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Já não sou poliamorosa. E não faz mal

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Deixei de ser poliamorosa. Para que fique já claro: não me identifico mais enquanto tal. E não, não estou a dizer que agora me identifico como não-monogâmica ou anarquista relacional ou qualquer outro termo de descrição de identidades relacionais alternativas – como muita gente tem vindo a fazer, desidentificando-se com aspectos problemáticos do poliamor, da sua literatura, dos seus gurus, dos seus aspectos abusivos, das suas comunidades. Não. Estou a dizer que – neste momento – não me identifico nem como poliamorosa, nem como não-monogâmica.

Virei monogâmica?

A resposta mais honesta que tenho é: não faço ideia. Terminei todas as relações em que estava no último ano. Há meio ano que não estou em nenhuma relação amorosa, ou melhor dizendo, como bem lembra o meu psicólogo: estou numa – comigo mesma.

Foi esta relação comigo mesma, que tenho vindo a recuperar da deterioração total, que me ajudou a ir pegar em coisas que se tornaram, discretamente, com a erosão do tempo, verdades imutáveis sobre mim.

Quem me conhece, e conhece a minha vida dos últimos anos, ou mesmo quem faça uma breve pesquisa por poliamor em Portugal no Google, verá e reconhecerá o meu nome em muitas entrevistas, reportagens, estudos, investigações académicas, tertúlias, debates, marchas. Dei a cara, o nome, a voz pela visibilidade do poliamor – a orientação relacional que escolhi e que foi a minha durante sete anos.

Hoje, esta orientação já não é mais a minha, portanto desconectemos Inês de Poliamor, de PolyPortugal, e de seja o que for que sejam seus sinónimos. Desconectemos Inês de não-monogamias de qualquer espécie que seja. Caramba, que alívio dizer isto! Que alívio e que difícil foi chegar a este ponto, que difícil foi para mim admitir que eu não sou esta bandeira e se calhar nunca vou ser, não sei. Considerem isto um coming-out ao contrário, ou uma destruição de todas as identificações perpétuas. Tudo é perene, vivemos vidas perenes, as nossas identidades são perenes, como o são as nossas relações e contextos. A vida é fluida, é mudança constante, mesmo que não notemos, como é que querem que a identidade não seja? O que eu queria aos 16 anos não é o que eu quero agora, salvo alguns sonhos, esses que ficam toda uma vida, crescendo connosco. Eu mudei, as minhas identidades mudam comigo, até os sonhos se transformam e ganham outros contornos, outras profundidades.

Levei muito tempo a perceber o que se passava comigo, e ainda estou a tentar perceber. Levei ainda mais tempo a conseguir escrever um texto como este, tão em profunda contradição com tudo o que escrevi durante anos. Levei ainda mais tempo a sequer considerar a ideia de que não ser poly não revelava nada de negativo sobre mim. Que não representava um enorme falhanço. Que nada dizia sobre mim enquanto pessoa. Que não sou menos por dizer: sim, fui poly. Não, não gostei. Não, não acho que toda a gente deva ser. Não, por favor, não me considerem mais poly, porque isso não sou eu. Não, paremos com as piadas sobre monogamia, ou seja o que for, porque para mim já não tem piada. Joke’s on me.

Demorei ainda mais tempo a parar a minha própria voz interior que me dizia que sou uma enorme contradição. Que estive sete anos a perder tempo. Que se não sou poly, que foi a parte mais visível das minhas identidades nos últimos anos, não sei quem serei. Que falhei. Que não sou suficientemente feminista para fazer as coisas de forma desconstruída e não-normativa.

Só que, percebi após muita terapia, muita conversa com ouvidos e vozes empáticas que:

Eu não tenho que ser coisa nenhuma.

Não tenho que ser revolucionária. Não tenho que ser desconstrutiva em tudo. Não tenho que lutar impiedosamente contra todos os clichés. Não tenho que fazer tudo de forma diferente. Não tenho que provar nada a ninguém. Não tenho que tentar alcançar um qualquer ideal de amar mais feminista que outros.

E, acima de tudo isto, não tenho que fazer nada disto a custo de sofrimento, de dor, de auto-sacrifício, de ansiedade.

Não, nenhum ideal vale o meu bem-estar mental e emocional. Nenhuma forma desconstruída de viver vale a minha saúde mental. Nenhuma luta contra a normatividade deve implicar a minha segurança emocional. E nada deve implicar o combate profundo que fiz à forma como sinto as coisas e como amo, em nome desse ideal.

Infelizmente, e de uma forma bastante reveladora, a literatura poly – com os seus livros de auto-ajuda, os seus artigos repletos de técnicas, conselhos, casos práticos – alimenta de forma quase perfeita o ciclo de auto-destruição em que me meti. Porque eu tinha um ideal, a forma que para mim era a maneira mais bela de amar: sem posses, sem ciúmes (ou trabalhando sobre eles), infinita, expansível, inesgotável. Intelectualmente, para mim tudo fazia sentido. As pessoas não são coisas, não temos que controlar com quem andam as pessoas que amamos, elas devem ser livres para amar toda a gente e nós também. É, potencialmente, anti-capitalista, anti-normativo, um combate à visão de escassez de amor, um combate às prisões e grilhões da exclusividade e da figura do casal que se fecha sobre si mesma. Sim, tudo isto, ninguém sabe o discurso melhor que eu, que o li, estudei, decorei, durante anos. Convenci-me que, se eu tinha dificuldades, o problema era meu. Eu é que não estava a ser desconstruída o suficiente, eu é que não estava a fazer todos os possíveis por lidar com a insegurança, com o medo, com a ansiedade, com os ciúmes. E se não estava a conseguir, então só tinha que tentar mais, ler mais, experimentar mais, colocar-me precisamente nas situações que me metiam medo, enfrentar o medo, ler mais um artigo, escrever mais um texto, ficar presente com o que estava a sentir, falar mais com os parceiros, tentar de novo, relativizar, tentar, tentar, uma, outra vez, de novo, mais um ano, mais um dia, tenta, tenta, tenta, vais conseguir, um dia vai doer menos, hoje doeu menos, bolas hoje doeu mais outra vez, é assim, a vida é assim, ninguém disse que isto era fácil, oh bolas, isto é lixado, mas okay, vamos tentar, vamos continuar, dia após dia após dia após noite após dia, eu consigo, eu sou feminista, nem sempre é mau, há mais uma técnica nova, eu consigo aprender.

Até

à exaustão total.

Uma coisa importante que as pessoas que dizemos normais e que são monogâmicas talvez saibam (porque não têm toda esta terrível literatura) e que as pessoas poly parecem ter esquecido:

uma relação não é suposto ser um trabalho.

Ouviste, Inês?

Ora, pois bem. Uma relação não deve ser ou implicar tanto trabalho. Uma relação não é um conjunto de ferramentas para lidar com a situação X, de forma a superar Y para poder continuar a fazer W. Não. Isto é uma fórmula matemática qualquer, suponho, não percebo nada de matemática, muito menos com letras. Isto parece-se mais com um problema de gestão. Mas eis mais uma coisa que uma relação não é suposto ser: um curso de gestão. Um mestrado em gestão aplicada ao quão lixado é o dia-a-dia não-monogâmico. Uma relação não é sequer suposto ser difícil. Ou lixada. E se é, então estou muito bem assim sozinha, obrigada.

O problema é que, durante muito tempo, eu achei que tinha que aprender a fazer isto. Se fazia sentido para a minha cabeça, se havia lógica e se eu entendia tudo e acreditava que isto era a forma mais bonita de amar, então eu tinha que conseguir sentir e amar assim, não é? É. Eu tentei. Juro que tentei. Juro que consegui também – algumas vezes. Mas ter que conseguir estar feliz numa relação é um problema em si mesmo, certo? Se cada passo é difícil, se há coisas que mesmo sete anos depois continuavam a ser difíceis e sem sinais de passarem a ser mais simples ou fáceis ou, sei lá, simplesmente não doerem demasiado, e se cada vez que se repetia um tipo de situação com uma nova pessoa era como se voltasse a ser tão horrível como da primeira vez, que sentido há nisto? Eu achava que havia sentido, por isso continuava sempre. Não terminei as minhas relações por não querer mais ser poly, mas quando as terminei percebi que não queria mais ser poly, que na verdade se calhar nunca fui. Eu pratiquei muito poly. Estive com pessoas que foram poly. Vivi numa família poly. Mas eu, o meu coração, alguma vez foi poly? Não sei. Apaixonei-me duas vezes na vida. De forma sequencial. Portanto não. O meu coração nunca foi poly. Amei mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, sim. Mas quantas pessoas podem dizer que só amam um único ser no mundo? Isso não as faz poly. Poly, como o aprendi a fazer e como o estudei nesses mil livros que li, cada um deles mais iluminado que o anterior, ou mais desconstruído, poly era um conjunto de coisas que é necessário processar, desmontar e uma série de aptidões a adquirir, a pôr em prática, a treinar, implementar, concretizar, verificar. Executar. Até à exaustão. Executando-me a mim mesma, relegando para menores as coisas que eu sentia, considerando sempre que eu é que tinha que melhorar, que uma melhor versão de mim estaria do outro lado do poly, que eu estava a trabalhar para essa nova, melhor, versão de mim, que eu era um progresso nesse sentido.

E, no meio disto, estive em ansiedade, estive sozinha, chorei, fiz a minha insegurança passar por testes terríveis e quase impossíveis de não chumbar, fiz coisas que me deixaram desconfortável, que preferia ter feito de outro modo, mas fiz porque queria ser melhor, queria estar ao nível do poly, dos meus parceiros que eram tão facilmente mais poly que eu sem quase esforço algum. Quando tudo para mim era esforço, era superação constante. Que bonita jornada pessoal. Só que não. O preço foi demasiado alto e um dia eu quebrei. E percebi que, para já, isto não é para mim. Não digo nunca – não faço ideia das voltas que a vida vai dar. Nunca me imaginei poly e um dia era. Depois, nunca me imaginei sem ser poly e agora já não o sou. Amanhã, não sei. Não faz mal. O que faz mal e o que fez mal foram anos a pensar que tinha que ser, que tinha que tentar, que eu é que era o problema.

Mas o problema não sou eu. O problema é acharmos que tudo se resolve com um conjunto de aptidões, que tudo o que é desconforto pode ser trabalhado, que o que custa vai sempre melhorar – em detrimento do bem-estar, da sanidade mental, e do sentir de cada um. Como se o meu sentir estivesse errado e o dos meus parceiros estivesse certo, só porque eles eram mais facilmente poly que eu!

O que eu percebi, sete anos depois é que nem tudo deve ser enfrentado. Não. Não devemos colocar-nos em todas as situações porque temos que conseguir lidar. Sendo mais clara: não, não tenho que ser amiga de todas as pessoas que estão com a pessoa com que estou. E não, não tenho que tentar. E não, não tenho que ver e estar okay e não, não tenho que me sentir feliz porque a pessoa que amo se apaixonou por outra. Especialmente, se isso me custa a minha saúde mental. Se isso me trouxe horas de esforço emocional, de conversas intermináveis, de processos que não desejo a ninguém. Há um lado muito difícil no poly, que se tenta dourar com conversa sobre comunicar e ser honesto. Não há honestidade que te salve de te sentires a morrer quando vês a pessoa que amas a beijar outra. E não tens que estar okay com isso se não estás. E não és menos se compersão – essa palavra terrível que sempre me fez pensar em com-pressão (e que adequado que agora me soa!), mas que é suposto significar todos aqueles sentimentos bons, lindos, maravilhosos, que deves ter quando a tua parceira está com outra pessoa – não é a tua primeira resposta. Conto pelos dedos de uma mão as vezes em que senti uma profunda compersão. E só depois de imenso processamento. Eu não sou um computador. Não tenho que processar tudo para do outro lado me sair a vida feita. Lamento, mas eu sou uma pessoa. Não é suposto passar anos a processar micro-problemas relacionais a cada passo que dou ou alguém dá na minha rede relacional. É um esforço tremendo, é esgotante, é demais. Mas a pressão sempre existiu. A pressão que me coloquei a mim mesma esteve sempre lá. Eu tinha que conseguir não porque os meus companheiros não fossem compreensives, não. Eu tinha que conseguir porque eu não era compreensiva comigo mesma. E não apenas eu, como toda a estrutura se baseava em todes irmos conseguindo, não é? E quando um não consegue, ao fim de algum tempo isso torna-se um problema para os outros. E vai ser preciso falar disso. E quando és sempre tu o problema, começas a achar que tu estás mal e a roda gira sobre si mesma.

Vivi de uma forma que muitas vezes me fez sofrer. E o que é mais triste é que o fiz porque queria, porque o escolhi e porque achava que sofrer fazia parte da lógica. Porque existem todas aquelas ideias bonitas que dizem que tudo o que vale a pena custa sempre, sobre nenhuma relação ser fácil, sobre lutar e desconstruir e todos os livros diziam isto e estavam ali tão disponíveis para te ajudar a superar cada dia o sofrimento todo. Portanto, sofrer era normal, toda a gente tinha dificuldades, poly dá trabalho, e então era suposto eu ter trabalho, era suposto ser difícil, era suposto continuar a trabalhar para superar tudo o que doía.

Até te afogares. E descobrires que não dá mais. E parares de ir buscar a resposta ao próximo livro ou artigo bem intencionado. Até te perguntares se o problema era mesmo teu ou se é mais alguma coisa, uma combinação de factores, como esta literatura da treta que ajuda se tu tiveres um conjunto de características e circunstâncias a contribuir também: por exemplo, se fores tu a pessoa que tem os vários parceiros, é mais fácil; por exemplo, se não tens tendência para te comparar compulsivamente com toda a gente, és capaz de conseguir; por exemplo, se insegurança não faz parte de ti como parte quase integrante, és capaz de superar um ou outro problema. Ou se não tens, nem nunca tiveste ciúmes. Ou se adoras que a tua companheira te conte absolutamente tudo o que fez com a nova pessoa que está a conhecer. Se preferes saber e isso te acalma em vez de te causar um ataque de ansiedade tão grande que sentes que regrediste três anos de percurso e te passou um camião em cima. Ou se realmente consegues que doa cada vez menos e que seja cada vez mais simples. Mas e quando não consegues nada disto? Quando em vez de melhor ficas pior? Quando percebes que não estás sequer a ter o que precisas na relação? Quando reparas que quanto mais amas livremente e te amam livremente, menos especial te sentes? Porque sim, ninguém te substitui, ninguém pode ser quem tu és, mas quem tu amas pode fazer, sentir, dizer tudo igual – a outra pessoa. E se o que isso te faz sentir não é de todo positivo? Se te faz perder o sentido de tudo e perguntar: então mas que raio estou a fazer contigo, se tudo pode ser equivalente?

Não, não é sempre mais desconstrutivo e revolucionário ser não-monogâmico. Não estou a dizer que fujam do poliamor e virem todos monogâmicos. Não. Estou a dizer que se forem poly, mono ou outra coisa qualquer, sejam-no só porque é o que querem, mas mais que isso, porque o sentem. Não deixem a cabeça mandar sozinha, porque querer é uma coisa, sentir é outra. Eu levei todo este tempo a perceber que a minha mente queria fazer as coisas de uma forma que torturava o meu coração. Se recorrentemente te acontece sentires que não és poly, não cales essa voz. Se recorrentemente sentires que não és mono, não cales essa voz. Se não te sentes mono ou poly, se calhar é porque simplesmente não és. Não implica que nunca venhas a ser. Implica só que neste momento não és e não vem mal ao mundo por isso. Por muito que custe, por muito desamparados que nos sintamos, é sempre possível mudarmos o que parece imutável.

Vamos parar de ignorar a nossa intuição, aquela voz pequenina que às vezes nos diz que algo não está bem e que tenta avisar-nos mas nós calamos tanta vez. Às vezes temos mesmo que a ouvir. Às vezes não é para lutarmos. Nem enfrentarmos todos os medos. Às vezes aquele medo está lá para te dizer que não é suposto tu estares. Às vezes o melhor para ti é mesmo ir embora.

Em última análise – e mesmo sem análise nenhuma – se não faz sentido – e aqui sentido é de sentir, mesmo, e não de ter lógica, esqueçam a lógica e a necessidade de ser coerente, porra isto não é um teste – dizia eu, que se não te faz sentido, então não adianta estares a tentar ser revolucionária. Se calhar a coisa mais revolucionária que podes fazer é dizeres isso. Isto não me faz bem, vou-me embora. Isto não me faz bem, então vou optar por procurar outros caminhos para mim. Os ideais são essenciais na vida, fazem-nos aspirar a algo maior que nós, e lutar para mudar este mundo, mas nenhum ideal deve vergar a nossa vida. Nenhum ideal se pode sobrepor à minha integridade. Alguns diriam que sim. Alguns morreram por ideais. Eu não quero morrer por um ideal, e se morresse por algum preferia que fosse o feminismo – aquele que eu defendo, aquele que faz todos os sentidos e mais algum, os do sentir, os do direito, os da lógica. Mas não, eu não quero morrer por nenhum ideal. Nem anular-me, a mim, aos meus desejos, aos meus sentimentos.

Nós não amamos só com a cabeça. A cabeça deve fazer parte, para não amarmos de forma cega ou destrutiva, mas a cabeça é uma parte muito pequena do amor. Eu tentei amar com a cabeça e deu nisto. Verguei o coração à cabeça e, como músculo que é, tentei trabalhá-lo para a jornada diária do amor poly, para os seus muitos desafios sucessivos intermináveis. E ele, o meu coração, resistiu bravamente, mas acabou a ter uma ruptura de ligamentos e nunca mais ficou o mesmo. E eu não quero submetê-lo novamente a uma provação com tantas etapas como esta.

Eu não sei se sou monogâmica, ou o que quer que seja. Sei o que não sou, que é como o outro dizia, sei por onde não quero ir. Não sou hetero. Não sou poly. 

Depois de ter desconstruído tudo, o que é que sobra? Dar um passo atrás. Respirar. Ganhar outra perspectiva. Questionar tudo o que achei que eram verdades absolutas sobre mim.

Acreditar que, se calhar, o que vale a pena não tem que custar coisa nenhuma. Não tem que custar. Ponto.

Eu tratei o amor como um emprego. E despedi-me no fim, sem indemnização.

Amor não é amor se não for amor por mim primeiro, amor a quem sou, e verdade para quem sou, mesmo que a verdade possa mudar comigo. Caso contrário, não é amor, é desamor mesmo.

Imagem: http://bit.ly/2xrBAHF

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Nós temos tão poucas ferramentas do coração

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Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt

 


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo. 


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires]: Parte II

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Fazer-me lésbica foi uma decisão. Uma decisão consciente, auto-reflectida, política, pessoal e amorosa. Não foi uma decisão que tomei só uma vez, mas sim uma decisão que tomo quase todos os dias. Fazer-me lésbica não é um acto acabado – daí o uso do verbo fazer. É um processo de auto-conhecimento e exploração. É uma decisão consciente e performativa que acontece porque eu quero.

Acontece por exemplo quando digo: eu sou lésbica. A linguagem faz com que isto aconteça e seja real. Cada iteração de “eu sou lésbica” faz-me lésbica. Cada vez que o repito sou sempre lésbica. Cada vez que o digo crio ondas, faço acontecer.

Apesar de ser um processo, deve ter havido um momento inicial. A primeira vez que disse “sou lésbica”. Seria muito mais giro se me lembrasse da história desse momento e o conseguisse narrar e dizer: “sim, foi neste dia, eu tinha voltado das compras e de repente tive uma iluminação e percebi! Sou lésbica. Fui a correr contar logo à primeira pessoa que encontrei e que ficou embasbacada a olhar para mim.”

Não, não foi isto que aconteceu. Até pode ter sido, mas se foi não me lembro. Não me lembro desse momento inicial e primeiro de “sou lésbica”.

Mas lembro-me, sim, de esse momento ir acontecendo. E aí encontro uma narrativa. Uma narrativa que percorre várias conversas em vários dias diferentes, ao longo de meses e depois anos – porque sim, continua hoje, mais de cinco anos depois. Uma narrativa de construção pessoal e inter-relacional que se foi fazendo. Essa narrativa foi acontecendo no meu fazer-me poliamorosa. E foi um esforço colaborativo. Sim, porque eu não me fiz lésbica sozinha. Obviamente que fui e sou a grande agente nesse processo e que sem essa minha agência e vontade nada disto teria acontecido e eu ter-me-ia feito noutra coisa qualquer. Mas eu partilhei essa minha vontade no contexto de uma relação poliamorosa e queer com um homem cis. E fui-me construindo lésbica precisamente depois de começar uma relação amorosa com um homem cis.

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Aqui parece residir o problema que muitas pessoas têm com a minha identidade. Para mim é simplesmente a cereja no topo do bolo (se eu gostasse de bolos) e não perco uma única oportunidade para meter este dado ao barulho, sempre muito naturalmente, como por exemplo no seguinte diálogo:

Pessoa aleatória: Ah ontem fui ao café.

Eu: Ah que engraçado. Por falar nisso, eu sou lésbica e ando com um homem, sabias?

Pessoa aleatória: [silêncio]

(não é bem assim, é mais como abaixo – e sim, esta aconteceu mesmo)

Local: Café algures no Porto. Eu sentada com umx namoradx. Pessoa acabada de conhecer  sentada à nossa frente.

Pessoa aleatória: Ah pois mas tu és lésbica. Eu prefiro homens, o que é que queres… Tenho um fantástico lá em casa…

Eu: Ah e quem é que te disse que eu não? Por acaso também tenho, está em Lisboa e gosto imenso dele.

Pessoa aleatória: [risos] -> a pessoa pensou que eu estava a gozar com a cara dela ou que já tinha definitivamente bebido demais.

Aqui é importante pensar nas condições específicas que contribuíram para este meu fazer-me lésbica numa relação com um homem e que são fundamentais para perceber porque é que isto é possível no meu caso (e quem sabe no de outras pessoas que assim queiram).

1. Esta relação é poliamorosa.

É poliamorosa da maneira que nós escolhemos fazê-la: aberta a várias pessoas e a vários tipos de laços possíveis com essas pessoas, dinâmica e portanto sempre cambiável e amorosamente exploratória e experimental. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que tenho nesta relação toda a liberdade para me experimentar lesbicamente – sozinha ou acompanhada – e de me pensar lesbicamente. Isto implicou, de uma forma muito menos poética, conversar. Conversar contínua e abertamente sobre desejos, vontades, expressões sexuais e sensuais e afectos. Foi no contexto desta relação que, em conversa, me apercebi que uma das relações mais centrais da minha vida era uma amizade romântica com uma mulher a quem eu chamava amiga. Foi em conversa com este homem cis com quem estou, que percebi que esta outra relação de amizade amorosa era central na minha vida, a ponto de ser tão relevante como qualquer relação sexual/amorosa/romântica (que eu na minha cabeça andava a tentar separar sem grandes bases). Só porque não tinha sexo, não deixava de ser lésbica, não deixava de ser amorosa, não deixava de fazer parte do meu construir-me lésbica.

Esta abertura para falar foi criada no contexto de um formato relacional em que falar é fazer relação. É fazer as formas de estar e de amar. E nós fomos fazendo estas formas e fomos fazendo uma relação não-exclusiva, baseada em confiança e partilha e em auto-hetero-descobertas múltiplas. E eu fui-me fazendo lésbica em conversas de café, em conversas de fim-de-semana, em conversas à noite ou jantares. E eu fui-me fazendo lésbica nas nossas explorações eróticas e nas explorações eróticas que partilhei com ele e com outras pessoas. E nas minhas explorações afectivas. Porque eu assim escolhi. Como meu projecto pessoal e relacional. E como parte da minha narrativa pessoal. A minha identidade lésbica é indissociável da minha identidade poliamorosa. Esta questão deu até origem a uma piada:

Eu: Eu podia ser perfeitamente monogâmica! Sou perfeitamente capaz de ser um dia.

Companheiro: Ai é? Então imagina lá estares numa relação monogâmica com um homem e nunca mais na tua vida teres uma relação – ou sequer essa possibilidade – com uma mulher?

Eu: Ah… [bloqueio]

Até hoje não consegui arranjar uma resposta que me convencesse a mim mesma.

2. Esta relação parece hetero. Mas não é. 

Esta foi sempre uma parte complexa de invisibilidade lésbica. Apesar de sermos uma mulher e um homem cis, numa relação romântica e sexual, temos um pequeno problema: é que além de não sermos mono, também não temos uma relação hetero.

Ambos consideramos que a nossa relação é queer – e este é o motivo principal pelo qual a relação não é hetero e é queer – sim, porque nós dizemos que é. E porque a fazemos enquanto tal.

Eu muitas vezes não me sinto a ter uma relação com um homem – aqui leia-se homem como quem diz “ser que tem supostamente as características masculinas consideradas norma nesta sociedade”. Sinto-me a ter uma relação com uma pessoa com uma série de características que eu posso atribuir a vários géneros diferentes e que, sendo cis, não tem uma série de características atribuídas à masculinidade. Posto de forma mais simples: o homem cis com quem eu ando, muitas vezes, não é masculino. E isso é parte do charme todo da coisa. E às vezes é masculino. Um masculino desconstruído e feminista. E isso é bom, porque no fundo eu não quero namorar com géneros mas com pessoas.

Obviamente que o facto de a relação não ser para nós hetero, não faz com que ela seja magicamente vista como nós queremos. Para 99% das pessoas nós somos hetero e esta é uma relação hetero e se por acaso saímos à rua só os dois até podem pensar que somos mono. Aí entra a nossa construção de nós mesmos e o que dizemos para activamente contrariar e questionar esta percepção automática. Claro que à vezes a sociedade engole-nos.

Outra parte complicada disto, é que eu posso dizer que a minha relação não é hetero e que eu sou lésbica… e depois posso começar a rezar para que as pessoas LGBT à minha volta percebam magicamente isto. O que acontece é que, claro, não percebem. E que me lêem como hetero ou bissexual (se eu conseguir dizer que gosto de mulheres). Outra coisa que resulta daqui é que tenho de estar constantemente a dizer que não sou hetero – se quero ser lida como não hetero – ou seja, o coming out é todos os dias, várias vezes por dia, potencialmente. Ou, quando as coisas correm bem, sou lida como bissexual e tenho que ainda assim fazer o coming out lésbico – isto nunca acaba.

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Um outro efeito disto é eu dizer – sou lésbica – mas não é isto que as pessoas ouvem. Ouvem antes: “ok, também gosta de experimentar com mulheres, mas ama é aquele homem. Vou pôr-me ao fresco”. No fundo, isto acaba a funcionar também como um filtro. Só vai dar-se ao trabalho de ver para além dos pré-conceitos quem realmente o quiser fazer. E quem tem problemas com a minha identidade está longe de ser uma boa pessoa para estar comigo.

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É difícil ser visível neste contexto. Mas mesmo sabendo isto, esta foi sempre a minha escolha diária. A de nunca me heteronormativizar. A de me fazer lésbica poliamorosa numa relação com um homem também. A de me fazer lésbica todos os dias.

Mais um passo numa viagem que ainda continua e que tem todos os dias novos contornos. Os últimos ficam para um novo texto.

Este texto é a continuação de um outro, que pode ser lido aqui.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [mini-explosões queer]: interlúdio

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Pequena cena-exemplo de como a identidade lésbica queer pode provocar uma mini-revolução ou pequena explosão (aconteceu realmente, mas entretanto passaram anos e a cena é narrada com alguma imaginação dramática da parte da autora)

Há uns anos atrás, numa sala cheia de lésbicas (para quem quiser saber o que todas estas lésbicas estavam a fazer numa sala carregue aqui):

«Olá, eu sou lésbica e poliamorosa. Este aqui ao meu lado…» – aponta para homem cis de cabelo comprido – «…é um dos meus companheiros.»

*explosão de cérebros lésbicos*

*comentários para a vizinha do lado*

*lésbicas butch muito zangadas*

*eu-lésbica entre o contente com a provocação – tinha planeado obsessivamente dizer a frase tal e qual desta maneira para poder observar os seus efeitos em ambiente altamente lésbico-normal – e semi-aterrorizada com o ambiente agreste*

Primeira lésbica butch: Espanta-me que diga uma coisa dessas, aí sentada, com toda essa calma.

Segunda lésbica não-especificada: Porque é que não diz antes que é bissexual? Se está com um homem, tudo bem, mas ao menos admita que é bissexual.

Primeira lésbica butch: Você não pode dizer isto.

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Silêncio dramático.

*fim de narrativa*

Resposta a este magnífico cliffhanger e as relações entre poliamor e lesbianismo queer na Parte II: Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires] – ainda por escrever.

Nota: a autora não tem nada contra o Clube Safo, nem defende que as opiniões acima expressas são as do Clube Safo. Ademais, a autora faz parte do dito Clube e é uma das grandes interessadas na sua sobrevivência agora e para sempre.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se tiveres sorte]: Parte I

1780668_10201182847837632_1988650856_nComo se estivesse a ler palavras de uma estranha, leio algures num email de há 5 anos atrás, que eu (o eu da altura), não gosto do termo lésbica. Tento traçar uma linha desde então até ao presente, procurando os momentos de viragem, e encontro o termo lésbica nomeado mais de 790 vezes no meu arquivo de email. Para quem não gostava do termo, definitivamente usei-o muito.

Como é que cheguei aqui? Mas talvez esta não seja a melhor pergunta, porque o que me interessa mesmo é o caminho e não o fim. Como é que me fui fazendo lésbica todos os dias? Alguns pontos que encontro nesta história de me fazer lésbica, por uma ordem falsamente cronológica que é a que o meu cérebro recorda:

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L word. Sim, um autêntico cliché, mas esta série fez/faz parte do meu fazer-me lésbica. Vi-a às escondidas. Apesar de ser maior de idade, a minha mãe vigiava os programas que eu via na televisão e várias vezes me veio desligar o dispositivo quando eu estava a ver esta série, seguindo-se berros, críticas e censuras (é tarde, que programa é este, o que estás a fazer com a tua vida, não vais ver isto em minha casa). Uma das vezes desligou-me a TV a meio de uma cena de sexo oral de dez minutos, completamente empowering. Foi meio caminho andado para se tornar a minha série favorita e nunca mais perder um episódio. Vi todas as temporadas. Pela primeira vez estava a ver corpos de mulheres postos ali para serem vistos por outras mulheres. Tenho perfeita consciência dos problemas desta série. Sei que é uma representação irrealista, idealizada, de corpos brancos, tonificados, capazes, de mulheres de classe alta, com nenhuma representação de safer sex, com um enfoque claro na monogamia em série e quase ausência de representações de não-monogamias consensuais e responsáveis, enfim demasiada normatividade lésbica e pouco queer e imensa bifobia. Estes e outros problemas que este produto de Hollywood tem não apagam, no entanto, a importância destas representações no meu fazer-me lésbica: ver sexo lésbico em prime-time, ouvir mulheres falarem das suas atracções, problemas e relações de intimidade, estabelecendo redes de amizade e solidariedade, fazendo asneira, cometendo erros, dando passos em falso, fodendo, tudo isto foi importante. Ver, pela primeira vez, vários tipos de lésbicas, femininas, não femininas, masculinas, pessoas trans, pessoas com atitudes queer, ver mulheres que em tudo poderiam parecer hetero mas não o são, tudo isto fez parte do meu fazer-me lésbica.

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Momento polémico 1: talvez sem esta série eu não fosse lésbica. Sim, estou a dizer que o meu lesbianismo pode ser produzido culturalmente e ser resultado de um produto mediático. Provavelmente o L Word criou e produziu muitas lésbicas de diversos tipos e intensidades e colorações. Eu sou uma delas. [on a side note: eu ser do contra também deve ter provocado o meu lesbianismo, quanto mais me proibiram de ver a série mais lésbica me tornei, obrigada mãe.]

– Possivelmente decorrente do ponto anterior, tive uma enorme paixão platónica assolapada por uma rapariga na faculdade, com quem mal troquei meia dúzia de frases. Tinha cabelo cor-de-rosa, uma voz meio rouca, fumava e parecia uma versão da Shane mais sexy. Fomos colegas numa cadeira de fotografia, onde me fiz ainda mais lésbica caindo de amores por uma dúzia de fotógrafas que faziam auto-retratos, entre as quais Francesca Woodman e Claude Cahun, duas fotógrafas que me fizeram lésbica e queer e ainda mais feminista. Precisamente numa aula dessas, estava sentada ao lado da gaja de cabelo cor-de-rosa e sentia que não conseguia pensar (I can’t think straight). De repente, faltou a luz, e ela diz: “fuck me” (obviamente referindo-se ao incómodo da falta de electricidade). O meu cérebro entrou numa cena de autêntico L Word, where I would indeed fuck her and it would be totally normal and sexy. Em vez disso, obviamente fiquei petrificada no lugar a tentar respirar até a luz voltar. No resto do semestre tentei timidamente trocar umas frases com ela, sentindo-me totalmente desadequada para interacções sociais ou de qualquer outro tipo e logicamente tudo deu em nada. Entretanto percebi que ela tinha namorado e conclui então que se calhar ela era tudo menos lésbica (o que tem imensa piada, à luz da minha própria identidade hoje).

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Só fiz alguma coisa directa quanto à paixão platónica quando já tinha saído da faculdade, já era poliamorosa e já estava numa relação com um dos meus actuais companheiros, que foi precisamente a pessoa que me incentivou a não deixar isto em silêncio. Enviei-lhe uma mensagem numa rede social onde ainda tinha contacto e disse-lhe que ela tinha sido parte do meu fazer-me lésbica. Não houve resposta, mas eu também não estava à espera de nenhuma. Simplesmente, agora tinha skills que não tinha antes. Agora eu dizia as coisas claramente, ou pelo menos muito mais claramente que antes. Mais importante do que uma resposta, era a minha honestidade lésbica. E essa honestidade foi, e é, apoiada, também (mas não só) no contexto de uma relação poliamorosa com um homem cis heteroflexível.

Momento polémico 2: A Francesca Woodman e Claude Cahun fizeram-me muito lésbica. Sim, artistas e os seus produtos podem fazer lésbicas.

Momento polémico 3: Ser poliamorosa fez-me lésbica. Estar numa relação poliamorosa e queer com um homem cis heteroflexível fez-me lésbica. E no próximo texto vou explicar exactamente como é que, sim, alguns homens podem ajudar a fazer lésbicas. Principalmente se estão em luta constante com a sua masculinidade, se são também eles femininos em muita coisa e se estão interessados em construir relações não-normativas e que podem ser ressignificadas pelas pessoas que as fazem – a todo o momento.


all over the place

eu não sou uma pessoa organizada. quer dizer, sou organizada em termos logísticos, quando há coisas que quero fazer, mas mentalmente sou uma pessoa desorganizada. no meio da minha desorganização costumo encontrar uma linha de continuidade e sigo-a. é uma maneira de me manter num caos organizado que só eu entendo.

estou a perder essa linha. ou melhor, a linha continua a existir mas eu não a consigo seguir. há demasiada coisa a acontecer, há demasiada informação, há demasiada coisa que eu quero fazer ao mesmo tempo. não estou a conseguir fazer nada. criei este blogue para conseguir seguir a linha, mas todos os meus blogues acabam mal começam. sim, estou a falar do fim de uma coisa que acabei de começar. se o que importa é o caminho e não o fim, então há algum sentido nisto. no entanto, cheguei a um ponto em que não consigo pensar.

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o activismo está a esgotar-me. os activismos. é possível ser poly, lésbica, kinky, queer, feminista e tudo e tudo e tudo. mas é possível ser tudo e não ficar louca? não sei. se é sinal de uma mente saudável o facto de não estar ajustada a uma sociedade doentia, então devo estar no bom caminho. mas sinto-me exausta. sinto-me, eu mesma, doente. de dar tudo ao mesmo tempo em todo o lado.

os activismos estão a sugar-me. não há espaços seguros. não há comunicação não-violenta. há guerra e silenciamentos e opressões a serem jogadas todos os dias. eu mesma tornei-me violenta para me defender. arrogante para me proteger. vou para as reuniões activistas como quem vai para um campo de batalha e por isso vou armada. não falo com cuidado. chego e digo o que preciso de dizer. e sou agressiva. foda-se caralho merda. destilo raiva. é assim que estou a fazer activismo, movida a agressão, movida a defesas e contra-ataques. moves and counter-moves.

pergunto-me se não devia parar e qual é a razão para ficar. obviamente razões há muitas. é que se não for eu, provavelmente não há mais ninguém. pelo menos, não haveria ninguém que não seja da minha família, e portanto eu continuaria a ser afectada. não dá para fazer activismo como se fosse um hobby. não é como acordar e ir ao ginásio de manhã e pronto, está feito, põe-se de lado e passa à frente. o activismo dorme connosco, fode connosco, vive connosco e está todos os dias connosco – quando estamos no trabalho a fazer vida dupla, quando vamos na rua, quando fazemos escolhas, quando estamos a viver as nossas relações. deve haver gente a fazer activismo de uma maneira muito mais conveniente e confortável. eu sei que há. às vezes também gostava de ser assim.

mas pior que isso, há pessoas que fazem activismo-performance. talvez performance não seja o melhor termo por estar tão bem conotado com coisas queer-fofinhas. há pessoas que fazem activismo-máscara. activismo-para-o-outro-ver-que-eu-sou-tão-boa-pessoa. o activismo hipócrita está em todo o lado. para estas pessoas é normal ir a uma reunião silenciar outras. ou fazer estratégias para eliminar outrxs identidades e grupos. ou fazer eventos contra a violência e ser violentx e abusivx em privado. estas pessoas são consideradas boas activistas. têm nome e reputação. eu não estou no direito de as revelar, mas muitxs sabem quem são.

isto entretanto transformou-se num texto de denúncia. mas é só um texto de cansaço. activismos são só uma das coisas que faço, uma das linhas. o resto da minha vida é feito de poly-relações, poly-afectos, poly-complicações, poly-comunicações, poly-planos. e mais. precariedade. empregos das 9 às 5, contas para pagar, família de sangue e de obrigações, discriminações, invisibilidade, sexismos vários, conexões online, ansiedade, esgotamentos, textos queer everywhere.

sim, este texto é uma confusão. e não diz sequer metade.

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