Category Archives: queer experiences

faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.

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ondas

A água é fresca mas não tenho frio. Estamos nuas, não me importo. A vergonha que tive deixei-a no areal. As ondas chegam com força, embatem no meu corpo nu e não faz mal. É agreste esta força do mar, só lhe sinto o poder que me atira ao chão e me transporta. Sinto-me diferente. Como se uma vida se tivesse passado entretanto e eu saí do outro lado do tempo e sou a mesma e sou outra. Tenho dor. O mar está a levar essa dor para longe, grito. Ela grita também. Somos atiradas contra a areia e rimos. Tenho o cabelo colado à cara, o corpo frio, a pele onde pousou o sol quente por baixo, mas as gotas por cima, estou cheia de areia, engulo água, mas tudo vale a pena. Este é mais um dia, é mais um dia depois da dor, durante a dor, mas escolhi o mar, escolhi o sal, escolhi estar nua com ela e passarmos essas horas a esquecermos a dor, a lembrar-nos dela a cada momento. Pensei que devia ter frio mas só depois de ser atirada e levada por mil ondas é que esse frio chega. A manhã torna-se tarde, ficamos ao sol só o tempo de sentirmos o corpo quente e de nos perdermos numa nova conversa, numa conversa que nunca parou e que continua sempre. Sinto-me virada do avesso. Não tenho o coração cá fora porque o tive que guardar algures entretanto, mas tudo o resto está cá fora. Às vezes falo sem dor e é como se estivesse a recordar coisas boas de outra vida. A dor parece que só me atinge mais tarde, quando estou sozinha, quando já falei tanto e me deixei ir a sítios que não sabia. Como estar nua numa praia e não me importar. Como aperceber-me que o meu corpo está vivo ainda e responde ao mar e não saber como. Como é que estás ainda vivo? Como é que ainda gosto de ti e me sinto bem neste corpo? Senti no mar. No mar senti que esse corpo era meu ainda. Que ainda podia fazer coisas com esse corpo, que ainda podia deixar-me ir a zonas fora das minhas fronteiras, talvez amar (?), pelo menos o corpo ainda pode amar, mesmo que mais nada. Pode amar o mar, pode amar a sensação de me perder, pode sentir-se expandir para fora do que me conforta e ficar aí a sentir as coisas todas com uma força que me extravaza.

Não quero que este seja o último dia de verão.

Nunca disse isto antes, mas não quero. Preciso do mar, preciso de voltar ali e sentir-me nua e vulnerável e deixar-me ficar nisso umas horas, mais umas horas. O tempo começou a passar de forma diferente, gira à volta de mim agora, à volta do que estou a tentar fazer comigo, do que não consigo fazer, do vazio que sinto, mas não estou vazia. Avancei para as ondas frias e deixei-me estar com elas, não estou vazia, estou cheia de perda e de medos e de espaços abertos e agora o que fazer com isso? Temos conversas na praia, conversas que nunca acabam. Volto a expôr-me a falar de mim, das minhas coisas, volto a ser vulnerável, mas sim, não totalmente, não, estou magoada. Estou tão magoada, é difícil recomeçar. Difícil voltar a confiar, difícil não me sentir votada ao silêncio, ao desaparecimento. Estou a continuar a falar porque não morri. Dói, é sinal que estou viva e que algo aqui dentro continua a funcionar. Todos os dias vou mais um bocadinho, às vezes ando para trás e sinto-me de volta ao abismo. Outros dias há ondas, como hoje, ondas e ondas e ondas de coisas boas e no fim choro. Não estou bem, estou a sofrer, não faz mal. As ondas continuam, para cima flutuo, viajo, estou a ir longe, para baixo, vou ao fundo, embato na areia, não faz mal, levanto-me, lá vem outra onda, mergulho, volto ao de cima, lá vem mais uma, vou com ela, rio, dói-me, vou ao chão, rio, tenho um vislumbre de felicidade, mas não, ainda dói, estou noutra onda, o sol está quente, a água fria, mas não sinto frio, só me sinto, ouço-a rir e levantar-se e enfrentar as ondas, eu levanto-me, estou nua contra a parede de espuma que rebenta contra as minhas pernas, as minhas pernas resistem, estou a enfrentar aquela onda, a minha cona enfrenta aquela onda, forte, explosiva, sou um corpo, tenho um corpo. Oh. Estive feliz. Dói. Foi-(se) um amor. Dói. A dor não passa, mas muda. E eu tenho outras ondas para apanhar.


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo. 


Porque é que precisas tanto de dizer que és lésbica?

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No meu último artigo recebi um comentário que me irritou, mas que ao mesmo tempo soa como tanta coisa que já ouvi mil vezes, tanto que fiquei entre o “vou ignorar” e o “isto precisa de uma resposta”. Como acabo geralmente a cair para a segunda hipótese, achei que o comentário merecia uma boa resposta, não por consideração à pergunta, mas porque há perguntas cuja existência prova precisamente o quão longe estamos de uma sociedade não discriminatória.

A leitora Pi, que ficará de certeza feliz por ter uma resposta (provavelmente com o tempo que passou já pensava que eu tinha desistido do meu lesbianismo militante e ofensivo para heteros) fez o seguinte comentário:

“Sigo há algum tempo este blogue e fico bastante confusa com certas coisas que as vezes são escritas. Não sei se são inseguranças da escritora (o que aceito) ou mal-interpretações, por isso vou fazer perguntas afim de perceber o que este texto realmente quer dizer, pois tenho curiosidade!

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?
2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Já que pareço confundir as pessoas, vou responder o mais claramente possível às perguntas.

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?

A resposta simples e que deveria ser óbvia para toda a gente é: porque tenho direito a isso. A minha identidade é um direito, tão inalienável como qualquer outro Direito Humano. Ser reconhecida e respeitada na minha identidade é um direito de ser pessoa.

Mas como parece que esta ideia é rebuscada, vou elaborar.

Somos todes hetero até prova em contrário. Ora eu não sou hetero. Eu não quero ser vista como hetero. Alguém pode alegar: “eu não preciso de andar a dizer que sou hetero! Eu vivo a minha sexualidade discretamente, porque é que tu não fazes o mesmo?” Resposta simples: eu não sou tu. E não sou hetero. A minha sexualidade não está validada, representada e privilegiada 24 horas por dia, em todos os lados, em tudo o que se consome, vê, cria. A minha identidade não está sancionada, bonificada, carimbada, presenteada, elogiada, posta no pedestal. Isto serve também para aquelas pessoas que dizem que as Marchas do Orgulho LGBTQIA não fazem sentido porque ninguém vê as pessoas heterossexuais a desfilar na avenida com bandeiras hetero. Errado. Como diz o autor deste artigo, a vida já é uma marcha heterossexual constante, todas as horas, todos os dias em todas as situações, com bastantes bandeiras – o que é o casamento se não a maior bandeira dos últimos séculos, com inúmeros privilégios? – mas esta marcha ninguém a vê enquanto tal, ela é a norma e portanto invisível, omnipresente.

Uma pessoa hetero não tem que desejar ser vista como hetero. Não tem que querer ser visível porque já é. Automaticamente. O pressuposto de heterossexualidade está vivo e de boa saúde e é aplicado a toda gente, sem ser preciso dizer nada. As pessoas hetero têm a sua identidade como dado adquirido, a tal ponto que só quando estão entre pessoas LGBTQIA é que sentem necessidade de se afirmar: “ah, mas eu sou hetero, não jogo nessa equipa”. Uma pessoa lésbica não tem este privilégio. Uma pessoa lésbica, se quiser que a sua identidade exista, tem que a afirmar continuamente. Isto não quer dizer que toda a gente é obrigada a fazer coming outs ou a viver a sua identidade de forma visível: isso deve ser sempre uma escolha da própria pessoa.

No entanto, uma pessoa lésbica não será lésbica para ninguém se não tiver maneiras de o dizer, representar, partilhar. Poderão dizer: “ah, mas será na mesma, para si própria, o importante é a pessoa saber quem é, que necessidade há de andar a dizer?” Geralmente seguem-se a isto questões sobre não haver necessidade nenhuma de chamar a atenção, de viver publicamente aquilo que é do íntimo, que aquilo que nós fazemos entre quatro paredes é connosco e que ninguém tem nada com isso, só não precisamos de ir para a rua exibir o que somos. A isto a minha resposta é curta e grossa: vão-se foder. Ou isso, ou digam-me quando foi a última vez que viveram a vossa heterossexualidade entre quatro paredes. Digam-me os casamentos que andaram a fazer em privado e em segredo, falem-me de nunca levarem os maridos para o jantar da empresa, ou de todas as vezes que fingiram não ter namorado no jantar de natal com a família. “Ah mas eu tenho namorado e não andamos a comer-nos na rua”. Parabéns. Sabem o que se chama a isto? Opção pessoal. Agradecemos que tirem de cima de outres as vossas opções pessoais. Se estão tão preocupades com a nossa discrição, sugiro que sejam discretes. Deixem de passear a vossa heterossexualidade em todo o lado. São as mesmas pessoas tão interessadas em que sejamos discretes, que nos convidam para a sua festa de casamento com toda a pompa e circunstância possível. Demonstrações de afecto na rua devem ser uma decisão das pessoas intervenientes. A forma como alguém vive a sua sexualidade, identidade de género e/ou orientação ou identidade (a)sexual é algo que só diz respeito a essa pessoa e que não deve ser prescrito, determinado ou condicionado por outres.

Mas a visibilidade não é uma questão, apenas, de opção pessoal. É uma questão política. Fazer-me e dizer-me lésbica e poliamorosa é um acto político. Se eu não existo, não tenho direitos. Se eu não existo, não é preciso ter atenção às coisas que me afectam. Não se trata de fazer uma caixa para me pôr e me limitar, mas sim de reivindicar uma existência e depois desconstruir a partir daí. As identidades são importantes para conseguirmos falar das opressões específicas.

Estas opressões específicas são ameaças às vidas das pessoas LGBTQIA e MOGAI (Marginalized Orientations, Gender identities, And Intersex). As pessoas heteronormativas não sabem o que isto é, nunca o viveram. De que ameaças falo? A ameaça da invisibilidade; a ameaça da inexistência legal e de direitos; a ameaça de vermos as nossas vidas e identidades patologizadas; a ameaça de ficarmos sem emprego ou de nunca virmos a ter um devido à nossa identidade; a ameaça de sermos expulses de casa ou renegades pelas famílias de sangue; a ameaça da segregação social, do isolamento, da depressão, da homo/les/bi/transfobia, entre outras; a ameaça às nossas vidas quando somos alvo de crimes de ódio; a ameaça constante de sair à rua e ser alvo de olhares, comentários ou agressões. E podia continuar. Podemos alegar que estas ameaças não acontecem só com pessoas LGBTQIA – na verdade, acontece muito mais com algumas destas pessoas do que com outras. Mas a especificidade destas ameaças é dupla: as pessoas LGBTQIA e MOGAI são estatisticamente mais afectadas e a sociedade normativa é a grande responsável e veiculadora destas ameaças. Diria mais, as pessoas heteronormativas são responsáveis por estas ameaças cada vez que são coniventes.

2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Aquilo que tu consideras ser a minha hostilidade é uma resposta justificada à hostilidade que as minhas diversas identidades recebem todos os dias. Quando uma pessoa queer/assexual/trans*/bi/não-mono seja o que for se defende de agressões diárias, há sempre alguém, privilegiade, que vem dizer: “calma, não te estou a agredir”. Errado. Estás. O teu privilégio e ausência de reflexão e verificação desse mesmo privilégio é uma agressão constante. Esta pergunta, a que estou a responder, é uma agressão. É uma piada de mau gosto dizer que os meus textos perseguem as pessoas heterossexuais – eu até gostava de me rir mas não consigo porque este tipo de comentário acontece sempre que uma pessoa queer fala da sua identidade e aponta privilégios. A frequência com que isto acontece mostra que esta questão não diz respeito aos meus textos ou à minha atitude, mas sim a uma atitude geral de descredibilização do que as pessoas queer dizem e uma visão de “perseguição de heteros” que apaga aquilo que realmente acontece: é que, hei, caso ainda não tenham reparado, vivemos num mundo que persegue toda a gente que não o é. Heterofobia não existe, tal como racismo invertido não existe, tal como sexismo contra homens não existe, tal como cisfobia não existe – enquanto questões sistemáticas, omnipresentes e estruturantes.Esta pergunta diz mais sobre quem a faz do que sobre mim. Revela ausência de reflexão sobre privilégios. Em vez de me perguntares porque é que persigo heteros, porque é que não te perguntas a ti mesma porque é que te sentes atacada quando escrevo e falo sobre a minha identidade? Porque é que falar sobre ser lésbica te ameaça? Provavelmente é porque te deixa desconfortável. Nunca é confortável sermos confrontades com o nosso próprio privilégio. Eu sou lésbica, queer não-monossexual, poliamorosa e mulher – identidades que me trazem muitas discriminações e micro-violências diárias. Ainda assim, eu sou privilegiada em muita coisa: sou branca, sou cis, tenho um emprego, tive educação superior, nunca passei fome, sou normativamente funcional/com um corpo considerado funcional, sou considerada magra, ainda sou carnista/tenho uma dieta omnívora… Algumas destas características são de tal forma difíceis de reconhecer como privilégios que tive dúvidas ao dar um nome a algumas, tendo tido que pedir ajuda a pessoas que sabem mais do que eu, incluindo pessoas que não têm estes privilégios. Cada dia descubro mais uma coisa em que sou privilegiada e custa-me, deixa-me desconfortável, fico defensiva. Nunca é fácil confrontarmos-nos com isso. Experimenta. Deixa-te ficar no desconforto. Reconhece o privilégio que possas ter. Ouve os gritos de outres. Não imponhas. Ouve. E usa o que tens para fazer mais do que ser conivente.

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do medo de ser feminina

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Arte de Alice Eris Urchin

Quando escrevi sobre ser lésbica e ser feminina, senti medo. Escrevi o texto cheia de insegurança, com o conforto de saber que ao menos aquilo é a verdade sobre mim mesma, mas cheia de um medo permanente de ser criticada, julgada, de ser considerada tonta ou de o texto não ser visto como importante… ou seja, com medo de ser “vista como feminina”. Uma parte de mim tinha medo de aquele texto ser ridículo e por isso contive algumas coisas e não disse tudo o que podia ter dito sobre ser feminina. O medo era um bocadinho semelhante àquele que sentia quando amigas minhas conheciam o meu quarto pela primeira vez. Durante anos pedi desculpa pela overdose de cor-de-rosa presente – era a cor dominante no meu quarto. Quando um dxs meus companheirxs lá entrou pela primeira vez pedi-lhe desculpa pela quantidade de rosa e tentei dizer-lhe que aquilo não me representava assim tanto. Era um quarto de menina e eu sentia vergonha. Ele não ligou. O meu quarto hoje, que já não é decorado pela minha mãe, tem como cores dominantes o violeta e roxo. A minha cama é branca e cheia de torneados, parece uma cama de contos de fadas e fui eu que a escolhi. Tenho peluches em cima da cama. Montei o meu próprio quarto e é o mais feminino cá de casa. Nunca mais pedi desculpa a ninguém, mas às vezes ainda tenho medo. Foi mais ou menos isto que aconteceu quando escrevi sobre ser feminina. Sabia que pelo menos as pessoas próximas de mim iriam entender e não me julgar e que algumas outras pessoas queer femininas iriam encontrar ali eco – e assim foi. Muitas delas vieram falar comigo e dizer-me que não estou só e descobri aí que talvez a solução para este medo passe por estarmos juntas e falarmos sobre isto. Expormos a discriminação diária de que somos alvo e falarmos deste medo de nos mostrarmos femininas e por isso podermos ser ridicularizadas.

Mas também houve comentários contrários a estes, de quem não compreende o que é parecer lésbica, ou que acha o assunto de todo desnecessário. Engraçado como cada vez que um assunto é especificamente feminino, há toda uma tendência para o considerar de somenos importância. Ora, o que é isso de parecer lésbica? Isso não é relevante. Suponho que quem diga isto nunca tenha estado num espaço lésbico/queer e sido imediatamente colocada na caixa das hetero, vendo apagada a sua identidade, experiência e sensação de pertença. Ou que quem diga isto, nunca tenha olhado à sua volta à procura de referências e não encontrado ninguém que se pareça consigo. Quando me identifiquei como lésbica, as únicas lésbicas/dykes que eu conhecia e admirava como pessoas intelectualmente respeitáveis eram masculinas: Wittig, Butler, Rich, Rubin. Algumas que são mais conhecidas na cultura popular, têm também a mesma tendência para um visual masculino: Ellen DeGeneres, Adriana Calcanhoto, Jodie Foster, Lea Delaria. Não é por acaso que tenho tanta dificuldade em lembrar-me de alguma que seja conhecida e que seja visivelmente lésbica. Talvez por isso tenha ressoado tanto em mim o coming out feito pela Ellen Page, e mesmo ela adopta agora cada vez mais um visual masculino.

Se eu pensar nas lésbicas que conheço, em Portugal, século XXI, se olhar para as pessoas que me dizem ser lésbicas, abertamente, e para as primeiras que conheci, encontro uma ou duas que são femininas na sua apresentação e forma de estar. 99% das restantes são mulheres butch/com apresentação masculina. Quando entrei para o Clube Safo (há 2/3 anos) não havia na direcção uma única mulher que fosse simultaneamente lésbica e usasse saias. Ou melhor, havia: era eu. Não havia uma única mulher, além de mim, com cabelo que passasse os ombros. Não havia uma única mulher além de mim, que se identificasse como lésbica e usasse maquilhagem. Todas as restantes lésbicas vestiam calças, usavam camisas masculinas ou tshirts, cabelo curto e roupa prática em todas as situações em que estivemos juntas. Não é de todo coincidência que a única outra pessoa que era feminina, como eu, fosse bi. Todas as amigas mais próximas que tenho e que são lésbicas, são masculinas (tirando uma ou duas exceções). Para elas, é irrelevante pensar sobre parecer lésbica porque nunca tiveram um problema de invisibilidade. São fufas em todo o lado e a discriminação diária com que levam está lá para dizer isso.

É muito bonito dizer e pensar que as lésbicas não se têm que parecer com nada, mas para realmente levar essa ideia em diante, é preciso não ignorar o calling out feito por lésbicas femininas invisíveis. Dizer “ah as lésbicas não têm que se parecer com nada” quando sempre se foi lésbica visível, é falar a partir do desconhecimento do que é ver a sua identidade apagada em todas as situações, e ignorar o que é ter que fazer coming out todos os dias. É ignorar também que a ideia de senso comum do que é uma lésbica não tem efeitos performativos na vida das pessoas. Era giro que ser lésbica não tivesse que corresponder a nenhum visual/forma de apresentação. Mas se não corresponde a nenhum visual, então porque é que há um conceito do que é parecer lésbica? Porque é que há mulheres que são vistas como fufas e outras não? Porque é que há mulheres que levam com discriminação na rua por terem ar de fufas e outras não? Porque é que o que as distingue é sempre a presença/ausência de características masculinas? O que é que faz com que uma mulher com cabelo curto seja mais facilmente vista como lésbica e uma fufa de cabelo comprido seja considerada uma mulher hetero? O que se faz com conceitos como o gaydar, usados pelas próprias pessoas LGB? Que noções estamos a usar quando vamos a um bar LGB e nos sentimos bem lá porque sabemos que estão ali pessoas como nós? O que acontece quando o que encontramos nesses espaços são pessoas todas muito semelhantes entre si e nós somos the odd one out? O que acontece quando olho à minha volta e quero encontrar lésbicas como eu e as mulheres mais semelhantes a mim que encontro são mulheres bi?  Com a ideia de que o parecer lésbica não importa para nada, negamos a importância de encontrarmos pessoas semelhantes a nós, que nos ajudem a sentir seguras e validadas nas nossas identidades.

“Mas será que temos que ser identificáveis o tempo todo?”, perguntou-me uma pessoa, depois de ter visto o meu artigo. Quando se fala sobre a importância de visibilidade de algumas identidades – por exemplo, poly, trans, femme – há sempre vozes a perguntar isto. Eu vejo estes comentários na mesma linha exacta em que vejo as vozes de pessoas hetero, como a minha mãe, que me diz que eu posso ser o que sou desde que não precise de chamar a atenção para mim mesma. “Ninguém tem que saber, já viste alguma marcha de heterossexuais? Claro que não, porque a vida íntima das pessoas não é para ser divulgada assim dessa maneira”, cito uma pessoa imaginária que resume as milhares que pensam assim. Será que temos que ser identificáveis como gays e lésbicas o tempo todo, ou basta só em momento definidos para isso, por exemplo, uma vez por ano na marcha? Engraçado como nunca ninguém diz isto a pessoas heterossexuais – curiosamente elas não andam com a bandeira hetero, mas são sempre identificadas e visíveis enquanto tal, todo o ano, em todo o lado, no natal, no ano novo, nas festas de casamento, nos jantares lá em casa e em todos os direitos e privilégios que têm acima dos comuns mortais invisíveis. Qual é a necessidade de sermos visíveis todo o ano como aquilo que somos? Se calhar, é a necessidade de não sermos vistos como aquilo que não somos, o tempo todo, todo o ano em todo o lado, façamos o que fizermos, andemos com quem andarmos e passemos pelas discriminações que passarmos. O facto de eu não ser vista como lésbica não me impede de passar por todo um conjunto de micro-agressões diárias que, curiosamente, acontecem todo o tempo, todo o ano.

Era bonito viver num mundo em que não fossem necessárias caixinhas para nada, mas a maioria das pessoas que eu vejo a advogar pela abolição das caixinhas, são as mesmas que se mantém a si mesmas bem arrumadinhas na sua caixinha e que sempre estiveram seguras de ter um lugar de pertença. Eu, como lésbica femme, não tenho nenhum lugar de pertença, a não ser entre mulheres bi que levam com a mesma invisibilidade. O nosso lugar de pertença é o lugar das invisíveis.

Como eu, há muitas. Mas é difícil sabermos quem somos porque somos invisíveis. É difícil para nós formarmos comunidade como minoria quando somos constantemente vistas como parte da maioria hetero e cis. Mas nós somos a maioria invisível. Não nos reconhecemos na rua. Quando vejo outra mulher como eu, penso que ela é hetero e o problema começa logo aí. Eu faço parte da mesma construção de preconceito. Nós não nos conseguimos juntar porque não nos conseguimos ver. E uma fufa que sempre foi vista como fufa não faz ideia do que isso é e precisa de nos ouvir. As butch, passando por todo o preconceito que passam, têm ainda a pequena segurança de se poderem identificar mutuamente. De se reconhecerem. O poder do reconhecimento é imenso, nem que mais não seja para nos dizer que não estamos sozinhas no mundo. E partir daí nasce a possibilidade de se poderem apoiar, juntar, criar algum tipo de comunidade. Mesmo no meio da invisibilidade lésbica, há algum porto seguro no reconhecimento mútuo entre pares, na segurança de vermos exemplos de nós mesmas e podermos dizer: eu também sou assim. Para as femme não há nada disto. Há o mundo heterossexual com os seus exemplos monopolizantes de mulheres femininas. O resto, o imenso mundo de mulheres cis queer, bi, e não cis, genderqueer, fufas, trans femme, todo esse mundo, tem que ser descoberto nas nossas redes a cada coming out diário.

Portanto… será que temos que ser identificáveis o tempo todo? Sim, pelas nossas vidas e sobrevivência, sim. Só nos encontramos se falarmos. Uma fufa butch muitas vezes não precisa de dizer a outra que o é e será reconhecida na mesma. Nós, femme, nós temos que falar e falar e falar e levar com uma quantidade imensa de sexismo, femmefobia, lesbofobia, bifobia e transfobia. Comum a todas estas fobias está aquela de que falamos tão pouco em meios LGBT: a misoginia. E o problema está aí, nesse medo imenso do feminino e do que o feminino pode trazer. Que raio de lésbicas somos nós que temos tanto problema com o feminino? Que raio de comunidade somos nós que só tornamos visíveis algumas das nossas pessoas e contribuímos, com a nossa linguagem, os nossos espaços, os nossos hábitos, para continuamente apagar algumas de nós? Que raio de lógica nos faz contribuir para a ideia de que o feminino tem algo de errado e que não queremos associar connosco, tentando expurgá-lo dos homens gays efeminados, das pessoas trans e das lésbicas femme? O que faz com que feminino seja menos bom e porque é que continuamos sempre a valorizar o masculino mesmo em espaços queer e que se definem pela ausência de homens? Porque é que não temos pessoas femininas a falar nas nossas comunidades e, acima de tudo, a serem ouvidas? Porque é que as nossas vozes e valores são ainda e sempre masculinos?

São perguntas que ficam para continuar a reflectir, em conjunto, nos próximos textos. Este texto é parte de um conjunto de textos sobre femmephobia e invisibilidade:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Parte III – feminina não é sinónimo de fraca

Parte IV – femmephobia é misoginia (por escrever)
Parte V – femmes em todo o lado (por escrever)

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Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.

 


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires]: Parte II

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Fazer-me lésbica foi uma decisão. Uma decisão consciente, auto-reflectida, política, pessoal e amorosa. Não foi uma decisão que tomei só uma vez, mas sim uma decisão que tomo quase todos os dias. Fazer-me lésbica não é um acto acabado – daí o uso do verbo fazer. É um processo de auto-conhecimento e exploração. É uma decisão consciente e performativa que acontece porque eu quero.

Acontece por exemplo quando digo: eu sou lésbica. A linguagem faz com que isto aconteça e seja real. Cada iteração de “eu sou lésbica” faz-me lésbica. Cada vez que o repito sou sempre lésbica. Cada vez que o digo crio ondas, faço acontecer.

Apesar de ser um processo, deve ter havido um momento inicial. A primeira vez que disse “sou lésbica”. Seria muito mais giro se me lembrasse da história desse momento e o conseguisse narrar e dizer: “sim, foi neste dia, eu tinha voltado das compras e de repente tive uma iluminação e percebi! Sou lésbica. Fui a correr contar logo à primeira pessoa que encontrei e que ficou embasbacada a olhar para mim.”

Não, não foi isto que aconteceu. Até pode ter sido, mas se foi não me lembro. Não me lembro desse momento inicial e primeiro de “sou lésbica”.

Mas lembro-me, sim, de esse momento ir acontecendo. E aí encontro uma narrativa. Uma narrativa que percorre várias conversas em vários dias diferentes, ao longo de meses e depois anos – porque sim, continua hoje, mais de cinco anos depois. Uma narrativa de construção pessoal e inter-relacional que se foi fazendo. Essa narrativa foi acontecendo no meu fazer-me poliamorosa. E foi um esforço colaborativo. Sim, porque eu não me fiz lésbica sozinha. Obviamente que fui e sou a grande agente nesse processo e que sem essa minha agência e vontade nada disto teria acontecido e eu ter-me-ia feito noutra coisa qualquer. Mas eu partilhei essa minha vontade no contexto de uma relação poliamorosa e queer com um homem cis. E fui-me construindo lésbica precisamente depois de começar uma relação amorosa com um homem cis.

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Aqui parece residir o problema que muitas pessoas têm com a minha identidade. Para mim é simplesmente a cereja no topo do bolo (se eu gostasse de bolos) e não perco uma única oportunidade para meter este dado ao barulho, sempre muito naturalmente, como por exemplo no seguinte diálogo:

Pessoa aleatória: Ah ontem fui ao café.

Eu: Ah que engraçado. Por falar nisso, eu sou lésbica e ando com um homem, sabias?

Pessoa aleatória: [silêncio]

(não é bem assim, é mais como abaixo – e sim, esta aconteceu mesmo)

Local: Café algures no Porto. Eu sentada com umx namoradx. Pessoa acabada de conhecer  sentada à nossa frente.

Pessoa aleatória: Ah pois mas tu és lésbica. Eu prefiro homens, o que é que queres… Tenho um fantástico lá em casa…

Eu: Ah e quem é que te disse que eu não? Por acaso também tenho, está em Lisboa e gosto imenso dele.

Pessoa aleatória: [risos] -> a pessoa pensou que eu estava a gozar com a cara dela ou que já tinha definitivamente bebido demais.

Aqui é importante pensar nas condições específicas que contribuíram para este meu fazer-me lésbica numa relação com um homem e que são fundamentais para perceber porque é que isto é possível no meu caso (e quem sabe no de outras pessoas que assim queiram).

1. Esta relação é poliamorosa.

É poliamorosa da maneira que nós escolhemos fazê-la: aberta a várias pessoas e a vários tipos de laços possíveis com essas pessoas, dinâmica e portanto sempre cambiável e amorosamente exploratória e experimental. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que tenho nesta relação toda a liberdade para me experimentar lesbicamente – sozinha ou acompanhada – e de me pensar lesbicamente. Isto implicou, de uma forma muito menos poética, conversar. Conversar contínua e abertamente sobre desejos, vontades, expressões sexuais e sensuais e afectos. Foi no contexto desta relação que, em conversa, me apercebi que uma das relações mais centrais da minha vida era uma amizade romântica com uma mulher a quem eu chamava amiga. Foi em conversa com este homem cis com quem estou, que percebi que esta outra relação de amizade amorosa era central na minha vida, a ponto de ser tão relevante como qualquer relação sexual/amorosa/romântica (que eu na minha cabeça andava a tentar separar sem grandes bases). Só porque não tinha sexo, não deixava de ser lésbica, não deixava de ser amorosa, não deixava de fazer parte do meu construir-me lésbica.

Esta abertura para falar foi criada no contexto de um formato relacional em que falar é fazer relação. É fazer as formas de estar e de amar. E nós fomos fazendo estas formas e fomos fazendo uma relação não-exclusiva, baseada em confiança e partilha e em auto-hetero-descobertas múltiplas. E eu fui-me fazendo lésbica em conversas de café, em conversas de fim-de-semana, em conversas à noite ou jantares. E eu fui-me fazendo lésbica nas nossas explorações eróticas e nas explorações eróticas que partilhei com ele e com outras pessoas. E nas minhas explorações afectivas. Porque eu assim escolhi. Como meu projecto pessoal e relacional. E como parte da minha narrativa pessoal. A minha identidade lésbica é indissociável da minha identidade poliamorosa. Esta questão deu até origem a uma piada:

Eu: Eu podia ser perfeitamente monogâmica! Sou perfeitamente capaz de ser um dia.

Companheiro: Ai é? Então imagina lá estares numa relação monogâmica com um homem e nunca mais na tua vida teres uma relação – ou sequer essa possibilidade – com uma mulher?

Eu: Ah… [bloqueio]

Até hoje não consegui arranjar uma resposta que me convencesse a mim mesma.

2. Esta relação parece hetero. Mas não é. 

Esta foi sempre uma parte complexa de invisibilidade lésbica. Apesar de sermos uma mulher e um homem cis, numa relação romântica e sexual, temos um pequeno problema: é que além de não sermos mono, também não temos uma relação hetero.

Ambos consideramos que a nossa relação é queer – e este é o motivo principal pelo qual a relação não é hetero e é queer – sim, porque nós dizemos que é. E porque a fazemos enquanto tal.

Eu muitas vezes não me sinto a ter uma relação com um homem – aqui leia-se homem como quem diz “ser que tem supostamente as características masculinas consideradas norma nesta sociedade”. Sinto-me a ter uma relação com uma pessoa com uma série de características que eu posso atribuir a vários géneros diferentes e que, sendo cis, não tem uma série de características atribuídas à masculinidade. Posto de forma mais simples: o homem cis com quem eu ando, muitas vezes, não é masculino. E isso é parte do charme todo da coisa. E às vezes é masculino. Um masculino desconstruído e feminista. E isso é bom, porque no fundo eu não quero namorar com géneros mas com pessoas.

Obviamente que o facto de a relação não ser para nós hetero, não faz com que ela seja magicamente vista como nós queremos. Para 99% das pessoas nós somos hetero e esta é uma relação hetero e se por acaso saímos à rua só os dois até podem pensar que somos mono. Aí entra a nossa construção de nós mesmos e o que dizemos para activamente contrariar e questionar esta percepção automática. Claro que à vezes a sociedade engole-nos.

Outra parte complicada disto, é que eu posso dizer que a minha relação não é hetero e que eu sou lésbica… e depois posso começar a rezar para que as pessoas LGBT à minha volta percebam magicamente isto. O que acontece é que, claro, não percebem. E que me lêem como hetero ou bissexual (se eu conseguir dizer que gosto de mulheres). Outra coisa que resulta daqui é que tenho de estar constantemente a dizer que não sou hetero – se quero ser lida como não hetero – ou seja, o coming out é todos os dias, várias vezes por dia, potencialmente. Ou, quando as coisas correm bem, sou lida como bissexual e tenho que ainda assim fazer o coming out lésbico – isto nunca acaba.

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Um outro efeito disto é eu dizer – sou lésbica – mas não é isto que as pessoas ouvem. Ouvem antes: “ok, também gosta de experimentar com mulheres, mas ama é aquele homem. Vou pôr-me ao fresco”. No fundo, isto acaba a funcionar também como um filtro. Só vai dar-se ao trabalho de ver para além dos pré-conceitos quem realmente o quiser fazer. E quem tem problemas com a minha identidade está longe de ser uma boa pessoa para estar comigo.

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É difícil ser visível neste contexto. Mas mesmo sabendo isto, esta foi sempre a minha escolha diária. A de nunca me heteronormativizar. A de me fazer lésbica poliamorosa numa relação com um homem também. A de me fazer lésbica todos os dias.

Mais um passo numa viagem que ainda continua e que tem todos os dias novos contornos. Os últimos ficam para um novo texto.

Este texto é a continuação de um outro, que pode ser lido aqui.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [mini-explosões queer]: interlúdio

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Pequena cena-exemplo de como a identidade lésbica queer pode provocar uma mini-revolução ou pequena explosão (aconteceu realmente, mas entretanto passaram anos e a cena é narrada com alguma imaginação dramática da parte da autora)

Há uns anos atrás, numa sala cheia de lésbicas (para quem quiser saber o que todas estas lésbicas estavam a fazer numa sala carregue aqui):

«Olá, eu sou lésbica e poliamorosa. Este aqui ao meu lado…» – aponta para homem cis de cabelo comprido – «…é um dos meus companheiros.»

*explosão de cérebros lésbicos*

*comentários para a vizinha do lado*

*lésbicas butch muito zangadas*

*eu-lésbica entre o contente com a provocação – tinha planeado obsessivamente dizer a frase tal e qual desta maneira para poder observar os seus efeitos em ambiente altamente lésbico-normal – e semi-aterrorizada com o ambiente agreste*

Primeira lésbica butch: Espanta-me que diga uma coisa dessas, aí sentada, com toda essa calma.

Segunda lésbica não-especificada: Porque é que não diz antes que é bissexual? Se está com um homem, tudo bem, mas ao menos admita que é bissexual.

Primeira lésbica butch: Você não pode dizer isto.

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Silêncio dramático.

*fim de narrativa*

Resposta a este magnífico cliffhanger e as relações entre poliamor e lesbianismo queer na Parte II: Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires] – ainda por escrever.

Nota: a autora não tem nada contra o Clube Safo, nem defende que as opiniões acima expressas são as do Clube Safo. Ademais, a autora faz parte do dito Clube e é uma das grandes interessadas na sua sobrevivência agora e para sempre.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se tiveres sorte]: Parte I

1780668_10201182847837632_1988650856_nComo se estivesse a ler palavras de uma estranha, leio algures num email de há 5 anos atrás, que eu (o eu da altura), não gosto do termo lésbica. Tento traçar uma linha desde então até ao presente, procurando os momentos de viragem, e encontro o termo lésbica nomeado mais de 790 vezes no meu arquivo de email. Para quem não gostava do termo, definitivamente usei-o muito.

Como é que cheguei aqui? Mas talvez esta não seja a melhor pergunta, porque o que me interessa mesmo é o caminho e não o fim. Como é que me fui fazendo lésbica todos os dias? Alguns pontos que encontro nesta história de me fazer lésbica, por uma ordem falsamente cronológica que é a que o meu cérebro recorda:

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L word. Sim, um autêntico cliché, mas esta série fez/faz parte do meu fazer-me lésbica. Vi-a às escondidas. Apesar de ser maior de idade, a minha mãe vigiava os programas que eu via na televisão e várias vezes me veio desligar o dispositivo quando eu estava a ver esta série, seguindo-se berros, críticas e censuras (é tarde, que programa é este, o que estás a fazer com a tua vida, não vais ver isto em minha casa). Uma das vezes desligou-me a TV a meio de uma cena de sexo oral de dez minutos, completamente empowering. Foi meio caminho andado para se tornar a minha série favorita e nunca mais perder um episódio. Vi todas as temporadas. Pela primeira vez estava a ver corpos de mulheres postos ali para serem vistos por outras mulheres. Tenho perfeita consciência dos problemas desta série. Sei que é uma representação irrealista, idealizada, de corpos brancos, tonificados, capazes, de mulheres de classe alta, com nenhuma representação de safer sex, com um enfoque claro na monogamia em série e quase ausência de representações de não-monogamias consensuais e responsáveis, enfim demasiada normatividade lésbica e pouco queer e imensa bifobia. Estes e outros problemas que este produto de Hollywood tem não apagam, no entanto, a importância destas representações no meu fazer-me lésbica: ver sexo lésbico em prime-time, ouvir mulheres falarem das suas atracções, problemas e relações de intimidade, estabelecendo redes de amizade e solidariedade, fazendo asneira, cometendo erros, dando passos em falso, fodendo, tudo isto foi importante. Ver, pela primeira vez, vários tipos de lésbicas, femininas, não femininas, masculinas, pessoas trans, pessoas com atitudes queer, ver mulheres que em tudo poderiam parecer hetero mas não o são, tudo isto fez parte do meu fazer-me lésbica.

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Momento polémico 1: talvez sem esta série eu não fosse lésbica. Sim, estou a dizer que o meu lesbianismo pode ser produzido culturalmente e ser resultado de um produto mediático. Provavelmente o L Word criou e produziu muitas lésbicas de diversos tipos e intensidades e colorações. Eu sou uma delas. [on a side note: eu ser do contra também deve ter provocado o meu lesbianismo, quanto mais me proibiram de ver a série mais lésbica me tornei, obrigada mãe.]

– Possivelmente decorrente do ponto anterior, tive uma enorme paixão platónica assolapada por uma rapariga na faculdade, com quem mal troquei meia dúzia de frases. Tinha cabelo cor-de-rosa, uma voz meio rouca, fumava e parecia uma versão da Shane mais sexy. Fomos colegas numa cadeira de fotografia, onde me fiz ainda mais lésbica caindo de amores por uma dúzia de fotógrafas que faziam auto-retratos, entre as quais Francesca Woodman e Claude Cahun, duas fotógrafas que me fizeram lésbica e queer e ainda mais feminista. Precisamente numa aula dessas, estava sentada ao lado da gaja de cabelo cor-de-rosa e sentia que não conseguia pensar (I can’t think straight). De repente, faltou a luz, e ela diz: “fuck me” (obviamente referindo-se ao incómodo da falta de electricidade). O meu cérebro entrou numa cena de autêntico L Word, where I would indeed fuck her and it would be totally normal and sexy. Em vez disso, obviamente fiquei petrificada no lugar a tentar respirar até a luz voltar. No resto do semestre tentei timidamente trocar umas frases com ela, sentindo-me totalmente desadequada para interacções sociais ou de qualquer outro tipo e logicamente tudo deu em nada. Entretanto percebi que ela tinha namorado e conclui então que se calhar ela era tudo menos lésbica (o que tem imensa piada, à luz da minha própria identidade hoje).

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Só fiz alguma coisa directa quanto à paixão platónica quando já tinha saído da faculdade, já era poliamorosa e já estava numa relação com um dos meus actuais companheiros, que foi precisamente a pessoa que me incentivou a não deixar isto em silêncio. Enviei-lhe uma mensagem numa rede social onde ainda tinha contacto e disse-lhe que ela tinha sido parte do meu fazer-me lésbica. Não houve resposta, mas eu também não estava à espera de nenhuma. Simplesmente, agora tinha skills que não tinha antes. Agora eu dizia as coisas claramente, ou pelo menos muito mais claramente que antes. Mais importante do que uma resposta, era a minha honestidade lésbica. E essa honestidade foi, e é, apoiada, também (mas não só) no contexto de uma relação poliamorosa com um homem cis heteroflexível.

Momento polémico 2: A Francesca Woodman e Claude Cahun fizeram-me muito lésbica. Sim, artistas e os seus produtos podem fazer lésbicas.

Momento polémico 3: Ser poliamorosa fez-me lésbica. Estar numa relação poliamorosa e queer com um homem cis heteroflexível fez-me lésbica. E no próximo texto vou explicar exactamente como é que, sim, alguns homens podem ajudar a fazer lésbicas. Principalmente se estão em luta constante com a sua masculinidade, se são também eles femininos em muita coisa e se estão interessados em construir relações não-normativas e que podem ser ressignificadas pelas pessoas que as fazem – a todo o momento.


Indeed lesbians, real-lesbians and why I refuse to be lesbianized by you!

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On a nearby social network, I got mail this morning. It was… a real-lesbian.

«written about 14 hours ago:

hello. you know, most of your profile says that you are a lesbian. yet you are polyamorous with a male… can you explain how you can be both? i dont want to remove you from the group if you are, indeed, a lesbian. but if you are not, then you cant stay. and dang, but that one would be a shame… cause i like your pics! chuckles.

thanks for the coming explanation…»

«written less than a minute ago:

Hello,

I’m still trying to convince myself that it is worth my time to answer amessage like this.

I have been on this social network for four years now and during all this time I’ve had heterosexual men sending me messages that quite simply ignored my profile and sexual orientation. Almost no messages from women. When I received this message I thought – now, here’s something that might be worth mytime. I couldn’t have been more wrong.

So, are you asking me, politely, to prove to you that I’m a lesbian? I’m assuming you’re serious about this. I’m very serious about this. Let me just say that you are just one more in a series of events in my life, where lesbian ask me to show them my lesbian card.

Well, I won’t.

I don’t have to explain to you why I choose to identify as a lesbian. For most sensible people it should be enough that I say so. You are not asking me this because you want to know my story, or to listen to my experiences for your personal growth. I would be more than happy to share my story with anyone who would ask me to talk about this, to understand it better for themselves or even think about themselves.But that is not what your message implies. You are policing my sexuality and if I don’t meet the requirements, you will decide for me that I don’t belong in a group I chose to join.

Well, I’m not going to justify my sexuality to you. But, because I’m an activist and I’ve had enough of this bullshit, I’m going to write down a few more things.

My sexual orientation is not determined or defined by the gender identity of whom I fuck. Period.

Identities and practices are not the same thing. Period.

My identity as a lesbian is not dependable on who I fuck, who I kiss, who I sleep with or hold hands with, or am kinky with, or have feelings for, or have romantic feelings for or whatever. My identity is defined by me and no one has a right to come and tell me I should be otherwise.

Unfortunately many people – like you – feel that they’re entitled to tell me I should have another identity, or name myself differently. Many even think that it is not my right to name myself a lesbian. Others tell me where I belong and DON’T belong. I have had lesbian women screaming to my face that I can’t say that I’m a lesbian. And I have had messages like this.

Well, it is not YOUR right to tell people what they should be. Or where they should belong.

It’s impressive how for someone like you – who must have suffered discrimination of some type during your life – to actually hit send on a message like this. Probably because you think it’s your right to check my lesbianism, probably because you are group moderator and feel that it is your responsibility to check if the space is safe for”real lesbians”.

So, you won’t remove me from a social group I joined if I prove to you that”indeed” I am a “lesbian”?

How would you feel if someone told that it is not OK for you to identify as a”lesbian butch boi”? What if someone questioned that youapply the idea of “boi” to your identity as a woman? Ortold you to prove that you are actually a “butch”?

What if someone told your 12-year-old-self: you are not really a lesbian, you haven’t been with a woman yet. Would that make sense to you? When do you “start” to be a lesbian?

…What is”indeed a lesbian”? Do you count women that you fucked? Do you make a list of genitalia you touched? Does it count if you are in a relationship with a trans woman? Or does it only count if everyone is cisgendered? Do you account only for genitalia or should you count also the cis-guy who presents herself as a woman? Or do you check the genitalia first before playing a scene?

Well, I don’t date genitalia. I also don’t date “indeed” lesbians or”real” women. If I want to have sex I also don’t choose to have it after checking the genital area. The same thing applies to kink.

Apparently you are entitled to tell me that I can’t stay in a group of lesbians if I’m not the real deal.

I’m not – and don’t even have the slightest wish to be – so just do as you wish.

I have come to realize that most lesbians I have met have less and less to do with me. They have mostly made me feel outcast, disrespected, out of place and silenced. Our community is not loving, caring and respectful. It produces more and more exclusions, boxes and tags. It leaves more and more people out.

I don’t want to connect better with people who forget what they’ve been through to hold on to new prejudices.

It’s a shame that for you the “shame” in all this is that you actually feel attracted to a poser-lesbian or whatever you would think I am. So if my pictures were ugly it wouldn’t be such a shame, would it?»