Category Archives: mental health

No próximo ano, aborrece-te.

birch-moon.jpg

Há quem diga que para ouvires a tua própria voz, precisas de tirar o volume ao resto do mundo. Sim, o silêncio é importante. Assim como o tempo que passas sozinha. O aborrecimento também é importante. Tendemos a encher todas as horas do dia com qualquer coisa. É raro estarmos só a fazer uma coisa. Se estamos a cozinhar, estamos a ouvir música ou um podcast. A jantar ligamos a TV ou vemos a Netflix. No intervalo bebemos um café a fazer scroll no telemóvel. Antes de dormir estamos no instagram. No caminho para casa estamos sempre a fazer outra coisa que nos distraia de estar a viajar. Estamos sempre a fazer qualquer coisa que nos distraia de estarmos a viver. Fazemos isto não só para escapar ao aborrecimento, mas também porque temos medo de não ter tempo. O tempo está sempre a escapar-nos e por isso tentamos fazer o máximo de coisas que gostamos ao mesmo tempo. Lemos um livro a seguir ao outro, sem pausas no meio porque já não temos tempo de vida para a lista de livros por ler. Raramente nos deixamos ficar com o que o livro nos deu. Raramente nos deixamos voltar a ele. Vemos o filme enquanto comemos, porque sabemos que despachando as duas coisas ao mesmo tempo ficamos com mais tempo depois. No meio disto, o mundo faz muito barulho e é fácil calá-lo com alguma distracção. Só não é fácil ficar realmente em silêncio. Fora do mundo. Deixar que o aborrecimento nos leve a ouvir a nossa voz. Há coisas extraordinárias que acontecem quando estamos aborrecidas. É nessa altura que começamos a olhar para coisas que nunca veríamos se estivéssemos ocupadas, se tentássemos enganar o aborrecimento. É quando estou mais aborrecida e não me tento distrair que começo a criar. Já escrevi no banho. Não literalmente, claro, mas na minha cabeça. Algumas das minhas melhores histórias surgiram quando estou a lavar o meu corpo, sem fazer mais nada. Outras quando estou a ouvir música, sem fazer mais nada. Outras à espera do comboio, sem fazer mais nada. Outras em viagens longas, sem fazer mais nada. É nessas alturas que percebo que ouvir a minha voz não implica baixar o volume ao mundo, mas sim afinar-me ao som do mundo. É o equilíbrio entre estar sozinha e no mundo. Encontrar essa zona de atenção profunda e solidão profunda, simultaneamente dentro e fora. Não é ignorar os outros e virar eremita – posso estar enganada, mas penso que falta sempre qualquer coisa ao eremita. É, antes, mergulhar no mundo, nos livros, nos outros e depois sair, fazer uma retirada estratégica e procurar o aborrecimento e a solidão. 

É algo muito difícil para mim. Todos os momentos do meu dia são passados em interrupções à minha voz interior. Raramente conseguimos ficar um dia só a ouvir-nos e a solidão ainda assusta, ainda nos confronta demasiado com a possível tristeza, com a ansiedade de partilhar algo e não ter com quem o fazer, com o nosso discurso interno que tantas vezes não é sequer bom para nós. Mas, talvez por isso mesmo, o aborrecimento seja necessário. Quanto mais ouvimos a nossa voz, mais ela vai fluir. Quanto mais nos deixarmos ouvir o mundo, mais ele vai fazer parte de nós, em vez de ser simplesmente um lugar onde estamos de passagem. 

Fotografias e Tatuagens por Leonor Lima.

Este texto era suposto ser sobre o Yule, a lua cheia e as duas tatuagens que acabei de fazer: A Sacerdotisa (Arcano Maior do Tarot) e a árvore. Queria escrever sobre a importância de ouvirmos a nossa voz intuitiva e sobre como essa voz me salvou a vida. Para mim, este estar no mundo e ouvir a minha própria voz é representado pela Sacerdotisa que tatuei. Era suposto ser também um texto sobre a Lua da Bétula, que começa hoje no calendário celta e que se prolonga até 20 de janeiro. Para quem acredita no poder das sincronias, é fácil olhar para todos estes momentos – o Solstício de Inverno, a última Lua Cheia do ano, a Lua da Bétula, a celebração das festas e o virar do ano – e ver o momentum que os abarca a todos, a forma como todos estes acasos não são acasos.

Muitas pessoas associam a chegada do Inverno a um período negro ou mais depressivo, mas para mim o Inverno coincidiu sempre com momentos de renovação profunda. Foi no Inverno que nasci, foi no Inverno que iniciei relações amorosas e que as terminei, foi no Inverno que comecei a fazer terapia, foi no Inverno que cortei definitivamente com pessoas que me faziam mal, foi no Inverno que saí de casa, foi no final do Inverno que arranjei um novo emprego, foi no Inverno que me despedi da minha avó, foi no Inverno que tatuei a Sacerdotisa e a árvore. Todos os momentos de viragem na minha vida dizem respeito ao Inverno e este ano não foi excepção, até porque quando nos tornamos conscientes de um padrão, de um momentum, melhor o conseguimos canalizar e à sua energia para as mudanças que precisamos de fazer, quase se como o universo conspirasse. Estou a terminar o ano em cima de mais um ponto de viragem profunda: finalmente, estou a cortar com o padrão antigo; finalmente fiz o luto e percebi que afinal não perdi o que pensei que tinha perdido. Do outro lado da dor, encontrei o que ganhei e não sabia.

Foi por isso que este Inverno tatuei a Sacerdotisa, carta II do tarot. Esta carta passou meses a aparecer-me em leituras. Eu voltei este ano a estudar tarot, algo que tinha abandonado há muitos anos, na mesma altura em que abandonei a escrita e deixei de ouvir a minha voz. A coisa boa de ter voltado à minha voz, é que tudo o que ela mais valoriza voltou com ela e por isso eu voltei ao paganismo e voltei à escrita. Não sou de modo nenhum especialista em tarot, mas quero partilhar convosco a minha interpretação pessoal da carta Sacerdotisa, como desenhada na minha perna.

A Sacerdotisa está na fronteira entre os dois mundos. Ela está sozinha e no mundo. Ela está em silêncio, a ouvir a sua voz e a do mundo. Ela não desliga o sentir do pensar, não pensa sem sentir. Ela viaja entre os reinos do consciente e do inconsciente. Ela sabe que o mundo não é o que parece. Sabe, porque passa tempo sozinha, porque não se distrai do mundo. Sabe, porque sente o mundo e porque sabe o seu lugar nele. Ela está virada para dentro e para fora, na verdade, sabe que o dentro e o fora são uma mesma coisa, não existem um sem o outro. Ela é regida pela lua, mas não está sob a lua, ela é com a lua, ou seja, ela sabe trabalhar com a lua para obter o que deseja. 

Ela diz-nos para acedermos ao nosso próprio poder, ouvirmos a nossa voz, mesmo que ela seja minoritária, mesmo que ela não seja racional. Ela ajuda-nos a distinguir entre a voz dos nossos medos e a voz da nossa intuição. Para ouvirmos a nossa voz, temos que estar quietas. Temos que nos sentar com a nossa voz. Silêncio, noite, viagem, escrita, meditação. Ela diz-nos: olha o teu potencial. Todos esses sonhos, planos, ideias, olha para o teu imenso potencial. Tu tens tudo o que precisas, agora usa-o. Ela não te explica tudo, em vez disso, nós temos que fazer o caminho e mergulhar no mistério, ir como Perséfone até ao submundo e voltar. Ela pertence à noite e à escuridão. Nas nossas noites mais longas, sabemos que há sempre o dia seguinte. Como a dor da tatuagem na pele, há sempre o chegar ao outro lado – da margem, da noite, da dor – e saber que valeu a pena. Ela é coroada com um pássaro e as hastes do veado, símbolo do poder terreno, da renovação cíclica que é a nossa vida. O pássaro e as hastes são ar e fogo. Mas ela é também a serpente e a lua nas suas três fases. A serpente e a lua são terra e água. Todos os quatro elementos estão presentes. A serpente é a linha. Uma linha sem princípio nem fim, que quando se anima é capaz de criar todas as representações, gerar todas as metamorfoses. Ela é a completude, assim como a árvore que tatuei na outra perna. A árvore é um círculo. Tem raízes estendidas para o chão, ramos estendidos para o céu. Ela é enraizamento e voo. Assentar os pés na terra e olhar para o mundo. Deixar os ramos fluir com o vento e não se deixar quebrar.

Mas para não quebrarmos, há coisas que precisamos de fazer. Ouvirmos a nossa verdade, sozinhas. Darmos um passo de cada vez no sentido do que queremos. Tratamos de nós primeiro. Isso pode implicar pormos pontos finais em histórias que temos com algumas pessoas, em padrões que temos. Pode implicar irmos para a terapia. Pode implicar voltar atrás, para depois andar para a frente. Pode implicar voltar a acreditar em alguma coisa que deixamos que fosse perdida. Pode implicar ficarmos sozinhas durante tempo suficiente para sabermos quem somos e o que queremos dos outros. Nós, mulheres, passámos tanto tempo a ser o que os outros querem que sejamos, que muitas vezes não sabemos se isso é o que queremos ou outra coisa qualquer. Não conhecemos os nossos desejos, os nossos sonhos, duvidamos das nossas capacidades, mas quase sempre somos mais incríveis do que pensamos.

A única coisa que te desejo para o próximo ano é que te aborreças. Que oiças a tua voz de Sacerdotisa. 

Simbologia e interpretação do tarot inspirada em diversas fontes, abaixo indicadas:
  • Dicionário dos Símbolos, de J. Chevalier e A. Gheerbrant
  • Holistic Tarot, de Benebell Wen
  • Biddy Tarot
  • Labyrinthos
  • Learntarot
Anúncios

Quero ser uma egoísta de primeira

9ba06654418fd5db202376c43d2b03da

E tu também podes ser.

Mas espera lá… isso de ser egoísta é mau, certo? Bem, se fores homem é a lei da natureza e podes relaxar.  Se fores mulher tem estatuto de crime.

É um crime para o qual a nossa atenção é chamada logo desde pequenas. 3/4 anos e já somos alertadas para a iminência do delito. Ó Inês, partilha as tuas coisas, empresta o teu brinquedo, presta atenção ao teu irmão. Ó Inês ajuda a mãe, ajuda o pai, escuta, agora espera, anda cá, interrompe já isso. Nós barafustamos, mas vamos. Depois já não barafustamos e somos nós a voz que diz: Ó Inês, ouve a tua amiga, ajuda aquela, pensa neste, podias fazer mais, és boa amiga, pensa primeiro nele, vai lá que ele chamou, ele pediu, ele precisa, ele, ela, ele, ele, ele, eles, os outros, os pobres, o mundo inteiro. Ufa, já posso ir dormir?

Já estão cansadas? Eu também. Mulheres no mundo inteiro estão cansadas deste triste fado, mas continuamos todas, juntas, a dizer: mais um esforço, mais um dia. Vale tudo, ser egoísta é que não. Uma mulher egoísta é a pior coisa do mundo, tão má ou pior que uma má mãe. Deus nos livre e guarde.

Agora que feminismo é uma palavra mais ou menos má e não o bicho-papão, algumas de nós aventuram-se e dizem: não é egoísmo se eu cuidar de mim. É mais assim:

(ler em tom de voz muito baixo)

não é egoísmo se eu cuidar primeiro de mim… certo? Certo? Certo? Está aí alguém? Ah obrigada, ufa, um like no meu post sobre gostar de mim, ainda bem, não estou louca. Não sou egoísta. Pois não?

Eis o nosso mantra:

não é egoísmo cuidar da minha saúde primeiro

não é egoísmo pensar nos meus sentimentos primeiros

não é egoísmo não estar sempre lá para toda a gente

 

E nós queremos mesmo acreditar nisto. A última coisa que queremos na vida é sermos egoístas com quem amamos, não é? O que mais queremos é estar lá para quem está para nós, nem que mais não seja porque foi isso que aprendemos todos os dias da nossa vida, foi com isso que levámos na cabeça desde que sabemos andar, foi dentro deste enquadramento que formámos as nossas personalidades e que a sociedade nos disse: sim, este é o teu papel adequado. E nós rejubilámos. Somos boas filhas, esposas, amigas, mães, tias, primas, irmãs e demais definições de nós em relação a outros, sempre em relação a outros, porque se, deus nos ajude, retirarmos os outros da equação, o que sobra, o que somos nós? Vocês sabem a resposta, nem preciso de dizer. Todas as mulheres sabem, mesmo as que se esqueceram e as que acham que está tudo bem com este estado fodido de coisas. E é mesmo assim, com f, e bem literário e redondo, para ficar forte na frase. Fodido estado de coisas – se fores mulher, claro.

Mas agora faço outra pergunta e para esta vou dar algumas respostas minhas.

E se formos egoístas?

Brada aos céus, mal ao mundo, inferno na terra, derrocada.

O céu vai cair.

O céu vai cair porque são as mulheres que o seguram por cima dos seus ombros.

Pois bem, deixemos a abóbada estelar cair, que é como quem diz, deixemos esses gajos de merda irem-se lixar sozinhos e serem eles a tratar da própria merda que fazem. Bem literário. Somos mãezinhas do mundo inteiro? Larguem as crias todas. Especialmente as que não são vossas. E as nossas amigas? E todas as pessoas que nos pedem aconselhos, ajuda, apoio emocional? E a terapia que oferecemos a todos os nossos amigos diariamente e os conselhos que damos ao desbarato e até fazemos descontos ao fim de semana e as horas todas que dedicamos a ajudar aquela amiga a perceber que está numa merda de uma relação, ou aquela outra a perceber que precisa de terapia, ou ainda aquela outra que desaparece meses e que precisa da nossa iniciativa e força e tudo e tudo e tudo? A sororidade é importante, sim. A nossa empatia é uma força poderosíssima que é inigualável no mundo inteiro e que é tão abundante entre nós mulheres. Nós, na maioria, não temos qualquer dificuldade em por-nos no lugar do outro. Nós temos é uma enorme dificuldade em sair do lugar do outro e em dar-nos um lugar a nós mesmas. Um lugar absoluto e central nas nossas vidas. Nós somos especialistas em fazer-nos personagens secundárias (caramba, algumas de nós somos só figurantes nas nossas vidas, depois de termos investido as horas todas que estamos acordadas a trabalhar e a tratar de outros – vejam o dia a dia de uma mãe que não seja rica, qualquer uma, a sério.)

Vamos a uma ideia super radical: nós precisamos de ser egoístas. Precisamos desesperadamente de sermos tal e qual os maiores egoístas que conhecemos, mas com uma vantagem. Podemos sempre activar a nossa empatia a qualquer momento, podemos sempre escolher os nossos momentos de estarmos presentes e disponíveis e voltarmos a não estar. Uma escolha inteiramente nossa. Com esse manancial de empatia ao nosso alcance, porque sempre o tivemos e para nós a questão é mais saber como o desligar de vez em quando, ou melhor ainda, como virar essa nossa empatia maravilhosa para nós mesmas. Sim, essa coisa que damos constantemente a toda a gente devíamos dar primeiro a nós, de forma total e absolutamente egoísta e quem não tem que se lixe. Pois é. O mundo precisa de um grande vai-te foder da parte das mulheres e nem mil movimentos #metoo nos vão dar isso se não começarmos a perceber que nós merecemos toda a empatia que damos.

Como se faz isso? Quando te apanhares exausta a tentar ajudar uma amiga pára e pensa: o que é que eu preciso neste momento? Talvez a tua resposta seja: preciso de um chá e de desaparecer numa manta durante uma hora. E sabes o que é que precisas de fazer nesse momento? Ir tomar o teu chá e desaparecer uma hora. E podes explicar isso numa frase à tua amiga. E ela, da próxima vez, pode precisar de te dizer o mesmo. E na mesma vão continuar amigas porque vão ter a capacidade de se compreenderem (e se ela não te compreender, já sabes: vai-te foder). Bonito e literário como a vida.

Pratiquem todos os dias serem egoístas. Eu só estou a conseguir aos poucos. É um treino. Estou a treinar-me no egoísmo, na doutrina do meu próprio ego. Com litros e litros de culpa. Há dias em que não consigo. Há dias em que não consigo dizer não e vou além do que aguento. Há dias em que digo, “agora vou dormir” mas na verdade só preciso de parar de falar e ir ler, ver um filme ou seja o que for. Há dias em que me sinto a pior pessoa do mundo por estar a ler enquanto o mundo de uma amiga está a desabar. Mas continuo. Às vezes eu preciso mesmo de só estar lá para mim. Temos o nosso bom-senso para nos ajudar nesses momentos. Nós sabemos, ou podemos tentar ensinar-nos a saber, quando somos mesmos necessárias e é uma questão de vida ou de morte e quando não somos; mas, mais que isto, também temos que saber quando é que é uma questão de vida ou de morte para nós. Porque muitas de nós estão a morrer e é morte por empatia. É morte por disponibilidade.

Vamos para de morrer. Vamos ser egoístas. Cada dia mais um bocadinho, mesmo com as vozes fantasmas que nos dizem: egoísta, egoísta.

EGOÍSTA EGOÍSTA, SIM, SOU. OBRIGADA.

ca3d62a7c7f6013c486da3d4abcddbae.jpg


os meus amigos, a depressão e eu.

a79553cb443d3d1dd1fc5ccf790d6005

Está a chegar ao fim mais um ano. Healing is not linear foi a frase que mais me acompanhou ao longo do ano em que mudei quase todas as linhas-mestras da minha vida, me debati com depressão, iniciei terapia e não deixei quase nada igual. Ainda me importo com o ano que aí vem, embora tenha vivido dois dos piores da minha vida. Suponho que quer dizer alguma coisa, eu ainda querer saber de 2018, mesmo que às vezes não me apeteça sair da cama, ou mexer-me ou ver pessoas.

Quando me sento com a minha solidão, consigo traçar uma linha que me levou até aqui, que me fez sobreviver mais um ano, mesmo que não haja ainda luz ao fundo do túnel. Há uns dias vi esta frase e pensei que fazia sentido: “There comes a point where you no longer care if there’s a light at the end of the tunnel or not. You’re just sick of the tunnel” – Ranata Suzuki. Partilhei-a porque às vezes eu gostava mesmo de acreditar nisto. De não querer saber se há a tal luz ou não. Por algum motivo que eu desconheço nunca consegui não querer saber. Nunca consegui convencer-me a desistir. E às vezes odeio isso.

Durante este ano amaldiçoei muitas vezes a minha resiliência. Aquela que me fez ir todos os dias para o trabalho, apesar da angústia, da ansiedade, das insónias, da vida a desmoronar-se. Aquela que me fez continuar a responder a mensagens de amigos, a estar em algumas ocasiões, a não desaparecer de vez. Aquela que me fez de novo refugiar-me na escrita e dar ainda alguma coisa de mim, como se fosse uma fina linha de um pano a desfiar, desfiar, mas que afinal estava a fiar, a tecer uma tapeçaria maior que eu, onde encontrei também outras pessoas de passagem, a tecer, a ler, a escrever, a chorar.

Eu às vezes odeio a minha resiliência. Odeio-a porque ela vos diz que eu vou sobreviver. Que eu vou sempre continuar. Que no fim do dia, por mais sozinha que eu me sinta, por mais horrível que seja a noite, por pouco que eu durma, vocês (e eu) sabemos que me vou levantar no dia seguinte e fazer o que é suposto. Eu vou voltar a responder, mesmo que não seja logo, eu não vou desaparecer um dia inteiro, eu vou sempre ter uma nova ideia ou força vinda não sei de onde. Quase como se eu não soubesse realmente fazer outra coisa. E às vezes eu gostava de não conseguir.

Tenho esta visão de mim como uma pessoa forte. Sei que é a mesma visão que todos os meus melhores amigos têm de mim. Mas o que eles às vezes não sabem é que ser sempre a forte tem um preço muito alto. E que eu o pago sozinha, por muito que vocês estejam aí. Sei que não fazem por mal. É bom por um lado saber que vocês vêem o melhor de mim. A Inês é forte. Ela consegue. Ela vai dar a volta.

E uma e outra vez eu lá dou a volta, mais uma, mais uma. E estou sempre lá.

Só que às vezes eu não queria estar. Às vezes eu gostava de poder não ser a forte.

Sabem o que é mais estranho? É que eu escrevi este texto para vos dizer que não estão sozinhos. Sou eu, mais uma vez, a dar a volta, a fazer alguma coisa com esta dor, não permitir que ela se feche sobre mim e me consuma. A minha ideia era dar-vos alguma coisa com isto.

Porque todos os meus melhores amigos, neste momento, têm depressão. Todas as pessoas fundamentais da minha vida estão com a sua saúde mental num caco. Todas as minhas pessoas estão ou em terapia ou a precisar; ou a sair de relações abusivas ou infelizes no trabalho ou desempregadas. A minha geração, a chegar aos 30, ou já neles, está sem dinheiro, precária, sem possibilidades de seguir sonhos, sem sonhos até e a lutar com problemas de saúde mental.

Muitos dos meus amigos estão em situações terríveis e eu só posso ver e ir dando o que posso, mas no fim não consigo fazer nada. Muitos de vocês estão em situações que eu sei que não conseguiria aguentar e de alguma forma vocês já sobreviveram a tanto e ainda aqui estão. Alguns de vocês estão de certeza a passar por coisas que eu nem imagino. Eu não sei toda a vossa história e vocês não sabem a minha, mas sei que estamos vivos. E todos os que já não estão – eu não sou melhor que eles. Eles, como eu, como vocês, fizeram tudo o que podiam. Não acho que sejam os desistentes. Acho que somos todos lutadores.

E eu não quero ser forte sempre, não quero, quero ir-me abaixo, mas mesmo indo, quero dizer-vos que não estão sozinhos. Eu vejo-vos. Cada um de nós está a fazer o melhor que pode.

Eu vejo-vos, eu vejo-vos, eu vejo-vos.

Eu vejo-vos na escuridão.

Também estou aqui.

af463e545b31696e1e37a35724818ed5