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Ele tem cenas, tu não

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Está quase a fazer um ano desde que estou sozinha, sem estar ou procurar estar numa relação romântica. No silêncio que a ausência de um interesse romântico deixa vago, abriu-se um espaço de possibilidades e a consciência da quantidade enorme de coisas que nós, mulheres, deixamos de fazer e ser quando estamos numa relação. Não vou fazer uma enumeração porque vocês provavelmente sabem do que estou a falar. Mas experimentemos: parem de ler e pensem em 3 coisas para as quais deixaram de ter tanto tempo como gostariam, desde que estão com alguém numa relação romântica.

Já está?

Se for difícil, estiverem muito apaixonadas e naquela fase inicial da relação em que só vos ocorre tudo o que de maravilhoso fazem a dois, então façam este exercício: imaginem que a relação acabou há 3 meses e pensem no que estariam a fazer neste preciso momento.  

Partilho as minhas: ler, escrever, ouvir música com headphones.

Todas elas passei a fazer menos ou nada quando estive em relações. Todas elas voltaram a ter primazia na minha vida desde que estou sozinha. Se vos disser que as 3 coisas acima são as que mais gosto de fazer, acho que percebem o problema.

Mas claro, não é assim tão simples.

E por não ser, vou-vos falar das minhas amigas e de relações heterossexuais. Nenhuma das minhas amigas é heterossexual e, no entanto, quase todas elas têm relações com homens neste momento. E as relações heterossexuais (ou vistas enquanto tal) têm na vida delas (e na minha) um impacto significativo.

Facto importante para esta história: todas as minhas amigas são mulheres feministas, independentes e fortes. Tal como eu.

 

“Liguei-lhe. Afinal já não vamos estar juntos hoje, porque surgiram cenas e ele vai estar com um amigo. Diz que aparece aqui amanhã.”


Soa familiar?

Quando ele diz que tem cenas, que é como quem diz, coisas para fazer, coisas dele, isso não quer dizer que ele não gosta de ti. Bom, até pode querer dizer isso, mas a grande maioria das vezes não quer dizer isso.

Só quer dizer uma coisa: ele, ao contrário de ti (de mim), foi ensinado a gostar dele próprio. Antes de mais nada.

Ele, ao contrário de ti (de mim), sabe que as “cenas” dele têm importância, que vêm primeiro. E ele até gosta de ti, mas a questão é: ele, ao contrário de ti (de mim), gosta dele primeiro. Só depois é que ele gosta de ti. Por isso ele tem “cenas”. “Cenas” quer dizer que ele tem uma vida além de ti e que essa vida é inalienável. Que nada se sobrepõe a ela.

Também quer dizer o seguinte:

Ele, ao contrário de ti (de mim), foi ensinado que isto é válido. Que isto não faz dele egoísta, pelo contrário. Estas “cenas” são o que fazem dele quem ele é. Nada é mais importante que o seu tempo pessoal, que os seus amigos, que os seus planos. E se, lá no meio disso, der para encaixar estar contigo, então óptimo. Se não der, então paciência, há-de dar no dia a seguir, tu podes, não podes?

E mesmo que não possas, passas a poder.

A diferença entre ti e ele é apenas esta: ele sabe que o tempo dele é dele por direito. Ele sabe que o tempo dele não precisa de argumentos ou justificações, que a única coisa que é preciso é que seja dele. É que ele, ao contrário de ti (de mim), foi ensinado a gostar de si mesmo. E aprendeu.

Reparem como, para ele, isto nem sequer é um assunto. Como não se justifica porque não há nada para justificar. Como não fica a remoer. Como não se culpa. Como assume que é okay a vossa combinação passar para o dia seguinte, sem problemas. E como vocês (eu) correm a mudar todos os planos do dia seguinte para poderem estar com ele, porque a outra opção é não o ver mais essa semana e vocês (eu) não querem isso.

Querem estar com eles, mais do que querem estar com vocês mesmas.

Um homem é sempre a sua própria prioridade. A lógica por detrás da forma como organizam o seu dia são eles mesmos e nunca os outros. E reparem, também, como eles dispõem do vosso tempo à vontade. Porque o vosso (meu) tempo existe para isso. É sempre o tempo da relação. E a escolha injusta, terrível é vossa (nossa). Vais prescindir de estar com ele, como uma espécie de castigo a ti mesma? Vais, à laia de vingança, dizer não e ficar o resto da semana triste, porque afinal já não vais estar com aquela pessoa de quem gostas? Ou vais engolir o sapo e fazer o possível para que dê? E vejam aqui como as vossas (nossas) opções nunca são leves ou simples. Se calhar o que gostaríamos era de dizer: olha, agora quem não pode sou eu. E íamos à nossa vida. Mas o problema está aí. Nós já o fizemos ser parte importante da nossa vida. Ele já está sempre, a todo o momento, a ser equacionado como parte da nossa vida. Ir à nossa vida já o implica a ele. E ele não está nem aí.

A sociedade aprova que ele tenha as suas “cenas”. Toda a gente compreende que um homem tenha o seu espaço, o seu tempo, os seus amigos, as suas saídas. Esse espaço e esse tempo têm valor. Teoricamente toda a gente compreende isso numa mulher, mas na prática… bom, a prática não se compadece muito dos discursos politicamente correctos. A prática é a seguinte:

Nós, mulheres, nunca temos “cenas”.

Ou melhor, até temos. As nossas cenas envolvem quase sempre, outros. Eles, claro. E depois, toda a gente e mais um par de botas. Se sobrar algum tempo depois disso, aí talvez esse seja nosso.

Se és mulher sabes que as tuas “cenas” são facilmente alteráveis, desmarcadas, adiadas. Sabes que o tempo que te sobra a ti é escasso, condicionado aos momentos em que outros não estão a precisar de ti. Sabes que o tempo que tens para ti te parece (e o sentes), quase sempre, como roubado a outrem. É um tempo que experimentas sempre com culpa. Ou são os filhos a que não estás a dar atenção, ou os pais que ignoraste, ou o namorado com quem não estiveste, ou a amiga que não ouviste ou o favor que não fizeste. O espaço de uma mulher é compreendido se for para outro alguém usufruir dele: namorados, maridos, filhos, pais, famílias, idosos. Conheço uma mulher – uma mãe – que lê no carro, estacionada em frente a casa, porque esse é o único momento do dia em que o consegue fazer sem ser interrompida. Se for para casa, lá estarão o marido e três filhos para encher o seu espaço e tempo. Este tempo é retirado aos filhos, à casa, não é dela. É um acto ilícito. Feito a coberto. Pleno de culpa.

O nosso espaço é o espaço da relação com (todos) os outros.

Nunca é nosso. Nunca é da tua relação contigo mesma.

Essa, nós já sabemos como se quer: inexistente.

E nós: disponíveis, acima de tudo.

Todas as mulheres incrivelmente fortes que conheço são pessoas fantásticas sozinhas. Mas quando aparece alguém nas vidas delas, elas diminuem-se. São outras. Não deixam de ser as minhas amigas, mas reduzem-se sempre de algum modo. Lentamente, mas de forma constante, as suas “cenas” deixam de ser suas. As suas conversas focam-se mais neles. Os seus tempos-livres cruzam-se com os deles quase sempre. O seu tempo passa a ser gerido em volta do tempo deles e do estar com eles. As suas preferências passam a ter as deles em conta. Os seus tempos comigo são interrompidos por conversas com eles. O seu humor, a forma como se sentem, passa a ter tudo a ver com o que acontece com eles. Quando um homem aparece nas nossas vidas deitamos tudo ao ar para viver um possível grande amor. Ele não. Porque ele aprendeu a lição: ele é o seu grande amor.

E eu? Eu fiz exactamente isto tudo que acabei de descrever. Eu sou elas também. Durante a maior parte da minha vida adulta, eu fui assim. Meses depois de ter acabado com todas as minhas relações, meses depois desta desintoxicação, começo a sentir o abismo de diferença, não apenas em mim, mas nelas.

Porque a coisa realmente cruel é que, quando as minhas amigas amam, amam-se menos a si mesmas. São menos elas mesmas. Por um lado, parecem felizes, intensas, sorridentes. Mas também caem mais facilmente na absoluta infelicidade, de um momento para o outro. Do tudo para o nada em segundos. Uma ausência de resposta dele, a mensagem a que não respondeu, o telefonema que não fez, uma mudança de planos de última hora, o tudo ou o nada que ele faça muda irrevogavelmente quase tudo. Estes homens, que estão com as minhas amigas, têm o poder de lhes mudar o dia com quase nada. Aliás, nada – o que eles não dizem, não fazem, as coisas que não lhes ocorrem – são precisamente aquilo que as pode fazer passar de um bom dia, para um dia mau. É o que desequilibra a frágil balança das vidas que fazemos para os outros.

E tudo porquê? Porque elas (eu) já fizeram o seu dia à volta daquela pessoa, assim como os sonhos e o seu possível futuro. Porque não importa o quão feministas somos, quão independentes, quão adultas. Temos a lição bem estudada: cuidar dos outros, viver para os outros, ajudar os outros. Estar lá para quem amamos.

Ele deu prioridade à vida dele. Tu deste prioridade a ele, como sempre te ensinaram a fazer.  E não, ele já não é a tua vida como o teu avô foi a vida da tua avó, o centro das suas rotinas, tarefas e responsabilidades. Não, ele não é a tua vida. Ainda não. Mas para lá caminha. Porque na tua cabeça ele já é parte central da tua vida. Tu já fizeste espaço para ele, lentamente já começaste a rearranjar tudo à tua volta, quase sem notares, de forma que os teus planos e horários consultam os dele primeiro e já começaste a encher os teus tempos livres de coisas que com ele se relacionam. Tu vais estar sempre a dar mais, porque no fundo vocês estão a dar coisas diferentes. Tu deste tudo, ele está a dizer-te que existe uma coisa que ele não dá e que é a vida dele. Ele não se vai anular por ti. E tu – tu não tens ferramentas para fazer outra coisa.

Poderíamos ver isto como algo extraordinário, que demonstra como as mulheres têm a capacidade única de pensar fora do seu umbigo, de ter empatia. Esta força poderia mudar o mundo. Em vez disso, é a perversão desta força que mantém o mundo exactamente como ele é. Por sistema, este olhar para fora significa que nunca olhamos para dentro. Que tal não nos é permitido. Quanto mais damos de nós a outros, mais afastadas acabamos umas das outras. Porque o que acontece quando as minhas amigas têm namorados é que eu tenho menos delas. Eu, que em todo o caso as conheço há bem mais tempo que qualquer um dos namorados e que muitas vezes ainda cá estou depois de eles já terem passado à história da vida emocional delas – eu passo a ser a estranha e desconhecida. Eu passo a ser a pessoa que vêm de vez em quando. Porque aquilo que todas nós um dia tememos que acontecesse, acontece de facto. As pessoas vão viver as suas vidas e aos 30 anos as suas vidas são a casa e o companheiro/filhos. As suas vidas já não são as amigas. O desejo profundo de sermos amadas afasta-nos de quem nos ama – de quem é também a nossa vida emocional.

Na presença de outros, o nosso impulso, bem treinado, reforçado é a nossa profunda, brutal anulação.

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Primeiro tens que gostar de ti: eis um pensamento que está muito em voga, mas cuja prática não podia ter caído mais em desuso entre mulheres. Em tudo quanto é blogue lá o vemos, no Pinterest colecionamos versões dele, no Instagram mostramos ao mundo o que fazemos com o tempo para nós. Criamos todo um discurso à volta de algo que ou não fazemos realmente, ou implica uma autêntica revolução nas nossas vidas, que vai muito além de partilhar uma imagem bonita.

Gostar de ti implica muitas coisas desagradáveis. Implica conheceres-te e para te conheceres precisas de passar imenso tempo só contigo. Sem te tentares distrair de ti mesma. Implica aprenderes a estar sozinha e não apenas sozinha à espera que aconteça alguma coisa que mude esse teu estado, ou sozinha à procura de alguém novo. Também não implica cuidares de ti ou gostares de ti para que alguém repare nisso e se apaixone por quem és. Não é algo que estás a fazer para outra pessoa. O objectivo não é o outro mas tu mesma.

Mas nós mulheres não estamos habituadas a pensar que somos o nosso próprio objectivo. A nossa própria pessoa especial. Todas conhecemos esta ideia, todas a repetimos a nós mesmas, numa luta constante entre a mulher que gostávamos de ser e a que somos na prática. Tudo isto parece óbvio. Tudo isto é fácil de dizer.  

Não é fácil de fazer. Implica pensares em ti e só em ti. Implica também que te vais sentir sozinha. E que vais ter que lidar com isso. Que te vais sentir egoísta. E que vais ter que lidar com isso. Que outros te vão dizer (ou pensar) que és egoísta. E que vais ter que lidar com isso. Que vão existir noites em que vais querer tudo menos isso. E que vais ter que lidar com isso.

O que eu tenho feito este ano é: deixar de responder a mensagens; ausentar-me durante horas porque estou a ler ou a escrever; não dizer boa noite a ninguém, por regra, antes de me deitar; não ficar a tentar ajudar quando nem em mim consigo pensar; dizer: agora não posso, estou ocupada. E não interessa se o meu ocupada é: estou sentada em cima das mãos sem fazer nada – é válido que eu decida fazer nada com o meu tempo. Nada é melhor do que o tempo que tenho tido só para mim, absolutamente meu e não partilhável. Não traduzível para compreensão de outrem, não capitalizável. Mas eu sei que ainda não aprendi a lição: sei que nunca respeitaria este tempo para mim se tivesse alguém. Se me apaixonasse. Não é um ano que me (nos) vai mudar. Mas é um princípio.

No meio da tua solidão vais encontrar-te a ti. Vais também encontrar muitas coisas que não gostas. Se calhar precisamos muito de nos perguntar porque é que toda a gente é sempre mais importante que nós. Porque é que quando temos namorado o tempo que é nosso passa a ser a excepção e não a regra. Porque é que nos sentimos culpadas sempre que assim não é. Porque sim, cada vez que eu não respondo a uma mensagem, sinto-me egoísta. Cada vez que não estou lá para dar um ombro, sinto-me má pessoa. Cada vez que digo estou ocupada sinto que podia ter feito um esforço maior. À minha volta a sociedade, na voz de gente bem intencionada e necessitada de ombros, corrobora a minha culpa. A minha mãe corrobora a minha culpa. As pessoas que mais nos amam corroboram a nossa culpa. E eles corroboram a nossa culpa sempre que, por algum motivo, não os apoiamos.

Mas ao mesmo tempo vais abrir um espaço que nunca esteve lá e, se estiveres disposta a não o encher com palha, vais ter a oportunidade de gostar tanto de ti que, quando vier a próxima pessoa, se calhar já gostas tanto do que descobriste que não estás disposta a prescindir nem um bocadinho disso. Tal como eles.

Essa pessoa que vai gostar de ti de forma incondicional precisas de ser tu. E tu tens que saber que, mesmo que mais ninguém no mundo aprecie o prazer da tua companhia, tu aprecias e isso é suficiente.  

 

Como esta história acabou:

“Olha, ainda bem que ele não veio hoje.

Acabou por ser um dia importante.

Tratei de imensa coisa.

Lavei roupa. Falei com o senhorio e fui tomar café com um amigo.

Falei imenso contigo

E à noite estive a escrever.”

 

E por ela ter falado comigo, eu escrevi este texto.

Porque quando nós temos tempo para nós, só para nós, podemos tudo.


Imagens: willowing.org http://bit.ly/2yTXQYQ; http://bit.ly/2AWcctq

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Já não sou poliamorosa. E não faz mal

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Deixei de ser poliamorosa. Para que fique já claro: não me identifico mais enquanto tal. E não, não estou a dizer que agora me identifico como não-monogâmica ou anarquista relacional ou qualquer outro termo de descrição de identidades relacionais alternativas – como muita gente tem vindo a fazer, desidentificando-se com aspectos problemáticos do poliamor, da sua literatura, dos seus gurus, dos seus aspectos abusivos, das suas comunidades. Não. Estou a dizer que – neste momento – não me identifico nem como poliamorosa, nem como não-monogâmica.

Virei monogâmica?

A resposta mais honesta que tenho é: não faço ideia. Terminei todas as relações em que estava no último ano. Há meio ano que não estou em nenhuma relação amorosa, ou melhor dizendo, como bem lembra o meu psicólogo: estou numa – comigo mesma.

Foi esta relação comigo mesma, que tenho vindo a recuperar da deterioração total, que me ajudou a ir pegar em coisas que se tornaram, discretamente, com a erosão do tempo, verdades imutáveis sobre mim.

Quem me conhece, e conhece a minha vida dos últimos anos, ou mesmo quem faça uma breve pesquisa por poliamor em Portugal no Google, verá e reconhecerá o meu nome em muitas entrevistas, reportagens, estudos, investigações académicas, tertúlias, debates, marchas. Dei a cara, o nome, a voz pela visibilidade do poliamor – a orientação relacional que escolhi e que foi a minha durante sete anos.

Hoje, esta orientação já não é mais a minha, portanto desconectemos Inês de Poliamor, de PolyPortugal, e de seja o que for que sejam seus sinónimos. Desconectemos Inês de não-monogamias de qualquer espécie que seja. Caramba, que alívio dizer isto! Que alívio e que difícil foi chegar a este ponto, que difícil foi para mim admitir que eu não sou esta bandeira e se calhar nunca vou ser, não sei. Considerem isto um coming-out ao contrário, ou uma destruição de todas as identificações perpétuas. Tudo é efémero, vivemos vidas efémeras, as nossas identidades são também efémeras, como o são as nossas relações e contextos. A vida é fluida, é mudança constante, mesmo que não notemos, como é que querem que a identidade não seja? O que eu queria aos 16 anos não é o que eu quero agora, salvo alguns sonhos, esses que ficam toda uma vida, crescendo connosco. Eu mudei, as minhas identidades mudam comigo, até os sonhos se transformam e ganham outros contornos, outras profundidades.

Levei muito tempo a perceber o que se passava comigo, e ainda estou a tentar perceber. Levei ainda mais tempo a conseguir escrever um texto como este, tão em profunda contradição com tudo o que escrevi durante anos. Levei ainda mais tempo a sequer considerar a ideia de que não ser poly não revelava nada de negativo sobre mim. Que não representava um enorme falhanço. Que nada dizia sobre mim enquanto pessoa. Que não sou menos por dizer: sim, fui poly. Não, não gostei. Não, não acho que toda a gente deva ser. Não, por favor, não me considerem mais poly, porque isso não sou eu. Não, paremos com as piadas sobre monogamia, ou seja o que for, porque para mim já não tem piada. Joke’s on me.

Demorei ainda mais tempo a parar a minha própria voz interior que me dizia que sou uma enorme contradição. Que estive sete anos a perder tempo. Que se não sou poly, que foi a parte mais visível das minhas identidades nos últimos anos, não sei quem serei. Que falhei. Que não sou suficientemente feminista para fazer as coisas de forma desconstruída e não-normativa.

Só que, percebi após muita terapia, muita conversa com ouvidos e vozes empáticas que:

Eu não tenho que ser coisa nenhuma.

Não tenho que ser revolucionária. Não tenho que ser desconstrutiva em tudo. Não tenho que lutar impiedosamente contra todos os clichés. Não tenho que fazer tudo de forma diferente. Não tenho que provar nada a ninguém. Não tenho que tentar alcançar um qualquer ideal de amar mais feminista que outros.

E, acima de tudo isto, não tenho que fazer nada disto a custo de sofrimento, de dor, de auto-sacrifício, de ansiedade.

Não, nenhum ideal vale o meu bem-estar mental e emocional. Nenhuma forma desconstruída de viver vale a minha saúde mental. Nenhuma luta contra a normatividade deve implicar a minha segurança emocional. E nada deve implicar o combate profundo que fiz à forma como sinto as coisas e como amo, em nome desse ideal.

Infelizmente, e de uma forma bastante reveladora, a literatura poly – com os seus livros de auto-ajuda, os seus artigos repletos de técnicas, conselhos, casos práticos – alimenta de forma quase perfeita o ciclo de auto-destruição em que me meti. Porque eu tinha um ideal, a forma que para mim era a maneira mais bela de amar: sem posses, sem ciúmes (ou trabalhando sobre eles), infinita, expansível, inesgotável. Intelectualmente, para mim tudo fazia sentido. As pessoas não são coisas, não temos que controlar com quem andam as pessoas que amamos, elas devem ser livres para amar toda a gente e nós também. É, potencialmente, anti-capitalista, anti-normativo, um combate à visão de escassez de amor, um combate às prisões e grilhões da exclusividade e da figura do casal que se fecha sobre si mesma. Sim, tudo isto, ninguém sabe o discurso melhor que eu, que o li, estudei, decorei, durante anos. Convenci-me que, se eu tinha dificuldades, o problema era meu. Eu é que não estava a ser desconstruída o suficiente, eu é que não estava a fazer todos os possíveis por lidar com a insegurança, com o medo, com a ansiedade, com os ciúmes. E se não estava a conseguir, então só tinha que tentar mais, ler mais, experimentar mais, colocar-me precisamente nas situações que me metiam medo, enfrentar o medo, ler mais um artigo, escrever mais um texto, ficar presente com o que estava a sentir, falar mais com os parceiros, tentar de novo, relativizar, tentar, tentar, uma, outra vez, de novo, mais um ano, mais um dia, tenta, tenta, tenta, vais conseguir, um dia vai doer menos, hoje doeu menos, bolas hoje doeu mais outra vez, é assim, a vida é assim, ninguém disse que isto era fácil, oh bolas, isto é lixado, mas okay, vamos tentar, vamos continuar, dia após dia após dia após noite após dia, eu consigo, eu sou feminista, nem sempre é mau, há mais uma técnica nova, eu consigo aprender.

Até

à exaustão total.

Uma coisa importante que as pessoas que dizemos normais e que são monogâmicas talvez saibam (porque não têm toda esta terrível literatura) e que as pessoas poly parecem ter esquecido:

uma relação não é suposto ser um trabalho.

Ouviste, Inês?

Ora, pois bem. Uma relação não deve ser ou implicar tanto trabalho. Uma relação não é um conjunto de ferramentas para lidar com a situação X, de forma a superar Y para poder continuar a fazer W. Não. Isto é uma fórmula matemática qualquer, suponho, não percebo nada de matemática, muito menos com letras. Isto parece-se mais com um problema de gestão. Mas eis mais uma coisa que uma relação não é suposto ser: um curso de gestão. Um mestrado em gestão aplicada ao quão lixado é o dia-a-dia não-monogâmico. Uma relação não é sequer suposto ser difícil. Ou lixada. E se é, então estou muito bem assim sozinha, obrigada.

O problema é que, durante muito tempo, eu achei que tinha que aprender a fazer isto. Se fazia sentido para a minha cabeça, se havia lógica e se eu entendia tudo e acreditava que isto era a forma mais bonita de amar, então eu tinha que conseguir sentir e amar assim, não é? É. Eu tentei. Juro que tentei. Juro que consegui também – algumas vezes. Mas ter que conseguir estar feliz numa relação é um problema em si mesmo, certo? Se cada passo é difícil, se há coisas que mesmo sete anos depois continuavam a ser difíceis e sem sinais de passarem a ser mais simples ou fáceis ou, sei lá, simplesmente não doerem demasiado, e se cada vez que se repetia um tipo de situação com uma nova pessoa era como se voltasse a ser tão horrível como da primeira vez, que sentido há nisto? Eu achava que havia sentido, por isso continuava sempre. Não terminei as minhas relações por não querer mais ser poly, mas quando as terminei percebi que não queria mais ser poly, que na verdade se calhar nunca fui. Eu pratiquei muito poly. Estive com pessoas que foram poly. Vivi numa família poly. Mas eu, o meu coração, alguma vez foi poly? Não sei. Apaixonei-me duas vezes na vida. De forma sequencial. Portanto não. O meu coração nunca foi poly. Amei mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, sim. Mas quantas pessoas podem dizer que só amam um único ser no mundo? Isso não as faz poly. Poly, como o aprendi a fazer e como o estudei nesses mil livros que li, cada um deles mais iluminado que o anterior, ou mais desconstruído, poly era um conjunto de coisas que é necessário processar, desmontar e uma série de aptidões a adquirir, a pôr em prática, a treinar, implementar, concretizar, verificar. Executar. Até à exaustão. Executando-me a mim mesma, relegando para menores as coisas que eu sentia, considerando sempre que eu é que tinha que melhorar, que uma melhor versão de mim estaria do outro lado do poly, que eu estava a trabalhar para essa nova, melhor, versão de mim, que eu era um progresso nesse sentido.

E, no meio disto, estive em ansiedade, estive sozinha, chorei, fiz a minha insegurança passar por testes terríveis e quase impossíveis de não chumbar, fiz coisas que me deixaram desconfortável, que preferia ter feito de outro modo, mas fiz porque queria ser melhor, queria estar ao nível do poly, dos meus parceiros que eram tão facilmente mais poly que eu sem quase esforço algum. Quando tudo para mim era esforço, era superação constante. Que bonita jornada pessoal. Só que não. O preço foi demasiado alto e um dia eu quebrei. E percebi que, para já, isto não é para mim. Não digo nunca – não faço ideia das voltas que a vida vai dar. Nunca me imaginei poly e um dia era. Depois, nunca me imaginei sem ser poly e agora já não o sou. Amanhã, não sei. Não faz mal. O que faz mal e o que fez mal foram anos a pensar que tinha que ser, que tinha que tentar, que eu é que era o problema.

Mas o problema não sou eu. O problema é acharmos que tudo se resolve com um conjunto de aptidões, que tudo o que é desconforto pode ser trabalhado, que o que custa vai sempre melhorar – em detrimento do bem-estar, da sanidade mental, e do sentir de cada um. Como se o meu sentir estivesse errado e o dos meus parceiros estivesse certo, só porque eles eram mais facilmente poly que eu!

O que eu percebi, sete anos depois é que nem tudo deve ser enfrentado. Não. Não devemos colocar-nos em todas as situações porque temos que conseguir lidar. Sendo mais clara: não, não tenho que ser amiga de todas as pessoas que estão com a pessoa com que estou. E não, não tenho que tentar. E não, não tenho que ver e estar okay e não, não tenho que me sentir feliz porque a pessoa que amo se apaixonou por outra. Especialmente, se isso me custa a minha saúde mental. Se isso me trouxe horas de esforço emocional, de conversas intermináveis, de processos que não desejo a ninguém. Há um lado muito difícil no poly, que se tenta dourar com conversa sobre comunicar e ser honesto. Não há honestidade que te salve de te sentires a morrer quando vês a pessoa que amas a beijar outra. E não tens que estar okay com isso se não estás. E não és menos se compersão – essa palavra terrível que sempre me fez pensar em com-pressão (e que adequado que agora me soa!), mas que é suposto significar todos aqueles sentimentos bons, lindos, maravilhosos, que deves ter quando a tua parceira está com outra pessoa – não é a tua primeira resposta. Conto pelos dedos de uma mão as vezes em que senti uma profunda compersão. E só depois de imenso processamento. Eu não sou um computador. Não tenho que processar tudo para do outro lado me sair a vida feita. Lamento, mas eu sou uma pessoa. Não é suposto passar anos a processar micro-problemas relacionais a cada passo que dou ou alguém dá na minha rede relacional. É um esforço tremendo, é esgotante, é demais. Mas a pressão sempre existiu. A pressão que me coloquei a mim mesma esteve sempre lá. Eu tinha que conseguir não porque os meus companheiros não fossem compreensives, não. Eu tinha que conseguir porque eu não era compreensiva comigo mesma. E não apenas eu, como toda a estrutura se baseava em todes irmos conseguindo, não é? E quando um não consegue, ao fim de algum tempo isso torna-se um problema para os outros. E vai ser preciso falar disso. E quando és sempre tu o problema, começas a achar que tu estás mal e a roda gira sobre si mesma.

Vivi de uma forma que muitas vezes me fez sofrer. E o que é mais triste é que o fiz porque queria, porque o escolhi e porque achava que sofrer fazia parte da lógica. Porque existem todas aquelas ideias bonitas que dizem que tudo o que vale a pena custa sempre, sobre nenhuma relação ser fácil, sobre lutar e desconstruir e todos os livros diziam isto e estavam ali tão disponíveis para te ajudar a superar cada dia o sofrimento todo. Portanto, sofrer era normal, toda a gente tinha dificuldades, poly dá trabalho, e então era suposto eu ter trabalho, era suposto ser difícil, era suposto continuar a trabalhar para superar tudo o que doía.

Até te afogares. E descobrires que não dá mais. E parares de ir buscar a resposta ao próximo livro ou artigo bem intencionado. Até te perguntares se o problema era mesmo teu ou se é mais alguma coisa, uma combinação de factores, como esta literatura da treta que ajuda se tu tiveres um conjunto de características e circunstâncias a contribuir também: por exemplo, se fores tu a pessoa que tem os vários parceiros, é mais fácil; por exemplo, se não tens tendência para te comparar compulsivamente com toda a gente, és capaz de conseguir; por exemplo, se insegurança não faz parte de ti como parte quase integrante, és capaz de superar um ou outro problema. Ou se não tens, nem nunca tiveste ciúmes. Ou se adoras que a tua companheira te conte absolutamente tudo o que fez com a nova pessoa que está a conhecer. Se preferes saber e isso te acalma em vez de te causar um ataque de ansiedade tão grande que sentes que regrediste três anos de percurso e te passou um camião em cima. Ou se realmente consegues que doa cada vez menos e que seja cada vez mais simples. Mas e quando não consegues nada disto? Quando em vez de melhor ficas pior? Quando percebes que não estás sequer a ter o que precisas na relação? Quando reparas que quanto mais amas livremente e te amam livremente, menos especial te sentes? Porque sim, ninguém te substitui, ninguém pode ser quem tu és, mas quem tu amas pode fazer, sentir, dizer tudo igual – a outra pessoa. E se o que isso te faz sentir não é de todo positivo? Se te faz perder o sentido de tudo e perguntar: então mas que raio estou a fazer contigo, se tudo pode ser equivalente?

Não, não é sempre mais desconstrutivo e revolucionário ser não-monogâmico. Não estou a dizer que fujam do poliamor e virem todos monogâmicos. Não. Estou a dizer que se forem poly, mono ou outra coisa qualquer, sejam-no só porque é o que querem, mas mais que isso, porque o sentem. Não deixem a cabeça mandar sozinha, porque querer é uma coisa, sentir é outra. Eu levei todo este tempo a perceber que a minha mente queria fazer as coisas de uma forma que torturava o meu coração. Se recorrentemente te acontece sentires que não és poly, não cales essa voz. Se recorrentemente sentires que não és mono, não cales essa voz. Se não te sentes mono ou poly, se calhar é porque simplesmente não és. Não implica que nunca venhas a ser. Implica só que neste momento não és e não vem mal ao mundo por isso. Por muito que custe, por muito desamparados que nos sintamos, é sempre possível mudarmos o que parece imutável.

Vamos parar de ignorar a nossa intuição, aquela voz pequenina que às vezes nos diz que algo não está bem e que tenta avisar-nos mas nós calamos tanta vez. Às vezes temos mesmo que a ouvir. Às vezes não é para lutarmos. Nem enfrentarmos todos os medos. Às vezes aquele medo está lá para te dizer que não é suposto tu estares. Às vezes o melhor para ti é mesmo ir embora.

Em última análise – e mesmo sem análise nenhuma – se não faz sentido – e aqui sentido é de sentir, mesmo, e não de ter lógica, esqueçam a lógica e a necessidade de ser coerente, porra isto não é um teste – dizia eu, que se não te faz sentido, então não adianta estares a tentar ser revolucionária. Se calhar a coisa mais revolucionária que podes fazer é dizeres isso. Isto não me faz bem, vou-me embora. Isto não me faz bem, então vou optar por procurar outros caminhos para mim. Os ideais são essenciais na vida, fazem-nos aspirar a algo maior que nós, e lutar para mudar este mundo, mas nenhum ideal deve vergar a nossa vida. Nenhum ideal se pode sobrepor à minha integridade. Alguns diriam que sim. Alguns morreram por ideais. Eu não quero morrer por um ideal, e se morresse por algum preferia que fosse o feminismo – aquele que eu defendo, aquele que faz todos os sentidos e mais algum, os do sentir, os do direito, os da lógica. Mas não, eu não quero morrer por nenhum ideal. Nem anular-me, a mim, aos meus desejos, aos meus sentimentos.

Nós não amamos só com a cabeça. A cabeça deve fazer parte, para não amarmos de forma cega ou destrutiva, mas a cabeça é uma parte muito pequena do amor. Eu tentei amar com a cabeça e deu nisto. Verguei o coração à cabeça e, como músculo que é, tentei trabalhá-lo para a jornada diária do amor poly, para os seus muitos desafios sucessivos intermináveis. E ele, o meu coração, resistiu bravamente, mas acabou a ter uma ruptura de ligamentos e nunca mais ficou o mesmo. E eu não quero submetê-lo novamente a uma provação com tantas etapas como esta.

Eu não sei se sou monogâmica, ou o que quer que seja. Sei o que não sou, que é como o outro dizia, sei por onde não quero ir. Não sou hetero. Não sou poly. 

Depois de ter desconstruído tudo, o que é que sobra? Dar um passo atrás. Respirar. Ganhar outra perspectiva. Questionar tudo o que achei que eram verdades absolutas sobre mim.

Acreditar que, se calhar, o que vale a pena não tem que custar coisa nenhuma. Não tem que custar. Ponto.

Eu tratei o amor como um emprego. E despedi-me no fim, sem indemnização.

Amor não é amor se não for amor por mim primeiro, amor a quem sou, e verdade para quem sou, mesmo que a verdade possa mudar comigo. Caso contrário, não é amor, é desamor mesmo.

Imagem: http://bit.ly/2xrBAHF


a marcha das emoções

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O dia da Marcha do Orgulho LGBT não é um dia feliz para mim. É um dos dias mais importantes do ano, mas há muito tempo que não é um dia feliz.

Talvez a primeira marcha a que fui, antes de ser activista, antes de saber sequer o que são associações, colectivos, antes mesmo de saber o que isto tudo implicava, talvez essa, há 8 anos atrás, tenha sido uma marcha feliz. Fui com a minha melhor amiga, sempre de mão dada, vestida de roxo, cheia de fitas de cores nos cabelos. Sonhava com um grande amor, só via liberdade em todo o lado, não tinha medo das palavras, agarrava-me a todas, sorria o tempo todo, não sabia bem o que era a ilga, menos ainda que havia mais que a ilga ou que isso importava sequer. Realmente a ignorância às vezes é mesmo bênção.

Em 8 anos muita coisa mudou. O trabalho activista foi um choque de realidade – nada como meter as mãos na massa para saber mesmo o quanto isto dói e cobra de nós (dos nossos corpos, das nossas emoções, do nosso tempo, das nossas saúdes). É tudo tão lindo visto de fora. O arco-íris até parece mesmo ter o pote de ouro no fim, mas quando lá chegas já nem forças tens para o pote. Mas este não é um texto coerente ou lógico de enumeração de todos os problemas graves da nossa comunidade LGBTQIA e do nosso movimento doente. Também não é um texto racional sobre a quase ausência de prática e ética feminista dentro desta comunidade, ou sobre a quase ausência sistémica de empatia, ou sobre a constante misoginia ou sobre a divisão desigual de trabalho activista, ou sobre a sobrecarga desse mesmo trabalho recair invariavelmente sobre mulheres, ou mesmo sobre a sempre presente sub-representação de mulheres queer nos espaços, marchas e festas, ou sobre a permanência de comportamentos e pessoas abusivas que são protegidas dentro da comunidade. Isso fica para quando eu conseguir pensar, porque agora eu só consigo mesmo é sentir.

Esta foi para mim a marcha das emoções. Difícil seria que fosse outra coisa. Pela primeira vez em 8 anos fui marchar sem estar em nenhuma relação amorosa. Mas ali estão quase todas as pessoas que fizeram ou fazem parte da minha vida emocional. Ali, num mesmo local, num mesmo dia, numa mesma hora, estão todas lá. Toda e qualquer pessoa que significa algo para mim está ali, ou está presente pela sua ausência significativa. É chegar e ter vontade de fugir imediatamente, de voltar à segurança e conforto do meu universo da escrita, em que o coração me bate dentro do peito e eu posso chorar e rir e ninguém está a ver. Ali há demasiados olhos. Demasiada coisa a acontecer. Acabo de chegar e quero mesmo ir-me embora, embora aquele seja o dia mais importante do ano para mim. Fui sozinha, rodeada de amigues, amigues, amigues por todos os lados, as pessoas mais importantes da minha vida ali. E mesmo assim há coisas que, mesmo rodeada de amigues, tenho de passar sozinha. Não há como as transcrever para fora de mim, não há como as transmitir, há um indizível que vivo ali sozinha, em cada segundo, em cada interacção. Chego. Levo dois segundos a encontrar caras conhecidas numa multidão. Estranho como no início não conhecia ninguém e como de repente pareço conhecer demasiadas pessoas.

E na marcha há sorrisos e abraços e passas por cada uma, de passagem, quase não absorves nenhuma – demasiadas, tão bom, amigues, mas tão demasiado intenso-, fica só a sensação geral de existirem tantas pessoas que significam algo para ti e que algumas só as vês ali, uma vez por ano. Não falas a todas, não consegues. Acenas. Algumas tens demasiada vergonha para dizer olá, contas com a multidão para te esconder. Algumas tens mesmo, mesmo vontade de dizer olá e não dizes, não consegues. Algumas… algumas tens uma paixoneta por elas e por isso olá é a última coisa que consegues dizer (aliás, morrias se te dissessem olá embora obviamente queiras isso muito). Não dizes nada e se calhar logo as vês para o ano, ou nunca. Algumas outras preferias nunca mais na vida teres que as ver. Não tens percepção do tempo. A marcha acaba de começar e de repente já acabou e tu lembras-te de um tempo em que não era assim, em que havia a sequência de vários momentos e agora de repente só tens o princípio e o fim e perguntas-te se será da idade, se estás a ficar maluca ou se é simplesmente demais.

Sabes que aquele dia te parecia ao início cheio de possibilidades e quando termina só te sentes vazia, passa tudo demasiado rápido, é tudo demasiado efémero, mesmo que não estejas a organizar, mesmo que estejas com amigues, mesmo que vás com a tua bandeira. E a tua bandeira desta vez é a lésbica e nunca a viste numa marcha e ninguém a vai reconhecer, ninguém sabe que bandeira é aquela (talvez duas ou três pessoas saibam), mas também ninguém te pergunta – o que é mais ou menos como tu, só que tu às vezes nem és vista. Ou ouvida. Pela primeira vez vais com aquela bandeira porque finalmente te apercebeste que a tua identidade acabou a ficar por baixo de outras, que andaste imenso tempo a carregar bandeiras de tudo e mais alguma coisa e achaste que a bandeira lésbica podia ficar para último. Desta vez levaste a bandeira lésbica, entregaste a bandeira poly a outra pessoa porque a ti já não te aquece nem arrefece, tu só queres é descobrir quem és depois destes anos todos em que a tua cara parecia um poster. E estás farta. Mas nada disso se vê enquanto tentas ir em modo de passeio pela marcha, ou pelo menos era isso que disseste que ias fazer mas de repente dás por ti a nem saber fazer isso (como é que é andar despreocupadamente nesta marcha? Esqueci-me). Em vez disso andas para trás e para a frente (mas tu não estás na organização, devias estar a passear, a sorrir, a posar para fotos, não é isso que as pessoas fazem? mas não), em vez disso procuras os rostos de amigues que estão a organizar e vês olhos angustiados, cansados, para cima para baixo, vais vendo como estão, vais à frente da marcha, vês se as pessoas estão bem. Nunca vais para a parte de trás da marcha porque ali a partir do meio não queres saber. Mas caramba, tu devias estar a passear, a ver as bandeiras de outros. Voltas ao rio de marchantes. Tentas integrar-te. Tentas fazer isso mais um pouco, sentes-te meio perdida. Não sabes o que fazer às mãos. De vez em quando uma pessoa conhecida, um sorriso, um abraço forte. Que bom. Que saudades. Bolas, gosto mesmo de ti e acabei de me lembrar disso. Estás bem?  Sim. Estamos todas bem. Eu também estou bem, não estou? Não sei. Então e o poly? Não sei. Nem sou se sou isso. Não quero saber. A minha família está destruída. Tem piada, não tem? Afinal, toda a gente falha. Já viram? Bom, não viram, nós não falamos disso. Mas pronto, aqui está. Seja como for continuo.

É a marcha das emoções à flor da pele, dos rostos que tens de ver mas se calhar preferias não, dos que queres ver mas se calhar era melhor para ti não veres porque depois tens vontade de chorar. É a marcha em que vês a exaustão, a injustiça, em que sabes que uns vão pisar sempre nos mesmos, que esses mesmos – mesmas, para que é que estamos com coisas? Tantas vezes, demasiadas vezes, são mulheres – vão lá estar sobrecarregadas. Que isso não muda com os anos, só piora. E tu queres pensar em liberdade, em alegria de ser e desconstruir, na enorme diversidade que vês a tua volta e, caramba, nunca viste tanta bandeira diferente, algumas nem conheces e perguntas que bandeira é essa e bolas, isso é bom. Estamos enormes, há três anos não havia metade destas bandeiras todas, estamos e somos cada vez mais tanto, expandimos, expandimos e queer já nem é uma palavra esquisita. E tu bem queres que isso seja mais importante – mais importante do que se vai passando dentro de ti – mas não consegues. Porque toda a tua vida emocional está ali, porque as coisas não são simples bonitas e bem cortadas e cheias de cores, limpinhas e decentes como uma faixa da ilga. As vezes são sujas e feias e confusas e cheias de lágrimas. Às vezes tu querias mesmo que o amor vencesse tudo mas tu sabes que isso é uma grande treta porque o amor não vence nada sozinho e não se pode viver de amor.

E pronto, de repente a marcha acabou, estás a ouvir os discursos, não sabes o que fizeste durante a marcha, nem quem viste, sentes que não deste atenção nenhuma a quem foi contigo e que se passou tudo dentro da tua cabeça e sentes-te culpada por isso, porque querias estar lá, no momento, com aquelas pessoas. Pelo meio viste pessoas de quem gostas quase a chorar, sabes que algumas foram chorar para casa, outras desabafar porque isto lhes tira demasiado, porque trabalham um ano inteiro quase sozinhas e no fim se sentem perfeitas idiotas e tu ficas sem saber o que fazer porque também te sentes uma idiota e em cima disso ainda te sentes estranha porque ao menos tu ainda vais jantar e vais à festa.

Estás nervosa com a festa, porque tu não percebes nada de festas, não sabes bem como é suposto divertires-te num sítio onde não consegues ouvir sequer uma pessoa colada a ti, não sabes o que é suposto fazeres, mas é suposto ser divertido. É suposto. Tens quase 30 anos e continuas sem saber como é suposto fazer-se isto de conhecer pessoas, como é suposto estar-se numa festa – porque nunca soubeste-, mesmo assim vais e nem sabes bem porquê, vais porque é a festa da marcha, porque tens ideia de que algum dia vais saber estar numa festa. Bom, não sabes. Estás lá e no minuto em que chegas precisas de contrariar o impulso imediato de ir embora. Aliás, tu ainda nem passaste a porta e já te queres ir embora. Em vez disso ficas lá e tentas perceber como é suposto estar ali, olhas para as pessoas e elas estão felizes e bêbadas e a dançar e tu não consegues dançar assim, imaginas sempre que sim, escreves sobre isso e adoravas ser essa pessoa que dança assim mas não és. Aquelas pessoas ali conseguem dançar, conhecer-se, falar, comer-se, sei lá, tu não consegues nada, tu consegues ir buscar uma bebida e play it cool até alguém ta entornar totalmente no chão com um desculpa mal amanhado. Olhas para a tua cidra no chão e pensas que ali vai o resto dos 3€ de felicidade que tinhas naquela noite e bom, sais dali. Cá fora não está muito melhor porque é demasiado estranho estares ali sozinha, as pessoas não estão sozinhas em festas destas, estão com as namoradas – mas tu não tens disso agora – ou com grupos – mas tu não consegues estar em grupos agora – e tu de repente estás ali só a tentar respirar, a tentar não ver o que te faz mal, a tentar escolher bem para onde olhas para não desatares a chorar porque – sim – a tua vida emocional continua muito ali e infelizmente nesta comunidade onde toda a gente se conhece, toda a gente acaba ligada e parece sempre que estás a ver alguma pessoa que te lembra uma outra pessoa ou memória ou… é um poço, não lhe vês o fundo. No fim é difícil manter a vontade de chorar longe, mas lá fazes isso, estás com uma amiga, ela é especial para ti, ela sabe que tu não estás a aguentar muito bem, às tantas vamos as duas embora, pronto, já está missão cumprida e merda esqueci-me de dar o contributo da marcha de tanto estar metida na minha cabeça, mas ok, dou depois.

No dia seguinte vais trabalhar cedo. Não bebeste demais e se calhar até gostavas de o ter feito mas é só mais uma das coisas que não sabes como fazer. Dormiste três horas. Não te sentes muito bem, mas continuas a fazer tudo como é suposto. Vais trabalhar. O rescaldo do dia mais importante do ano apanha-te a caminho, no metro, e vai-te apanhando nos dias seguintes. Estás cansada. À tua volta há muita gente cansada. E tu querias que fosse um dia feliz mas não sabes como fazer isso.

Edição: Não é verdade que nunca vi uma bandeira lésbica – nunca vi a que levei, sim, lilás com um triângulo preto. Existem várias. Diferentes. De diferentes identidades lésbicas. Durante anos a única presente foi a do Clube Safo, a única associação portuguesa de defesa dos direitos das lésbicas e que cessou existência em 2012/13, depois de décadas a tentar manter-se à tona. Nos anos que fiz activismo assisti a muitos grupos de lésbicas e bis a tentarem formar-se e existir, muitos deles deixando de existir rapidamente ou não chegando a ver a luz do dia. Mantém-se hoje, ainda vivas e com voz, as ActiBistas e também o mais recente e activo colectivo de lésbicas e bissexuais negras Zanele Muholi, que este ano convocaram uma concentração de lésbicas e bis antes da Marcha.


faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.


Nós temos tão poucas ferramentas do coração

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Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt

 


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo. 


sou lésbica e não pareço

Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.

 


E se?… imaginando um mundo com milícias de amor e solidariedade

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No autocarro, uma mulher grita para o homem que está com ela: “já disse que não quero mais falar contigo, deixa-me em paz!”. Repete isto mais três vezes. Eu decido que se ela tiver que voltar a dizê-lo me vou levantar e vou perguntar ao homem se não ouviu o que ela disse. Mal decido isto eles saiem do autocarro. Já na rua, quando o autocarro vai arrancar novamente, ainda a ouço gritar: ” deixa-me em paz! Não quero!!! “. O grito ecoa pela rua. Nunca se ouve a voz do homem, só a presença supostamente silenciosa. Dentro do autocarro, os passageiros riem-se. Na verdade, são só as outras mulheres que ali estão que riem. E eu percebo de quem se estão a rir. Estão a rir-se dela. De uma mulher que está a dizer a alguém que se afaste. Que pare. Que não lhe toque e não lhe dirija palavra.

Eu não tenho vontade nenhuma de rir.

E no resto do caminho todo dou por mim a pensar: E se? Como seria um mundo diferente deste cheio de riso, inacção e indiferença? Não um mundo de justiça pelas próprias mãos, mas um mundo de união, de dar as mãos, de apoio, de vozes que se levantam contra o silêncio e o apagamento?

E se….

em vez de rirem todas as mulheres daquele autocarro – a grande maioria das pessoas que ali estavam – se levantassem e o confrontassem? E se em vez de rirem perguntassem àquela mulher se ela precisava de ajuda, de alguma coisa? E se em vez de fingirem que não vêm dissessem alguma coisa? Algo como: já chega, não ouviu o que ela está a pedir?

E de repente na minha cabeça surgiu a ideia – que obviamente já existe nos feminismos, académicos, utópicos e ficcionais – e se fosse sempre assim? Em todo o lado?

Na rua.
No café.
Na escola.
No trabalho precário.
Em casa.

E se fosse assim a todo o momento? Quando vamos a passar na rua e uma de nós é chamada sem o querer? Quando vamos a sair do autocarro e alguém nos manda um piropo que nunca quisemos ouvir? Quando andamos à noite depressa e com medo? E se em vez de indiferença, todas nós, todas sem excepção, nos apoiássemos? E se em vez de olharmos para a outra e pensarmos: “olha, não devias estar com essa saia tão curta”, se em vez disso nos levantássemos e levantássemos a voz e disséssemos antes: “o que é que tens a ver com a roupa que ela está a usar? Tens algum problema?”. E se subitamente em todo o lado, todas nós fizéssemos isto? No comboio, no metro, a caminho da padaria, a caminho da discoteca, no supermercado, no carro, com amigos, sem amigos.

E se todas as mulheres – cis, não cis – não aceitassem nem mais uma agressão? E se não aceitassem de facto e não apenas teoricamente ou em slogans de manifestações? E se cada vez que uma de nós tivesse que dizer “não quero” as outras estivessem lá a dizer “não ouviste o que ela disse?”. E se isso não fosse apenas em dias especiais ou dias internacionais das mulheres ou dias contra a violência?

E se a partir de agora, nunca mais nenhuma de nós aceitasse assédio no trabalho? Se denunciássemos cada frase sexista, cada comentário depreciativo por causa do nosso género, cada piadinha infeliz dita à mesa do café ou à hora de almoço? E se isso deixasse de ser apenas missão de algumas – as feministas, ou loucas, ou histéricas – e passasse a ser a missão de todas? De todas as etnias, de todas as idades, de todos os contextos sociais, de todos os backgrounds, em todos os lados onde há uma de nós? E se todas passássemos a ser histéricas? E loucas? E se nunca mais em lado nenhum pudesse haver um comentário sexista a cair na risada geral? Ou no silêncio desconfortável de algumas? Ou na conivência de todxs? E se nunca mais fosse normal uma piada de louras? Ou de pretas? Ou de gajas?

E se… se o normal passasse a ser nós, todas, juntas, a nunca mais tolerar uma única agressão?

E se em casa, nas nossas famílias, as nossas mães levantassem a voz por nós e nós por elas? E pelas nossas irmãs? E se nunca mais um acto de violência cometido em “privado” ficasse privado?

E se a violência que recebemos – sexual, homofóbica, étnica, you name it – deixasse de ser normal? Se a cada micro-momento dessas múltiplas violências de todos os nossos dias, cada uma de nós levantasse a voz e dissesse: CHEGA. E se cada vez que uma de nós estivesse a passar por uma agressão nunca estivesse sozinha? Se em cada momento soubéssemos que não estamos sozinhas? Quantas de nós levantariam a voz depois? Quantas de nós sabendo que a sua voz tem ecos que a antecedem e precedem, quantas de nós não falariam?

Se nunca mais fosse normal não sermos ouvidas num debate? Se nunca mais fosse normal criticar a forma como saímos à rua? Se nunca mais fosse normal o nosso espaço pessoal ser invadido? Se nunca mais fosse normal sermos educadas de forma diferente porque somos mulheres? Se nunca mais fosse normal pagarem-nos menos para fazermos o mesmo? Se nunca mais fosse normal rirem-se de nós por nos defendermos? Se nunca mais fosse normal calarmos-nos quando algo nos afecta?

E se nunca baixássemos os braços?

Sim, ficaríamos exaustas. Mas mudaríamos o mundo todo.

Sim, eu sei que isto é uma utopia. E sem que tem brechas. Brechas que deixam espaço a comportamentos manipulativos e a situações de injustiça. De gente que se aproveitaria deste estado de coisas. Mas não é isto já que vivemos diariamente? Não há já gente – tanta gente, o mundo todo – a aproveitar-se disto? Do nosso trabalho, das nossas palavras, da nossa vida? Do nosso sangue? Dos nossos úteros? Dos nossos corpos e sexualidades? De tudo?

E em silêncio continuamos. Com estatísticas e números e o peso de todos os dias e sempre uma nova notícia horrível. E se de repente isso não fosse normal? E se este texto tivesse muito menos “e ses”?

Estou a imaginar o impossível. E sei que esta utopia imaginada e escrita num intervalo de almoço do trabalho tem falhas. E sei que não fala por todas nós. Mas preciso de imaginar um mundo em que não existissem mais autocarros silenciosos. Nunca mais. E um mundo onde eu não tivesse medo de levantar a minha voz, como tive. Um mundo em que quando a minha voz se levantasse ela soasse como o trovão de todas as nossas vozes, juntas, jamais caladas.

O 8 de março vem aí e será mais um dia. Um dia para imaginarmos o impossível.

Toni Morrison

Toni Morrison