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Gosto de ir à feira do livro sozinha

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Gosto de ir à feira do livro sozinha.

Talvez seja apenas mais uma das muitas coisas que tenho lentamente vindo a descobrir que gosto de fazer sozinha.

Vou no meu tempo, paro no meu tempo, fico no meu tempo, pego num livro, volto para trás, salto bancas, ando em ziguezague, fico meia hora numa só porque sim, ou passo os olhos só porque sim.

Já fui à feira do livro de muitas formas. Primeiro em família, mais de corrido porque só íamos um dia ou noite, o dinheiro não era muito e a minha lista tinha que ir bem definida, muitas cedências pelo caminho e tentar agradar a todos; depois mais crescida com amigas, num ritmo mais de passeio, sempre com longas pausas pelo caminho, gente perdida, telefonemas para reencontro, conversas começadas, interrompidas, esquecidas, repetidas, para a frente, para trás; depois com namorados e namoradas, de mãos dadas, mais cedências e partilhas, olha aqui este que te interessa, olhar mais para livros que interessam ao outro do que a mim, comprar prendas só porque sim e depois reparar que afinal não comprei nenhum para mim (sim, tendência para me esquecer de mim); depois (ao mesmo tempo) mais em grupo com diferentes interesses num pára-arranca desmesurado ou sem sentido, numa corrida às grandes, às específicas; outras vezes de corrida à hora dos descontos, hora perdida passada na fila. Até já um primeiro encontro tive na feira do livro. Foi um encontro único, não vi nenhum livro, mas valeu a pena por ser na feira. Entretanto comecei a trabalhar no meio editorial e a feira passou a ser isto e muitas outras coisas. Deixou de ser possível olhar a feira com olhos só inocentes, fora da lógica de um mercado pequeno e competitivo, redundante, e então a feira passou a ser também reparar em espaços, tamanhos, destaques, eventos, marketings diversos. Em nenhum momento temi que isso matasse a minha outra feira, aquela dos livros, dos sonhos, do querer, do me perder, do esquecer as horas. Porque os dois olhares coexistem e o meu trabalho não matou o amor, não matou o cheiro do livro, não matou nada, se é possível aumentou ainda mais, focou na lente e agora o olhar é exigente, é questionador, eu agora já não quero só uma história, eu quero que o livro me mude, me pergunte, me faça andar, morrer. Não quero só que me entretenha, mas preciso que me entretenha, preciso que o tempo passe, mas não pode passar sem deixar marca. Mas bem, não era nada disto que eu queria dizer, eu queria mesmo dizer que agora, agora vou à feira sozinha.

É muito bom partilhar o amor pelos livros, muito bom ir com amigos e falar deste e daquele livro, partilhar amores comuns por autores e histórias. Mas há uma liberdade imensa em poder fazer isto sozinha, no meu tempo, as minhas regras ou ímpetos, ou sem regra alguma que não seja a da minha vontade. E hoje essa liberdade para mim vale cada vez mais, esse tempo de não falar com ninguém, de parar e descobrir um livro, de nem sequer pegar no telemóvel, de não estar contactável, de ir ao encontro dos livros que já tenho só para olhar para eles de novo e lhes acariciar a capa, recordar algo deles, ou ir em busca daquele que já tenho na lista, ou simplesmente decidir que agora só leio mulheres e só compro livros de autoras portuguesas, de me deixar ir por impulso atrás de um livro porque a pessoa ao meu lado na banca comenta com a amiga “esta autora é incrível, tem uma escrita maravilhosa” enquanto aponta para um livro de uma escritora portuguesa e eu decidir ali que o levo porque sim, mesmo sabendo que não tenho dinheiro nem espaço para livros, que todos os meus livros estão em sacos no corredor da casa para onde me​ mudei há um mês porque não tenho estantes para eles e mesmo assim levo.

E se não fosse o dinheiro, sempre essa contenção aflitiva na mente, esta liberdade seria louca, percorrer a feira sem regra, sem preocupação com o dinheiro, não ter que contar mentalmente o que já gastei, não ter que fazer orçamento ou controlar a compulsão de coleccionar livros a maior velocidade do que aquela a que alguma vez vou ler, sabendo que terei sempre mais livros que vou querer do que capacidade para os ler (ou tempo de vida), sabendo que comprei o Americanah da Chimamanda na última feira – quase mil páginas, a delícia, os livros grandes, longos, fazem-me salivar e tenho três em casa por ler, porquê? Não os li ainda e mesmo assim olho para outro e perco a razão, a coerência – dizia eu que da Chimamanda não ainda nem uma página e se eu fosse uma pessoa razoável não comprava mais nenhum livro até ler todos os que tenho – e todos os anos eu prometo a mim mesma que é isto que vou fazer e todos os anos minto, mesmo sabendo que esta vontade é insaciável.

Mas há algo de tão incrível, de tão confortável na ideia de que todos esses livros estão ali à minha espera, que se eu quiser vou criar tempo de silêncio para os ler e que ler é essa incrível actividade que eu sempre fiz sozinha sem nunca me sentir sozinha e que na verdade muitos de nós cheios de terror de estarmos sozinhos a fazemos dessa forma, e assim me lembro o quanto me descubro no facto de estar sozinha.

É o que me permite ir a feira sozinha, fazer o caminho sozinha, com música nos ouvidos, chegar a casa sozinha às horas que me apetece, não ter que me explicar, não dar satisfações, não ter sequer que pensar em mais ninguém, onde estou, para onde vou, deitar-me e escrever este texto sozinha. Sozinha, sozinha. Sozinha é o que me fez voltar a escrita. Sozinha foi o que me fez voltar à ficção, fora deste blogue, fora das reflexões públicas, fora do dar a cara, do ser activista, do estar presente, fora fora fora. Já vivi, agora escrevo e eu sempre vivi bem a escrever. Não esperem mais de mim.

Vou voltar a escrever aqui, sim. Vou voltar porque há coisas que quero escrever, porque os fins também precisam de ser falados e ditos, porque os silêncios também dizem alguma coisa, porque escrever me reconstrói e eu não posso ceder ao medo de dizer que mudei, que sou outra, que não faz mal, que tudo o que eu era se calhar já não sou e que o mais importante do que eu fui se calhar é o que sou.

Agora tenho um quarto só meu (Virginia, obrigada, fazes sempre sentido) e tenho a solidão indispensável à criação e hoje sinto-me cheia, cheia, cheia de mim, na minha companhia, e isso pela primeira vez não é mau. É expansão, é recomeço. Sozinha é o princípio.


faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.


o que estou a aprender sobre ser vulnerável

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Percebi há alguns anos que a honestidade emocional era para mim a coisa mais difícil e a mais indispensável. Foi mais ao menos na mesma altura em que percebi que quando amo alguém deixo de ter o coração na caixa toráxica e passo a tê-lo nas mangas das camisolas e logo atrás dos lábios, acima da garganta. Esta descrição pode ser anatomicamente estranha, mas é assim que vomito coração e faço coração com as mãos. Não fui sempre assim. Durante anos escrevi coração, não disse, não fiz. Vivi bastante tempo em páginas, por fora nada se passava, por dentro a revolução. Consegui sair das páginas, já não sei como fiz essa transição. Existe aquela expressão inglesa: “wearing your heart on your sleeve“. Quando se tem o coração aí temos que ter mais cuidado, ao andarmos na rua podemos deixá-lo cair, se usamos uma camisola mais larga ele pode não se segurar, e então no verão, com vestidos de alças e tshirts, bom, é arriscado, talvez colocado por dentro do pulso se segure. O coração nas mangas e atrás dos lábios é uma coisa complicada. Fechar a boca às vezes não é suficiente, quando escrevemos facilmente, ou choramos com tudo, quando temos uma daquelas caras transparentes que não conseguem esconder nada nem que a nossa vida dependa disso, então sai por todos os lados. Não com toda a gente. Sou selecta nisto porque tenho dificuldade em aproximar-me das pessoas e desconfio de quase todas, embora ao mesmo tempo queira sempre ver o melhor de pessoas que me pareçam minimamente interessantes. Mas esta coisa do coração está ligada com a honestidade emocional, aquela tão difícil e sem a qual não consegui viver nenhuma relação.

Estou a tentar falar de vulnerabilidade, mas também do seu complemento essencial a auto-preservação e o cuidado connosco. Vou deixar as metáforas do coração nas mangas. Durante anos escolhi fazer-me sempre vulnerável. Ainda é essa a minha escolha. Não soube estar em nenhuma relação íntima ou de amor sem essa vulnerabilidade primeira, que me fez sempre dizer o que se passava comigo, o que sentia, o que pensava. À conta desta honestidade vulnerável vi-me realmente em situações de vulnerabilidade – aquela que é má, que nos sujeita a diferenciais de poder. Não sabia proteger-me, nem cuidar-me, simplesmente dizia-me e esperava que outros compreendessem e mostrassem empatia. Fiz todos os coming outs assim, vulnerável, acreditando que os outros veriam a coragem disso e estenderiam a mão. Levei muitos anos a perceber que há relações que não merecem a nossa vulnerabilidade – aquelas que nos abusam, que nos fragilizam, que nos cobram, que nos ameaçam. A minha casa não foi um local seguro para a minha vulnerabilidade, foi um local de batalhas em que me agarrei a essa honestidade radical como a única arma que tinha na luta. Custou-me muito perceber que vulnerabilidade com agressão é receita para desastre, com consequências que levam anos a ser processadas.

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Apesar desta experiência, consegui ficar na vulnerabilidade perante outras pessoas e relações. Percebi que quando do outro lado não está agressão, mas pessoas que nos querem bem (o problema está na dificuldade de sabermos quem nos quer bem realmente), então temos um lugar para sermos vulneráveis com amor. Abrimos espaço para nós e para as outras pessoas. O poder da vulnerabilidade é que ela tem a capacidade incrível de trazer mais vulnerabilidade do outro lado. Se é num contexto de amor e respeito, a minha vulnerabilidade abre espaço à tua e abre espaço à nossa e juntas abrimos espaço a mais vulnerabilidades. Comecei a levar essa vulnerabilidade comigo para o activismo, lembrei-me de como ela já tinha sido arma para mim e usei-a de novo como arma, desta vez não para me defender de ataques, mas para me criar como activista e para abrir espaços. Percebi que para mim falar sempre a partir do pessoal me levava a essa honestidade e que não conseguia expurgar as minhas emoções desse relato. Então, perante pessoas estranhas e conhecidas, mas não próximas, decidi que não ia retirar as emoções. Sempre que falei sobre ser poly, falei das minhas emoções. Sempre que respondi a perguntas, respondi sem filtrar as emoções. As emoções passaram para o centro do meu activismo e de todas as minhas intervenções. Isto, claro, colocou-me numa posição frágil: falar de sentimentos perante uma plateia desconhecida não é seguro. Usar os sentimentos em interacções activistas não é algo seguro, como percebi da pior maneira possível quando tive “activistas” a dizerem-me que os espaços de activismo não são suposto serem espaços seguros e quando vi a minha confiança traída nestes espaços e interacções. Mais uma vez tive que perceber que a vulnerabilidade unilateral é perigosa, assim como a vulnerabilidade fora de espaços que não se constróiem feministas e seguros. Percebi também que às vezes mesmo sendo feministas e supostamente seguros não o são. Não temos uma cultura de vulnerabilidade nem de honestidade nos nossos activismos. E por isso, aquelas de nós que usam de vulnerabilidade estão em risco.

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Custa muito sermos vulneráveis quando uma relação em que o fomos acaba. Também percebi isso mais tarde. Recuperar a vulnerabilidade é assustador depois de o termos feito com alguém que se vai embora com tudo o que partilhámos. Quando pensei que nunca mais na vida conseguiria ser vulnerável assim, foi quando percebi que tinha que o ser ainda mais e o quão central isso realmente é. Percebi também que para mim só haveria uma forma de curar o coração partido e essa forma era… ser vulnerável outra vez. Mas, com uma grande diferença. Esta vulnerabilidade tinha que ser acompanhada de cuidado comigo e de auto-preservação. Percebi então que tinha estado anos a usar de uma vulnerabilidade incompleta, que me colocava em situações de fragilidade, em que eu dava tudo e outros nada, em que eu tentava sempre e outros não, em que eu estava em situações de desiquilíbrio de poder e isso me expunha ainda mais, em espaços não seguros e com pessoas que não estavam a guiar-se pela sua própria vulnerabilidade.

Há uma linha entre ser vulnerável e manter-nos numa situação em que somos alvo de agressão e abuso. Vulnerabilidade não é abrir-nos a quem nos violenta. Num contexto de relações assim, dar uma nova chance a alguém, reconstruir as pontes partidas, tentar de novo, pode ser a forma como voltamos ao contexto de abuso. Isso viola a nossa vulnerabilidade, além da nossa autonomia.

A linha é o cuidado connosco, é o nosso sentido de auto-preservação. Não pode haver vulnerabilidade – pessoal, política, activista – sem auto-preservação. É okay decidirmos com quem queremos e podemos ser vulneráveis e com quem não. É okay deixarmos de o ser com alguém porque algo mudou. Abrir o espaço da vulnerabilidade não tem só a ver com falar de sentimentos. Tem a ver com estar disponível para lidar com as consequências da nossa própria honestidade. Não basta sermos honestas. Do outro lado da nossa honestidade estão outras pessoas e sermos vulneráveis implica sabermos que há sempre essa parte. Implica responsabilidade por mim e por ti e por nós. Implica estar disponível para lidar com a vulnerabilidade da outra pessoa e saber dizer quando não estamos – porque auto-preservação. E por isso é importante saber quando não ser vulnerável – e isso eu ainda não sei, estou a aprender. Cuidar de nós também não é algo simples, é um processo que temos que ir fazendo e também nisso esta sociedade não nos ajuda, porque confunde cuidado com indulgência e confunde tudo isso com felicidade pré-formatada que serve a toda a gente.

Só depois disto conseguimos, acho, abrir espaço para sermos estúpidas, cometermos erros e sermos ridículas. A vulnerabilidade é aquele espaço também onde acontecem coisas estranhas como perguntar a alguém se a podemos beijar antes de o fazermos e enfrentar toda a estranheza – sem guião, sem buffer de segurança – que vem com isso. Enfrentar a weirdness desse momento, a possibilidade de haver um não do outro lado e sabermos isso, e toda a falta de jeito que temos para estas coisas do consentimento. A vulnerabilidade abre espaço para todas as conversas que temos antes de fazermos seja o que for, para revelarmos parvoíces que sonhamos, fantasias que temos e para nos sentirmos envergonhadas, tímidas ou sem jeito. Abre espaço para sermos nós e vermos as outras pessoas. Esta vulnerabilidade, feita com base no cuidado connosco e no respeito dos nossos limites, é coragem.

Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfare.” – Audre Lorde

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I’m gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Leonard Cohen

Outras leituras sobre vulnerabilidade/cuidado de si:

Selfcare as Warfare

Self-Care as Revolutionary

Vulnerability as a Key to Feminism

Toda as imagens são da autoria da artista Lora Mathis. Conheçam o trabalho desta artista sobre radical softness no Instagram @lora.mathis.