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não quero sentir que sou demasiado

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Percebi hoje que em todas as relações românticas que tive houve sempre momentos em que me senti demasiado.

Ou demasiado tímida, ou demasiado intensa, ou demasiado infantil, ou demasiado exagerada, ou demasiado ansiosa, ou demasiado controladora, ou demasiado indiferente, ou demasiado egoísta, ou demasiado querida, ou demasiado exigente, ou demasiado impaciente, ou demasiado. Demasiado.

Demasiado eu?

Como todas as mulheres, eu fui ensinada a estar atenta aos momentos em que posso ser demasiado. Ou as pernas demasiado abertas, ou a saia demasiado subida, ou os lábios demasiado pintados, ou as unhas demasiado grandes, ou o riso demasiado alto, ou o decote demasiado acentuado, ou as tatuagens demasiado visíveis, ou os pelos demasiado compridos, ou o choro demasiado alto, ou a voz demasiado alta, ou a postura demasiado assertiva, ou as ideias demasiado fixas, ou as opiniões demasiado expostas. Neste mundo com milhares de milhões de humanos, há sempre alguém, algures, disposto a dizer-nos aquilo que está errado em metade dessa humanidade, especialmente aquilo que está a mais. E nós ouvimos. A todo o momento estamos atentas àquilo que em nós pode ser demasiado. Nas relações com homens cis nós não queremos ser as chatas, as dependentes, as carentes, as intensas, as inseguras, as histéricas. Tentamos ser a quantidade exacta de mulher, nada mais, nada menos. Tentamos que fique tudo no sítio devido, desde as nossas opiniões à linha do nosso decote. Nem demais (puta), nem de menos (freira). Tentamos por tudo manter-nos numa zona qualquer que seja aceitável. Um nível de mulher aceitável. Aceitável para os outros, claro, que a nós ninguém nos pediu a opinião. As opiniões ficam do lado do demais, por isso tentamos ao máximo guardá-las para nós ou sermos as maiores especialistas do mundo no tema para, aí com um mínimo de segurança, nos arriscarmos a dá-las.

Eu estou cansada de fazer concessões à zona aceitável criada para mim, embora continue a passar a maior parte dos meus dias bem dentro dela. A vantagem de estar há algum tempo sem relações românticas é que, no silêncio e na solidão, começo a perceber o que quero e a única coisa de que tenho a certeza até agora é: eu não quero voltar a ser demais e eu não quero dar demais. Porque é que uma mulher tem que saber cuidar e dar apoio emocional e antecipar necessidades do seu companheiro, mas de um homem nunca podemos esperar isso? O que é verdadeiramente revolucionário nas relações entre pessoas do mesmo sexo é a possibilidade de existência de uma relação entre iguais. E sim, eu sei que na prática não é assim tão linear, mas a possibilidade está lá. Sei que continuei a ter alguns destes mesmos problemas em relações com pessoas do mesmo sexo, mas… mas é muito mais fácil isso acontecer numa relação homem/mulher cis porque o esquema está montado para isso.

Eu não quero ser de novo a pessoa que compreende, que procura contacto, que dá carinho, que fornece apoio, que pede desculpa primeiro, que tenta a reconciliação, que pensa em tudo, que tem a solução, que oferece as prendas mais românticas, que prepara jantares, que pensa sempre no que é preciso, que antecipa problemas e os resolve, que dá o ombro para chorar e os olhos para rever trabalhos e as suas ideias para que a outra pessoa consiga os seus objectivos de vida. E também não quero ser a pessoa que precisa de mais atenção, que precisa de mais tempo, que quer mais carinho, que diz mais o que sente, que faz grandes declarações patéticas. Não quero ter que pedir tudo, quero ser entendida e compreendida – e não, eu não estou a dizer que quero que me leiam a mente, mas sim que quero que os homens saibam o que é empatia e trabalho emocional e que se querem estar em relações então que aprendam a saber ouvir e a amar as pessoas com quem estão. Por uma vez, eu não quero ser a pessoa patética, quero que alguém seja patético por mim e não me faça sentir demasiado.

As minhas necessidades básicas não têm que ser tratadas como se fossem exigências do outro mundo. Ou como a Penny Reid disse (mais ou menos assim): eu não tenho que arder até às cinzas, para aquecer outrém. Porque se eles são suficientes, com os defeitos que têm, nós também temos que ser.

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Loneliness is a thing.

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I’m not in a good place yet,

No matter how well put together

I seem to you.

Seams, yes,

I’m not seamless. Unseamless.

I cry in therapy –

Not as much as before.

The things I’m touching

Are darker yet

Deeper

For tears.

Then I get my shit together and go about my life the rest of the week. I read, I write, I pet the cat, take care of the house, do nothing.

I feel mostly lonely.

Romantic love is an idea –

deception,

conception

I failed at in everyway I could/knew how.

 

I write with fear all the time, though I tell everyone to write freely, no attachments. I, for one, am attached to everyone and everything and never let go. I carry them all, love them still, doubt I’ll ever love me.

I fight over lost things, things of consequence, dead things. Most lively they are, for they haunt, rip the seams.

I gather in a heap again, turn the phrase, press myself between pages. Those people speak with my own language. It’s the biggest joy, the abyss, cutting knife, burst of something quite good.

 

In my everyday, I am other.

Loneliness is a thing.

I make my face up

Feel pretty.

Pretty is a thing.

I miss my ex-girlfriend still.

She was good and I was good and together we are nothing good.

We are not a thing.

I miss touch.

Another hand, the other’s hand, not mine.

Touch is a thing.

But I don’t miss myself.

That’s also a thing.

I have pleasure

Even, mostly, without you.

I have hurt

Even, mostly, without me.

I make soup

Then eat junk-food

I go to work. I don’t write everyday. I talk to people I never see. They know me and I know them and we know we’re friends. Online is a kind of life for those with kind hearts. I have all conversations that matter in deep silence. Everything else is so loud.

 

 

Another thing is this:

I don’t want to fall in love

Refusal, that’s a thing.

 

I don’t want to love you

You’re a man, a man, a man

You know nothing

So why.

 

A man is also a thing.

 

Picture: www.pinterest.pt/pin/802344489837448280/


a marcha das emoções

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O dia da Marcha do Orgulho LGBT não é um dia feliz para mim. É um dos dias mais importantes do ano, mas há muito tempo que não é um dia feliz.

Talvez a primeira marcha a que fui, antes de ser activista, antes de saber sequer o que são associações, colectivos, antes mesmo de saber o que isto tudo implicava, talvez essa, há 8 anos atrás, tenha sido uma marcha feliz. Fui com a minha melhor amiga, sempre de mão dada, vestida de roxo, cheia de fitas de cores nos cabelos. Sonhava com um grande amor, só via liberdade em todo o lado, não tinha medo das palavras, agarrava-me a todas, sorria o tempo todo, não sabia bem o que era a ilga, menos ainda que havia mais que a ilga ou que isso importava sequer. Realmente a ignorância às vezes é mesmo bênção.

Em 8 anos muita coisa mudou. O trabalho activista foi um choque de realidade – nada como meter as mãos na massa para saber mesmo o quanto isto dói e cobra de nós (dos nossos corpos, das nossas emoções, do nosso tempo, das nossas saúdes). É tudo tão lindo visto de fora. O arco-íris até parece mesmo ter o pote de ouro no fim, mas quando lá chegas já nem forças tens para o pote. Mas este não é um texto coerente ou lógico de enumeração de todos os problemas graves da nossa comunidade LGBTQIA e do nosso movimento doente. Também não é um texto racional sobre a quase ausência de prática e ética feminista dentro desta comunidade, ou sobre a quase ausência sistémica de empatia, ou sobre a constante misoginia ou sobre a divisão desigual de trabalho activista, ou sobre a sobrecarga desse mesmo trabalho recair invariavelmente sobre mulheres, ou mesmo sobre a sempre presente sub-representação de mulheres queer nos espaços, marchas e festas, ou sobre a permanência de comportamentos e pessoas abusivas que são protegidas dentro da comunidade. Isso fica para quando eu conseguir pensar, porque agora eu só consigo mesmo é sentir.

Esta foi para mim a marcha das emoções. Difícil seria que fosse outra coisa. Pela primeira vez em 8 anos fui marchar sem estar em nenhuma relação amorosa. Mas ali estão quase todas as pessoas que fizeram ou fazem parte da minha vida emocional. Ali, num mesmo local, num mesmo dia, numa mesma hora, estão todas lá. Toda e qualquer pessoa que significa algo para mim está ali, ou está presente pela sua ausência significativa. É chegar e ter vontade de fugir imediatamente, de voltar à segurança e conforto do meu universo da escrita, em que o coração me bate dentro do peito e eu posso chorar e rir e ninguém está a ver. Ali há demasiados olhos. Demasiada coisa a acontecer. Acabo de chegar e quero mesmo ir-me embora, embora aquele seja o dia mais importante do ano para mim. Fui sozinha, rodeada de amigues, amigues, amigues por todos os lados, as pessoas mais importantes da minha vida ali. E mesmo assim há coisas que, mesmo rodeada de amigues, tenho de passar sozinha. Não há como as transcrever para fora de mim, não há como as transmitir, há um indizível que vivo ali sozinha, em cada segundo, em cada interacção. Chego. Levo dois segundos a encontrar caras conhecidas numa multidão. Estranho como no início não conhecia ninguém e como de repente pareço conhecer demasiadas pessoas.

E na marcha há sorrisos e abraços e passas por cada uma, de passagem, quase não absorves nenhuma – demasiadas, tão bom, amigues, mas tão demasiado intenso-, fica só a sensação geral de existirem tantas pessoas que significam algo para ti e que algumas só as vês ali, uma vez por ano. Não falas a todas, não consegues. Acenas. Algumas tens demasiada vergonha para dizer olá, contas com a multidão para te esconder. Algumas tens mesmo, mesmo vontade de dizer olá e não dizes, não consegues. Algumas… algumas tens uma paixoneta por elas e por isso olá é a última coisa que consegues dizer (aliás, morrias se te dissessem olá embora obviamente queiras isso muito). Não dizes nada e se calhar logo as vês para o ano, ou nunca. Algumas outras preferias nunca mais na vida teres que as ver. Não tens percepção do tempo. A marcha acaba de começar e de repente já acabou e tu lembras-te de um tempo em que não era assim, em que havia a sequência de vários momentos e agora de repente só tens o princípio e o fim e perguntas-te se será da idade, se estás a ficar maluca ou se é simplesmente demais.

Sabes que aquele dia te parecia ao início cheio de possibilidades e quando termina só te sentes vazia, passa tudo demasiado rápido, é tudo demasiado efémero, mesmo que não estejas a organizar, mesmo que estejas com amigues, mesmo que vás com a tua bandeira. E a tua bandeira desta vez é a lésbica e nunca a viste numa marcha e ninguém a vai reconhecer, ninguém sabe que bandeira é aquela (talvez duas ou três pessoas saibam), mas também ninguém te pergunta – o que é mais ou menos como tu, só que tu às vezes nem és vista. Ou ouvida. Pela primeira vez vais com aquela bandeira porque finalmente te apercebeste que a tua identidade acabou a ficar por baixo de outras, que andaste imenso tempo a carregar bandeiras de tudo e mais alguma coisa e achaste que a bandeira lésbica podia ficar para último. Desta vez levaste a bandeira lésbica, entregaste a bandeira poly a outra pessoa porque a ti já não te aquece nem arrefece, tu só queres é descobrir quem és depois destes anos todos em que a tua cara parecia um poster. E estás farta. Mas nada disso se vê enquanto tentas ir em modo de passeio pela marcha, ou pelo menos era isso que disseste que ias fazer mas de repente dás por ti a nem saber fazer isso (como é que é andar despreocupadamente nesta marcha? Esqueci-me). Em vez disso andas para trás e para a frente (mas tu não estás na organização, devias estar a passear, a sorrir, a posar para fotos, não é isso que as pessoas fazem? mas não), em vez disso procuras os rostos de amigues que estão a organizar e vês olhos angustiados, cansados, para cima para baixo, vais vendo como estão, vais à frente da marcha, vês se as pessoas estão bem. Nunca vais para a parte de trás da marcha porque ali a partir do meio não queres saber. Mas caramba, tu devias estar a passear, a ver as bandeiras de outros. Voltas ao rio de marchantes. Tentas integrar-te. Tentas fazer isso mais um pouco, sentes-te meio perdida. Não sabes o que fazer às mãos. De vez em quando uma pessoa conhecida, um sorriso, um abraço forte. Que bom. Que saudades. Bolas, gosto mesmo de ti e acabei de me lembrar disso. Estás bem?  Sim. Estamos todas bem. Eu também estou bem, não estou? Não sei. Então e o poly? Não sei. Nem sou se sou isso. Não quero saber. A minha família está destruída. Tem piada, não tem? Afinal, toda a gente falha. Já viram? Bom, não viram, nós não falamos disso. Mas pronto, aqui está. Seja como for continuo.

É a marcha das emoções à flor da pele, dos rostos que tens de ver mas se calhar preferias não, dos que queres ver mas se calhar era melhor para ti não veres porque depois tens vontade de chorar. É a marcha em que vês a exaustão, a injustiça, em que sabes que uns vão pisar sempre nos mesmos, que esses mesmos – mesmas, para que é que estamos com coisas? Tantas vezes, demasiadas vezes, são mulheres – vão lá estar sobrecarregadas. Que isso não muda com os anos, só piora. E tu queres pensar em liberdade, em alegria de ser e desconstruir, na enorme diversidade que vês a tua volta e, caramba, nunca viste tanta bandeira diferente, algumas nem conheces e perguntas que bandeira é essa e bolas, isso é bom. Estamos enormes, há três anos não havia metade destas bandeiras todas, estamos e somos cada vez mais tanto, expandimos, expandimos e queer já nem é uma palavra esquisita. E tu bem queres que isso seja mais importante – mais importante do que se vai passando dentro de ti – mas não consegues. Porque toda a tua vida emocional está ali, porque as coisas não são simples bonitas e bem cortadas e cheias de cores, limpinhas e decentes como uma faixa da ilga. As vezes são sujas e feias e confusas e cheias de lágrimas. Às vezes tu querias mesmo que o amor vencesse tudo mas tu sabes que isso é uma grande treta porque o amor não vence nada sozinho e não se pode viver de amor.

E pronto, de repente a marcha acabou, estás a ouvir os discursos, não sabes o que fizeste durante a marcha, nem quem viste, sentes que não deste atenção nenhuma a quem foi contigo e que se passou tudo dentro da tua cabeça e sentes-te culpada por isso, porque querias estar lá, no momento, com aquelas pessoas. Pelo meio viste pessoas de quem gostas quase a chorar, sabes que algumas foram chorar para casa, outras desabafar porque isto lhes tira demasiado, porque trabalham um ano inteiro quase sozinhas e no fim se sentem perfeitas idiotas e tu ficas sem saber o que fazer porque também te sentes uma idiota e em cima disso ainda te sentes estranha porque ao menos tu ainda vais jantar e vais à festa.

Estás nervosa com a festa, porque tu não percebes nada de festas, não sabes bem como é suposto divertires-te num sítio onde não consegues ouvir sequer uma pessoa colada a ti, não sabes o que é suposto fazeres, mas é suposto ser divertido. É suposto. Tens quase 30 anos e continuas sem saber como é suposto fazer-se isto de conhecer pessoas, como é suposto estar-se numa festa – porque nunca soubeste-, mesmo assim vais e nem sabes bem porquê, vais porque é a festa da marcha, porque tens ideia de que algum dia vais saber estar numa festa. Bom, não sabes. Estás lá e no minuto em que chegas precisas de contrariar o impulso imediato de ir embora. Aliás, tu ainda nem passaste a porta e já te queres ir embora. Em vez disso ficas lá e tentas perceber como é suposto estar ali, olhas para as pessoas e elas estão felizes e bêbadas e a dançar e tu não consegues dançar assim, imaginas sempre que sim, escreves sobre isso e adoravas ser essa pessoa que dança assim mas não és. Aquelas pessoas ali conseguem dançar, conhecer-se, falar, comer-se, sei lá, tu não consegues nada, tu consegues ir buscar uma bebida e play it cool até alguém ta entornar totalmente no chão com um desculpa mal amanhado. Olhas para a tua cidra no chão e pensas que ali vai o resto dos 3€ de felicidade que tinhas naquela noite e bom, sais dali. Cá fora não está muito melhor porque é demasiado estranho estares ali sozinha, as pessoas não estão sozinhas em festas destas, estão com as namoradas – mas tu não tens disso agora – ou com grupos – mas tu não consegues estar em grupos agora – e tu de repente estás ali só a tentar respirar, a tentar não ver o que te faz mal, a tentar escolher bem para onde olhas para não desatares a chorar porque – sim – a tua vida emocional continua muito ali e infelizmente nesta comunidade onde toda a gente se conhece, toda a gente acaba ligada e parece sempre que estás a ver alguma pessoa que te lembra uma outra pessoa ou memória ou… é um poço, não lhe vês o fundo. No fim é difícil manter a vontade de chorar longe, mas lá fazes isso, estás com uma amiga, ela é especial para ti, ela sabe que tu não estás a aguentar muito bem, às tantas vamos as duas embora, pronto, já está missão cumprida e merda esqueci-me de dar o contributo da marcha de tanto estar metida na minha cabeça, mas ok, dou depois.

No dia seguinte vais trabalhar cedo. Não bebeste demais e se calhar até gostavas de o ter feito mas é só mais uma das coisas que não sabes como fazer. Dormiste três horas. Não te sentes muito bem, mas continuas a fazer tudo como é suposto. Vais trabalhar. O rescaldo do dia mais importante do ano apanha-te a caminho, no metro, e vai-te apanhando nos dias seguintes. Estás cansada. À tua volta há muita gente cansada. E tu querias que fosse um dia feliz mas não sabes como fazer isso.

Edição: Não é verdade que nunca vi uma bandeira lésbica – nunca vi a que levei, sim, lilás com um triângulo preto. Existem várias. Diferentes. De diferentes identidades lésbicas. Durante anos a única presente foi a do Clube Safo, a única associação portuguesa de defesa dos direitos das lésbicas e que cessou existência em 2012/13, depois de décadas a tentar manter-se à tona. Nos anos que fiz activismo assisti a muitos grupos de lésbicas e bis a tentarem formar-se e existir, muitos deles deixando de existir rapidamente ou não chegando a ver a luz do dia. Mantém-se hoje, ainda vivas e com voz, as ActiBistas e também o mais recente e activo colectivo de lésbicas e bissexuais negras Zanele Muholi, que este ano convocaram uma concentração de lésbicas e bis antes da Marcha.


não sou uma escritora

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Nunca me vi como escritora, mas sim como uma pessoa que escreve. Há uma real diferença entre estas duas coisas, para mim.

Eu que me reclamo com tantas identidades, nunca senti que pudesse reclamar esta para mim. Parece um pouco convencido estar a escrever sobre o facto de não ser escritora, para depois toda a gente me dizer que se escrevo sou escritora. Mas não sou. Eu tenho muito medo de me pensar como escritora, nunca me atreveria a tal. E não, não estou a falar destes textos, nem deste blogue, nem do que escrevo como activista – esses são os meus textos vivos, cá fora, desabafos mais que outra coisa, como este aqui. E também não me fazem escritora, são só a minha ferramenta de activismo e visibilidade e eu sei que sou boa com palavras e por isso uso-as.

Estou a falar de ficção, daquela que eu não escrevia há mais de sete anos e que foi a minha vida desde os 12 anos até aos 20 e poucos. Estou a falar da ficção que escrevo, e que é algo gigantesco na minha vida, mas que poucos leram e da qual estive afastada durante muitos anos.

Não há nada, nada, que eu goste mais de fazer do que escrever. Não há nada, nada, nada no mundo para mim que se compare a estar a escrever ficção.

Escrever ficção é muito estranho, não é como outras coisas que adoro fazer, não é como adorar ler, não. Escrever ficção para mim é uma obsessão, um sofrimento, um trabalho, um prazer alucinante e a coisa mais absorvente da minha vida.

Muitos diriam, então és uma escritora, isto é a tua grande paixão de vida. Sim, poderia ser, mas eu não me sinto digna, não sinto que estou lá, no mesmo nível de quem eu admiro como escritora, não, jamais. Eu, usar um mesmo termo para me descrever do que a Virginia Woolf? A J. K. Rowling? Estão loucos?!

Sim, não há nada no mundo que seja como escrever, para mim. Nenhum amor, nenhuma actividade, nenhuma sensação, nenhum trabalho, nada nada nada é como escrever ficção. Quando escrevo ficção eu não estou aqui. Ausento-me durante horas, perco noção do meu espaço, do meu tempo, da fome, da sede. Alucino, sim, alucino e eu sei que isto parece convencido, parece cliché, mas a verdade é que eu deixo de vos ver, vocês, pessoas da realidade, com quem me cruzo. É-me mais real aquele mundo em que passo a viver, que criei, que não existe se não na minha cabeça onde é realidade. E eu vejo-as, vejo aquelas pessoas que criei, sei como elas falam, o que vão fazer a seguir, vejo-as a olhar para mim e às vezes sei como elas reagiriam a qualquer coisa que eu diga. Enquanto as vejo, consigo continuar a escrever. O problema é quando paro subitamente de as ver e aí sei que aquela história morreu.

Às vezes vejo-as quando estou a tomar banho. Um flash e sai uma cena completa para a mesa do canto. Às vezes deito-me e antes de dormir, lá está, o puzzle monta-se sozinho. A caminho do trabalho, anoto diálogos inteiros, sei como uma porta é fechada, oiço a resposta perfeita, encontro o ritmo da frase, descubro o fim de um capítulo.

Nunca consegui perceber como é que há pessoas que não têm ideias, eu consigo ter ideias com base num papel no chão, aliás nem precisava do papel, bastava o chão mesmo ou o nada, mas isso é o mais fácil. O problema para mim não são as ideias, essas há aos pontapés e por isso é que para mim aqueles cursos de olhar a página em branco e vomitar qualquer coisa para lá não me assustam porque eu gostaria de ter uma outra vida só para as ideias que tenho.

O que me assusta verdadeiramente, o que é realmente difícil para mim não são as ideias, é a sequência, a coerência, a forma como as coisas encaixam umas nas outras, como as cenas se seguem numa lógica, numa semelhança com a realidade, mesmo que seja uma realidade surreal ou mágica, ou com regras que contrariam a lei da gravidade. O que interessa é que ali funcionem. O que é verdadeiramente difícil e aterrorizante é continuar. Continuar a ver aquelas pessoas e conseguir chegar ao fim com elas com o mesmo fôlego e entusiasmo com que comecei. O difícil é não as perder, não desistir, é continuar a vê-las, a senti-las e levá-las comigo até ao fim da sua própria história. E depois reler-me e corrigir-me e não me crucificar – mas eu acho que é impossível não o fazer.

Escrever ficção é para mim a coisa mais difícil do mundo – não é nada como escrever textos para este blogue, ou como falar em público (mesmo que eu fique tímida e com vontade de desaparecer), não é nada como fazer activismo e dar a cara, oh não. Escrever ficção é a pior coisa do mundo e é a coisa que eu mais amo no mundo. E por isso eu não sou escritora. Parece-me impossível ser escritora, com a minha ficção guardada na gaveta. E não, as minhas pastas de textos, os meus livros incompletos não são bons. Falta-lhes a estrutura, a completude, como a mim me falta. Será que algum dia vou ser escritora? Eu desisti de acreditar nisso. Estive incapaz de escrever ficção durante os últimos sete anos. Deixei de as ver, perdi-as, todo um mundo que criei foi pelo cano abaixo – e não, eu não vou lá buscá-las, obrigada. É bonito dizer: não desistas, volta, tenta de novo, continua. Mas não quando eu sinto que aquele mundo está morto. Durante anos pensei que não conseguiria pegar noutro, tenho demasiado medo de que também esse vá morrer. E sentia-me seca. Ocupei-me a viver e parece que não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ou bem que vivo, ou bem que escrevo e escrever substitui-me a vida, ponto.

Essa é a verdadeira página em branco para mim. O medo terrível de me apaixonar loucamente por um mundo e de o ver a morrer outra vez, o medo terrível de passar anos a viver num lugar, num tempo e com pessoas que vão desaparecer e morrer. E sim, eu sei que é como a vida e ainda aqui estou.

Há pouco tempo, não sei como, peguei noutro mundo. Este já estava feito – não fui eu que o fiz, eu só peguei nas personagens emprestadas e escrevi as cenas que vi reais dentro da minha cabeça. Ainda estou a lutar com esse mundo, porque sim, escrever ficção é uma luta solitária – e isso é outra coisa importante, é que eu só consigo escrever se estiver sozinha, quase como se não tivesse espaço mental e emocional para pessoas e personagens ao mesmo tempo. Quando escrevo estou o mais sozinha possível, mas não me sinto sozinha porque a noção de tempo desaparece e só nos sentimos sozinhos quando sentimos o tempo, ou não? Por enquanto ainda as vejo, estas personagens emprestadas com que estou a brincar. Há muito tempo que não sentia isto, é como estar a apaixonar-me de novo, numa autêntica NRE (New Relationship Energy) com a escrita, e sim, a escrita é um grande amor da minha vida. Morro de medo de deixar de as ver, de esta torrente ir parar abruptamente de novo e me deixar vazia. É um risco que corro, como tudo o que vale a pena na vida.

Só escrevi este texto aqui para me lembrar a mim mesma disto, porque de alguma forma me deixei esquecer nos últimos anos. Não me sinto digna de ser escritora porque escrever é a coisa mais séria da minha vida. E um dia, talvez, venha a ser mesmo a minha vida.

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liberdade, headbang e metal

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Acabo de vir de um concerto de metal. Não fui a centenas, mas já fui a muitos. Mas pela primeira vez fui a um concerto sozinha. Não combinei com ninguém, embora soubesse que lá poderia encontrar muita gente que conheço. De facto sei que algumas pessoas que conheço estavam lá, mas não vi nenhuma nem fiz por isso. Fui sozinha. E foi incrível.

Não consigo explicar bem a sensação que me provoca a música, quando é música que gosto realmente, que me irrompe pelo peito adentro, se aloja em recantos do meu cérebro e me brota dos lábios – sim, parece exagerado, parece um ritual, mas para mim é isso que um concerto é quando é incrível. Um ritual, uma experiência mágica fora do tempo e do espaço, uma experiência única para cada pessoa mas vivida em conjunto, com desconhecidos. Eu no meio de desconhecidos não me senti sozinha. Estava ali sem ninguém porque queria estar e ao mesmo tempo estava acompanhada por pessoas apaixonadas pela mesma música que eu. Há qualquer coisa maior que eu nestes momentos e essa sensação de ser eu mas ser muitos é alucinante. Por umas horas, somos. Somos pessoas apaixonadas por aquela música que cada um interpreta como quer, que diz a cada um uma coisa diferente, mas é como se houvesse qualquer coisa de comum por baixo disso.

No meio de desconhecidos eu perdi-me e encontrei-me e foi como todos os concertos incríveis a que já fui, mas melhor. Não tinha que pensar em mais nada, nem mais ninguém, estava ali a passar tempo comigo. E ao mesmo tempo estava a partilhar aquele momento com pessoas que nunca vi na vida. Os concertos de metal são estranhos. Para qualquer pessoa que esteja de fora parece de facto um ritual esquisito, de gente marginal. Para mim é encontrar encontrar um lugar onde não sou estranha. Num mar de pessoas vestidas de preto, eu sou eu e não sou eu, sou só mais uma pessoa e ao mesmo tempo mantenho a minha individualidade.

Curiosamente, a experiência de estar em concertos de metal é para mim muito estranha, mas não pelos motivos que poderiam parecer a quem vê de fora. É que, nos concertos de metal, eu nunca fui assediada. Obviamente não tenho a ilusão de que isso não acontece, infelizmente sei que as mulheres não estão livres disso em lado nenhum. Mas para mim, felizmente, isso nunca aconteceu e na verdade muitas vezes experienciei a estranheza profunda de estar rodeada de homens e de masculinidade e essa masculinidade não me agredir. Sim, a heterossexualidade é retumbante, a masculinidade está lá e existe e actua, os homens dão em cima de mulheres também nos concertos de metal e tudo dentro do metal é organizado para manter as mulheres mulheres e os homens homens e nada ou muito pouco de ambiguidades. Mas depois a música e a própria cultura masculinizada do metal faz aqui algum trouble.

Olho à minha volta, neste concerto a que fui sozinha, a plateia é quase toda masculina, tenho homens enormes, altos, fortes à minha frente, atrás, ao meu lado. Há algumas mulheres e raparigas. Elas estão com os namorados, algumas como eu estão sozinhas, outras estão com amigas, outras estão com as namoradas – sim, estamos lá. Neste concerto em particular, estavam muitos mais homens que o habitual – a banda que fui ver só tem homens e isso reforça. Esta banda tem algo de particular para mim porque eu não oiço homens a fazer metal e estes são uma das poucas excepções. A minha política e paixão são as mulheres que fazem metal. Neste caso, fui ouvir homens e ver homens, rodeada de homens. Mas por estranho que pareça, estive num ambiente mais safe que o habitual no meu dia-a-dia. Estes homens, altos, sérios, vestidos de preto, que me rodeavam não me ameaçaram. Não. Pelo contrário, cada vez que sem querer me tocavam sem qualquer tipo de intenção – acontece num espaço apertado em que toda a gente está em movimento – pediram-me desculpa. Esqueci-os e perdi-me na música. Não sei explicar o headbang, nem porque o faço, sei que ali, no ritual-concerto, o corpo move-se, responde ao ritmo, à vibração e segue o seu caminho. Há qualquer coisa de surreal nesse movimento e no segundo em que levantamos a cabeça e sentimos outro ser humano ao nosso lado a fazer o mesmo e não o conhecemos mas naquele momento estamos os dois a vibrar com a mesma coisa. Levanto a cabeça e um rapaz ao meu lado está a fazer o mesmo que eu, olhar perdido e embevecido, olha para os seus heróis no palco. O seu olhar de adoração é apaixonado e eu rio por dentro desta terrível heterossexualidade e masculinidade que não é suficiente para roubar àquele rapaz o olhar de fascínio que lança aos homens no palco. Os amigos abraçam-no, ao rapaz. Um deles aproxima-se dele, feliz por o encontrar ali e afaga-lhe o cabelo com um carinho estranho e quase desfazado – mas ali, no ritual, faz sentido. Do meu outro lado, dois rapazes enormes estão a ter o concerto das vidas deles – percebo, pelos comentários. Há um momento em que se abraçam os dois e riem e depois passam algumas músicas abraçados, os corpos a moverem-se com a música, rindo e bebendo cerveja. Há um momento em que um diz ao outro: eu não te disse que era brutal? E beija-o no rosto, com entusiamo, o outro ri e diz: sim, pá, tens razão! Deduzo que são heterossexuais, claro. Há pouco pagaram duas cervejas a umas raparigas atrás de mim, uma delas mencionou ter namorado e eles, tudo bem, voltaram à música assim que o intervalo terminou. Gritavam pelos homens no palco – de repente parece que todos ali queremos aqueles homens do palco, não importa os nossos géneros. Eu sei que é só naquele momento, eu sei que lá fora o mundo continua igual e sei que mesmo ali as fronteiras estão traçadas, que as fãs que são mulheres ainda são vistas de lado, sei que ali o género está a ser tão policiado como em todos os outros lados. Mas depois há estes momentos, momentos em que eu – uma mulher sozinha – consigo ver um concerto rodeada de homens sem ser incomodada. Momentos em que estes homens se tocam e se abraçam e se beijam na cara, felizes, inebriados pela música, fascinados, alguns deles emocionados. Deixo-me ir e esquecer que existe um mundo lá fora em que nada é assim. O metal é uma música de emoções, de força, de luta, de revolução e é isso que o meu corpo quer ali. Canto e oiço as outras vozes ao meu lado. Por vezes há um daqueles momentos em que estamos silenciosamente a formar as palavras de uma música que nos toca e vemos que mais ninguém o está a fazer mas de repente lá está uma pessoa, algures, perdida como nós, com os olhos a brilhar e os lábios a formarem as palavras.

Os braços no ar, os dedos a formar o símbolo tão típico, um mar de gente de braços no ar com esse símbolo, os braços que se agitam ao ritmo da bateria, que ajudam a identificar quem conhece aquela música como o bater do seu próprio coração. As pessoas aos saltos, o fogo no palco, o calor das chamas a varrer-nos o rosto, os cabelos a agitar-se no ar e ninguém se importa, o headbang é contagiante, os braços, os saltos, pegam-se, propagam-se como fogo. As letras são dramáticas, diabólicas, sim, outras são belas, enternecedoras, românticas, todas elas reflectem alguma coisa sobre este mundo, a forma como vivemos. Não sei explicar porque é que o metal me faz sentir assim. Talvez seja por parecer falar apenas comigo e ao mesmo tempo dizer-me que não estou sozinha, que ali estão pessoas como eu que entendem, e mesmo que não entendam, não faz mal, porque a música já entendeu e já me disse algo, já me deu algo, já me levou para longe, já me deu bálsamo para a dor, já me salvou, já me acompanhou, já me saciou e já me deixou livre. São só momentos. Mas são momentos em que tudo faz sentido e em que relembro porque é que metal é para mim a melhor música do mundo. Hoje fez de novo sentido e ali, sozinha, com centenas de pessoas, encontrei-me de novo – ainda sou eu. E hoje levei-me a um concerto.

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o ano não é novo, tu é que podes ser

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2016 foi um ano demasiado longo e difícil para muita gente. Eu não fui excepção. Se calhar não foi diferente de muitos outros anos, mas todo o ano que chega ao fim parece sempre ser o melhor e o pior naqueles últimos dias do calendário. O mundo em geral parece estar a chegar historicamente a um qualquer turning point, e quem não ignora a história reconhece os sinais. Na verdade, temos poucos motivos para achar que um 2017 com Trump, com guerra e com a extrema direita a ganhar terreno possa ser melhor que o ano que passou. Mas todas estas coisas são demasiadamente gigantes para as conseguirmos contemplar e inferir sobre o impacto que vão ter nas nossas vidas, especialmente se as nossas vidas são privilegiadas, como a minha. Então em vez de nos focarmos nesta big picture incomensurável, olhamos para o nosso ano, o que nos está próximo, quem nos está próximo.

Estes últimos dias do ano, por algum motivo, têm o condão de nos fazer olhar para trás e passar os olhos no que fizemos, no que não fizemos, no que nos aconteceu, no que queríamos que nunca tivesse acontecido. É só um calendário e na verdade é só mais uma coisa que não é natural e foi previamente definida assim – convencionada. É suposto chegarmos ao 31 de dezembro e o ano mudar para outro, novinho em folha. Um ano novo é como aqueles cadernos e blocos de notas lindíssimos, com as folhas todas em branco, por preencher, com capas promissoras, a que as pessoas loucas por este tipo de artigos não resistem e que dão logo vontade de ir buscar uma caneta e… escrever o quê? O bloco é tão bonito. Limpo, novo, à espera. Imaculado. Todo um mundo de possibilidades nele. O que podemos fazer com ele? Tudo. Qualquer sonho é possível. É isto que um ano novo promete sempre. Que qualquer história vai ser possível, que todas aquelas coisas que o ano velho não nos deixou fazer vão finalmente acontecer neste ano novinho em folha e que nós, inspirados pela simples existência de novos dias por utilizar, os vamos usar para todas estas coisas incríveis. E prometemos mudanças. Prometemos mudar hábitos, prometemos que o nosso tempo vai ser usado de outro modo. Desejamos-nos mutuamente um bom ano – um ano melhor que o velho. E por uns três dias parecemos alinhados, colegas, desconhecidos, pouco conhecidos, amigos, familiares, amores – todas as pessoas com quem nos cruzamos parecem alinhadas nesta mesma esperança de que um ano com dias por estrear vai ser melhor. Ficamos como que suspensos nesta esperança, aqueles últimos dias do calendário é suposto serem de festa, e é difícil escapar a esta sensação. Este ano, eu achei que não ia ter esta sensação, mas entretanto aqui está ela, apanhou-me. Sim, venha 2017, esse ano novo. Por dois dias estamos suspensos nesta esperança, olhamos os dias velhos a irem-se embora. Já consideramos velhos até os restantes dias de 2016 que ainda nem passaram, mas também esses já são velhos, já passaram. Estamos de olhos postos nos novos, sincronizados numa esperança de renovação. É um sentimento de partilha, quase pagão realmente, e talvez por isso nos juntemos, com comida e bebida. E há quem faça listas. Há quem se proponha metas. Há quem estabeleça objectivos. Há quem coma as passas ao ritmo dos desejos. Há quem diga que não faz nada disto mas depois secretamente tem uma lista escondida. Há quem jure que não tem qualquer esperança, sem sequer reparar que já a alimentou inconscientemente. E, claro, há quem realmente não queira saber de nada disto e decida considerar o calendário simplesmente isso, uma convenção.

Eu sou apanhada entre estas várias sensações. Sou a pessoar que adora cadernos novos e que nunca os acaba de preencher. Sou a pessoa que se lança a novos projectos e não os termina. Sou a pessoa que faz listas. E sou a pessoa que sabe que o ano novo é só a continuação do velho e que todas aquelas coisas enormes que estão a acontecer no mundo vão continuar o seu caminho até novos pontos de viragem. Tenho medo do mundo de 2017, tenho medo pelos meus direitos de minoria e pela minha vida de minoria. Tenho medo pelos meus amigos de minorias, tenho medo por todas as nossas vidas, tão fortes, tão frágeis. E tenho medo e esperança por mim. 2017 não vai ser um ano novo, mas eu sei que vou ser nova nesse ano. Sinto as mudanças a confluírem dentro de mim também para um qualquer ponto de viragem e apesar de não saber o caminho exacto, sei, como o outro, “que não vou por aí”. E saber por onde não se quer ir já é alguma coisa. Mas, percebi também, que mais importante do que saber, é ir fazendo, ir sabendo, ir. Não tenho que saber tudo. Não tenho que ter tudo decidido. É bom ter sonhos e objectivos. É bom sentir que se começa de novo, mesmo que o ano seja velho ou que o novo seja mais uma normatividade a que obedecemos. Estou a sentir-me a mudar e mudar é o que vou continuar a fazer, não tem que haver um destino concreto porque o caminho é o destino – é aí que passamos a maior parte da nossa vida. E ela é curta, tão curta, para sentir tanta coisa.

Por agora, apesar de este ter sido o melhor e pior ano da minha vida, prefiro lembrar-me das coisas pelas quais estou grata. E estou grata por tantas coisas e pessoas e momentos.

Trying to be still
I wanna believe in a love that wants me back
I wanna believe that I can turn it around
Wanna believe that these changes are changing me, chasing me to find my way out
Try to not be small
I wanna believe that someone never lets go
I wanna believe that I can turn it around
Wanna believe that these changes are changing me, chasing me to find my way out

Brooke Candy


a noite mais (demasiado) longa do ano

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Quando todas as noites parecem demasiado longas e os dias também. Yule é só mais um dia com demasiadas horas. Quando dás por ti com vontade de voltar a viver em livros porque a realidade é demais, demasiada para ti e estás cansada, exausta dos dias todos e das estratégias para sobreviver só mais um bocadinho, só mais um dia, só mais um passo, só mais uma conversa, só mais uma viagem, só mais um caminho para o trabalho, só mais, mais, mais. Mas há dias em que é demais.

E gostavas de poder ir viver para Hogwarts, gostavas que o mundo parasse e que a vida daquelas pessoas fosse de novo a tua realidade, a única coisa com que precisas de te preocupar. Screw this, fuck this, I’m going to Hogwarts. Agarras em fanfiction de má qualidade, mergulhas nas personagens que te são familiares e redescobres o quão fucked up elas estão e tu também. E dás por ti a rebentar de realidade, sem aguentar mais o peso de fazer tudo sempre da forma que te custa mais, cansada de para ti nunca haver uma pausa no caminho que escolheste, perguntas-te novamente porquê, porque é que continuas a escolher este caminho de gente doida, porque é que para ti nunca há a opção simples, aquela em que não é preciso pensar muito e basta fazer o que toda a gente faz. Por momentos, sentindo-te louca, perguntas-te porque é que não escolhes simplesmente esse caminho iluminado, mais seguro, cheio de gente a fazê-lo, milhares de pessoas a quem podes pedir direcções caso te enganes, previsível, igual, em que poderias ligar o piloto automático e tudo continuaria a correr bem porque a história já estaria escrita por ti e feita mil vezes por toda a gente. Pensas, como o Harry deve ter pensado tanta vez, ser Muggle é mais simples. Como será não ter o peso do mundo todo em cima, o peso de fazer tudo da maneira que dói mais, como seria não ter sempre que estar a mexer em todos os medos? Como seria poder descansar desta hiperrealidade, como seria se por um momento tu conseguisses parar de pedir ajuda, de tentar, de falar, de tentar chegar, como seria se te pudesses desligar. E custa trabalhar, custa todos os dias vires fazer a tua vida normal com tudo o que de nela é anormal a acontecer ao mesmo tempo. E custa  conteres o choro, continuares a pôr um pé à frente do outro, custa não conseguires ouvir música nenhuma porque as boas doem e as más doem. Custa especialmente nestes dias quando vês que outras pessoas que fazem este caminho sorriem e lançam abraços e sorrisos e são raios de sol e tu sentes-te um sol apagado e perguntas mais uma vez: como é possível? Esgotada. Sem mais onde ires buscar um novo começo. Acordas todos os dias sem saber porque é que ainda funcionas, porque é que ainda estás ali e ao mesmo tempo quando imaginas desaparecer sabes que nunca o farias. Porquê? Dói o suficiente para quereres desaparecer, mas aprendeste algures que nada do que sentes deve ser assim tão mau, então sabes que seja o que for tu vais aguentar porque não sabes fazer outra coisa. Descobres que é possível estar esgotada e esvaziada e ao mesmo tempo a transbordar e pensavas que isso não seria possível e odeias transbordar ainda porque só querias poder parar essa corrente. Na tua cabeça haveria duas possíveis soluções: ou transbordas amor e és como aquelas pessoas que são cheias de luz e dão e dão e têm sempre mais e há sempre uma luz ao fundo do túnel e o copo dá sempre para encher outra vez; ou apagas-te e desapareces e deixas de fluir e de dar e de pedir ajuda e acabas. O que é que acontece quando não és nenhuma destas versões e te sentes como uma coisa inacabada entre uma versão e outra, te sentes ao mesmo tempo acabada e vazia e a rebentar com sentir demasiado? O que acontece quando nem tu consegues acreditar mais quando dizes: não aguento. Quando tu sabes que amanhã vais conseguir outra vez, mas não vais ser essa pessoa transbordante, não, vai continuar a doer e vais continuar no meio entre estas duas coisas, incapaz de ser a pessoa feliz, incapaz de parar a dor, incapaz de parares de pedir ajuda e de falar e incapaz de parares de sentir. É como se não fosses Feiticeira e também não fosses Muggle. Quem és então?

Estás cansada de ser sobrevivente. Estás cansada da luta. Começaste a lutar pequena, respondeste sempre a tudo e agora gostavas de poder parar de responder, mas tornou-se tanto parte de ti. Não consegues parar e estás farta de ti própria, desse grito contínuo, desse transbordar que é bom e mau e que te impede de colapsar e tu querias poder colapsar e fazer o mundo parar. Querias que por um momento toda a gente percebesse que tu não aguentas mais, querias que por um momento toda a gente parasse e te visse, te visse aterrorizada e transbordante e fizessem o quê? Nem sabes. Nada. Só que te vissem, só que soubessem.


és a feminista perfeita?

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o que é que achas?

se achas que sabes sempre o que é consentimento

se achas que abuso é preto no branco

se sabes sempre ver logo quem é feminista

se sabes julgar do alto da tua pose feminista

se te tatuas com feminismo em todo o lado

e se por isso te achas mais feminista do que a vizinha

se nunca te enganas ou és incoerente

se achas que nunca jamais em tempo algum serias abusadora

se achas que tudo o que fazes está sempre certo

se fazes posts a denunciar tudo o que vês

se respondes a toda a agressão

com mais agressão

verbal

banal

e pões palavras na boca de quem não as tem

se achas que podes chegar e falar pelas pessoas envolvidas

se achas que a tua voz é o que lhes dá força

as salva, coitadas

do jugo do inimigo

se te sentes a falar pelas oprimidas

se achas que és a voz de uma comunidade

não.

 

 

tu não és mais feminista

eu não sou mais feminista

do que quem não faz nada disto

aliás,

não sou mais feminista por escrever isto

mas estou farta

farta que te aches sempre mais, melhor,

segura da tua única verdade

aquela que apregoas

generalizas

tu chegas e vês logo tudo

não há nada que não saibas

o que não sabes,

sentes,

na pele.

é a tua experiência

então sabes

sentes

que a minha é iludida

desfasada

julgas-me com o que sentes

e os teus sentimentos justificam tudo

porque se tornam

verdade.

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mas não percebes que te podes enganar

não percebes que é fácil ser feminista

e trair,

magoar,

enganar,

abusar.

pensas que estás

nas olimpíadas do feminismo

essa é a tua grande luta.

não és mais feminista do que ninguém

se a tua lógica é um dedo no ar

acusatório

olhem, olhem para estas pessoas que se dizem X e não são!

cada vez que calas a voz das outras para pôr a tua

não estás a ser feminista

se calhar este meu texto não é feminista

não faz mal

eu não quero estar nessa competição

de dedo em riste

PC em riste

competindo para ver quem tem o facebook mais feminista

quem é activista desde que se levanta até que dorme

atenta a ver onde estão as falhas dos outros para podermos apontar

e ganhar

ganhar o quê?

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ser feminista é ser perfeita?

quantas feministas conheço eu que já me calaram?

que já silenciaram vozes dissonantes das suas?

em quantos espaços feministas me senti eu bem?

online – nenhum

de todos me fui embora

ninjas, heroínas, brancas

não diferem assim tanto de mim

só não me acho uma ninja de nada

alguns dias só estou a tentar continuar

vamos ver quem é mais

fufa

feminista

activista

boa poly

mente aberta

descomplexada

esclarecida

quem denunciar mais ganha

quem levantar mais o dedo ganha

oh não

não levantes a voz

olha o tone-policing

olha a comunicação não-violenta

somos todas

vigiadas

tramadas

não escrevemos sem medo da reacção

oh quem me vai cair em cima depois disto

quantas quantas

olha, estás a fazer aquilo que denuncias

so what?

será que ajuda?

será que faz ainda pior?

só não me vendas o teu feminismo como melhor

porque falas em género neutro

e termina tudo em e

ou x

e és sempre mais inclusiva

mais reactiva

mais in your face

e nunca tens medo

de nada

nem de ninguém

nem de apontar dedos

ou talvez não

porque depois acontece a vida

e que se dane a inclusão

olha a merda

dá trabalho

pois

é mais fácil fazer posts

mas a guerrilha online é importante

as palavras são refúgio e armas

eu uso-as também como terapia

mas depois

o consentimento é fodido

poly é lixado porque

não é fazer o que queremos

quando queremos

porque queremos

ao ritmo que

nos dá

na real gana.

é saber o meu limite

o teu

e de toda a gente

e estar disposta a todos os dias

todos os dias descobrir mais

pensar mais

falar mais

tentar de novo

errar e tentar outra vez

voltar atrás

andar devagar

mesmo quando queremos ir a voar…

e sem dedos no ar

sem acusações

sem procurar o bode expiatório

a atitude mais não-feminista

a pessoa que está a fazer a merda

e que é o problema

guess what

relações têm sempre problemas

de mais do que uma pessoa

esquece a suposta culpada

onde queres largar a tua responsabilidade

atitudes não-feministas

são o pão de cada dia

mesmo,

incrível,

entre activistas, feministas, corajosas, inseguras, sensíveis.

se algum dia consegues

passar 24 horas

sem uma

parabéns

toma uma medalha

oh parabéns

és a maior

feminista

do

mundo

mas eu, eu só consigo ser feminista às vezes

pois, não dá sempre

às vezes digo coisas que são muito pouco feministas

o que importa é que

sei isso.

penso

aprendo

tento de novo

e sei, sei que nunca vou ser sempre feminista

perfeita

incrível

tu és feminista de manhã à noite?

boa

bom para ti

eu fico contente com os momentos em que sou

em que consigo ser

apesar da merda de sociedade em que vivemos

e quando não sou

não consigo

não quero ter que me culpar

martirizar

chega de cristianismos

a coisa menos feminista que podemos fazer é entrarmos em culpas

não faz mal se és só feminista na net

e então?

só nao te aches melhor.

toda a gente faz merda

feminista ou não

toda a gente

isto é um processo

feminismo não é uma cena acabada

que pegas e dizes: tá aqui

espeta a etiqueta em cima

pronto, tá feito

‘olhó feminismo

fresquinho

acabadinho de sair

o meu é melhor que o teu

porque eu denuncio

tudo

e falo assim:

iuzomis

omis

male tears para o pequeno almoço!

se há um homem,

de certeza que é ele o problema

pois como posso ser eu?

sou uma gaja tão feminista

minoritária

oprimida

ó p’ra mim

sou tão oprimida

mas sou branca

tenho casa

sou jovem

posso estudar

sair à noite

comprar roupa

eh pá, sou privilegiada em algumas coisas

mas falo assim:

iuzomis

entao ’tá tudo bem

eu chego e sei sempre

avalio logo a situação

dedo em riste

check your privilege

call out

mas só do que me interessa

eu é que sei

cheiro manipulação à distância

porque a verdade é só uma.

olha, não fizeste trigger warning

mas eu lembro-te

olha, sou simpática

vês

estou a alertar-te

porque eu sou

esclarecida

consciente

iluminada.

quantas vezes

também já o fiz

entramos na lógica

e depois é difícil sair

feminismos são muita coisa

alguns eu nem sequer gosto

pára de achar que a etiqueta te defende

não vai resolver quando tu própria

te tornas naquilo que criticas

mas claro,

contigo isso nunca acontece, não é?

estás imune a isso.

o que interessa

é o que fazes depois

quando parares de te ocupar

com os dedos apontados às outras

talvez aí

tenhas tempo

para trabalhares em ti

pára de te ver como coisa acabada

não aches que atingiste o topo da sabedoria já

se não

o que vais fazer com o resto da tua vida

se as perguntas têm todas resposta

se não tens dúvidas

se te cobres de certezas da cabeça aos pés

se sabes sempre onde está o inimigo

se já lhe puseste um letreiro

e atiras as sete pedras que tens na mão

e não,

não estou a dizer para tolerares agressão

estou a dizer que

as nossas retóricas feministas

às vezes embrulham-se

e tornam-se tão pouco feministas

analisa-te

repensa-te

não faz mal dizer

eu errei

enganei-me

fiz mal

agora estou a fazer outra coisa

não faz mal

perceber

que falhas

não faz mal

que as tuas escolhas mudem

que percebas e voltes atrás

que haja incoerências

não faz mal

se simplesmente

não sabes.

eu tenho mais medo das certezas

sobre elas foram construídas religiões

e ditaduras

fiquemos pela dúvida

a filosofia saiu daí, mas é demasiado masculina

por isso usemos as perguntas

as nossas

todos os dias eu duvido

todos os dias me pergunto o que raio estou a fazer

cada

vez

sei

menos.

quanto mais pessoas amo

menos sei

como é que isto se faz

bem.

whatever.

 

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olha, conta a tua história

não pares de falar

nada é demasiado pessoal

mas não aches que a tua história

fala por outros

não aches que é a verdade

há mil verdades

não te sintas o arauto da verdade de toda a gente

não tentes com a tua história calar as outras verdades

nem menorizá-las

deixa de ser uma questão do que tu “sentes”

quando impões isso a outras pessoas

não, ninguém é sempre feminista

aceita isso

não, não és a feminista perfeita

não vês

que estás a naturalizar

uma nova opressão

aquela que cala as pessoas com quem tiveste

problemas pessoais

ou que se calhar

dizem uma coisa

e depois chega a vida e fazem outra

então,

não és como aqueles textos bonitos que escreves

não és nada assim

és uma pessoa horrível

as outras pessoas deviam todas saber

o mundo inteiro devia saber

que não és como os textos que escreves.

pois não

pessoas não são textos

pessoas não são escrita

pessoas dizem muita coisa

que não fazem

mas mais que isso:

pessoas mudam

pessoas crescem

pessoas fazem coisas diferentes

portanto

podes parar de cristalizar as pessoas

para as meteres na tua definição delas?

podes perceber que pessoas não são coisas

congeladas no tempo

e que se movem

e que se mudam?

pára de achar que só tu é que sabes

o que é legítimo

e pára de

te cobrires

de puro feminismo

que te torna

autoridade

na vida de toda a gente

que julgas

a partir do que sentes

porque és

mais consciente

e nunca tens medo

e por isso estás cheia de certezas.

fica com a medalha

fica com a reputação

de boa

incrível

feminista

activista.

ou então

sei lá

deixa-te disso.

Imagens: ambivalentlyyours.tumblr.com; a-thousand-words.tumblr.com; br.pinterest.com.


Curar corações partidos com Virginia Woolf por Inês Rôlo

Texto que escrevi para a Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

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Este livro salvou-me duas vezes.
Não me curou o coração partido em nenhuma delas,
nem me tirou da tristeza ou escuridão,
mas disse-me que não estava lá sozinha.
Estava eu, Virginia, as suas personagens e milhares de pessoas neste mundo.

Cada vez que tento explicar a alguém porque é que To The Lighthouse (Rumo ao Farol) é tudo para mim enredo-me em mil ideias ou fico sem palavras. Digo apenas: “lê. E se puderes, lê no original, não leias traduções”. É impossível explicar porque é que Virginia Woolf é um mundo em si mesma – e uma forma de pensar sobre os mundos interiores, mundanos, imaginários – a alguém que nunca a leu. Uma vez fui a um clube de leitura sobre este livro. Estavam 40 pessoas na sala. Cada uma disse o que a marcara mais no livro. E numa sala cheia de gente que leu o mesmo livro…

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Nós temos tão poucas ferramentas do coração

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Consigo esgotar a dor nas palavras? Se continuar a mexer na ferida abro-a ainda mais ou arranjo maneira de a curar? A metáfora não é boa. Se continuar a mexer vai infectar. Bolas, eu queria um botão que me apagasse isto do peito, o peso é tão grande que me sinto encolher em mim mesma, sobre mim mesma. Colapsar, é a palavra e só me lembrei agora depois de chegar ao fim deste texto.

Sabem quando têm uma dor tão grande, tão grande, tão grande que é como se uma mão tivesse chegado ao vosso centro e apertado, puxado e atirado aquilo ao chão sem mais e vocês só pensam: foda-se. Vai-se o ar. Foda-se. Como é que é possível viver assim? Trabalhar assim? Acordar todos os dias assim? Adormecer? Sou uma pessoa ou sou… sou o quê? Sou uma pessoa, pois. Se dói assim é porque sou uma pessoa. Como é que se passa o tempo com dor para a frente? Fazer um fast-foward nisto, não para ficar sem essa experiência, não, eu não me importo com carregar a memória da dor toda, só-não-quero-mais-cada-minuto-segundo-intensivo-de-dor-constante.

Ah, mas ainda consegues escrever. Ainda consegues falar sobre isso. Não deves estar assim tão mal.

Foi sempre a escrita que me salvou. Eu estou só a ver se resulta outra vez. Este texto provavelmente não vai ajudar mais ninguém além de mim. É que eu não sei o que fazer com esta dor. Onde é que a hei-de pôr? Pela primeira vez eu quero uma caixinha para ela, como tenho para os objectos que nunca mais quero ver. Esses vão ficar debaixo da minha cama, anos, se calhar. Não os mando fora, não os enterro na rua, ou os mando ao mar, não. Apesar do nunca, quero saber que um dia posso abrir aquela caixa e receber uma lufada de memórias de dor e felicidade em cheio na cara. Quando tiver 60 anos. Quando já não me lembrar de onde te conheci. Mas bem, eu vou lembrar-me, a menos que tenha Alzheimer. Vou lembrar-me de tudo, até do que não aconteceu e das saudades que tenho disso que nunca aconteceu. Dizem que depois já não nos lembramos da dor tão bem. As outras coisas ficam. Aquelas que não eram más. Não consigo ver como, agora. Então queria só essa caixinha. A caixinha da dor. Não preciso de uma para a minha identidade, só preciso de uma para pôr alguns anos da minha vida e tudo o que me deste e nunca mais te quero ver. Mas quero. É estranho como a dor é um abismo que nos puxa, nos puxa cada vez mais para o centro, para depois fazer centrifugação connosco. Estou farta. Temos vertigem da dor e atracção do abismo da dor e ao mesmo tempo não há grande diferença entre mim e essa dor.

Nós temos tão poucas ferramentas do coração. Não nos sabemos curar, não sabemos cuidar-nos, não sabemos como termos compaixão por nós. Como é que me embalo a mim mesma? Vai passar, vai passar. Não consigo acarinhar-me com palavras, estou a tentar, mas eu não acredito na minha própria voz. Que ferramentas temos ao nosso dispor? Será que as sabemos usar? Quando te dói, a ti, o que é que fazes? Tu, anónima, pessoa com dor? Acredito que haja estratégias, eu sei, eu também as tenho. Escrever. Ler. Estar ocupada. Amigues. Família. As outras pessoas, sim. As outras pessoas. A nossa cura para a dor que as outras pessoas nos trazem são, ironicamente, outra vez, outras pessoas. Novas, mesmas, sejam quem forem. Dores que ainda não vieram, que ficam logo no horizonte de possibilidades e nós sabemos, sim, sabemos.

Hoje desactivei as memórias do Facebook. Vão para a caixinha, não as quero ver. Mas continuo a fazer novas memórias e talvez um dia tenha que desactivar essas também. Ou não. Este repositório colectivo online traz para a vida tudo que precisamos que esteja morto, mas isso quer dizer que também mantém imagens do que está vivo e a acontecer. É só para não nos esquecermos ou para enlouquecermos, é parecido. Preciso ainda de arquivar as fotos do telemóvel, tirá-las de lá e remetê-las a um disco, afundadas entre mil ficheiros esquecidos. Pedaços, pedaços em todo o lado.

Enquanto isso a dor continua. Não preciso de nada que me lembre porque é constante, contínuo. Não há caixa para o amor, nem para o que fica depois dele. Entretanto, espero, espero só, que o Sérgio Godinho tenha razão, que saiba do que está a falar. É que eu não sei.

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Imagem: Emo Broken Heart by AkatsukixShihana on DeviantArt