para aquele rosto que amamos, nós sabemos o local exacto onde essas linhas desapareceram e onde vão aparecer outra vez e esperamos. Esperamos para as ver de novo e pensar: isto. Isto é parte do que te torna única. Estas linhas, quase invisíveis mas marcantes, também estas tive que aprender a perder. E algo assim não se perde num dia, ou dois, ou muitos seguidos. Algo assim vai-se perdendo, dia após dia. E de repente alguém, anónima, sorri e tu vês umas linhas semelhantes, não iguais, mas semelhantes, e tudo volta. Não são aquelas que queres ver, tens só saudades. Houve uma altura em podias beijar essas pequenas marcas na pele e sentir-te a pessoa mais feliz do mundo.

O que é que nos faz amar alguém? Às vezes podem ser linhas num rosto. Às vezes são essas linhas, ínfimas, marcantes e tudo o resto que vem com elas. Como é que vamos perdendo, todos os dias mais um pouco, tudo aquilo que nos fez amar alguém? O riso, aquela forma de rir que mais ninguém tem. As palavras certas no momento certo. O corpo que se encaixa no nosso como se sempre tivesse estado ali. Tudo isto são coisas pequenas. Pormenores. Todos os dias devo perder mais um destes pormenores. Devo esquecer-me, aceitar. Mas isto é só o princípio. Aquelas coisas que nos fazem amar alguém não são suficientes para nos fazer ficar.

Passaste dias a fazer-me uma luz para eu acender durante a noite. Fizeste-a com as tuas mãos (também estas devo perder), formas mágicas para me acompanhar e aconchegar. Nunca mais a acendi. Está no meu quarto e agora não sei o que fazer com ela, assim como com tudo o resto que fizeste para mim, ou com tudo o que fiz para ti. Também essas coisas devem ser perdidas, mas não há meio de o fazer.

O amor não é incondicional. Isso é uma treta que vem com o resto do manual que nos fazem engolir. Amor incondicional não existe porque o amor não é um sentimento, é uma escolha. O amor tem mil condições de possibilidade e mil condições de impossibilidade. E amar, por si só, não chega. Podemos fazer muitas coisas em nome do amor. Podemos até esquecer-nos de nós mesmas e de nos amarmos a nós, por estarmos tão ocupadas a amar outra pessoa.  Recebermos amor de volta ajuda-nos a manter a ilusão de que temos tudo: eu amo-a, ela ama-me, havemos de sobreviver porque temos este amor maior que tudo. O amor não é maior que tudo, não é maior que as suas condições de possibilidade, não é maior do que as capacidades das pessoas que amam, não é maior que as dificuldades que lhe surgem.

Sim, é uma grande força que move montanhas, mas só é tão forte quanto as pessoas que amam, e às vezes nem isso chega, não importa o quão fortes sejamos. Pode mover-nos contra o mundo, de mãos dadas, contra as probabilidade, contra os silêncios. A nós moveu-nos contra muitas improbabilidades: a distância, os silêncios a que fomos obrigadas, a mentira a que nos submeteram. Tudo isso foi vencido com amor. Esse amor provava que tínhamos sido mais fortes: mais fortes que o abuso, mais fortes que o mal, mais fortes que a distância. Mesmo sem nos vermos, esse amor tinha sobrevivido. Que maior prova existiria de que esse amor nos levaria a todo o lado? O amor tornar-nos-ia invencíveis. Já tínhamos sobrevivido a tanto. Mas o amor não salva ninguém. Não te podia salvar a ti. Nem todo o meu amor te podia salvar e eu passei todo o tempo a achar que sim, sem perceber que me estava a perder também, todos os dias mais um pouco, achando que te salvava. O amor não salva ninguém. É fácil acharmos que o amor pode mudar tudo nas nossas vidas. É esse o discurso romântico. Quando encontramos amor tudo é possível. Mas o combustível deste amor, visto assim, acaba-se, consome-se. Durante uns tempos pensamos que mudámos tudo. Mas o amor não é um penso em cima de todas as nossas feridas. E também não é sempre bom.

Há pessoas que decidem ficar juntas porque ainda se amam. Mesmo que nada mais esteja a funcionar, mesmo que esse amor as esteja a destruir, pelo menos amam-se, não é? Mesmo que esse amor seja doente, mesmo que esse amor seja um hábito, um conforto, um vício ou uma forma de não estarem sós, ou uma forma de não terem que enfrentar a vida. E ficam. Anos. Vidas. Está tudo bem desde que estejamos com alguém, numa relação romântica, não é? Pior mesmo é estar sozinha. Antes haja amor, algum, ou uma aparência de amor. Mesmo que nos arraste para o fundo. Mesmo que dê cabo de nós.

Escolher o amor de outra pessoa é sempre mais importante. Mergulhar de cabeça, arriscar tudo, mudar a nossa vida toda por outra pessoa – que maior prova de amor existe? Ter a vida virada do avesso por amor. Escolher o amor contra todas as probabilidades, mesmo e especialmente, se toda a gente nos diz que estamos a fazer mal ou que não faz sentido. Mesmo, especialmente, se for difícil. Quanto mais difícil de concretizar maior esse amor se prova, maior o desafio. Os outros não entendem. Aquela pessoa vale a pena, vale tudo isso e mais. Vale deitar tudo fora e virar o mundo ao contrário. Vale tudo por amor. Vale as nossas vidas porque uma vida sem amor não é nada. E por isso é que depois do amor não somos nada. Se o amor se vai, não somos ninguém. Somos doentes. Precisamos de voltar ao amor, antes que as nossas vidas percam o sentido. Mesmo que o preço a pagar por esse amor seja alto, não importa, porque ninguém o vê. Não vale tudo por amor. O amor não vale a nossa sanidade, a nossa autonomia, o nosso auto-respeito. Podemos viver amores que nos tiram mais que dão. Que nos fazem menos. Que nos restringem. Amar não basta para dizer que está tudo bem. Amar não basta para manter uma relação.

Segue o que sentes, segue o teu coração, porque o teu coração sabe sempre o que quer, dizem. O coração não sabe nada. Não amamos com o coração, amamos com tudo o que somos, com todas as circunstâncias, com tudo à nossa volta. Não amamos numa bolha, em que nada mais importa, amamos com tudo o que vivemos e com tudo o que nos acontece. O coração, no meio disto, o que é? O que faz? O coração é uma construção. O coração não quer nada, somos nós que fazemos escolhas. É fácil atribuir tudo à força mágica, transformadora, alucinante do amor. É mais difícil, talvez, se percebermos que não há nada mágico no amor, nem nada que esteja além de nós. Somos nós que amamos, somos nós que fazemos, somos nós que escolhemos ficar, tentar, ir, desistir. Somos nós a cada momento, apenas com a magia que vem das nossas acções e nada mais. É mais difícil, talvez, se percebermos que o amor não é tanto aquilo que dizemos, prometemos, juramos, mas sim aquilo que fazemos dia após dia. É mais difícil, talvez, se percebermos que este amor-escolha, amor-tentativa-e-erro, amor-autonomia, amor-partilha, amor-próprio não nos transcende, nem nos ultrapassa, é feito por nós e custa. É mais difícil, talvez, se percebermos que não tem que valer tudo por amor, que nem tudo o que inclui amor é melhor e que o amor não vai resolver tudo. Se falhar no amor não implicar que falhamos em tudo na vida, se falhar no amor não implicar nunca mais acreditarmos em ninguém, se soubermos que existem coisas que valem mais do que este amor, talvez seja possível curarmos. Talvez até seja melhor às vezes falharmos no amor. Falharmos uma e outra vez e continuarmos a falhar sempre que for preciso. Talvez aí não seja preciso perder tanto, talvez aí seja possível ficar com o que fica e continuar a viver e até continuar a amar.

—Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan’t have lied. It’s evident

the art of losing’s not too hard to master

though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop, “One Art” – The Complete Poems 1926-1979. Copyright © 1979, 1983 by Alice Helen Methfessel.

Texto inspirado pela leitura de Love Is Not Enough

Imagem via Tumblr

 


és a feminista perfeita?

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o que é que achas?

se achas que sabes sempre o que é consentimento

se achas que abuso é preto no branco

se sabes sempre ver logo quem é feminista

se sabes julgar do alto da tua pose feminista

se te tatuas com feminismo em todo o lado

e se por isso te achas mais feminista do que a vizinha

se nunca te enganas ou és incoerente

se achas que nunca jamais em tempo algum serias abusadora

se achas que tudo o que fazes está sempre certo

se fazes posts a denunciar tudo o que vês

se respondes a toda a agressão

com mais agressão

verbal

banal

e pões palavras na boca de quem não as tem

se achas que podes chegar e falar pelas pessoas envolvidas

se achas que a tua voz é o que lhes dá força

as salva, coitadas

do jugo do inimigo

se te sentes a falar pelas oprimidas

se achas que és a voz de uma comunidade

não.

 

 

tu não és mais feminista

eu não sou mais feminista

do que quem não faz nada disto

aliás,

não sou mais feminista por escrever isto

mas estou farta

farta que te aches sempre mais, melhor,

segura da tua única verdade

aquela que apregoas

generalizas

tu chegas e vês logo tudo

não há nada que não saibas

o que não sabes,

sentes,

na pele.

é a tua experiência

então sabes

sentes

que a minha é iludida

desfasada

julgas-me com o que sentes

e os teus sentimentos justificam tudo

porque se tornam

verdade.

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mas não percebes que te podes enganar

não percebes que é fácil ser feminista

e trair,

magoar,

enganar,

abusar.

pensas que estás

nas olimpíadas do feminismo

essa é a tua grande luta.

não és mais feminista do que ninguém

se a tua lógica é um dedo no ar

acusatório

olhem, olhem para estas pessoas que se dizem X e não são!

cada vez que calas a voz das outras para pôr a tua

não estás a ser feminista

se calhar este meu texto não é feminista

não faz mal

eu não quero estar nessa competição

de dedo em riste

PC em riste

competindo para ver quem tem o facebook mais feminista

quem é activista desde que se levanta até que dorme

atenta a ver onde estão as falhas dos outros para podermos apontar

e ganhar

ganhar o quê?

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ser feminista é ser perfeita?

quantas feministas conheço eu que já me calaram?

que já silenciaram vozes dissonantes das suas?

em quantos espaços feministas me senti eu bem?

online – nenhum

de todos me fui embora

ninjas, heroínas, brancas

não diferem assim tanto de mim

só não me acho uma ninja de nada

alguns dias só estou a tentar continuar

vamos ver quem é mais

fufa

feminista

activista

boa poly

mente aberta

descomplexada

esclarecida

quem denunciar mais ganha

quem levantar mais o dedo ganha

oh não

não levantes a voz

olha o tone-policing

olha a comunicação não-violenta

somos todas

vigiadas

tramadas

não escrevemos sem medo da reacção

oh quem me vai cair em cima depois disto

quantas quantas

olha, estás a fazer aquilo que denuncias

so what?

será que ajuda?

será que faz ainda pior?

só não me vendas o teu feminismo como melhor

porque falas em género neutro

e termina tudo em e

ou x

e és sempre mais inclusiva

mais reactiva

mais in your face

e nunca tens medo

de nada

nem de ninguém

nem de apontar dedos

ou talvez não

porque depois acontece a vida

e que se dane a inclusão

olha a merda

dá trabalho

pois

é mais fácil fazer posts

mas a guerrilha online é importante

as palavras são refúgio e armas

eu uso-as também como terapia

mas depois

o consentimento é fodido

poly é lixado porque

não é fazer o que queremos

quando queremos

porque queremos

ao ritmo que

nos dá

na real gana.

é saber o meu limite

o teu

e de toda a gente

e estar disposta a todos os dias

todos os dias descobrir mais

pensar mais

falar mais

tentar de novo

errar e tentar outra vez

voltar atrás

andar devagar

mesmo quando queremos ir a voar…

e sem dedos no ar

sem acusações

sem procurar o bode expiatório

a atitude mais não-feminista

a pessoa que está a fazer a merda

e que é o problema

guess what

relações têm sempre problemas

de mais do que uma pessoa

esquece a suposta culpada

onde queres largar a tua responsabilidade

atitudes não-feministas

são o pão de cada dia

mesmo,

incrível,

entre activistas, feministas, corajosas, inseguras, sensíveis.

se algum dia consegues

passar 24 horas

sem uma

parabéns

toma uma medalha

oh parabéns

és a maior

feminista

do

mundo

mas eu, eu só consigo ser feminista às vezes

pois, não dá sempre

às vezes digo coisas que são muito pouco feministas

o que importa é que

sei isso.

penso

aprendo

tento de novo

e sei, sei que nunca vou ser sempre feminista

perfeita

incrível

tu és feminista de manhã à noite?

boa

bom para ti

eu fico contente com os momentos em que sou

em que consigo ser

apesar da merda de sociedade em que vivemos

e quando não sou

não consigo

não quero ter que me culpar

martirizar

chega de cristianismos

a coisa menos feminista que podemos fazer é entrarmos em culpas

não faz mal se és só feminista na net

e então?

só nao te aches melhor.

toda a gente faz merda

feminista ou não

toda a gente

isto é um processo

feminismo não é uma cena acabada

que pegas e dizes: tá aqui

espeta a etiqueta em cima

pronto, tá feito

‘olhó feminismo

fresquinho

acabadinho de sair

o meu é melhor que o teu

porque eu denuncio

tudo

e falo assim:

iuzomis

omis

male tears para o pequeno almoço!

se há um homem,

de certeza que é ele o problema

pois como posso ser eu?

sou uma gaja tão feminista

minoritária

oprimida

ó p’ra mim

sou tão oprimida

mas sou branca

tenho casa

sou jovem

posso estudar

sair à noite

comprar roupa

eh pá, sou privilegiada em algumas coisas

mas falo assim:

iuzomis

entao ’tá tudo bem

eu chego e sei sempre

avalio logo a situação

dedo em riste

check your privilege

call out

mas só do que me interessa

eu é que sei

cheiro manipulação à distância

porque a verdade é só uma.

olha, não fizeste trigger warning

mas eu lembro-te

olha, sou simpática

vês

estou a alertar-te

porque eu sou

esclarecida

consciente

iluminada.

quantas vezes

também já o fiz

entramos na lógica

e depois é difícil sair

feminismos são muita coisa

alguns eu nem sequer gosto

pára de achar que a etiqueta te defende

não vai resolver quando tu própria

te tornas naquilo que criticas

mas claro,

contigo isso nunca acontece, não é?

estás imune a isso.

o que interessa

é o que fazes depois

quando parares de te ocupar

com os dedos apontados às outras

talvez aí

tenhas tempo

para trabalhares em ti

pára de te ver como coisa acabada

não aches que atingiste o topo da sabedoria já

se não

o que vais fazer com o resto da tua vida

se as perguntas têm todas resposta

se não tens dúvidas

se te cobres de certezas da cabeça aos pés

se sabes sempre onde está o inimigo

se já lhe puseste um letreiro

e atiras as sete pedras que tens na mão

e não,

não estou a dizer para tolerares agressão

estou a dizer que

as nossas retóricas feministas

às vezes embrulham-se

e tornam-se tão pouco feministas

analisa-te

repensa-te

não faz mal dizer

eu errei

enganei-me

fiz mal

agora estou a fazer outra coisa

não faz mal

perceber

que falhas

não faz mal

que as tuas escolhas mudem

que percebas e voltes atrás

que haja incoerências

não faz mal

se simplesmente

não sabes.

eu tenho mais medo das certezas

sobre elas foram construídas religiões

e ditaduras

fiquemos pela dúvida

a filosofia saiu daí, mas é demasiado masculina

por isso usemos as perguntas

as nossas

todos os dias eu duvido

todos os dias me pergunto o que raio estou a fazer

cada

vez

sei

menos.

quanto mais pessoas amo

menos sei

como é que isto se faz

bem.

whatever.

 

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olha, conta a tua história

não pares de falar

nada é demasiado pessoal

mas não aches que a tua história

fala por outros

não aches que é a verdade

há mil verdades

não te sintas o arauto da verdade de toda a gente

não tentes com a tua história calar as outras verdades

nem menorizá-las

deixa de ser uma questão do que tu “sentes”

quando impões isso a outras pessoas

não, ninguém é sempre feminista

aceita isso

não, não és a feminista perfeita

não vês

que estás a naturalizar

uma nova opressão

aquela que cala as pessoas com quem tiveste

problemas pessoais

ou que se calhar

dizem uma coisa

e depois chega a vida e fazem outra

então,

não és como aqueles textos bonitos que escreves

não és nada assim

és uma pessoa horrível

as outras pessoas deviam todas saber

o mundo inteiro devia saber

que não és como os textos que escreves.

pois não

pessoas não são textos

pessoas não são escrita

pessoas dizem muita coisa

que não fazem

mas mais que isso:

pessoas mudam

pessoas crescem

pessoas fazem coisas diferentes

portanto

podes parar de cristalizar as pessoas

para as meteres na tua definição delas?

podes perceber que pessoas não são coisas

congeladas no tempo

e que se movem

e que se mudam?

pára de achar que só tu é que sabes

o que é legítimo

e pára de

te cobrires

de puro feminismo

que te torna

autoridade

na vida de toda a gente

que julgas

a partir do que sentes

porque és

mais consciente

e nunca tens medo

e por isso estás cheia de certezas.

fica com a medalha

fica com a reputação

de boa

incrível

feminista

activista.

ou então

sei lá

deixa-te disso.

Imagens: ambivalentlyyours.tumblr.com; a-thousand-words.tumblr.com; br.pinterest.com.


Curar corações partidos com Virginia Woolf por Inês Rôlo

Texto que escrevi para a Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

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Este livro salvou-me duas vezes.
Não me curou o coração partido em nenhuma delas,
nem me tirou da tristeza ou escuridão,
mas disse-me que não estava lá sozinha.
Estava eu, Virginia, as suas personagens e milhares de pessoas neste mundo.

Cada vez que tento explicar a alguém porque é que To The Lighthouse (Rumo ao Farol) é tudo para mim enredo-me em mil ideias ou fico sem palavras. Digo apenas: “lê. E se puderes, lê no original, não leias traduções”. É impossível explicar porque é que Virginia Woolf é um mundo em si mesma – e uma forma de pensar sobre os mundos interiores, mundanos, imaginários – a alguém que nunca a leu. Uma vez fui a um clube de leitura sobre este livro. Estavam 40 pessoas na sala. Cada uma disse o que a marcara mais no livro. E numa sala cheia de gente que leu o mesmo livro…

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Nós temos tão poucas ferramentas do coração

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Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt