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a marcha das emoções

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O dia da Marcha do Orgulho LGBT não é um dia feliz para mim. É um dos dias mais importantes do ano, mas há muito tempo que não é um dia feliz.

Talvez a primeira marcha a que fui, antes de ser activista, antes de saber sequer o que são associações, colectivos, antes mesmo de saber o que isto tudo implicava, talvez essa, há 8 anos atrás, tenha sido uma marcha feliz. Fui com a minha melhor amiga, sempre de mão dada, vestida de roxo, cheia de fitas de cores nos cabelos. Sonhava com um grande amor, só via liberdade em todo o lado, não tinha medo das palavras, agarrava-me a todas, sorria o tempo todo, não sabia bem o que era a ilga, menos ainda que havia mais que a ilga ou que isso importava sequer. Realmente a ignorância às vezes é mesmo bênção.

Em 8 anos muita coisa mudou. O trabalho activista foi um choque de realidade – nada como meter as mãos na massa para saber mesmo o quanto isto dói e cobra de nós (dos nossos corpos, das nossas emoções, do nosso tempo, das nossas saúdes). É tudo tão lindo visto de fora. O arco-íris até parece mesmo ter o pote de ouro no fim, mas quando lá chegas já nem forças tens para o pote. Mas este não é um texto coerente ou lógico de enumeração de todos os problemas graves da nossa comunidade LGBTQIA e do nosso movimento doente. Também não é um texto racional sobre a quase ausência de prática e ética feminista dentro desta comunidade, ou sobre a quase ausência sistémica de empatia, ou sobre a constante misoginia ou sobre a divisão desigual de trabalho activista, ou sobre a sobrecarga desse mesmo trabalho recair invariavelmente sobre mulheres, ou mesmo sobre a sempre presente sub-representação de mulheres queer nos espaços, marchas e festas, ou sobre a permanência de comportamentos e pessoas abusivas que são protegidas dentro da comunidade. Isso fica para quando eu conseguir pensar, porque agora eu só consigo mesmo é sentir.

Esta foi para mim a marcha das emoções. Difícil seria que fosse outra coisa. Pela primeira vez em 8 anos fui marchar sem estar em nenhuma relação amorosa. Mas ali estão quase todas as pessoas que fizeram ou fazem parte da minha vida emocional. Ali, num mesmo local, num mesmo dia, numa mesma hora, estão todas lá. Toda e qualquer pessoa que significa algo para mim está ali, ou está presente pela sua ausência significativa. É chegar e ter vontade de fugir imediatamente, de voltar à segurança e conforto do meu universo da escrita, em que o coração me bate dentro do peito e eu posso chorar e rir e ninguém está a ver. Ali há demasiados olhos. Demasiada coisa a acontecer. Acabo de chegar e quero mesmo ir-me embora, embora aquele seja o dia mais importante do ano para mim. Fui sozinha, rodeada de amigues, amigues, amigues por todos os lados, as pessoas mais importantes da minha vida ali. E mesmo assim há coisas que, mesmo rodeada de amigues, tenho de passar sozinha. Não há como as transcrever para fora de mim, não há como as transmitir, há um indizível que vivo ali sozinha, em cada segundo, em cada interacção. Chego. Levo dois segundos a encontrar caras conhecidas numa multidão. Estranho como no início não conhecia ninguém e como de repente pareço conhecer demasiadas pessoas.

E na marcha há sorrisos e abraços e passas por cada uma, de passagem, quase não absorves nenhuma – demasiadas, tão bom, amigues, mas tão demasiado intenso-, fica só a sensação geral de existirem tantas pessoas que significam algo para ti e que algumas só as vês ali, uma vez por ano. Não falas a todas, não consegues. Acenas. Algumas tens demasiada vergonha para dizer olá, contas com a multidão para te esconder. Algumas tens mesmo, mesmo vontade de dizer olá e não dizes, não consegues. Algumas… algumas tens uma paixoneta por elas e por isso olá é a última coisa que consegues dizer (aliás, morrias se te dissessem olá embora obviamente queiras isso muito). Não dizes nada e se calhar logo as vês para o ano, ou nunca. Algumas outras preferias nunca mais na vida teres que as ver. Não tens percepção do tempo. A marcha acaba de começar e de repente já acabou e tu lembras-te de um tempo em que não era assim, em que havia a sequência de vários momentos e agora de repente só tens o princípio e o fim e perguntas-te se será da idade, se estás a ficar maluca ou se é simplesmente demais.

Sabes que aquele dia te parecia ao início cheio de possibilidades e quando termina só te sentes vazia, passa tudo demasiado rápido, é tudo demasiado efémero, mesmo que não estejas a organizar, mesmo que estejas com amigues, mesmo que vás com a tua bandeira. E a tua bandeira desta vez é a lésbica e nunca a viste numa marcha e ninguém a vai reconhecer, ninguém sabe que bandeira é aquela (talvez duas ou três pessoas saibam), mas também ninguém te pergunta – o que é mais ou menos como tu, só que tu às vezes nem és vista. Ou ouvida. Pela primeira vez vais com aquela bandeira porque finalmente te apercebeste que a tua identidade acabou a ficar por baixo de outras, que andaste imenso tempo a carregar bandeiras de tudo e mais alguma coisa e achaste que a bandeira lésbica podia ficar para último. Desta vez levaste a bandeira lésbica, entregaste a bandeira poly a outra pessoa porque a ti já não te aquece nem arrefece, tu só queres é descobrir quem és depois destes anos todos em que a tua cara parecia um poster. E estás farta. Mas nada disso se vê enquanto tentas ir em modo de passeio pela marcha, ou pelo menos era isso que disseste que ias fazer mas de repente dás por ti a nem saber fazer isso (como é que é andar despreocupadamente nesta marcha? Esqueci-me). Em vez disso andas para trás e para a frente (mas tu não estás na organização, devias estar a passear, a sorrir, a posar para fotos, não é isso que as pessoas fazem? mas não), em vez disso procuras os rostos de amigues que estão a organizar e vês olhos angustiados, cansados, para cima para baixo, vais vendo como estão, vais à frente da marcha, vês se as pessoas estão bem. Nunca vais para a parte de trás da marcha porque ali a partir do meio não queres saber. Mas caramba, tu devias estar a passear, a ver as bandeiras de outros. Voltas ao rio de marchantes. Tentas integrar-te. Tentas fazer isso mais um pouco, sentes-te meio perdida. Não sabes o que fazer às mãos. De vez em quando uma pessoa conhecida, um sorriso, um abraço forte. Que bom. Que saudades. Bolas, gosto mesmo de ti e acabei de me lembrar disso. Estás bem?  Sim. Estamos todas bem. Eu também estou bem, não estou? Não sei. Então e o poly? Não sei. Nem sou se sou isso. Não quero saber. A minha família está destruída. Tem piada, não tem? Afinal, toda a gente falha. Já viram? Bom, não viram, nós não falamos disso. Mas pronto, aqui está. Seja como for continuo.

É a marcha das emoções à flor da pele, dos rostos que tens de ver mas se calhar preferias não, dos que queres ver mas se calhar era melhor para ti não veres porque depois tens vontade de chorar. É a marcha em que vês a exaustão, a injustiça, em que sabes que uns vão pisar sempre nos mesmos, que esses mesmos – mesmas, para que é que estamos com coisas? Tantas vezes, demasiadas vezes, são mulheres – vão lá estar sobrecarregadas. Que isso não muda com os anos, só piora. E tu queres pensar em liberdade, em alegria de ser e desconstruir, na enorme diversidade que vês a tua volta e, caramba, nunca viste tanta bandeira diferente, algumas nem conheces e perguntas que bandeira é essa e bolas, isso é bom. Estamos enormes, há três anos não havia metade destas bandeiras todas, estamos e somos cada vez mais tanto, expandimos, expandimos e queer já nem é uma palavra esquisita. E tu bem queres que isso seja mais importante – mais importante do que se vai passando dentro de ti – mas não consegues. Porque toda a tua vida emocional está ali, porque as coisas não são simples bonitas e bem cortadas e cheias de cores, limpinhas e decentes como uma faixa da ilga. As vezes são sujas e feias e confusas e cheias de lágrimas. Às vezes tu querias mesmo que o amor vencesse tudo mas tu sabes que isso é uma grande treta porque o amor não vence nada sozinho e não se pode viver de amor.

E pronto, de repente a marcha acabou, estás a ouvir os discursos, não sabes o que fizeste durante a marcha, nem quem viste, sentes que não deste atenção nenhuma a quem foi contigo e que se passou tudo dentro da tua cabeça e sentes-te culpada por isso, porque querias estar lá, no momento, com aquelas pessoas. Pelo meio viste pessoas de quem gostas quase a chorar, sabes que algumas foram chorar para casa, outras desabafar porque isto lhes tira demasiado, porque trabalham um ano inteiro quase sozinhas e no fim se sentem perfeitas idiotas e tu ficas sem saber o que fazer porque também te sentes uma idiota e em cima disso ainda te sentes estranha porque ao menos tu ainda vais jantar e vais à festa.

Estás nervosa com a festa, porque tu não percebes nada de festas, não sabes bem como é suposto divertires-te num sítio onde não consegues ouvir sequer uma pessoa colada a ti, não sabes o que é suposto fazeres, mas é suposto ser divertido. É suposto. Tens quase 30 anos e continuas sem saber como é suposto fazer-se isto de conhecer pessoas, como é suposto estar-se numa festa – porque nunca soubeste-, mesmo assim vais e nem sabes bem porquê, vais porque é a festa da marcha, porque tens ideia de que algum dia vais saber estar numa festa. Bom, não sabes. Estás lá e no minuto em que chegas precisas de contrariar o impulso imediato de ir embora. Aliás, tu ainda nem passaste a porta e já te queres ir embora. Em vez disso ficas lá e tentas perceber como é suposto estar ali, olhas para as pessoas e elas estão felizes e bêbadas e a dançar e tu não consegues dançar assim, imaginas sempre que sim, escreves sobre isso e adoravas ser essa pessoa que dança assim mas não és. Aquelas pessoas ali conseguem dançar, conhecer-se, falar, comer-se, sei lá, tu não consegues nada, tu consegues ir buscar uma bebida e play it cool até alguém ta entornar totalmente no chão com um desculpa mal amanhado. Olhas para a tua cidra no chão e pensas que ali vai o resto dos 3€ de felicidade que tinhas naquela noite e bom, sais dali. Cá fora não está muito melhor porque é demasiado estranho estares ali sozinha, as pessoas não estão sozinhas em festas destas, estão com as namoradas – mas tu não tens disso agora – ou com grupos – mas tu não consegues estar em grupos agora – e tu de repente estás ali só a tentar respirar, a tentar não ver o que te faz mal, a tentar escolher bem para onde olhas para não desatares a chorar porque – sim – a tua vida emocional continua muito ali e infelizmente nesta comunidade onde toda a gente se conhece, toda a gente acaba ligada e parece sempre que estás a ver alguma pessoa que te lembra uma outra pessoa ou memória ou… é um poço, não lhe vês o fundo. No fim é difícil manter a vontade de chorar longe, mas lá fazes isso, estás com uma amiga, ela é especial para ti, ela sabe que tu não estás a aguentar muito bem, às tantas vamos as duas embora, pronto, já está missão cumprida e merda esqueci-me de dar o contributo da marcha de tanto estar metida na minha cabeça, mas ok, dou depois.

No dia seguinte vais trabalhar cedo. Não bebeste demais e se calhar até gostavas de o ter feito mas é só mais uma das coisas que não sabes como fazer. Dormiste três horas. Não te sentes muito bem, mas continuas a fazer tudo como é suposto. Vais trabalhar. O rescaldo do dia mais importante do ano apanha-te a caminho, no metro, e vai-te apanhando nos dias seguintes. Estás cansada. À tua volta há muita gente cansada. E tu querias que fosse um dia feliz mas não sabes como fazer isso.

Edição: Não é verdade que nunca vi uma bandeira lésbica – nunca vi a que levei, sim, lilás com um triângulo preto. Existem várias. Diferentes. De diferentes identidades lésbicas. Durante anos a única presente foi a do Clube Safo, a única associação portuguesa de defesa dos direitos das lésbicas e que cessou existência em 2012/13, depois de décadas a tentar manter-se à tona. Nos anos que fiz activismo assisti a muitos grupos de lésbicas e bis a tentarem formar-se e existir, muitos deles deixando de existir rapidamente ou não chegando a ver a luz do dia. Mantém-se hoje, ainda vivas e com voz, as ActiBistas e também o mais recente e activo colectivo de lésbicas e bissexuais negras Zanele Muholi, que este ano convocaram uma concentração de lésbicas e bis antes da Marcha.


faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.


Nós temos tão poucas ferramentas do coração

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Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt

 


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo. 


sou lésbica e não pareço

Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.

 


E se?… imaginando um mundo com milícias de amor e solidariedade

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No autocarro, uma mulher grita para o homem que está com ela: “já disse que não quero mais falar contigo, deixa-me em paz!”. Repete isto mais três vezes. Eu decido que se ela tiver que voltar a dizê-lo me vou levantar e vou perguntar ao homem se não ouviu o que ela disse. Mal decido isto eles saiem do autocarro. Já na rua, quando o autocarro vai arrancar novamente, ainda a ouço gritar: ” deixa-me em paz! Não quero!!! “. O grito ecoa pela rua. Nunca se ouve a voz do homem, só a presença supostamente silenciosa. Dentro do autocarro, os passageiros riem-se. Na verdade, são só as outras mulheres que ali estão que riem. E eu percebo de quem se estão a rir. Estão a rir-se dela. De uma mulher que está a dizer a alguém que se afaste. Que pare. Que não lhe toque e não lhe dirija palavra.

Eu não tenho vontade nenhuma de rir.

E no resto do caminho todo dou por mim a pensar: E se? Como seria um mundo diferente deste cheio de riso, inacção e indiferença? Não um mundo de justiça pelas próprias mãos, mas um mundo de união, de dar as mãos, de apoio, de vozes que se levantam contra o silêncio e o apagamento?

E se….

em vez de rirem todas as mulheres daquele autocarro – a grande maioria das pessoas que ali estavam – se levantassem e o confrontassem? E se em vez de rirem perguntassem àquela mulher se ela precisava de ajuda, de alguma coisa? E se em vez de fingirem que não vêm dissessem alguma coisa? Algo como: já chega, não ouviu o que ela está a pedir?

E de repente na minha cabeça surgiu a ideia – que obviamente já existe nos feminismos, académicos, utópicos e ficcionais – e se fosse sempre assim? Em todo o lado?

Na rua.
No café.
Na escola.
No trabalho precário.
Em casa.

E se fosse assim a todo o momento? Quando vamos a passar na rua e uma de nós é chamada sem o querer? Quando vamos a sair do autocarro e alguém nos manda um piropo que nunca quisemos ouvir? Quando andamos à noite depressa e com medo? E se em vez de indiferença, todas nós, todas sem excepção, nos apoiássemos? E se em vez de olharmos para a outra e pensarmos: “olha, não devias estar com essa saia tão curta”, se em vez disso nos levantássemos e levantássemos a voz e disséssemos antes: “o que é que tens a ver com a roupa que ela está a usar? Tens algum problema?”. E se subitamente em todo o lado, todas nós fizéssemos isto? No comboio, no metro, a caminho da padaria, a caminho da discoteca, no supermercado, no carro, com amigos, sem amigos.

E se todas as mulheres – cis, não cis – não aceitassem nem mais uma agressão? E se não aceitassem de facto e não apenas teoricamente ou em slogans de manifestações? E se cada vez que uma de nós tivesse que dizer “não quero” as outras estivessem lá a dizer “não ouviste o que ela disse?”. E se isso não fosse apenas em dias especiais ou dias internacionais das mulheres ou dias contra a violência?

E se a partir de agora, nunca mais nenhuma de nós aceitasse assédio no trabalho? Se denunciássemos cada frase sexista, cada comentário depreciativo por causa do nosso género, cada piadinha infeliz dita à mesa do café ou à hora de almoço? E se isso deixasse de ser apenas missão de algumas – as feministas, ou loucas, ou histéricas – e passasse a ser a missão de todas? De todas as etnias, de todas as idades, de todos os contextos sociais, de todos os backgrounds, em todos os lados onde há uma de nós? E se todas passássemos a ser histéricas? E loucas? E se nunca mais em lado nenhum pudesse haver um comentário sexista a cair na risada geral? Ou no silêncio desconfortável de algumas? Ou na conivência de todxs? E se nunca mais fosse normal uma piada de louras? Ou de pretas? Ou de gajas?

E se… se o normal passasse a ser nós, todas, juntas, a nunca mais tolerar uma única agressão?

E se em casa, nas nossas famílias, as nossas mães levantassem a voz por nós e nós por elas? E pelas nossas irmãs? E se nunca mais um acto de violência cometido em “privado” ficasse privado?

E se a violência que recebemos – sexual, homofóbica, étnica, you name it – deixasse de ser normal? Se a cada micro-momento dessas múltiplas violências de todos os nossos dias, cada uma de nós levantasse a voz e dissesse: CHEGA. E se cada vez que uma de nós estivesse a passar por uma agressão nunca estivesse sozinha? Se em cada momento soubéssemos que não estamos sozinhas? Quantas de nós levantariam a voz depois? Quantas de nós sabendo que a sua voz tem ecos que a antecedem e precedem, quantas de nós não falariam?

Se nunca mais fosse normal não sermos ouvidas num debate? Se nunca mais fosse normal criticar a forma como saímos à rua? Se nunca mais fosse normal o nosso espaço pessoal ser invadido? Se nunca mais fosse normal sermos educadas de forma diferente porque somos mulheres? Se nunca mais fosse normal pagarem-nos menos para fazermos o mesmo? Se nunca mais fosse normal rirem-se de nós por nos defendermos? Se nunca mais fosse normal calarmos-nos quando algo nos afecta?

E se nunca baixássemos os braços?

Sim, ficaríamos exaustas. Mas mudaríamos o mundo todo.

Sim, eu sei que isto é uma utopia. E sem que tem brechas. Brechas que deixam espaço a comportamentos manipulativos e a situações de injustiça. De gente que se aproveitaria deste estado de coisas. Mas não é isto já que vivemos diariamente? Não há já gente – tanta gente, o mundo todo – a aproveitar-se disto? Do nosso trabalho, das nossas palavras, da nossa vida? Do nosso sangue? Dos nossos úteros? Dos nossos corpos e sexualidades? De tudo?

E em silêncio continuamos. Com estatísticas e números e o peso de todos os dias e sempre uma nova notícia horrível. E se de repente isso não fosse normal? E se este texto tivesse muito menos “e ses”?

Estou a imaginar o impossível. E sei que esta utopia imaginada e escrita num intervalo de almoço do trabalho tem falhas. E sei que não fala por todas nós. Mas preciso de imaginar um mundo em que não existissem mais autocarros silenciosos. Nunca mais. E um mundo onde eu não tivesse medo de levantar a minha voz, como tive. Um mundo em que quando a minha voz se levantasse ela soasse como o trovão de todas as nossas vozes, juntas, jamais caladas.

O 8 de março vem aí e será mais um dia. Um dia para imaginarmos o impossível.

Toni Morrison

Toni Morrison