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faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.


o que estou a aprender sobre ser vulnerável

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Percebi há alguns anos que a honestidade emocional era para mim a coisa mais difícil e a mais indispensável. Foi mais ao menos na mesma altura em que percebi que quando amo alguém deixo de ter o coração na caixa toráxica e passo a tê-lo nas mangas das camisolas e logo atrás dos lábios, acima da garganta. Esta descrição pode ser anatomicamente estranha, mas é assim que vomito coração e faço coração com as mãos. Não fui sempre assim. Durante anos escrevi coração, não disse, não fiz. Vivi bastante tempo em páginas, por fora nada se passava, por dentro a revolução. Consegui sair das páginas, já não sei como fiz essa transição. Existe aquela expressão inglesa: “wearing your heart on your sleeve“. Quando se tem o coração aí temos que ter mais cuidado, ao andarmos na rua podemos deixá-lo cair, se usamos uma camisola mais larga ele pode não se segurar, e então no verão, com vestidos de alças e tshirts, bom, é arriscado, talvez colocado por dentro do pulso se segure. O coração nas mangas e atrás dos lábios é uma coisa complicada. Fechar a boca às vezes não é suficiente, quando escrevemos facilmente, ou choramos com tudo, quando temos uma daquelas caras transparentes que não conseguem esconder nada nem que a nossa vida dependa disso, então sai por todos os lados. Não com toda a gente. Sou selecta nisto porque tenho dificuldade em aproximar-me das pessoas e desconfio de quase todas, embora ao mesmo tempo queira sempre ver o melhor de pessoas que me pareçam minimamente interessantes. Mas esta coisa do coração está ligada com a honestidade emocional, aquela tão difícil e sem a qual não consegui viver nenhuma relação.

Estou a tentar falar de vulnerabilidade, mas também do seu complemento essencial a auto-preservação e o cuidado connosco. Vou deixar as metáforas do coração nas mangas. Durante anos escolhi fazer-me sempre vulnerável. Ainda é essa a minha escolha. Não soube estar em nenhuma relação íntima ou de amor sem essa vulnerabilidade primeira, que me fez sempre dizer o que se passava comigo, o que sentia, o que pensava. À conta desta honestidade vulnerável vi-me realmente em situações de vulnerabilidade – aquela que é má, que nos sujeita a diferenciais de poder. Não sabia proteger-me, nem cuidar-me, simplesmente dizia-me e esperava que outros compreendessem e mostrassem empatia. Fiz todos os coming outs assim, vulnerável, acreditando que os outros veriam a coragem disso e estenderiam a mão. Levei muitos anos a perceber que há relações que não merecem a nossa vulnerabilidade – aquelas que nos abusam, que nos fragilizam, que nos cobram, que nos ameaçam. A minha casa não foi um local seguro para a minha vulnerabilidade, foi um local de batalhas em que me agarrei a essa honestidade radical como a única arma que tinha na luta. Custou-me muito perceber que vulnerabilidade com agressão é receita para desastre, com consequências que levam anos a ser processadas.

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Apesar desta experiência, consegui ficar na vulnerabilidade perante outras pessoas e relações. Percebi que quando do outro lado não está agressão, mas pessoas que nos querem bem (o problema está na dificuldade de sabermos quem nos quer bem realmente), então temos um lugar para sermos vulneráveis com amor. Abrimos espaço para nós e para as outras pessoas. O poder da vulnerabilidade é que ela tem a capacidade incrível de trazer mais vulnerabilidade do outro lado. Se é num contexto de amor e respeito, a minha vulnerabilidade abre espaço à tua e abre espaço à nossa e juntas abrimos espaço a mais vulnerabilidades. Comecei a levar essa vulnerabilidade comigo para o activismo, lembrei-me de como ela já tinha sido arma para mim e usei-a de novo como arma, desta vez não para me defender de ataques, mas para me criar como activista e para abrir espaços. Percebi que para mim falar sempre a partir do pessoal me levava a essa honestidade e que não conseguia expurgar as minhas emoções desse relato. Então, perante pessoas estranhas e conhecidas, mas não próximas, decidi que não ia retirar as emoções. Sempre que falei sobre ser poly, falei das minhas emoções. Sempre que respondi a perguntas, respondi sem filtrar as emoções. As emoções passaram para o centro do meu activismo e de todas as minhas intervenções. Isto, claro, colocou-me numa posição frágil: falar de sentimentos perante uma plateia desconhecida não é seguro. Usar os sentimentos em interacções activistas não é algo seguro, como percebi da pior maneira possível quando tive “activistas” a dizerem-me que os espaços de activismo não são suposto serem espaços seguros e quando vi a minha confiança traída nestes espaços e interacções. Mais uma vez tive que perceber que a vulnerabilidade unilateral é perigosa, assim como a vulnerabilidade fora de espaços que não se constróiem feministas e seguros. Percebi também que às vezes mesmo sendo feministas e supostamente seguros não o são. Não temos uma cultura de vulnerabilidade nem de honestidade nos nossos activismos. E por isso, aquelas de nós que usam de vulnerabilidade estão em risco.

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Custa muito sermos vulneráveis quando uma relação em que o fomos acaba. Também percebi isso mais tarde. Recuperar a vulnerabilidade é assustador depois de o termos feito com alguém que se vai embora com tudo o que partilhámos. Quando pensei que nunca mais na vida conseguiria ser vulnerável assim, foi quando percebi que tinha que o ser ainda mais e o quão central isso realmente é. Percebi também que para mim só haveria uma forma de curar o coração partido e essa forma era… ser vulnerável outra vez. Mas, com uma grande diferença. Esta vulnerabilidade tinha que ser acompanhada de cuidado comigo e de auto-preservação. Percebi então que tinha estado anos a usar de uma vulnerabilidade incompleta, que me colocava em situações de fragilidade, em que eu dava tudo e outros nada, em que eu tentava sempre e outros não, em que eu estava em situações de desiquilíbrio de poder e isso me expunha ainda mais, em espaços não seguros e com pessoas que não estavam a guiar-se pela sua própria vulnerabilidade.

Há uma linha entre ser vulnerável e manter-nos numa situação em que somos alvo de agressão e abuso. Vulnerabilidade não é abrir-nos a quem nos violenta. Num contexto de relações assim, dar uma nova chance a alguém, reconstruir as pontes partidas, tentar de novo, pode ser a forma como voltamos ao contexto de abuso. Isso viola a nossa vulnerabilidade, além da nossa autonomia.

A linha é o cuidado connosco, é o nosso sentido de auto-preservação. Não pode haver vulnerabilidade – pessoal, política, activista – sem auto-preservação. É okay decidirmos com quem queremos e podemos ser vulneráveis e com quem não. É okay deixarmos de o ser com alguém porque algo mudou. Abrir o espaço da vulnerabilidade não tem só a ver com falar de sentimentos. Tem a ver com estar disponível para lidar com as consequências da nossa própria honestidade. Não basta sermos honestas. Do outro lado da nossa honestidade estão outras pessoas e sermos vulneráveis implica sabermos que há sempre essa parte. Implica responsabilidade por mim e por ti e por nós. Implica estar disponível para lidar com a vulnerabilidade da outra pessoa e saber dizer quando não estamos – porque auto-preservação. E por isso é importante saber quando não ser vulnerável – e isso eu ainda não sei, estou a aprender. Cuidar de nós também não é algo simples, é um processo que temos que ir fazendo e também nisso esta sociedade não nos ajuda, porque confunde cuidado com indulgência e confunde tudo isso com felicidade pré-formatada que serve a toda a gente.

Só depois disto conseguimos, acho, abrir espaço para sermos estúpidas, cometermos erros e sermos ridículas. A vulnerabilidade é aquele espaço também onde acontecem coisas estranhas como perguntar a alguém se a podemos beijar antes de o fazermos e enfrentar toda a estranheza – sem guião, sem buffer de segurança – que vem com isso. Enfrentar a weirdness desse momento, a possibilidade de haver um não do outro lado e sabermos isso, e toda a falta de jeito que temos para estas coisas do consentimento. A vulnerabilidade abre espaço para todas as conversas que temos antes de fazermos seja o que for, para revelarmos parvoíces que sonhamos, fantasias que temos e para nos sentirmos envergonhadas, tímidas ou sem jeito. Abre espaço para sermos nós e vermos as outras pessoas. Esta vulnerabilidade, feita com base no cuidado connosco e no respeito dos nossos limites, é coragem.

Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfare.” – Audre Lorde

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I’m gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Leonard Cohen

Outras leituras sobre vulnerabilidade/cuidado de si:

Selfcare as Warfare

Self-Care as Revolutionary

Vulnerability as a Key to Feminism

Toda as imagens são da autoria da artista Lora Mathis. Conheçam o trabalho desta artista sobre radical softness no Instagram @lora.mathis.


a arte de falhar no amor

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Hoje encontrei um cabelo teu numa almofada. Comprido, encaracolado, não é meu. Reconheço-o. Sei que é teu. Ao contrário de ti, ficou aqui. Deitei-o fora, para o lixo. Antes, ainda fiquei algum tempo, a mão fechada, o cabelo encaracolado a brilhar com os reflexos que vêm da janela. Já não voltas. Tenho o teu cabelo aqui, na cama onde dormiste tantas vezes, mas tu já não voltas. Largo o cabelo no lixo, não como se te deitasse ao lixo, não. Só largo, deixo cair o que sei que já não posso segurar, despeço-me outra vez e de novo penso como seria poder fazer isso com todas as memórias que ficam e que me assombram.

Não podemos dizer adeus às pessoas assim. Não há uma maneira de dizer adeus quando as pessoas ficam em tudo o que tocam, quando acabam a fazer parte de quem somos e do que vivemos. Até um cabelo, encaracolado, pode magoar. Um cheiro. Uma palavra que evoca outras. Todos os lugares por onde passámos, alguns onde não posso mais voltar. A Elizabeth Bishop dizia, depois de perder um amor da sua vida, a Alice Methfessel: “the art of losing isn’t hard to master”, mas percebemos que é bem o oposto disto. Um desastre, diz depois. Ou vários. Uma perda não se apreende só de uma vez. Pronto, foi-se, já está. Não.

Todos os dias perdemos mais um bocadinho. Uma ausência que fica, um gesto que se lembra e nos desfaz, uma voz que não está mais ali, um lugar onde já não vamos, um plano que se foi. Ou coisas mais pequenas ainda. As linhas no canto de uma boca, que só se formam com algumas expressões, que só é possível notar quando ficamos muito tempo a olhar para alguém, linhas suaves mas tão marcantes, que se tornam parte do que faz um rosto único. Ali estão elas, num meio sorriso passageiro, ali estão, oh, já se foram. Depois o rosto fica sério, as linhas quase desaparecem mas nós, nós que olhámos tanto, tanto tempo, para aquele rosto que amamos, nós sabemos o local exacto onde essas linhas desapareceram e onde vão aparecer outra vez e esperamos. Esperamos para as ver de novo e pensar: isto. Isto é parte do que te torna única. Estas linhas, quase invisíveis mas marcantes, também estas tive que aprender a perder. E algo assim não se perde num dia, ou dois, ou muitos seguidos. Algo assim vai-se perdendo, dia após dia. E de repente alguém, anónima, sorri e tu vês umas linhas semelhantes, não iguais, mas semelhantes, e tudo volta. Não são aquelas que queres ver, tens só saudades. Houve uma altura em podias beijar essas pequenas marcas na pele e sentir-te a pessoa mais feliz do mundo.

O que é que nos faz amar alguém? Às vezes podem ser linhas num rosto. Às vezes são essas linhas, ínfimas, marcantes e tudo o resto que vem com elas. Como é que vamos perdendo, todos os dias mais um pouco, tudo aquilo que nos fez amar alguém? O riso, aquela forma de rir que mais ninguém tem. As palavras certas no momento certo. O corpo que se encaixa no nosso como se sempre tivesse estado ali. Tudo isto são coisas pequenas. Pormenores. Todos os dias devo perder mais um destes pormenores. Devo esquecer-me, aceitar. Mas isto é só o princípio. Aquelas coisas que nos fazem amar alguém não são suficientes para nos fazer ficar.

Passaste dias a fazer-me uma luz para eu acender durante a noite. Fizeste-a com as tuas mãos (também estas devo perder), formas mágicas para me acompanhar e aconchegar. Nunca mais a acendi. Está no meu quarto e agora não sei o que fazer com ela, assim como com tudo o resto que fizeste para mim, ou com tudo o que fiz para ti. Também essas coisas devem ser perdidas, mas não há meio de o fazer.

O amor não é incondicional. Isso é uma treta que vem com o resto do manual que nos fazem engolir. Amor incondicional não existe porque o amor não é um sentimento, é uma escolha. O amor tem mil condições de possibilidade e mil condições de impossibilidade. E amar, por si só, não chega. Podemos fazer muitas coisas em nome do amor. Podemos até esquecer-nos de nós mesmas e de nos amarmos a nós, por estarmos tão ocupadas a amar outra pessoa.  Recebermos amor de volta ajuda-nos a manter a ilusão de que temos tudo: eu amo-a, ela ama-me, havemos de sobreviver porque temos este amor maior que tudo. O amor não é maior que tudo, não é maior que as suas condições de possibilidade, não é maior do que as capacidades das pessoas que amam, não é maior que as dificuldades que lhe surgem.

Sim, é uma grande força que move montanhas, mas só é tão forte quanto as pessoas que amam, e às vezes nem isso chega, não importa o quão fortes sejamos. Pode mover-nos contra o mundo, de mãos dadas, contra as probabilidade, contra os silêncios. A nós moveu-nos contra muitas improbabilidades: a distância, os silêncios a que fomos obrigadas, a mentira a que nos submeteram. Tudo isso foi vencido com amor. Esse amor provava que tínhamos sido mais fortes: mais fortes que o abuso, mais fortes que o mal, mais fortes que a distância. Mesmo sem nos vermos, esse amor tinha sobrevivido. Que maior prova existiria de que esse amor nos levaria a todo o lado? O amor tornar-nos-ia invencíveis. Já tínhamos sobrevivido a tanto. Mas o amor não salva ninguém. Não te podia salvar a ti. Nem todo o meu amor te podia salvar e eu passei todo o tempo a achar que sim, sem perceber que me estava a perder também, todos os dias mais um pouco, achando que te salvava. O amor não salva ninguém. É fácil acharmos que o amor pode mudar tudo nas nossas vidas. É esse o discurso romântico. Quando encontramos amor tudo é possível. Mas o combustível deste amor, visto assim, acaba-se, consome-se. Durante uns tempos pensamos que mudámos tudo. Mas o amor não é um penso em cima de todas as nossas feridas. E também não é sempre bom.

Há pessoas que decidem ficar juntas porque ainda se amam. Mesmo que nada mais esteja a funcionar, mesmo que esse amor as esteja a destruir, pelo menos amam-se, não é? Mesmo que esse amor seja doente, mesmo que esse amor seja um hábito, um conforto, um vício ou uma forma de não estarem sós, ou uma forma de não terem que enfrentar a vida. E ficam. Anos. Vidas. Está tudo bem desde que estejamos com alguém, numa relação romântica, não é? Pior mesmo é estar sozinha. Antes haja amor, algum, ou uma aparência de amor. Mesmo que nos arraste para o fundo. Mesmo que dê cabo de nós.

Escolher o amor de outra pessoa é sempre mais importante. Mergulhar de cabeça, arriscar tudo, mudar a nossa vida toda por outra pessoa – que maior prova de amor existe? Ter a vida virada do avesso por amor. Escolher o amor contra todas as probabilidades, mesmo e especialmente, se toda a gente nos diz que estamos a fazer mal ou que não faz sentido. Mesmo, especialmente, se for difícil. Quanto mais difícil de concretizar maior esse amor se prova, maior o desafio. Os outros não entendem. Aquela pessoa vale a pena, vale tudo isso e mais. Vale deitar tudo fora e virar o mundo ao contrário. Vale tudo por amor. Vale as nossas vidas porque uma vida sem amor não é nada. E por isso é que depois do amor não somos nada. Se o amor se vai, não somos ninguém. Somos doentes. Precisamos de voltar ao amor, antes que as nossas vidas percam o sentido. Mesmo que o preço a pagar por esse amor seja alto, não importa, porque ninguém o vê. Não vale tudo por amor. O amor não vale a nossa sanidade, a nossa autonomia, o nosso auto-respeito. Podemos viver amores que nos tiram mais que dão. Que nos fazem menos. Que nos restringem. Amar não basta para dizer que está tudo bem. Amar não basta para manter uma relação.

Segue o que sentes, segue o teu coração, porque o teu coração sabe sempre o que quer, dizem. O coração não sabe nada. Não amamos com o coração, amamos com tudo o que somos, com todas as circunstâncias, com tudo à nossa volta. Não amamos numa bolha, em que nada mais importa, amamos com tudo o que vivemos e com tudo o que nos acontece. O coração, no meio disto, o que é? O que faz? O coração é uma construção. O coração não quer nada, somos nós que fazemos escolhas. É fácil atribuir tudo à força mágica, transformadora, alucinante do amor. É mais difícil, talvez, se percebermos que não há nada mágico no amor, nem nada que esteja além de nós. Somos nós que amamos, somos nós que fazemos, somos nós que escolhemos ficar, tentar, ir, desistir. Somos nós a cada momento, apenas com a magia que vem das nossas acções e nada mais. É mais difícil, talvez, se percebermos que o amor não é tanto aquilo que dizemos, prometemos, juramos, mas sim aquilo que fazemos dia após dia. É mais difícil, talvez, se percebermos que este amor-escolha, amor-tentativa-e-erro, amor-autonomia, amor-partilha, amor-próprio não nos transcende, nem nos ultrapassa, é feito por nós e custa. É mais difícil, talvez, se percebermos que não tem que valer tudo por amor, que nem tudo o que inclui amor é melhor e que o amor não vai resolver tudo. Se falhar no amor não implicar que falhamos em tudo na vida, se falhar no amor não implicar nunca mais acreditarmos em ninguém, se soubermos que existem coisas que valem mais do que este amor, talvez seja possível curarmos. Talvez até seja melhor às vezes falharmos no amor. Falharmos uma e outra vez e continuarmos a falhar sempre que for preciso. Talvez aí não seja preciso perder tanto, talvez aí seja possível ficar com o que fica e continuar a viver e até continuar a amar.

—Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan’t have lied. It’s evident

the art of losing’s not too hard to master

though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop, “One Art” – The Complete Poems 1926-1979. Copyright © 1979, 1983 by Alice Helen Methfessel.

Texto inspirado pela leitura de Love Is Not Enough

Imagem via Tumblr

 


Nós temos tão poucas ferramentas do coração

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Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt

 


Fake it, till you make it

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Faço coisas, faço muitas coisas e falo com pessoas e digo o que sinto e por dentro estou a morrer. De dor, de insegurança, de achar que nunca mais vou sentir amor ou ser amada ou seja o que for. As coisas boas são uma ilusão, nunca conhecemos ninguém realmente. Podemos achar que sim, mas às vezes os nossos piores medos tornam-se mesmo realidade. Às vezes aquela pessoa vai mesmo deixar-nos, às vezes não vai mesmo escolher-nos e tentar novamente, às vezes vai mesmo prometer coisas que não pode ou consegue cumprir e nós vamos acreditar e depois vamos ficar com um buraco por dentro, onde estava a centelha que nos fazia confiar. Somos empurradas contra a parede porque ou nunca mais acreditamos em ninguém ou simplesmente continuamos a acreditar e reconhecemos que é muito possível que volte acontecer.
Nada de novo aqui. As pessoas fazem merda. As pessoas magoam-se. Sofrer faz parte da vida. Ok. Eu sei. Não é a primeira vez que sofro.
Continuo a fazer coisas. Tento convencer-me de que ainda valho a pena. Para mim, para outros. Fake  it, till you make it. Fake it, till you make it. Às vezes dou por mim a forçar-me a rir. Não, não estou bem, não estou feliz, estou só a tentar não parar de sentir coisas, de estar com pessoas. Que sentido é que faz? Sinto que uma das piores coisas da minha vida aconteceu e eu ainda me rio? Faço piadas? Encolho os ombros para a amiga que olha para mim “mas vocês eram tão queridas uma com a outra, gostavam tanto uma da outra, como é que isso aconteceu?”

Olha, eu não sei. Estou magoada. Sinto-me abandonada e trocada, não sei como é que isto foi acontecer, mas sei que todo o amor do mundo que tínhamos uma pela outra não fez como que fossemos capazes de nos entender. Não conseguimos. Falhámos. Lá atrás, eu lembro-me, houve crises de ansiedade muito más e eu achei que era tudo culpa minha, mas a verdade é que tenho que parar de me culpar. Não foi culpa minha, uma relação nunca acaba por culpa de uma só pessoa, são precisas pelo menos duas para fazer merda. E a verdade é que ela desistiu, desistiu de mim, desistiu de tentar e foi à procura da vida dela para outro lado. Chega. A pessoa com quem eu partilhava a minha vida todos os dias quis ir-se embora. De um momento para o outro fez aquilo que me prometeu sempre que não faria. Foi a segunda vez que isto aconteceu. E desta vez eu fechei todas as portas que antes tinham ficado abertas. Nunca tinha fechado as portas a esta pessoa. Mesmo com a porta fechada, sabemos que as pessoas ficam, algo delas fica e só o tempo leva o que magoa.

Este texto é ridículo, cheio de lugares-comuns.

Porque é que voltei a escrever? Porque é que estou a fazer isto e tantas outras coisas? Como é que tenho energia para ir trabalhar e agarrar novas responsabilidades? Como é que me estou a permitir voltar a falar de sentimentos com pessoas? É que eu não acredito em mais ninguém. Eu não vejo porque é que alguém há-de olhar para mim, não vejo onde está o interesse e ao mesmo tempo continuo ali. Porque é que faço isto? Se calhar tenho medo de desaparecer. Se calhar é porque as pessoas continuam a querer estar comigo, também não entendo. Como é que ainda acontecem coisas boas? Como é possível que no meio disto ainda haja vozes de quem nunca me deixou e continua lá? Como é possível existirem novas pessoas? Olha, eu estou a gostar de ti. Como é que eu ainda consigo responder a isto? É que eu não estou a funcionar bem por dentro, não estou. Não sei responder a coisas boas.

Continuo. O dia a dia parece outra vida, uma sucessão de coisas que faço para continuar a existir. Olhem, vêem? Estou a viver ainda.

Mas depois volta tudo. Basta uma memória, um cheiro, um lugar, um objecto. É engraçado como as pessoas ficam nas coisas. Devia ser simples porque as coisas podem ser eliminadas. É o que faço, metodicamente. Trouxe umas pedras verdes que apanhei numa praia banhada pelo mar Coríntio na Grécia. Eram para ela, mas entretanto atirei-as para as ondas do oceano Atlântico. Preciso de não ver mais algumas coisas, pô-las onde não as veja, mas nesse momento já as vi e já doeu. As redes sociais multiplicam isso, mesmo quando fizemos tudo o que podemos para nos proteger há sempre uma amiga de uma amiga de uma amiga que vai pôr uma fotografia e trazer tudo outra vez. Tenho a certeza que isto é ridículo, que muitas pessoas estão a pensar: é normal, faz parte do processo, tens que passar por isso, acontece a toda a gente. Sim, é. E então?

O mais estranho é que no meio disto percebi algumas coisas. Apercebo-me lentamente de tudo o que deixei para trás, de tudo o que deixei de fazer antes. Só me apercebo porque agora estou a fazer essas coisas. No meio disso, sem reparar, abri novas portas: a outras pessoas, a outras coisas que nunca tinha feito e também reabri portas a quem já cá estava e sentiu a minha falta. São só frestas, porque não, não consigo escancarar as portas, mas estão ali e a luz entra. A luz ainda entra.

ondas

A água é fresca mas não tenho frio. Estamos nuas, não me importo. A vergonha que tive deixei-a no areal. As ondas chegam com força, embatem no meu corpo nu e não faz mal. É agreste esta força do mar, só lhe sinto o poder que me atira ao chão e me transporta. Sinto-me diferente. Como se uma vida se tivesse passado entretanto e eu saí do outro lado do tempo e sou a mesma e sou outra. Tenho dor. O mar está a levar essa dor para longe, grito. Ela grita também. Somos atiradas contra a areia e rimos. Tenho o cabelo colado à cara, o corpo frio, a pele onde pousou o sol quente por baixo, mas as gotas por cima, estou cheia de areia, engulo água, mas tudo vale a pena. Este é mais um dia, é mais um dia depois da dor, durante a dor, mas escolhi o mar, escolhi o sal, escolhi estar nua com ela e passarmos essas horas a esquecermos a dor, a lembrar-nos dela a cada momento. Pensei que devia ter frio mas só depois de ser atirada e levada por mil ondas é que esse frio chega. A manhã torna-se tarde, ficamos ao sol só o tempo de sentirmos o corpo quente e de nos perdermos numa nova conversa, numa conversa que nunca parou e que continua sempre. Sinto-me virada do avesso. Não tenho o coração cá fora porque o tive que guardar algures entretanto, mas tudo o resto está cá fora. Às vezes falo sem dor e é como se estivesse a recordar coisas boas de outra vida. A dor parece que só me atinge mais tarde, quando estou sozinha, quando já falei tanto e me deixei ir a sítios que não sabia. Como estar nua numa praia e não me importar. Como aperceber-me que o meu corpo está vivo ainda e responde ao mar e não saber como. Como é que estás ainda vivo? Como é que ainda gosto de ti e me sinto bem neste corpo? Senti no mar. No mar senti que esse corpo era meu ainda. Que ainda podia fazer coisas com esse corpo, que ainda podia deixar-me ir a zonas fora das minhas fronteiras, talvez amar (?), pelo menos o corpo ainda pode amar, mesmo que mais nada. Pode amar o mar, pode amar a sensação de me perder, pode sentir-se expandir para fora do que me conforta e ficar aí a sentir as coisas todas com uma força que me extravaza.

Não quero que este seja o último dia de verão.

Nunca disse isto antes, mas não quero. Preciso do mar, preciso de voltar ali e sentir-me nua e vulnerável e deixar-me ficar nisso umas horas, mais umas horas. O tempo começou a passar de forma diferente, gira à volta de mim agora, à volta do que estou a tentar fazer comigo, do que não consigo fazer, do vazio que sinto, mas não estou vazia. Avancei para as ondas frias e deixei-me estar com elas, não estou vazia, estou cheia de perda e de medos e de espaços abertos e agora o que fazer com isso? Temos conversas na praia, conversas que nunca acabam. Volto a expôr-me a falar de mim, das minhas coisas, volto a ser vulnerável, mas sim, não totalmente, não, estou magoada. Estou tão magoada, é difícil recomeçar. Difícil voltar a confiar, difícil não me sentir votada ao silêncio, ao desaparecimento. Estou a continuar a falar porque não morri. Dói, é sinal que estou viva e que algo aqui dentro continua a funcionar. Todos os dias vou mais um bocadinho, às vezes ando para trás e sinto-me de volta ao abismo. Outros dias há ondas, como hoje, ondas e ondas e ondas de coisas boas e no fim choro. Não estou bem, estou a sofrer, não faz mal. As ondas continuam, para cima flutuo, viajo, estou a ir longe, para baixo, vou ao fundo, embato na areia, não faz mal, levanto-me, lá vem outra onda, mergulho, volto ao de cima, lá vem mais uma, vou com ela, rio, dói-me, vou ao chão, rio, tenho um vislumbre de felicidade, mas não, ainda dói, estou noutra onda, o sol está quente, a água fria, mas não sinto frio, só me sinto, ouço-a rir e levantar-se e enfrentar as ondas, eu levanto-me, estou nua contra a parede de espuma que rebenta contra as minhas pernas, as minhas pernas resistem, estou a enfrentar aquela onda, a minha cona enfrenta aquela onda, forte, explosiva, sou um corpo, tenho um corpo. Oh. Estive feliz. Dói. Foi-(se) um amor. Dói. A dor não passa, mas muda. E eu tenho outras ondas para apanhar.


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo. 


Porque é que precisas tanto de dizer que és lésbica?

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No meu último artigo recebi um comentário que me irritou, mas que ao mesmo tempo soa como tanta coisa que já ouvi mil vezes, tanto que fiquei entre o “vou ignorar” e o “isto precisa de uma resposta”. Como acabo geralmente a cair para a segunda hipótese, achei que o comentário merecia uma boa resposta, não por consideração à pergunta, mas porque há perguntas cuja existência prova precisamente o quão longe estamos de uma sociedade não discriminatória.

A leitora Pi, que ficará de certeza feliz por ter uma resposta (provavelmente com o tempo que passou já pensava que eu tinha desistido do meu lesbianismo militante e ofensivo para heteros) fez o seguinte comentário:

“Sigo há algum tempo este blogue e fico bastante confusa com certas coisas que as vezes são escritas. Não sei se são inseguranças da escritora (o que aceito) ou mal-interpretações, por isso vou fazer perguntas afim de perceber o que este texto realmente quer dizer, pois tenho curiosidade!

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?
2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Já que pareço confundir as pessoas, vou responder o mais claramente possível às perguntas.

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?

A resposta simples e que deveria ser óbvia para toda a gente é: porque tenho direito a isso. A minha identidade é um direito, tão inalienável como qualquer outro Direito Humano. Ser reconhecida e respeitada na minha identidade é um direito de ser pessoa.

Mas como parece que esta ideia é rebuscada, vou elaborar.

Somos todes hetero até prova em contrário. Ora eu não sou hetero. Eu não quero ser vista como hetero. Alguém pode alegar: “eu não preciso de andar a dizer que sou hetero! Eu vivo a minha sexualidade discretamente, porque é que tu não fazes o mesmo?” Resposta simples: eu não sou tu. E não sou hetero. A minha sexualidade não está validada, representada e privilegiada 24 horas por dia, em todos os lados, em tudo o que se consome, vê, cria. A minha identidade não está sancionada, bonificada, carimbada, presenteada, elogiada, posta no pedestal. Isto serve também para aquelas pessoas que dizem que as Marchas do Orgulho LGBTQIA não fazem sentido porque ninguém vê as pessoas heterossexuais a desfilar na avenida com bandeiras hetero. Errado. Como diz o autor deste artigo, a vida já é uma marcha heterossexual constante, todas as horas, todos os dias em todas as situações, com bastantes bandeiras – o que é o casamento se não a maior bandeira dos últimos séculos, com inúmeros privilégios? – mas esta marcha ninguém a vê enquanto tal, ela é a norma e portanto invisível, omnipresente.

Uma pessoa hetero não tem que desejar ser vista como hetero. Não tem que querer ser visível porque já é. Automaticamente. O pressuposto de heterossexualidade está vivo e de boa saúde e é aplicado a toda gente, sem ser preciso dizer nada. As pessoas hetero têm a sua identidade como dado adquirido, a tal ponto que só quando estão entre pessoas LGBTQIA é que sentem necessidade de se afirmar: “ah, mas eu sou hetero, não jogo nessa equipa”. Uma pessoa lésbica não tem este privilégio. Uma pessoa lésbica, se quiser que a sua identidade exista, tem que a afirmar continuamente. Isto não quer dizer que toda a gente é obrigada a fazer coming outs ou a viver a sua identidade de forma visível: isso deve ser sempre uma escolha da própria pessoa.

No entanto, uma pessoa lésbica não será lésbica para ninguém se não tiver maneiras de o dizer, representar, partilhar. Poderão dizer: “ah, mas será na mesma, para si própria, o importante é a pessoa saber quem é, que necessidade há de andar a dizer?” Geralmente seguem-se a isto questões sobre não haver necessidade nenhuma de chamar a atenção, de viver publicamente aquilo que é do íntimo, que aquilo que nós fazemos entre quatro paredes é connosco e que ninguém tem nada com isso, só não precisamos de ir para a rua exibir o que somos. A isto a minha resposta é curta e grossa: vão-se foder. Ou isso, ou digam-me quando foi a última vez que viveram a vossa heterossexualidade entre quatro paredes. Digam-me os casamentos que andaram a fazer em privado e em segredo, falem-me de nunca levarem os maridos para o jantar da empresa, ou de todas as vezes que fingiram não ter namorado no jantar de natal com a família. “Ah mas eu tenho namorado e não andamos a comer-nos na rua”. Parabéns. Sabem o que se chama a isto? Opção pessoal. Agradecemos que tirem de cima de outres as vossas opções pessoais. Se estão tão preocupades com a nossa discrição, sugiro que sejam discretes. Deixem de passear a vossa heterossexualidade em todo o lado. São as mesmas pessoas tão interessadas em que sejamos discretes, que nos convidam para a sua festa de casamento com toda a pompa e circunstância possível. Demonstrações de afecto na rua devem ser uma decisão das pessoas intervenientes. A forma como alguém vive a sua sexualidade, identidade de género e/ou orientação ou identidade (a)sexual é algo que só diz respeito a essa pessoa e que não deve ser prescrito, determinado ou condicionado por outres.

Mas a visibilidade não é uma questão, apenas, de opção pessoal. É uma questão política. Fazer-me e dizer-me lésbica e poliamorosa é um acto político. Se eu não existo, não tenho direitos. Se eu não existo, não é preciso ter atenção às coisas que me afectam. Não se trata de fazer uma caixa para me pôr e me limitar, mas sim de reivindicar uma existência e depois desconstruir a partir daí. As identidades são importantes para conseguirmos falar das opressões específicas.

Estas opressões específicas são ameaças às vidas das pessoas LGBTQIA e MOGAI (Marginalized Orientations, Gender identities, And Intersex). As pessoas heteronormativas não sabem o que isto é, nunca o viveram. De que ameaças falo? A ameaça da invisibilidade; a ameaça da inexistência legal e de direitos; a ameaça de vermos as nossas vidas e identidades patologizadas; a ameaça de ficarmos sem emprego ou de nunca virmos a ter um devido à nossa identidade; a ameaça de sermos expulses de casa ou renegades pelas famílias de sangue; a ameaça da segregação social, do isolamento, da depressão, da homo/les/bi/transfobia, entre outras; a ameaça às nossas vidas quando somos alvo de crimes de ódio; a ameaça constante de sair à rua e ser alvo de olhares, comentários ou agressões. E podia continuar. Podemos alegar que estas ameaças não acontecem só com pessoas LGBTQIA – na verdade, acontece muito mais com algumas destas pessoas do que com outras. Mas a especificidade destas ameaças é dupla: as pessoas LGBTQIA e MOGAI são estatisticamente mais afectadas e a sociedade normativa é a grande responsável e veiculadora destas ameaças. Diria mais, as pessoas heteronormativas são responsáveis por estas ameaças cada vez que são coniventes.

2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Aquilo que tu consideras ser a minha hostilidade é uma resposta justificada à hostilidade que as minhas diversas identidades recebem todos os dias. Quando uma pessoa queer/assexual/trans*/bi/não-mono seja o que for se defende de agressões diárias, há sempre alguém, privilegiade, que vem dizer: “calma, não te estou a agredir”. Errado. Estás. O teu privilégio e ausência de reflexão e verificação desse mesmo privilégio é uma agressão constante. Esta pergunta, a que estou a responder, é uma agressão. É uma piada de mau gosto dizer que os meus textos perseguem as pessoas heterossexuais – eu até gostava de me rir mas não consigo porque este tipo de comentário acontece sempre que uma pessoa queer fala da sua identidade e aponta privilégios. A frequência com que isto acontece mostra que esta questão não diz respeito aos meus textos ou à minha atitude, mas sim a uma atitude geral de descredibilização do que as pessoas queer dizem e uma visão de “perseguição de heteros” que apaga aquilo que realmente acontece: é que, hei, caso ainda não tenham reparado, vivemos num mundo que persegue toda a gente que não o é. Heterofobia não existe, tal como racismo invertido não existe, tal como sexismo contra homens não existe, tal como cisfobia não existe – enquanto questões sistemáticas, omnipresentes e estruturantes.Esta pergunta diz mais sobre quem a faz do que sobre mim. Revela ausência de reflexão sobre privilégios. Em vez de me perguntares porque é que persigo heteros, porque é que não te perguntas a ti mesma porque é que te sentes atacada quando escrevo e falo sobre a minha identidade? Porque é que falar sobre ser lésbica te ameaça? Provavelmente é porque te deixa desconfortável. Nunca é confortável sermos confrontades com o nosso próprio privilégio. Eu sou lésbica, queer não-monossexual, poliamorosa e mulher – identidades que me trazem muitas discriminações e micro-violências diárias. Ainda assim, eu sou privilegiada em muita coisa: sou branca, sou cis, tenho um emprego, tive educação superior, nunca passei fome, sou normativamente funcional/com um corpo considerado funcional, sou considerada magra, ainda sou carnista/tenho uma dieta omnívora… Algumas destas características são de tal forma difíceis de reconhecer como privilégios que tive dúvidas ao dar um nome a algumas, tendo tido que pedir ajuda a pessoas que sabem mais do que eu, incluindo pessoas que não têm estes privilégios. Cada dia descubro mais uma coisa em que sou privilegiada e custa-me, deixa-me desconfortável, fico defensiva. Nunca é fácil confrontarmos-nos com isso. Experimenta. Deixa-te ficar no desconforto. Reconhece o privilégio que possas ter. Ouve os gritos de outres. Não imponhas. Ouve. E usa o que tens para fazer mais do que ser conivente.

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do medo de ser feminina

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Arte de Alice Eris Urchin

Quando escrevi sobre ser lésbica e ser feminina, senti medo. Escrevi o texto cheia de insegurança, com o conforto de saber que ao menos aquilo é a verdade sobre mim mesma, mas cheia de um medo permanente de ser criticada, julgada, de ser considerada tonta ou de o texto não ser visto como importante… ou seja, com medo de ser “vista como feminina”. Uma parte de mim tinha medo de aquele texto ser ridículo e por isso contive algumas coisas e não disse tudo o que podia ter dito sobre ser feminina. O medo era um bocadinho semelhante àquele que sentia quando amigas minhas conheciam o meu quarto pela primeira vez. Durante anos pedi desculpa pela overdose de cor-de-rosa presente – era a cor dominante no meu quarto. Quando um dxs meus companheirxs lá entrou pela primeira vez pedi-lhe desculpa pela quantidade de rosa e tentei dizer-lhe que aquilo não me representava assim tanto. Era um quarto de menina e eu sentia vergonha. Ele não ligou. O meu quarto hoje, que já não é decorado pela minha mãe, tem como cores dominantes o violeta e roxo. A minha cama é branca e cheia de torneados, parece uma cama de contos de fadas e fui eu que a escolhi. Tenho peluches em cima da cama. Montei o meu próprio quarto e é o mais feminino cá de casa. Nunca mais pedi desculpa a ninguém, mas às vezes ainda tenho medo. Foi mais ou menos isto que aconteceu quando escrevi sobre ser feminina. Sabia que pelo menos as pessoas próximas de mim iriam entender e não me julgar e que algumas outras pessoas queer femininas iriam encontrar ali eco – e assim foi. Muitas delas vieram falar comigo e dizer-me que não estou só e descobri aí que talvez a solução para este medo passe por estarmos juntas e falarmos sobre isto. Expormos a discriminação diária de que somos alvo e falarmos deste medo de nos mostrarmos femininas e por isso podermos ser ridicularizadas.

Mas também houve comentários contrários a estes, de quem não compreende o que é parecer lésbica, ou que acha o assunto de todo desnecessário. Engraçado como cada vez que um assunto é especificamente feminino, há toda uma tendência para o considerar de somenos importância. Ora, o que é isso de parecer lésbica? Isso não é relevante. Suponho que quem diga isto nunca tenha estado num espaço lésbico/queer e sido imediatamente colocada na caixa das hetero, vendo apagada a sua identidade, experiência e sensação de pertença. Ou que quem diga isto, nunca tenha olhado à sua volta à procura de referências e não encontrado ninguém que se pareça consigo. Quando me identifiquei como lésbica, as únicas lésbicas/dykes que eu conhecia e admirava como pessoas intelectualmente respeitáveis eram masculinas: Wittig, Butler, Rich, Rubin. Algumas que são mais conhecidas na cultura popular, têm também a mesma tendência para um visual masculino: Ellen DeGeneres, Adriana Calcanhoto, Jodie Foster, Lea Delaria. Não é por acaso que tenho tanta dificuldade em lembrar-me de alguma que seja conhecida e que seja visivelmente lésbica. Talvez por isso tenha ressoado tanto em mim o coming out feito pela Ellen Page, e mesmo ela adopta agora cada vez mais um visual masculino.

Se eu pensar nas lésbicas que conheço, em Portugal, século XXI, se olhar para as pessoas que me dizem ser lésbicas, abertamente, e para as primeiras que conheci, encontro uma ou duas que são femininas na sua apresentação e forma de estar. 99% das restantes são mulheres butch/com apresentação masculina. Quando entrei para o Clube Safo (há 2/3 anos) não havia na direcção uma única mulher que fosse simultaneamente lésbica e usasse saias. Ou melhor, havia: era eu. Não havia uma única mulher, além de mim, com cabelo que passasse os ombros. Não havia uma única mulher além de mim, que se identificasse como lésbica e usasse maquilhagem. Todas as restantes lésbicas vestiam calças, usavam camisas masculinas ou tshirts, cabelo curto e roupa prática em todas as situações em que estivemos juntas. Não é de todo coincidência que a única outra pessoa que era feminina, como eu, fosse bi. Todas as amigas mais próximas que tenho e que são lésbicas, são masculinas (tirando uma ou duas exceções). Para elas, é irrelevante pensar sobre parecer lésbica porque nunca tiveram um problema de invisibilidade. São fufas em todo o lado e a discriminação diária com que levam está lá para dizer isso.

É muito bonito dizer e pensar que as lésbicas não se têm que parecer com nada, mas para realmente levar essa ideia em diante, é preciso não ignorar o calling out feito por lésbicas femininas invisíveis. Dizer “ah as lésbicas não têm que se parecer com nada” quando sempre se foi lésbica visível, é falar a partir do desconhecimento do que é ver a sua identidade apagada em todas as situações, e ignorar o que é ter que fazer coming out todos os dias. É ignorar também que a ideia de senso comum do que é uma lésbica não tem efeitos performativos na vida das pessoas. Era giro que ser lésbica não tivesse que corresponder a nenhum visual/forma de apresentação. Mas se não corresponde a nenhum visual, então porque é que há um conceito do que é parecer lésbica? Porque é que há mulheres que são vistas como fufas e outras não? Porque é que há mulheres que levam com discriminação na rua por terem ar de fufas e outras não? Porque é que o que as distingue é sempre a presença/ausência de características masculinas? O que é que faz com que uma mulher com cabelo curto seja mais facilmente vista como lésbica e uma fufa de cabelo comprido seja considerada uma mulher hetero? O que se faz com conceitos como o gaydar, usados pelas próprias pessoas LGB? Que noções estamos a usar quando vamos a um bar LGB e nos sentimos bem lá porque sabemos que estão ali pessoas como nós? O que acontece quando o que encontramos nesses espaços são pessoas todas muito semelhantes entre si e nós somos the odd one out? O que acontece quando olho à minha volta e quero encontrar lésbicas como eu e as mulheres mais semelhantes a mim que encontro são mulheres bi?  Com a ideia de que o parecer lésbica não importa para nada, negamos a importância de encontrarmos pessoas semelhantes a nós, que nos ajudem a sentir seguras e validadas nas nossas identidades.

“Mas será que temos que ser identificáveis o tempo todo?”, perguntou-me uma pessoa, depois de ter visto o meu artigo. Quando se fala sobre a importância de visibilidade de algumas identidades – por exemplo, poly, trans, femme – há sempre vozes a perguntar isto. Eu vejo estes comentários na mesma linha exacta em que vejo as vozes de pessoas hetero, como a minha mãe, que me diz que eu posso ser o que sou desde que não precise de chamar a atenção para mim mesma. “Ninguém tem que saber, já viste alguma marcha de heterossexuais? Claro que não, porque a vida íntima das pessoas não é para ser divulgada assim dessa maneira”, cito uma pessoa imaginária que resume as milhares que pensam assim. Será que temos que ser identificáveis como gays e lésbicas o tempo todo, ou basta só em momento definidos para isso, por exemplo, uma vez por ano na marcha? Engraçado como nunca ninguém diz isto a pessoas heterossexuais – curiosamente elas não andam com a bandeira hetero, mas são sempre identificadas e visíveis enquanto tal, todo o ano, em todo o lado, no natal, no ano novo, nas festas de casamento, nos jantares lá em casa e em todos os direitos e privilégios que têm acima dos comuns mortais invisíveis. Qual é a necessidade de sermos visíveis todo o ano como aquilo que somos? Se calhar, é a necessidade de não sermos vistos como aquilo que não somos, o tempo todo, todo o ano em todo o lado, façamos o que fizermos, andemos com quem andarmos e passemos pelas discriminações que passarmos. O facto de eu não ser vista como lésbica não me impede de passar por todo um conjunto de micro-agressões diárias que, curiosamente, acontecem todo o tempo, todo o ano.

Era bonito viver num mundo em que não fossem necessárias caixinhas para nada, mas a maioria das pessoas que eu vejo a advogar pela abolição das caixinhas, são as mesmas que se mantém a si mesmas bem arrumadinhas na sua caixinha e que sempre estiveram seguras de ter um lugar de pertença. Eu, como lésbica femme, não tenho nenhum lugar de pertença, a não ser entre mulheres bi que levam com a mesma invisibilidade. O nosso lugar de pertença é o lugar das invisíveis.

Como eu, há muitas. Mas é difícil sabermos quem somos porque somos invisíveis. É difícil para nós formarmos comunidade como minoria quando somos constantemente vistas como parte da maioria hetero e cis. Mas nós somos a maioria invisível. Não nos reconhecemos na rua. Quando vejo outra mulher como eu, penso que ela é hetero e o problema começa logo aí. Eu faço parte da mesma construção de preconceito. Nós não nos conseguimos juntar porque não nos conseguimos ver. E uma fufa que sempre foi vista como fufa não faz ideia do que isso é e precisa de nos ouvir. As butch, passando por todo o preconceito que passam, têm ainda a pequena segurança de se poderem identificar mutuamente. De se reconhecerem. O poder do reconhecimento é imenso, nem que mais não seja para nos dizer que não estamos sozinhas no mundo. E partir daí nasce a possibilidade de se poderem apoiar, juntar, criar algum tipo de comunidade. Mesmo no meio da invisibilidade lésbica, há algum porto seguro no reconhecimento mútuo entre pares, na segurança de vermos exemplos de nós mesmas e podermos dizer: eu também sou assim. Para as femme não há nada disto. Há o mundo heterossexual com os seus exemplos monopolizantes de mulheres femininas. O resto, o imenso mundo de mulheres cis queer, bi, e não cis, genderqueer, fufas, trans femme, todo esse mundo, tem que ser descoberto nas nossas redes a cada coming out diário.

Portanto… será que temos que ser identificáveis o tempo todo? Sim, pelas nossas vidas e sobrevivência, sim. Só nos encontramos se falarmos. Uma fufa butch muitas vezes não precisa de dizer a outra que o é e será reconhecida na mesma. Nós, femme, nós temos que falar e falar e falar e levar com uma quantidade imensa de sexismo, femmefobia, lesbofobia, bifobia e transfobia. Comum a todas estas fobias está aquela de que falamos tão pouco em meios LGBT: a misoginia. E o problema está aí, nesse medo imenso do feminino e do que o feminino pode trazer. Que raio de lésbicas somos nós que temos tanto problema com o feminino? Que raio de comunidade somos nós que só tornamos visíveis algumas das nossas pessoas e contribuímos, com a nossa linguagem, os nossos espaços, os nossos hábitos, para continuamente apagar algumas de nós? Que raio de lógica nos faz contribuir para a ideia de que o feminino tem algo de errado e que não queremos associar connosco, tentando expurgá-lo dos homens gays efeminados, das pessoas trans e das lésbicas femme? O que faz com que feminino seja menos bom e porque é que continuamos sempre a valorizar o masculino mesmo em espaços queer e que se definem pela ausência de homens? Porque é que não temos pessoas femininas a falar nas nossas comunidades e, acima de tudo, a serem ouvidas? Porque é que as nossas vozes e valores são ainda e sempre masculinos?

São perguntas que ficam para continuar a reflectir, em conjunto, nos próximos textos. Este texto é parte de um conjunto de textos sobre femmephobia e invisibilidade:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Parte III – feminina não é sinónimo de fraca

Parte IV – femmephobia é misoginia (por escrever)
Parte V – femmes em todo o lado (por escrever)

sou lésbica e não pareço

Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.