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Já não sou poliamorosa. E não faz mal

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Deixei de ser poliamorosa. Para que fique já claro: não me identifico mais enquanto tal. E não, não estou a dizer que agora me identifico como não-monogâmica ou anarquista relacional ou qualquer outro termo de descrição de identidades relacionais alternativas – como muita gente tem vindo a fazer, desidentificando-se com aspectos problemáticos do poliamor, da sua literatura, dos seus gurus, dos seus aspectos abusivos, das suas comunidades. Não. Estou a dizer que – neste momento – não me identifico nem como poliamorosa, nem como não-monogâmica.

Virei monogâmica?

A resposta mais honesta que tenho é: não faço ideia. Terminei todas as relações em que estava no último ano. Há meio ano que não estou em nenhuma relação amorosa, ou melhor dizendo, como bem lembra o meu psicólogo: estou numa – comigo mesma.

Foi esta relação comigo mesma, que tenho vindo a recuperar da deterioração total, que me ajudou a ir pegar em coisas que se tornaram, discretamente, com a erosão do tempo, verdades imutáveis sobre mim.

Quem me conhece, e conhece a minha vida dos últimos anos, ou mesmo quem faça uma breve pesquisa por poliamor em Portugal no Google, verá e reconhecerá o meu nome em muitas entrevistas, reportagens, estudos, investigações académicas, tertúlias, debates, marchas. Dei a cara, o nome, a voz pela visibilidade do poliamor – a orientação relacional que escolhi e que foi a minha durante sete anos.

Hoje, esta orientação já não é mais a minha, portanto desconectemos Inês de Poliamor, de PolyPortugal, e de seja o que for que sejam seus sinónimos. Desconectemos Inês de não-monogamias de qualquer espécie que seja. Caramba, que alívio dizer isto! Que alívio e que difícil foi chegar a este ponto, que difícil foi para mim admitir que eu não sou esta bandeira e se calhar nunca vou ser, não sei. Considerem isto um coming-out ao contrário, ou uma destruição de todas as identificações perpétuas. Tudo é perene, vivemos vidas perenes, as nossas identidades são perenes, como o são as nossas relações e contextos. A vida é fluida, é mudança constante, mesmo que não notemos, como é que querem que a identidade não seja? O que eu queria aos 16 anos não é o que eu quero agora, salvo alguns sonhos, esses que ficam toda uma vida, crescendo connosco. Eu mudei, as minhas identidades mudam comigo, até os sonhos se transformam e ganham outros contornos, outras profundidades.

Levei muito tempo a perceber o que se passava comigo, e ainda estou a tentar perceber. Levei ainda mais tempo a conseguir escrever um texto como este, tão em profunda contradição com tudo o que escrevi durante anos. Levei ainda mais tempo a sequer considerar a ideia de que não ser poly não revelava nada de negativo sobre mim. Que não representava um enorme falhanço. Que nada dizia sobre mim enquanto pessoa. Que não sou menos por dizer: sim, fui poly. Não, não gostei. Não, não acho que toda a gente deva ser. Não, por favor, não me considerem mais poly, porque isso não sou eu. Não, paremos com as piadas sobre monogamia, ou seja o que for, porque para mim já não tem piada. Joke’s on me.

Demorei ainda mais tempo a parar a minha própria voz interior que me dizia que sou uma enorme contradição. Que estive sete anos a perder tempo. Que se não sou poly, que foi a parte mais visível das minhas identidades nos últimos anos, não sei quem serei. Que falhei. Que não sou suficientemente feminista para fazer as coisas de forma desconstruída e não-normativa.

Só que, percebi após muita terapia, muita conversa com ouvidos e vozes empáticas que:

Eu não tenho que ser coisa nenhuma.

Não tenho que ser revolucionária. Não tenho que ser desconstrutiva em tudo. Não tenho que lutar impiedosamente contra todos os clichés. Não tenho que fazer tudo de forma diferente. Não tenho que provar nada a ninguém. Não tenho que tentar alcançar um qualquer ideal de amar mais feminista que outros.

E, acima de tudo isto, não tenho que fazer nada disto a custo de sofrimento, de dor, de auto-sacrifício, de ansiedade.

Não, nenhum ideal vale o meu bem-estar mental e emocional. Nenhuma forma desconstruída de viver vale a minha saúde mental. Nenhuma luta contra a normatividade deve implicar a minha segurança emocional. E nada deve implicar o combate profundo que fiz à forma como sinto as coisas e como amo, em nome desse ideal.

Infelizmente, e de uma forma bastante reveladora, a literatura poly – com os seus livros de auto-ajuda, os seus artigos repletos de técnicas, conselhos, casos práticos – alimenta de forma quase perfeita o ciclo de auto-destruição em que me meti. Porque eu tinha um ideal, a forma que para mim era a maneira mais bela de amar: sem posses, sem ciúmes (ou trabalhando sobre eles), infinita, expansível, inesgotável. Intelectualmente, para mim tudo fazia sentido. As pessoas não são coisas, não temos que controlar com quem andam as pessoas que amamos, elas devem ser livres para amar toda a gente e nós também. É, potencialmente, anti-capitalista, anti-normativo, um combate à visão de escassez de amor, um combate às prisões e grilhões da exclusividade e da figura do casal que se fecha sobre si mesma. Sim, tudo isto, ninguém sabe o discurso melhor que eu, que o li, estudei, decorei, durante anos. Convenci-me que, se eu tinha dificuldades, o problema era meu. Eu é que não estava a ser desconstruída o suficiente, eu é que não estava a fazer todos os possíveis por lidar com a insegurança, com o medo, com a ansiedade, com os ciúmes. E se não estava a conseguir, então só tinha que tentar mais, ler mais, experimentar mais, colocar-me precisamente nas situações que me metiam medo, enfrentar o medo, ler mais um artigo, escrever mais um texto, ficar presente com o que estava a sentir, falar mais com os parceiros, tentar de novo, relativizar, tentar, tentar, uma, outra vez, de novo, mais um ano, mais um dia, tenta, tenta, tenta, vais conseguir, um dia vai doer menos, hoje doeu menos, bolas hoje doeu mais outra vez, é assim, a vida é assim, ninguém disse que isto era fácil, oh bolas, isto é lixado, mas okay, vamos tentar, vamos continuar, dia após dia após dia após noite após dia, eu consigo, eu sou feminista, nem sempre é mau, há mais uma técnica nova, eu consigo aprender.

Até

à exaustão total.

Uma coisa importante que as pessoas que dizemos normais e que são monogâmicas talvez saibam (porque não têm toda esta terrível literatura) e que as pessoas poly parecem ter esquecido:

uma relação não é suposto ser um trabalho.

Ouviste, Inês?

Ora, pois bem. Uma relação não deve ser ou implicar tanto trabalho. Uma relação não é um conjunto de ferramentas para lidar com a situação X, de forma a superar Y para poder continuar a fazer W. Não. Isto é uma fórmula matemática qualquer, suponho, não percebo nada de matemática, muito menos com letras. Isto parece-se mais com um problema de gestão. Mas eis mais uma coisa que uma relação não é suposto ser: um curso de gestão. Um mestrado em gestão aplicada ao quão lixado é o dia-a-dia não-monogâmico. Uma relação não é sequer suposto ser difícil. Ou lixada. E se é, então estou muito bem assim sozinha, obrigada.

O problema é que, durante muito tempo, eu achei que tinha que aprender a fazer isto. Se fazia sentido para a minha cabeça, se havia lógica e se eu entendia tudo e acreditava que isto era a forma mais bonita de amar, então eu tinha que conseguir sentir e amar assim, não é? É. Eu tentei. Juro que tentei. Juro que consegui também – algumas vezes. Mas ter que conseguir estar feliz numa relação é um problema em si mesmo, certo? Se cada passo é difícil, se há coisas que mesmo sete anos depois continuavam a ser difíceis e sem sinais de passarem a ser mais simples ou fáceis ou, sei lá, simplesmente não doerem demasiado, e se cada vez que se repetia um tipo de situação com uma nova pessoa era como se voltasse a ser tão horrível como da primeira vez, que sentido há nisto? Eu achava que havia sentido, por isso continuava sempre. Não terminei as minhas relações por não querer mais ser poly, mas quando as terminei percebi que não queria mais ser poly, que na verdade se calhar nunca fui. Eu pratiquei muito poly. Estive com pessoas que foram poly. Vivi numa família poly. Mas eu, o meu coração, alguma vez foi poly? Não sei. Apaixonei-me duas vezes na vida. De forma sequencial. Portanto não. O meu coração nunca foi poly. Amei mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, sim. Mas quantas pessoas podem dizer que só amam um único ser no mundo? Isso não as faz poly. Poly, como o aprendi a fazer e como o estudei nesses mil livros que li, cada um deles mais iluminado que o anterior, ou mais desconstruído, poly era um conjunto de coisas que é necessário processar, desmontar e uma série de aptidões a adquirir, a pôr em prática, a treinar, implementar, concretizar, verificar. Executar. Até à exaustão. Executando-me a mim mesma, relegando para menores as coisas que eu sentia, considerando sempre que eu é que tinha que melhorar, que uma melhor versão de mim estaria do outro lado do poly, que eu estava a trabalhar para essa nova, melhor, versão de mim, que eu era um progresso nesse sentido.

E, no meio disto, estive em ansiedade, estive sozinha, chorei, fiz a minha insegurança passar por testes terríveis e quase impossíveis de não chumbar, fiz coisas que me deixaram desconfortável, que preferia ter feito de outro modo, mas fiz porque queria ser melhor, queria estar ao nível do poly, dos meus parceiros que eram tão facilmente mais poly que eu sem quase esforço algum. Quando tudo para mim era esforço, era superação constante. Que bonita jornada pessoal. Só que não. O preço foi demasiado alto e um dia eu quebrei. E percebi que, para já, isto não é para mim. Não digo nunca – não faço ideia das voltas que a vida vai dar. Nunca me imaginei poly e um dia era. Depois, nunca me imaginei sem ser poly e agora já não o sou. Amanhã, não sei. Não faz mal. O que faz mal e o que fez mal foram anos a pensar que tinha que ser, que tinha que tentar, que eu é que era o problema.

Mas o problema não sou eu. O problema é acharmos que tudo se resolve com um conjunto de aptidões, que tudo o que é desconforto pode ser trabalhado, que o que custa vai sempre melhorar – em detrimento do bem-estar, da sanidade mental, e do sentir de cada um. Como se o meu sentir estivesse errado e o dos meus parceiros estivesse certo, só porque eles eram mais facilmente poly que eu!

O que eu percebi, sete anos depois é que nem tudo deve ser enfrentado. Não. Não devemos colocar-nos em todas as situações porque temos que conseguir lidar. Sendo mais clara: não, não tenho que ser amiga de todas as pessoas que estão com a pessoa com que estou. E não, não tenho que tentar. E não, não tenho que ver e estar okay e não, não tenho que me sentir feliz porque a pessoa que amo se apaixonou por outra. Especialmente, se isso me custa a minha saúde mental. Se isso me trouxe horas de esforço emocional, de conversas intermináveis, de processos que não desejo a ninguém. Há um lado muito difícil no poly, que se tenta dourar com conversa sobre comunicar e ser honesto. Não há honestidade que te salve de te sentires a morrer quando vês a pessoa que amas a beijar outra. E não tens que estar okay com isso se não estás. E não és menos se compersão – essa palavra terrível que sempre me fez pensar em com-pressão (e que adequado que agora me soa!), mas que é suposto significar todos aqueles sentimentos bons, lindos, maravilhosos, que deves ter quando a tua parceira está com outra pessoa – não é a tua primeira resposta. Conto pelos dedos de uma mão as vezes em que senti uma profunda compersão. E só depois de imenso processamento. Eu não sou um computador. Não tenho que processar tudo para do outro lado me sair a vida feita. Lamento, mas eu sou uma pessoa. Não é suposto passar anos a processar micro-problemas relacionais a cada passo que dou ou alguém dá na minha rede relacional. É um esforço tremendo, é esgotante, é demais. Mas a pressão sempre existiu. A pressão que me coloquei a mim mesma esteve sempre lá. Eu tinha que conseguir não porque os meus companheiros não fossem compreensives, não. Eu tinha que conseguir porque eu não era compreensiva comigo mesma. E não apenas eu, como toda a estrutura se baseava em todes irmos conseguindo, não é? E quando um não consegue, ao fim de algum tempo isso torna-se um problema para os outros. E vai ser preciso falar disso. E quando és sempre tu o problema, começas a achar que tu estás mal e a roda gira sobre si mesma.

Vivi de uma forma que muitas vezes me fez sofrer. E o que é mais triste é que o fiz porque queria, porque o escolhi e porque achava que sofrer fazia parte da lógica. Porque existem todas aquelas ideias bonitas que dizem que tudo o que vale a pena custa sempre, sobre nenhuma relação ser fácil, sobre lutar e desconstruir e todos os livros diziam isto e estavam ali tão disponíveis para te ajudar a superar cada dia o sofrimento todo. Portanto, sofrer era normal, toda a gente tinha dificuldades, poly dá trabalho, e então era suposto eu ter trabalho, era suposto ser difícil, era suposto continuar a trabalhar para superar tudo o que doía.

Até te afogares. E descobrires que não dá mais. E parares de ir buscar a resposta ao próximo livro ou artigo bem intencionado. Até te perguntares se o problema era mesmo teu ou se é mais alguma coisa, uma combinação de factores, como esta literatura da treta que ajuda se tu tiveres um conjunto de características e circunstâncias a contribuir também: por exemplo, se fores tu a pessoa que tem os vários parceiros, é mais fácil; por exemplo, se não tens tendência para te comparar compulsivamente com toda a gente, és capaz de conseguir; por exemplo, se insegurança não faz parte de ti como parte quase integrante, és capaz de superar um ou outro problema. Ou se não tens, nem nunca tiveste ciúmes. Ou se adoras que a tua companheira te conte absolutamente tudo o que fez com a nova pessoa que está a conhecer. Se preferes saber e isso te acalma em vez de te causar um ataque de ansiedade tão grande que sentes que regrediste três anos de percurso e te passou um camião em cima. Ou se realmente consegues que doa cada vez menos e que seja cada vez mais simples. Mas e quando não consegues nada disto? Quando em vez de melhor ficas pior? Quando percebes que não estás sequer a ter o que precisas na relação? Quando reparas que quanto mais amas livremente e te amam livremente, menos especial te sentes? Porque sim, ninguém te substitui, ninguém pode ser quem tu és, mas quem tu amas pode fazer, sentir, dizer tudo igual – a outra pessoa. E se o que isso te faz sentir não é de todo positivo? Se te faz perder o sentido de tudo e perguntar: então mas que raio estou a fazer contigo, se tudo pode ser equivalente?

Não, não é sempre mais desconstrutivo e revolucionário ser não-monogâmico. Não estou a dizer que fujam do poliamor e virem todos monogâmicos. Não. Estou a dizer que se forem poly, mono ou outra coisa qualquer, sejam-no só porque é o que querem, mas mais que isso, porque o sentem. Não deixem a cabeça mandar sozinha, porque querer é uma coisa, sentir é outra. Eu levei todo este tempo a perceber que a minha mente queria fazer as coisas de uma forma que torturava o meu coração. Se recorrentemente te acontece sentires que não és poly, não cales essa voz. Se recorrentemente sentires que não és mono, não cales essa voz. Se não te sentes mono ou poly, se calhar é porque simplesmente não és. Não implica que nunca venhas a ser. Implica só que neste momento não és e não vem mal ao mundo por isso. Por muito que custe, por muito desamparados que nos sintamos, é sempre possível mudarmos o que parece imutável.

Vamos parar de ignorar a nossa intuição, aquela voz pequenina que às vezes nos diz que algo não está bem e que tenta avisar-nos mas nós calamos tanta vez. Às vezes temos mesmo que a ouvir. Às vezes não é para lutarmos. Nem enfrentarmos todos os medos. Às vezes aquele medo está lá para te dizer que não é suposto tu estares. Às vezes o melhor para ti é mesmo ir embora.

Em última análise – e mesmo sem análise nenhuma – se não faz sentido – e aqui sentido é de sentir, mesmo, e não de ter lógica, esqueçam a lógica e a necessidade de ser coerente, porra isto não é um teste – dizia eu, que se não te faz sentido, então não adianta estares a tentar ser revolucionária. Se calhar a coisa mais revolucionária que podes fazer é dizeres isso. Isto não me faz bem, vou-me embora. Isto não me faz bem, então vou optar por procurar outros caminhos para mim. Os ideais são essenciais na vida, fazem-nos aspirar a algo maior que nós, e lutar para mudar este mundo, mas nenhum ideal deve vergar a nossa vida. Nenhum ideal se pode sobrepor à minha integridade. Alguns diriam que sim. Alguns morreram por ideais. Eu não quero morrer por um ideal, e se morresse por algum preferia que fosse o feminismo – aquele que eu defendo, aquele que faz todos os sentidos e mais algum, os do sentir, os do direito, os da lógica. Mas não, eu não quero morrer por nenhum ideal. Nem anular-me, a mim, aos meus desejos, aos meus sentimentos.

Nós não amamos só com a cabeça. A cabeça deve fazer parte, para não amarmos de forma cega ou destrutiva, mas a cabeça é uma parte muito pequena do amor. Eu tentei amar com a cabeça e deu nisto. Verguei o coração à cabeça e, como músculo que é, tentei trabalhá-lo para a jornada diária do amor poly, para os seus muitos desafios sucessivos intermináveis. E ele, o meu coração, resistiu bravamente, mas acabou a ter uma ruptura de ligamentos e nunca mais ficou o mesmo. E eu não quero submetê-lo novamente a uma provação com tantas etapas como esta.

Eu não sei se sou monogâmica, ou o que quer que seja. Sei o que não sou, que é como o outro dizia, sei por onde não quero ir. Não sou hetero. Não sou poly. 

Depois de ter desconstruído tudo, o que é que sobra? Dar um passo atrás. Respirar. Ganhar outra perspectiva. Questionar tudo o que achei que eram verdades absolutas sobre mim.

Acreditar que, se calhar, o que vale a pena não tem que custar coisa nenhuma. Não tem que custar. Ponto.

Eu tratei o amor como um emprego. E despedi-me no fim, sem indemnização.

Amor não é amor se não for amor por mim primeiro, amor a quem sou, e verdade para quem sou, mesmo que a verdade possa mudar comigo. Caso contrário, não é amor, é desamor mesmo.

Imagem: http://bit.ly/2xrBAHF

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Gosto de ir à feira do livro sozinha

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Gosto de ir à feira do livro sozinha.

Talvez seja apenas mais uma das muitas coisas que tenho lentamente vindo a descobrir que gosto de fazer sozinha.

Vou no meu tempo, paro no meu tempo, fico no meu tempo, pego num livro, volto para trás, salto bancas, ando em ziguezague, fico meia hora numa só porque sim, ou passo os olhos só porque sim.

Já fui à feira do livro de muitas formas. Primeiro em família, mais de corrido porque só íamos um dia ou noite, o dinheiro não era muito e a minha lista tinha que ir bem definida, muitas cedências pelo caminho e tentar agradar a todos; depois mais crescida com amigas, num ritmo mais de passeio, sempre com longas pausas pelo caminho, gente perdida, telefonemas para reencontro, conversas começadas, interrompidas, esquecidas, repetidas, para a frente, para trás; depois com namorados e namoradas, de mãos dadas, mais cedências e partilhas, olha aqui este que te interessa, olhar mais para livros que interessam ao outro do que a mim, comprar prendas só porque sim e depois reparar que afinal não comprei nenhum para mim (sim, tendência para me esquecer de mim); depois (ao mesmo tempo) mais em grupo com diferentes interesses num pára-arranca desmesurado ou sem sentido, numa corrida às grandes, às específicas; outras vezes de corrida à hora dos descontos, hora perdida passada na fila. Até já um primeiro encontro tive na feira do livro. Foi um encontro único, não vi nenhum livro, mas valeu a pena por ser na feira. Entretanto comecei a trabalhar no meio editorial e a feira passou a ser isto e muitas outras coisas. Deixou de ser possível olhar a feira com olhos só inocentes, fora da lógica de um mercado pequeno e competitivo, redundante, e então a feira passou a ser também reparar em espaços, tamanhos, destaques, eventos, marketings diversos. Em nenhum momento temi que isso matasse a minha outra feira, aquela dos livros, dos sonhos, do querer, do me perder, do esquecer as horas. Porque os dois olhares coexistem e o meu trabalho não matou o amor, não matou o cheiro do livro, não matou nada, se é possível aumentou ainda mais, focou na lente e agora o olhar é exigente, é questionador, eu agora já não quero só uma história, eu quero que o livro me mude, me pergunte, me faça andar, morrer. Não quero só que me entretenha, mas preciso que me entretenha, preciso que o tempo passe, mas não pode passar sem deixar marca. Mas bem, não era nada disto que eu queria dizer, eu queria mesmo dizer que agora, agora vou à feira sozinha.

É muito bom partilhar o amor pelos livros, muito bom ir com amigos e falar deste e daquele livro, partilhar amores comuns por autores e histórias. Mas há uma liberdade imensa em poder fazer isto sozinha, no meu tempo, as minhas regras ou ímpetos, ou sem regra alguma que não seja a da minha vontade. E hoje essa liberdade para mim vale cada vez mais, esse tempo de não falar com ninguém, de parar e descobrir um livro, de nem sequer pegar no telemóvel, de não estar contactável, de ir ao encontro dos livros que já tenho só para olhar para eles de novo e lhes acariciar a capa, recordar algo deles, ou ir em busca daquele que já tenho na lista, ou simplesmente decidir que agora só leio mulheres e só compro livros de autoras portuguesas, de me deixar ir por impulso atrás de um livro porque a pessoa ao meu lado na banca comenta com a amiga “esta autora é incrível, tem uma escrita maravilhosa” enquanto aponta para um livro de uma escritora portuguesa e eu decidir ali que o levo porque sim, mesmo sabendo que não tenho dinheiro nem espaço para livros, que todos os meus livros estão em sacos no corredor da casa para onde me​ mudei há um mês porque não tenho estantes para eles e mesmo assim levo.

E se não fosse o dinheiro, sempre essa contenção aflitiva na mente, esta liberdade seria louca, percorrer a feira sem regra, sem preocupação com o dinheiro, não ter que contar mentalmente o que já gastei, não ter que fazer orçamento ou controlar a compulsão de coleccionar livros a maior velocidade do que aquela a que alguma vez vou ler, sabendo que terei sempre mais livros que vou querer do que capacidade para os ler (ou tempo de vida), sabendo que comprei o Americanah da Chimamanda na última feira – quase mil páginas, a delícia, os livros grandes, longos, fazem-me salivar e tenho três em casa por ler, porquê? Não os li ainda e mesmo assim olho para outro e perco a razão, a coerência – dizia eu que da Chimamanda não ainda nem uma página e se eu fosse uma pessoa razoável não comprava mais nenhum livro até ler todos os que tenho – e todos os anos eu prometo a mim mesma que é isto que vou fazer e todos os anos minto, mesmo sabendo que esta vontade é insaciável.

Mas há algo de tão incrível, de tão confortável na ideia de que todos esses livros estão ali à minha espera, que se eu quiser vou criar tempo de silêncio para os ler e que ler é essa incrível actividade que eu sempre fiz sozinha sem nunca me sentir sozinha e que na verdade muitos de nós cheios de terror de estarmos sozinhos a fazemos dessa forma, e assim me lembro o quanto me descubro no facto de estar sozinha.

É o que me permite ir a feira sozinha, fazer o caminho sozinha, com música nos ouvidos, chegar a casa sozinha às horas que me apetece, não ter que me explicar, não dar satisfações, não ter sequer que pensar em mais ninguém, onde estou, para onde vou, deitar-me e escrever este texto sozinha. Sozinha, sozinha. Sozinha é o que me fez voltar a escrita. Sozinha foi o que me fez voltar à ficção, fora deste blogue, fora das reflexões públicas, fora do dar a cara, do ser activista, do estar presente, fora fora fora. Já vivi, agora escrevo e eu sempre vivi bem a escrever. Não esperem mais de mim.

Vou voltar a escrever aqui, sim. Vou voltar porque há coisas que quero escrever, porque os fins também precisam de ser falados e ditos, porque os silêncios também dizem alguma coisa, porque escrever me reconstrói e eu não posso ceder ao medo de dizer que mudei, que sou outra, que não faz mal, que tudo o que eu era se calhar já não sou e que o mais importante do que eu fui se calhar é o que sou.

Agora tenho um quarto só meu (Virginia, obrigada, fazes sempre sentido) e tenho a solidão indispensável à criação e hoje sinto-me cheia, cheia, cheia de mim, na minha companhia, e isso pela primeira vez não é mau. É expansão, é recomeço. Sozinha é o princípio.


faz arte com os pedaços

 

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Artista: Inez Wijnhorst. Fotografia e partilha por Laura Falé.

O Dumbledore – a quem regresso sempre para aquecer o coração nos momentos mais frios – dizia:”Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light“. Eu encontrei pessoas que foram pontos de luz e quem sem esta escuridão eu nunca teria visto. Às vezes precisamos da escuridão para vermos este pequenos pontos de luz, tão pequenos, tão facilmente passando despercebidos. No meio da escuridão procurei âncoras em pessoas desconhecidas… e que deixaram de o ser.

Alguém partilha uma arte criada por si no Instagram. Algo que ressoa comigo. Porque está escuro e aquilo me toca, começo a conversar com essa pessoa. E um ponto de luz até ao momento invisível, acende-se. Às vezes uma mudança de perspectiva faz-nos ver quem estava ali e não víamos antes. Fez-me ver-me a mim mesma, numa outra luz. Em vez de me tratar com dureza, com exigência, como sempre fiz – tens de ser melhor, fizeste merda, tens que aprender – estas pessoas fizeram-me pensar que poderia haver outras respostas. E se eu me tratasse a mim mesma com a gentiliza com que trato as outras pessoas? Com cuidado? Com amabilidade? Se em vez de me criticar, admoestar, ralhar, se em vez disso eu me tratasse como trato as pessoas que são minhas amigas e a quem quero bem? E se em vez de ser dura comigo eu pudesse dizer: está tudo bem, és uma pessoa, não fazes tudo bem e mereces coisas boas ainda assim. Cuida de ti. Leva o teu tempo, tens direito a isso. Pessoas desconhecidas que encontrei no meio da escuridão trouxeram-me uma incrível gentileza, não só pela forma como me tratam, mas também pela forma como falam da sua dor, do seu sofrimento e da sua arte. Vi pessoas a fazerem arte com o que lhes aconteceu e a escolherem o caminho da gentileza consigo mesmas e pensei: porque não? É válido para elas, porque não para mim? Foi o princípio. Comecei a fazer arte com o que sentia, voltei a escrever. No meio da escuridão encontrei-me a fazer o que não fazia há anos, uma via que eu pensava que estava bloqueada e seca. Do outro lado, encontrei pessoas que me leram e que me disseram de novo “não estás sozinha”.  Na escuridão, vimos-nos, vulneráveis, mas ali. O que eu escrevi não soou no vazio, foi recebido, foi-me devolvido. E hoje eu quero poder pensar que a arte às vezes é assim. Surge na escuridão, brilha um momento, encontra um eco em alguém e continua nessa pessoa, que depois pega nela e faz qualquer outra coisa. Pontas soltas, tecidos, palavras, imagens, todas elas se ligam, ecoam e se repercutem.

Descobri que o Instagram – pondo de parte os problemas que tem – tem micro-espaços de partilha feminista artística. Houve alturas em que manter uma espécie de diário no Instagram me foi salvando. Houve alturas em que os diários de pessoas – algumas de partes do mundo que se calhar nunca vou conhecer – me foram salvando. Houve alturas em que um pequeno apontamento de arte me deu mais um ponto de luz. Houve alturas em que uma galeria de Instagram me fez conhecer a pessoa por trás dela e fazer uma amiga onde não imaginava.

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Hoje aconteceu de novo o mesmo, vindo de mais um ponto de luz nesta viagem. Alguém partilha comigo um texto de uma artista por achar que ressoa comigo.

Ao movimentar um ponto, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, para cima e para baixo, criam-se os três planos do espaço. Este espaço serve de palco para a existência se desdobrar. E tal como uma casa vazia à espera de mobília e de pessoas para a habitar, também o espaço vazio espera. Cheio de expectativas, de sonhos, de possibilidades em suspensão. Cada palavra, cada pensamento, cada sentimento, cada acção, pode encher este espaço vazio e nele ressoar e ecoar, e encontrar a terra para brotar. Se, como Kant sugere, tudo existe já a priori, o espaço vazio não será vazio, mas cheio de potencial. Cheio de tudo o que alguma vez foi, é, ou será. Pleno de possibilidades infinitas.” Inez Wijnhorst

E ressoa. Leio várias vezes e penso. Ontem comecei a fazer terapia. E o que é que isto tem a ver com arte, perguntam? Tem. Estou ali para me cuidar, para continuar este processo que estes pequenos pontos de luz desbloquearam. O objectivo é curar-me gentilmente, mas isso é apenas o princípio. Tem tudo a ver com a reflexão da artista acima – o que estou ali a fazer é a descobrir o meu espaço, descobrir-me. Que espaço é este dentro de mim, o que posso dar aos outros, o que posso cuidar em mim. É um espaço cheio de possibilidades, de tudo o que pode ser, o que foi, tudo o que espero, quero, posso e também aquilo que as outras pessoas me trazem. É um espaço como o teu, como o vosso, pequenos pontos de luz, com as vossas vozes, artes, criações, gentilezas.

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Fotografia de @fireflyfiphie

No meio da escuridão, encontrei arte e encontrei pessoas e descobri que afinal eu – despedaçada, vazia – não o estava, aquele não era o fim. Havia mais de mim e a resposta foi fazer algo com isso. E esse algo não precisa de ser grande, ou complicado. Outras pessoas deram-me de si, estando a sofrer também. Coisas pequenas, palavras breves. Prendas, artes, coisas que fizeram. Deram o seu tempo e eu o meu. No meio da escuridão descobri que queria fazer mais coisas. No momento em que mais me sentia vazia, percebi que afinal talvez não estivesse. Quero continuar a criar projectos, espaços seguros, escrever mais, partilhar, conhecer pontos de luz desconhecidos, beber mais arte de outras pessoas e fazer algo com ela, devolvê-la outra. Vocês são arte, pequenos pontos de luz, e ajudaram a salvar-me. Agora há um pouco mais de luz.

Dedicado em especial a Helena Braga, Lora Mathis, Oh Jeanne, Laura Falé.


o que estou a aprender sobre ser vulnerável

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Percebi há alguns anos que a honestidade emocional era para mim a coisa mais difícil e a mais indispensável. Foi mais ao menos na mesma altura em que percebi que quando amo alguém deixo de ter o coração na caixa toráxica e passo a tê-lo nas mangas das camisolas e logo atrás dos lábios, acima da garganta. Esta descrição pode ser anatomicamente estranha, mas é assim que vomito coração e faço coração com as mãos. Não fui sempre assim. Durante anos escrevi coração, não disse, não fiz. Vivi bastante tempo em páginas, por fora nada se passava, por dentro a revolução. Consegui sair das páginas, já não sei como fiz essa transição. Existe aquela expressão inglesa: “wearing your heart on your sleeve“. Quando se tem o coração aí temos que ter mais cuidado, ao andarmos na rua podemos deixá-lo cair, se usamos uma camisola mais larga ele pode não se segurar, e então no verão, com vestidos de alças e tshirts, bom, é arriscado, talvez colocado por dentro do pulso se segure. O coração nas mangas e atrás dos lábios é uma coisa complicada. Fechar a boca às vezes não é suficiente, quando escrevemos facilmente, ou choramos com tudo, quando temos uma daquelas caras transparentes que não conseguem esconder nada nem que a nossa vida dependa disso, então sai por todos os lados. Não com toda a gente. Sou selecta nisto porque tenho dificuldade em aproximar-me das pessoas e desconfio de quase todas, embora ao mesmo tempo queira sempre ver o melhor de pessoas que me pareçam minimamente interessantes. Mas esta coisa do coração está ligada com a honestidade emocional, aquela tão difícil e sem a qual não consegui viver nenhuma relação.

Estou a tentar falar de vulnerabilidade, mas também do seu complemento essencial a auto-preservação e o cuidado connosco. Vou deixar as metáforas do coração nas mangas. Durante anos escolhi fazer-me sempre vulnerável. Ainda é essa a minha escolha. Não soube estar em nenhuma relação íntima ou de amor sem essa vulnerabilidade primeira, que me fez sempre dizer o que se passava comigo, o que sentia, o que pensava. À conta desta honestidade vulnerável vi-me realmente em situações de vulnerabilidade – aquela que é má, que nos sujeita a diferenciais de poder. Não sabia proteger-me, nem cuidar-me, simplesmente dizia-me e esperava que outros compreendessem e mostrassem empatia. Fiz todos os coming outs assim, vulnerável, acreditando que os outros veriam a coragem disso e estenderiam a mão. Levei muitos anos a perceber que há relações que não merecem a nossa vulnerabilidade – aquelas que nos abusam, que nos fragilizam, que nos cobram, que nos ameaçam. A minha casa não foi um local seguro para a minha vulnerabilidade, foi um local de batalhas em que me agarrei a essa honestidade radical como a única arma que tinha na luta. Custou-me muito perceber que vulnerabilidade com agressão é receita para desastre, com consequências que levam anos a ser processadas.

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Apesar desta experiência, consegui ficar na vulnerabilidade perante outras pessoas e relações. Percebi que quando do outro lado não está agressão, mas pessoas que nos querem bem (o problema está na dificuldade de sabermos quem nos quer bem realmente), então temos um lugar para sermos vulneráveis com amor. Abrimos espaço para nós e para as outras pessoas. O poder da vulnerabilidade é que ela tem a capacidade incrível de trazer mais vulnerabilidade do outro lado. Se é num contexto de amor e respeito, a minha vulnerabilidade abre espaço à tua e abre espaço à nossa e juntas abrimos espaço a mais vulnerabilidades. Comecei a levar essa vulnerabilidade comigo para o activismo, lembrei-me de como ela já tinha sido arma para mim e usei-a de novo como arma, desta vez não para me defender de ataques, mas para me criar como activista e para abrir espaços. Percebi que para mim falar sempre a partir do pessoal me levava a essa honestidade e que não conseguia expurgar as minhas emoções desse relato. Então, perante pessoas estranhas e conhecidas, mas não próximas, decidi que não ia retirar as emoções. Sempre que falei sobre ser poly, falei das minhas emoções. Sempre que respondi a perguntas, respondi sem filtrar as emoções. As emoções passaram para o centro do meu activismo e de todas as minhas intervenções. Isto, claro, colocou-me numa posição frágil: falar de sentimentos perante uma plateia desconhecida não é seguro. Usar os sentimentos em interacções activistas não é algo seguro, como percebi da pior maneira possível quando tive “activistas” a dizerem-me que os espaços de activismo não são suposto serem espaços seguros e quando vi a minha confiança traída nestes espaços e interacções. Mais uma vez tive que perceber que a vulnerabilidade unilateral é perigosa, assim como a vulnerabilidade fora de espaços que não se constróiem feministas e seguros. Percebi também que às vezes mesmo sendo feministas e supostamente seguros não o são. Não temos uma cultura de vulnerabilidade nem de honestidade nos nossos activismos. E por isso, aquelas de nós que usam de vulnerabilidade estão em risco.

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Custa muito sermos vulneráveis quando uma relação em que o fomos acaba. Também percebi isso mais tarde. Recuperar a vulnerabilidade é assustador depois de o termos feito com alguém que se vai embora com tudo o que partilhámos. Quando pensei que nunca mais na vida conseguiria ser vulnerável assim, foi quando percebi que tinha que o ser ainda mais e o quão central isso realmente é. Percebi também que para mim só haveria uma forma de curar o coração partido e essa forma era… ser vulnerável outra vez. Mas, com uma grande diferença. Esta vulnerabilidade tinha que ser acompanhada de cuidado comigo e de auto-preservação. Percebi então que tinha estado anos a usar de uma vulnerabilidade incompleta, que me colocava em situações de fragilidade, em que eu dava tudo e outros nada, em que eu tentava sempre e outros não, em que eu estava em situações de desiquilíbrio de poder e isso me expunha ainda mais, em espaços não seguros e com pessoas que não estavam a guiar-se pela sua própria vulnerabilidade.

Há uma linha entre ser vulnerável e manter-nos numa situação em que somos alvo de agressão e abuso. Vulnerabilidade não é abrir-nos a quem nos violenta. Num contexto de relações assim, dar uma nova chance a alguém, reconstruir as pontes partidas, tentar de novo, pode ser a forma como voltamos ao contexto de abuso. Isso viola a nossa vulnerabilidade, além da nossa autonomia.

A linha é o cuidado connosco, é o nosso sentido de auto-preservação. Não pode haver vulnerabilidade – pessoal, política, activista – sem auto-preservação. É okay decidirmos com quem queremos e podemos ser vulneráveis e com quem não. É okay deixarmos de o ser com alguém porque algo mudou. Abrir o espaço da vulnerabilidade não tem só a ver com falar de sentimentos. Tem a ver com estar disponível para lidar com as consequências da nossa própria honestidade. Não basta sermos honestas. Do outro lado da nossa honestidade estão outras pessoas e sermos vulneráveis implica sabermos que há sempre essa parte. Implica responsabilidade por mim e por ti e por nós. Implica estar disponível para lidar com a vulnerabilidade da outra pessoa e saber dizer quando não estamos – porque auto-preservação. E por isso é importante saber quando não ser vulnerável – e isso eu ainda não sei, estou a aprender. Cuidar de nós também não é algo simples, é um processo que temos que ir fazendo e também nisso esta sociedade não nos ajuda, porque confunde cuidado com indulgência e confunde tudo isso com felicidade pré-formatada que serve a toda a gente.

Só depois disto conseguimos, acho, abrir espaço para sermos estúpidas, cometermos erros e sermos ridículas. A vulnerabilidade é aquele espaço também onde acontecem coisas estranhas como perguntar a alguém se a podemos beijar antes de o fazermos e enfrentar toda a estranheza – sem guião, sem buffer de segurança – que vem com isso. Enfrentar a weirdness desse momento, a possibilidade de haver um não do outro lado e sabermos isso, e toda a falta de jeito que temos para estas coisas do consentimento. A vulnerabilidade abre espaço para todas as conversas que temos antes de fazermos seja o que for, para revelarmos parvoíces que sonhamos, fantasias que temos e para nos sentirmos envergonhadas, tímidas ou sem jeito. Abre espaço para sermos nós e vermos as outras pessoas. Esta vulnerabilidade, feita com base no cuidado connosco e no respeito dos nossos limites, é coragem.

Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfare.” – Audre Lorde

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I’m gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Leonard Cohen

Outras leituras sobre vulnerabilidade/cuidado de si:

Selfcare as Warfare

Self-Care as Revolutionary

Vulnerability as a Key to Feminism

Toda as imagens são da autoria da artista Lora Mathis. Conheçam o trabalho desta artista sobre radical softness no Instagram @lora.mathis.