Fake it, till you make it

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Faço coisas, faço muitas coisas e falo com pessoas e digo o que sinto e por dentro estou a morrer. De dor, de insegurança, de achar que nunca mais vou sentir amor ou ser amada ou seja o que for. As coisas boas são uma ilusão, nunca conhecemos ninguém realmente. Podemos achar que sim, mas às vezes os nossos piores medos tornam-se mesmo realidade. Às vezes aquela pessoa vai mesmo deixar-nos, às vezes não vai mesmo escolher-nos e tentar novamente, às vezes vai mesmo prometer coisas que não pode ou consegue cumprir e nós vamos acreditar e depois vamos ficar com um buraco por dentro, onde estava a centelha que nos fazia confiar. Somos empurradas contra a parede porque ou nunca mais acreditamos em ninguém ou simplesmente continuamos a acreditar e reconhecemos que é muito possível que volte acontecer.
Nada de novo aqui. As pessoas fazem merda. As pessoas magoam-se. Sofrer faz parte da vida. Ok. Eu sei. Não é a primeira vez que sofro.
Continuo a fazer coisas. Tento convencer-me de que ainda valho a pena. Para mim, para outros. Fake  it, till you make it. Fake it, till you make it. Às vezes dou por mim a forçar-me a rir. Não, não estou bem, não estou feliz, estou só a tentar não parar de sentir coisas, de estar com pessoas. Que sentido é que faz? Sinto que uma das piores coisas da minha vida aconteceu e eu ainda me rio? Faço piadas? Encolho os ombros para a amiga que olha para mim “mas vocês eram tão queridas uma com a outra, gostavam tanto uma da outra, como é que isso aconteceu?”

Olha, eu não sei. Estou magoada. Sinto-me abandonada e trocada, não sei como é que isto foi acontecer, mas sei que todo o amor do mundo que tínhamos uma pela outra não fez como que fossemos capazes de nos entender. Não conseguimos. Falhámos. Lá atrás, eu lembro-me, houve crises de ansiedade muito más e eu achei que era tudo culpa minha, mas a verdade é que tenho que parar de me culpar. Não foi culpa minha, uma relação nunca acaba por culpa de uma só pessoa, são precisas pelo menos duas para fazer merda. E a verdade é que ela desistiu, desistiu de mim, desistiu de tentar e foi à procura da vida dela para outro lado. Chega. A pessoa com quem eu partilhava a minha vida todos os dias quis ir-se embora. De um momento para o outro fez aquilo que me prometeu sempre que não faria. Foi a segunda vez que isto aconteceu. E desta vez eu fechei todas as portas que antes tinham ficado abertas. Nunca tinha fechado as portas a esta pessoa. Mesmo com a porta fechada, sabemos que as pessoas ficam, algo delas fica e só o tempo leva o que magoa.

Este texto é ridículo, cheio de lugares-comuns.

Porque é que voltei a escrever? Porque é que estou a fazer isto e tantas outras coisas? Como é que tenho energia para ir trabalhar e agarrar novas responsabilidades? Como é que me estou a permitir voltar a falar de sentimentos com pessoas? É que eu não acredito em mais ninguém. Eu não vejo porque é que alguém há-de olhar para mim, não vejo onde está o interesse e ao mesmo tempo continuo ali. Porque é que faço isto? Se calhar tenho medo de desaparecer. Se calhar é porque as pessoas continuam a querer estar comigo, também não entendo. Como é que ainda acontecem coisas boas? Como é possível que no meio disto ainda haja vozes de quem nunca me deixou e continua lá? Como é possível existirem novas pessoas? Olha, eu estou a gostar de ti. Como é que eu ainda consigo responder a isto? É que eu não estou a funcionar bem por dentro, não estou. Não sei responder a coisas boas.

Continuo. O dia a dia parece outra vida, uma sucessão de coisas que faço para continuar a existir. Olhem, vêem? Estou a viver ainda.

Mas depois volta tudo. Basta uma memória, um cheiro, um lugar, um objecto. É engraçado como as pessoas ficam nas coisas. Devia ser simples porque as coisas podem ser eliminadas. É o que faço, metodicamente. Trouxe umas pedras verdes que apanhei numa praia banhada pelo mar Coríntio na Grécia. Eram para ela, mas entretanto atirei-as para as ondas do oceano Atlântico. Preciso de não ver mais algumas coisas, pô-las onde não as veja, mas nesse momento já as vi e já doeu. As redes sociais multiplicam isso, mesmo quando fizemos tudo o que podemos para nos proteger há sempre uma amiga de uma amiga de uma amiga que vai pôr uma fotografia e trazer tudo outra vez. Tenho a certeza que isto é ridículo, que muitas pessoas estão a pensar: é normal, faz parte do processo, tens que passar por isso, acontece a toda a gente. Sim, é. E então?

O mais estranho é que no meio disto percebi algumas coisas. Apercebo-me lentamente de tudo o que deixei para trás, de tudo o que deixei de fazer antes. Só me apercebo porque agora estou a fazer essas coisas. No meio disso, sem reparar, abri novas portas: a outras pessoas, a outras coisas que nunca tinha feito e também reabri portas a quem já cá estava e sentiu a minha falta. São só frestas, porque não, não consigo escancarar as portas, mas estão ali e a luz entra. A luz ainda entra.

ondas

A água é fresca mas não tenho frio. Estamos nuas, não me importo. A vergonha que tive deixei-a no areal. As ondas chegam com força, embatem no meu corpo nu e não faz mal. É agreste esta força do mar, só lhe sinto o poder que me atira ao chão e me transporta. Sinto-me diferente. Como se uma vida se tivesse passado entretanto e eu saí do outro lado do tempo e sou a mesma e sou outra. Tenho dor. O mar está a levar essa dor para longe, grito. Ela grita também. Somos atiradas contra a areia e rimos. Tenho o cabelo colado à cara, o corpo frio, a pele onde pousou o sol quente por baixo, mas as gotas por cima, estou cheia de areia, engulo água, mas tudo vale a pena. Este é mais um dia, é mais um dia depois da dor, durante a dor, mas escolhi o mar, escolhi o sal, escolhi estar nua com ela e passarmos essas horas a esquecermos a dor, a lembrar-nos dela a cada momento. Pensei que devia ter frio mas só depois de ser atirada e levada por mil ondas é que esse frio chega. A manhã torna-se tarde, ficamos ao sol só o tempo de sentirmos o corpo quente e de nos perdermos numa nova conversa, numa conversa que nunca parou e que continua sempre. Sinto-me virada do avesso. Não tenho o coração cá fora porque o tive que guardar algures entretanto, mas tudo o resto está cá fora. Às vezes falo sem dor e é como se estivesse a recordar coisas boas de outra vida. A dor parece que só me atinge mais tarde, quando estou sozinha, quando já falei tanto e me deixei ir a sítios que não sabia. Como estar nua numa praia e não me importar. Como aperceber-me que o meu corpo está vivo ainda e responde ao mar e não saber como. Como é que estás ainda vivo? Como é que ainda gosto de ti e me sinto bem neste corpo? Senti no mar. No mar senti que esse corpo era meu ainda. Que ainda podia fazer coisas com esse corpo, que ainda podia deixar-me ir a zonas fora das minhas fronteiras, talvez amar (?), pelo menos o corpo ainda pode amar, mesmo que mais nada. Pode amar o mar, pode amar a sensação de me perder, pode sentir-se expandir para fora do que me conforta e ficar aí a sentir as coisas todas com uma força que me extravaza.

Não quero que este seja o último dia de verão.

Nunca disse isto antes, mas não quero. Preciso do mar, preciso de voltar ali e sentir-me nua e vulnerável e deixar-me ficar nisso umas horas, mais umas horas. O tempo começou a passar de forma diferente, gira à volta de mim agora, à volta do que estou a tentar fazer comigo, do que não consigo fazer, do vazio que sinto, mas não estou vazia. Avancei para as ondas frias e deixei-me estar com elas, não estou vazia, estou cheia de perda e de medos e de espaços abertos e agora o que fazer com isso? Temos conversas na praia, conversas que nunca acabam. Volto a expôr-me a falar de mim, das minhas coisas, volto a ser vulnerável, mas sim, não totalmente, não, estou magoada. Estou tão magoada, é difícil recomeçar. Difícil voltar a confiar, difícil não me sentir votada ao silêncio, ao desaparecimento. Estou a continuar a falar porque não morri. Dói, é sinal que estou viva e que algo aqui dentro continua a funcionar. Todos os dias vou mais um bocadinho, às vezes ando para trás e sinto-me de volta ao abismo. Outros dias há ondas, como hoje, ondas e ondas e ondas de coisas boas e no fim choro. Não estou bem, estou a sofrer, não faz mal. As ondas continuam, para cima flutuo, viajo, estou a ir longe, para baixo, vou ao fundo, embato na areia, não faz mal, levanto-me, lá vem outra onda, mergulho, volto ao de cima, lá vem mais uma, vou com ela, rio, dói-me, vou ao chão, rio, tenho um vislumbre de felicidade, mas não, ainda dói, estou noutra onda, o sol está quente, a água fria, mas não sinto frio, só me sinto, ouço-a rir e levantar-se e enfrentar as ondas, eu levanto-me, estou nua contra a parede de espuma que rebenta contra as minhas pernas, as minhas pernas resistem, estou a enfrentar aquela onda, a minha cona enfrenta aquela onda, forte, explosiva, sou um corpo, tenho um corpo. Oh. Estive feliz. Dói. Foi-(se) um amor. Dói. A dor não passa, mas muda. E eu tenho outras ondas para apanhar.


Coração partido, rama em flor

Publicação do texto que li no Festival Feminista Rama em Flor, no dia 15 de setembro. 

Ilustrações de artistas publicadas na Zine Rama em Flor.

Uma parte grande de mim não queria estar aqui hoje. Não queria vir falar de poliamor, nem de lésbicas, nem de amor. Quando me comprometi a estar aqui a minha ideia era falar de amores poly, de ser uma mulher queer e de visibilidade lésbica. Não consigo falar-vos agora dessa forma, porque estou de coração partido.

Não sou uma especialista em poliamor. O único poliamor que sei fazer é aquele que fiz na minha vida, com as pessoas com quem estive. E mesmo nesse fiz merda. Apercebo-me cada vez mais dos limites do poliamor que eu faço – é só a fórmula que vai resultando para mim e para as pessoas com quem me cruzei. Na verdade, não é uma fórmula. É um processo constante.

A única coisa de que eu posso falar é de um poliamor que é um conjunto de tentativas e erros, de coisas que correram bem e mal.

Eu e uma das pessoas com quem estava acabámos. We fucked things up. A nossa relação poly e lésbica acabou. Os motivos pelos quais acabámos não tiveram quase nada a ver com  com sermos poliamorosas.

Estou a fazer um esforço por vos falar de uma experiência dolorosa da minha intimidade porque acho que essa partilha pode ajudar. Ser poliamorosa não nos salva de sermos dependentes. Estarmos apaixonades por alguém pode fazer com que nos esqueçamos de nós mesmos e mesmo com uma família poly à volta para nos alertar para isso nós podemos não querer ou não conseguir ouvir. Ser poly não nos impede de passarmos a viver para outras pessoas e nos esquecermos de cuidar de nós. Podemos falar constantemente sobre um assunto e achar que estamos a comunicar e mais tarde descobrirmos que não estamos porque a outra pessoa não percebeu o que queríamos dizer, ou porque interpretou de modo oposto, ou porque a outra pessoa ficou magoada com o que dissemos. É possível passar horas em conversas em círculos que só magoam e não tornam ninguém mais sábia. Podemos ser honestos e a nossa honestidade magoar as pessoas com quem estamos. Podemos não ser capazes de dizer o que nos está a magoar e só nos apercebermos muito mais tarde quando já muita coisa se acumulou. Podemos precisar de coisas diferentes das que a pessoa com quem estamos precisa e podemos estar a pedir aquilo que essa pessoa não nos consegue dar. Tudo isto leva tempo e tudo isto implica aceitar que a dor vai ser sempre parte. Como é que separamos a dor que nos faz crescer da dor que nos está a fazer mal? Como é que sabemos o que é preciso dizer, e o que atinge e magoa de tal forma a outra pessoa que a honestidade se torna uma agressão? Ser feminista não nos salva de termos atitudes tóxicas, de tentarmos controlar a situação à nossa volta porque estamos cheias de medo. Falar honestamente com todas as pessoas envolvidas não impede que se faça merda depois. Preocupar-nos com os sentimentos de todas as pessoas envolvidas não impede que de repente nos esqueçamos disso. Não implica sequer que toda a gente envolvida tenha a mesma noção do que é um compromisso e o que isso implica.

Há uma teoria poly que é muito bonita, que se baseia em comunicar sentimentos. Isto tem tantos problemas que nem sei por qual deles começar. Há pessoas que não sabem o que estão a sentir. Há pessoas que não se conseguem expressar. Há pessoas que não conseguem interpretar. Não é falar que nos vai salvar. Há tantas possibilidades de erro aqui que mais vale reconhecermos que cada vez que falamos é sempre possível estar a haver alguma coisa perdida na comunicação. Isso não quer dizer que vamos deixar de falar, só quer dizer que temos que saber que não se resume a ser honesta. É preciso saber ouvir, é preciso falar mais que uma vez, é preciso respeitar os acordos que fazemos com alguém. E isto tudo é na mesma um processo. Os acordos mudam. Os limites mudam.

O amor não é só um sentimento, essa é a parte simples. O amor é uma coisa que se faz, é um processo, é uma ferramenta, é tudo isso ao mesmo tempo. Nós como sociedade não aprendemos este processo, não aprendemos nada sobre esta ferramenta nem sobre este caminho, aprendemos as formas de o controlar, de o restringir, de o privilegiar, de o garantir, de o por a render. É por isso que a monogamia é a forma preferida. Ela torna a viagem menos assustadora, põe regras em cima do que mete medo e apresenta a solução eficiente para quando falha: acaba, passa para o seguinte, aquela não era a pessoa para ti. Deixa-nos o ego mais ou menos protegido, porque a culpa é da pessoa má/desadequada a nós. Sofremos mas sobrevivemos. Quando acabamos uma relação poly não estamos protegides assim. Temos o coração partido e é esse mesmo coração que, por exemplo, continua a ter outres companheires. É uma relação que acaba e não todas as que temos. Às vezes há tanta gente envolvida na situação que é preciso que as relações continuem mas com outros nomes e formas. Às vezes as pessoas vivem juntas em grupo e não podem simplesmente cortar e desaparecer.

Parte de mim sente-se uma impostora aqui. Venho falar-vos de poliamor, mas acabei de falhar numa das minhas relações poliamorosas. Como se eu tivesse que provar que sou boa poly, tal como tenho que provar que sou uma lésbica real porque não o pareço; como se tivesse que ser melhor a fazer isto que qualquer pessoa no mundo só porque escolhi ser poly; como se tivesse que mostrar de todas as maneiras que sou lésbica, porque caso contrário a minha identidade é tomada por hetero. Com menos uma relação, sinto-me menos poliamorosa e ao mesmo tempo menos lésbica e mais invisível. Como se a presença de relações fosse aquilo que provasse o meu estatuto de lésbica e poliamorosa. Agora já não “tenho” uma namorada e um namorado. Só tenho um namorado e portanto sou menos poly e menos lésbica. Ninguém vai ver que sou lésbica ou poly. As minhas identidades ficam apagadas até que circunstâncias as mudem. Ou volto a procurar energia para lutar pela visibilidade das minhas identidades independentes das pessoas com quem estou.

Desde que isto aconteceu na minha vida, e eu me senti mergulhar na escuridão, que tem havido pequenos pontos de luz. Tantas mulheres activistas, feministas, poly, bi que me deram a mão e disseram que também já se sentiram falhar, que já viveram/vivem com depressão, com ansiedade (como eu), que já se sentiram monstros a ponto de não se reconhecerem nas suas ações, que já se perderam em relações, que já magoaram e foram magoadas de tantas formas, que tiveram que começar tudo de novo sozinhas. É duro reconhecermos que erramos, que sofremos, mostrarmos-nos frágeis perante outres e é díficil não entrarmos numa onda de culpa, de nos vemos a nós mesmas como monstros ou como falhanços. Eu ainda não me perdoei a mim mesma, ainda acho que tenho que ser melhor.

A ideia de que isto é uma forma revolucionária de amar e que somes uma especie de guerreires de amor a tentar fazer coisas difíceis é só uma ideia bonita que nos dá força quando sentimos o mundo todo contra nós, a julgar-nos como se soubessem toda a nossa vida. É uma forma de defesa porque nós só somos tão revolucionárias quanto a forma como lidamos com os nossos erros. Não temos poderes mágicos. Somos pessoas.

Obrigada Rita, Helena, Ana Cristina, Noémia, Érica, Inês, Lúcia, Nya, Jeanne, Clara, Carmo. 


Ansiedade, meu amor

Quando estou a sufocar não consigo dizer que te amo. Quando estou a sufocar não sei se te amo ou não, sei só que dói e que gostava que a dor parasse, só não sei como. Tudo o que era bom há um minuto atrás desaparece e é substituído por outra coisa, como se nunca tivesse sido. Uma realidade falsa. No momento da ansiedade só a ansiedade é real, só essa é a verdade, a única que existe e de precisamos.

Quando estou a sufocar não consigo falar, não te consigo responder. Porque se te responder, não vai ser comigo que vais estar a falar, mas com ela. Ela é a ansiedade. É nessas alturas que falo mais, uma verborreia interminável e incontrolável, uma incontinência de coisas. Escrevo frases e frases e frases e envio em catadupa. Levas com elas. Não leio o que respondes porque não consigo reter informação. Não consigo acreditar no que me dizes, porque a ansiedade está a dizer-me que o que é verdade é o que ela diz. E tu estás a mentir. Eu não consigo falar, estou só a tentar respirar, a tentar parar as lágrimas e a sensação de que um pouco mais, um pouco mais e é o limite. Enquanto isso os meus dedos escrevem e magoam-te. Eu não consigo falar, mas ela consegue. Ela sabe sempre o que dizer, sabe sempre como o dizer da melhor forma para ela. Com espinhos. Com pontas afiadas. Espeta espeta espeta. Fura. Perfura. Eu também estou a ser perfurada ao mesmo tempo, mas incapaz de parar. Continuo a verborreia de coisas. As tuas respostas não contam para nada, estás a mentir. Eu sei a verdade, porque eu tinha imaginado que era isto que ia acontecer, e olha, aqui está, eu tinha razão, vês? Levo um puxão. Vês? Pergunta a ansiedade. Vês como não havia motivo para me combateres? Eu disse-te que isto de que tens medo ia acontecer. Eu disse-te para teres cuidado e te safares antes mas tu não quiseste ouvir e agora aqui está. Eu disse-te. Tu sabias. És uma idiota e mereces isto, já sabias que ia ser este o resultado.

Não, não te consigo dizer que vou conseguir ultrapassar isto. Não te consigo dizer que vai ser melhor porque neste momento só vejo que estou sem ar, que é demais, que o limite está ali e eu cheguei a ele e não, não vou conseguir ir além dele, tenho a certeza.
E quando estou assim não vou dizer que vai haver o dia seguinte. Vamos acabar, não vai dar, não consigo, não aguento. Porque é que sou poly? Porquê? Eu não consigo fazer isto. É melhor acabarmos. Eu não vou conseguir suportar esta dor cada vez que estiveres a conhecer outra pessoa e a interessares-te por ela. Eu não vou aguentar isto de todas as vezes.  Só sinto o peito pesado, a dor, o sufoco impossível.
E penso o pior. O pior é a realidade, é a única verdade. Penso que o que temo mais já está a acontecer. Em dias piores, tudo o que pode correr mal já foi pensado por mim mil vezes. Todos os cenários possíveis em que sou abandonada, em que me mentem, me enganam, me traem, em que sem saber faço figura de idiota – tudo o que pode acontecer de mau já foi pensado por mim. Eu não consigo sequer enumerar, ou dizer do que tenho medo, porque às vezes só tenho medo de perder e não sei porquê ou que forma isso tomaria. Sei uma coisa: nunca ninguém me apresentou um cenário mau em que eu não tivesse pensado já. Nunca.
Ansiedade é nunca ficar surpreendida com o que acontece porque já pensámos mil vezes nesse cenário e já sentimos o que isso nos ia trazer e de repente se acontece então sabemos que todo aquele sofrimento não foi em vão – era a ansiedade a avisar-nos para fugir rápido, mas nós ficámos ali e agora? Agora pagamos o preço.
Há uns anos atrás quase deixei de ser poly à conta disto. Quase acabei com o meu namorado. Foi um ano inteiro desta opressão que me tira tudo. Um ano inteiro no limite das minhas forças, um ano inteiro de desespero, de me sentir a quebrar, de fazer merdas, de discussões, de espetar e espetar e furar quem amo uma e outra vez e de me furar a mim mesma de cada vez.
Quando estou a sufocar podes dizer o que quiseres porque cada coisa que disseres é mentira. Podes dizer: “estou aqui para ti” e a minha ansiedade responde com a verdade. “Não, não estás”; “Ou sim, até quando mesmo?”; “Ah estás? Não se nota”; “Ah e quando estiveres a falar com a outra pessoa, também vais estar?”. Claro que não. Eu sei a verdade. Não vais estar. Não vai dar sempre. A minha ansiedade vai ter sempre a resposta para tudo o que me digas, vai sempre saber o que eu mereço e tu não. Vai sempre saber que vou acabar sozinha. Que não sou nada de especial. Que há sempre alguém melhor. Que vais descobrir em breve que outra pessoa é melhor.
A ansiedade também sabe que era mais fácil eu não ser poly. Sabe que isto é demasiado para mim, que é tão difícil que se vai provar mais tarde ou mais cedo que não dá. Que não dá para mim. A monogamia acomoda as nossas ansiedades. Se há um novo envolvimento, então podemos manter uma réstia do nosso ego, montar os cacos se nos partirem o coração, dizer merda de quem nos trocou e passar à frente sentindo que ultrapassaremos, mais tarde ou mais cedo, esse passado. E estaremos, como corre a lenda, mais fortes então. A nossa ansiedade fica acomodada, é afagada e acarinhada por quem nos apoia. No poly não há acolchoamentos destes. Está tudo ali em carne aberta e o que é um dia, no outro muda. Ou aguentamos a viagem, ou mais vale fazermos malas e irmos por outro caminho mais ameno.
A ansiedade não gosta deste caminho atribulado, cheio de mudanças. Gosta das coisas estáveis, seguras, iguais, em que sabemos com o que contar. O poly tem muito pouco disto. De um dia para o outro pode aparecer uma nova pessoa e aquela estabilidade a que nos estávamos a habituar pode esfumar-se de uma dia para o outro. Sem aviso, de repente. Puxa-se o tapete de debaixo dos pés. Falar faz-nos aguentar isto, diz a lenda do poly. Mas a ansiedade compadece-se pouco com conversas. As conversas dão-lhe a lenha para queimar tudo à volta. Porque o outro mente, ela diz a verdade. Fala. Diz. Força. Dá-me combustível e eu não deixarei pedra sobre pedra, queimarei tudo e ainda vou dançar por cima das cinzas do que era a tua vida, os teus amores, por isso fala. Dizes que me amas, a ansiedade exulta. Eu sei a verdade. Ela vai ganhar. Ela vence sempre por momentos, por mais conversas que se tenha. Por mais compreensão, segurança, por mais amor que se tenha, nada resulta contra ela, porque ela volta sempre. Mesmo que ganhemos por um momento, ela vai dizer-me: isto é a ilusão. Pensas que já acabou? Está apenas a começar. Isto é aterrorizante. É como se dentro de mim eu soubesse que não há saída porque ela vai sempre ter a mó de cima. E eu? Eu estou a escrever para ver se a afasto, mas hey, ela está a ganhar-me aos pontos, ela continua a ganhar, não conseguem ver?! Não vou conseguir ganhar.
Estou só a aguentar até ao próximo momento em que me vou abaixo. Ela diz-me isso mesmo. Que cada vez que supero, a seguir vou cair de novo. E isto nunca vai ter fim. Mesmo que eu fique melhor agora, mesmo que escreva este texto para a mandar embora. Bolas. Ela não vai embora. Não vai. Eu vou parar de escrever e ela vai ter ganho. Porque a verdade é que ela volta sempre e sempre e no fim vou ser eu e ela e perderei tudo porque ninguém gosta de ter relações com ela, a ansiedade. As pessoas querem ter relações com outras pessoas e não com doenças. Pelo menos é isso que ela me diz. No final seremos só nós, meu amor, ansiedade. O único verdadeiro amor, absolutamente mono e senhor do meu coração, pensamentos e sonhos. Para sempre.

Estamos fartas. Estamos vivas. Somos fortes.

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Se somos mulheres ou de outros géneros e identidades minoritárias sabemos o que é sair à rua sempre com medo. Sabemos que o medo raramente nos larga. Não importa a hora do dia, o que estejamos a fazer, em que parte da cidade estejamos. Sabemos que é pior se estivermos sozinhas. Ou não. Na verdade não importa muito, porque há uma história nossa para cada circunstância.

Estava com amigas.

Era meio-dia.

Estava a sair do trabalho. Abri a porta e dei dois passos.

Era noite. Estava a voltar para casa.

Estava sentada no metro.

Estava à espera da minha mãe.

Tinha saído de fato de treino, despenteada.

Estava no ginásio.

Fui ao supermercado.

Estava em casa.

Estava entre amigos.

Estava com o meu namorado.

Milhares de lugares. Milhares de circunstâncias. É diário. São 24 horas, sobre 24 horas. No dia seguinte, sabemos que vai ser igual. A violência tem mil caras e gestos e ocorrências. Às vezes ninguém diz nada. Às vezes, na verdade, não há uma acção que consigamos descrever: “ele fez isto”. Às vezes, ele simplesmente está ali, a olhar para nós. Às vezes é um olhar quando passámos. Incómodo. Invasivo. Não têm que nos tocar, porque nós sentimos. Nós sentimos isso – todos os dias. É uma violência aceitável, tão comum, tão presente, que a aprendemos como normal. Em vez de ela acabar, nós aprendemos todas a viver com ela. Nunca ninguém nos ensinou nada disto de forma clara. Não temos aulas sobre como sobreviver a isto. Os nossos pais não nos falaram disto. O que sabemos, ouvimos por aí, conselhos que todas conhecemos e interiorizámos: não voltes tarde, não andes sozinha, não fales com estranhos. Coisas soltas que todas sabemos como se realmente tivéssemos andado na mesma escola.

Todos os dias eu vou trabalhar e sinto isso. No meu caminho nos transportes públicos, é como um jogo de que ninguém fala, mas que todas nós conhecemos intuitivamente. Estejamos como estivermos, cansadas ou não, felizes ou não, irritadas ou não, distraídas, a ler, a ouvir música, a falar ao telefone. Todas nós o fazemos:

ver por onde vamos

escolher onde nos sentamos

ver quem está na carruagem antes de entrar

baixar os olhos

não ir por ali

ver um grupo de homens e sem pensar mudar para o outro lado do passeio

encolher as pernas no lugar

ocupar o mínimo de espaço

não responder

não sorrir

ou sorrir, com medo, aterrorizadas

não confrontar

ignorar

fingir que não se ouve… e não se vê

continuar caminho

olhar em frente

Todos os dias quando chego a casa – porque tenho a sorte de viver num espaço seguro para mim – respiro de alívio. O passo apressado até casa, de chaves na mão, em riste (só para o caso de…), olhar antes de abrir a porta, ouvidos alerta. Entrar rápido, fechar a porta, garantir que está fechada. Gestos que fazemos sem pensar. Mais um dia passou e eu tenho a sorte de estar bem e de ter passado por mais um dia. Tenho sorte. Que triste é eu sentir que tenho sorte – que triste nós sentirmos que temos sorte por não nos acontecer algo horrível. Que triste sentirmos-nos afortunadas por não ter acontecido nada de pior que piropos, olhares, comentários.

Que insanidade é esta que nos faz sentir com sorte por termos saído à rua sem agressão?

Não conheço uma única mulher que não tenha uma história destas para contar.

E esta nossa vida de todos os dias – nunca estar em lado nenhum sem esta constante vigilância, aprendida, natural, inevitável – é apenas a ponta do icebergue. Oh há mais. Há mais por baixo.

E quando esta violência de séculos – este crime humanitário contra uma parte da população – não está só na rua? Perpetrada por desconhecidos? Quando está em nossa casa, no nosso quarto, nos nossos companheiros, nos nossos familiares próximos, nas pessoas em quem confiamos? E quando essa agressão é diária, absoluta e completamente invisível? Quando nem sequer é física, mas está lá e destrói, lentamente, continuadamente? E quando as marcas que temos são descredibilizadas, de nada servem? E quando nem marcas há, que se vejam? Quando não conseguimos falar? Ou não podemos? Quando não podemos sair?

Esta é a história de tantas e tantas de nós. Silenciada e normalizada, as que levantam a voz enfrentam o mundo todo. Delas diz-se tudo: que só podem estar a inventar; que querem é atenção; que foram elas que provocaram; que têm que pensar nos filhos e ficar; que têm que ficar porque é o marido; que estão a mentir; que estão a exagerar; que estão loucas; que não sabem o que dizem; que estavam de saia; que estavam bêbadas; que estavam na rua àquela hora; que estavam a pedi-las. Deles: nada. São elas que têm que o viver e reviver. São elas que têm que gritar e nem assim ser ouvidas.

Quase todas as mulheres fortes que conheço passaram por uma destas histórias de violência. De medo. Estão vivas, são as sobreviventes. Muitas outras, no mundo, estão mortas. Todas elas são fortes. As vivas e as mortas. As que falam, as que não podem falar. As que gritam, as que simplesmente estão lá, anónimas, sem nada dizer. As que pegam no megafone e gritam palavras de ordem. As que se sentam num canto a ouvir. As que vão de mãos dadas, com amigues, com amores. As que vão sozinhas, apenas consigo. As que não podem ir. As que não se aproximam e ficam a ver, de longe. As que ainda conseguem rir. As que perderam o riso. As que dançam. As que choram. As que falam, falam, falam – uma, outra vez, de novo. As que dizem: sim, foi isto que aconteceu comigo. As que nada dizem. As que tiveram que correr para salvar a sua vida. As que não puderam correr. As que lutaram, as que não tiveram como. As que ainda lá estão, agora mesmo. As que saíram. As que não podem sair.

Por todas elas. Estamos fartas. Estamos vivas. Vamos continuar.


feminina não é sinónimo de fraca

Este texto é a Parte III de uma série de textos:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Quanto mais me torno eu mesma, mais desapareço
Rowan Ellis

Desde que comecei a escolher a minha própria roupa que a uso para expressar as minhas identidades. Durante muitos anos não pensava em como as coisas que vestia me ajudavam a performar um dado género; pensar sobre isso veio com o feminismo e com o coming out. Sempre me senti bem com a maneira como me visto, embora o meu estilo me tenha feito alvo de discriminação tanto em casa como na rua. Há muitos anos atrás fui agredida fisicamente na rua, numa estação de comboios, por estar vestida de forma gótica, com botas de biqueira de aço. Lembro-me que depois cheguei a ouvir de familiares, que a culpa da agressão era em parte minha, por atrair olhares com a minha forma de vestir e por andar de botas em pleno verão. A injustiça desta agressão ficou comigo até hoje. Como gótica, nunca fui invisível. Os olhares na rua eram e são constantes. Como gótica eu era identificável e isso tinha um lado positivo – de pertença a uma comunidade, de reconhecimento perante outres que partilhavam este gosto, de possibilidade de aproximação a outras pessoas (fiz muitas amizades que foram potenciadas/desenvolvidas por partilha deste estilo); e negativo – que me tornava alvo de discriminação, que me ostracizava de alguns contextos, que me pré-julgava e que me trouxe muitos conflitos em casa. A minha forma de vestir, de me expressar, foi considerada coisa de jovem, passageira, uma fase, uma mania. Mais de dez anos depois, a fase ainda não passou. O estilo cresceu e mudou-se comigo, mas o tom negro e alternativo manteve-se.

Quando me fiz lésbica e poliamorosa, fui percebendo que a minha identidade gótica mascarava as minhas identidades queer. Apresentava-me como pessoa alternativa e, de alguma forma, marginal, mas o estilo feminino, o cabelo comprido, as cores que sempre misturei com o preto, remetiam-me para uma identidade heterossexual, sempre reforçada quando vista com um meu companheiro que é um homem cis.

Sentia isto em particular em espaços LGBT, onde à minha volta quase ninguém tinha um estilo semelhante e quase todas as pessoas lésbicas que conhecia eram masculinas. Nunca pensei em mudar o cabelo ou a forma como me vestia. Ou melhor, pensei, mas era um pensamento solto e não algo que fosse fazer. Estava habituada a estar em margens e queria usar essa posição em que estava para mudar as coisas, mesmo que tivesse que me afirmar lésbica todos os dias. Era isso que fazia quando estava nesses espaços com o meu companheiro. Era isso que fazia sempre que falava em contexto de activismo. Encontrei nas pessoas bissexuais a comunidade com a qual mais me identifico, precisamente por partilharmos esta experiência de invisibilidade. Nunca me senti discriminada entre pessoas bissexuais, pelo contrário, encontrei eco para a minha sensação de desindentificação com um único modelo do que é ser queer.  As pessoas femininas, trans* e bis acumulam invisibilidades, semelhantes àquelas que eu como lésbica queer vivo.

Além da invisibilidade, havia ainda o feminino que eu performava, e que me inseria num binário de género que eu no meu activismo procurava sempre combater. Como feminista sentia medo de ser demasiado feminina, medo de me identificar com padrões de beleza nocivos, medo de engajar com um género pré-definido para me encaixar num dado papel. Apesar desse receio, eu sempre quis lutar contra o patriarcado e os estereótipos mantendo a minha forma de me expressar/vestir de forma feminina. Uma parte de mim continua a ter medo, mas agora eu quero concentrar os meus esforços em perguntar porque é que tenho medo. Agora eu quero tornar alvo das minhas questões, precisamente, este medo e ir ao encontro da pergunta central: o que é o feminino? Haverá mais do que uma forma de ser feminina? É um ser ou um fazer? Como é que me faço/nos fazemos femininas? O que é que no feminino é construção patriarcal, e o que é que no feminino é empoderamento?

Sim, há um feminino patriarcal, que nos prescreve comportamentos e acções e nós, pessoas feministas, queremos combater esse feminino porque sabemos que nos coage, nos magoa, nos conforma. Esse é o feminino que nos é dado como de segunda categoria, o frágil, o histérico, o falso, o que precisa de protecção masculina. Se somos lésbicas, não o queremos nas nossas vidas, porque representa o reverso do masculino, o complemento do homem, queremos erradicá-lo.

Este feminino também me perturba, também me preocupa. Não é com este feminino que eu me procuro expressar.

O que é que eu posso fazer para combater este feminino que me aprisiona a um papel de género e em que medida consigo usar componentes deste feminino, revertendo-as, apoderando-as, modificando-as para fazer algo diverso? Quanto do feminino que eu faço todos os dias é construção patriarcal e quanto pode ser meu? Um exemplo: a indústria de coméstica é parte do capitalismo e patriarcado. Vemos essa construção exposta neste vídeo. Mas ao mesmo tempo, para mim, a autora do vídeo está a mostrar-me e abrir-me a possibilidade de um outro feminino poderoso. Sim, às vezes é muito dificil perceber a linha ténue. Onde está o que aprendi como próprio de menina e onde está o que quero fazer porque me empodera? Será que quando uso sapatos de salto é porque quero ou porque me habituei a associar saltos com uma dada ideia de elegância, que depois é transformada vista por mim como empowering? E será que essa transformação não faz parte do próprio empoderamento ou é apenas uma auto-ilusão? Quando é que fazer as coisas como uma menina se tornou um insulto, que mais tarde se torna na única verdade sobre nós?

Haverá algum feminino que possa não ser patriarcal? Eu quero responder que sim.

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Petitemarine

 

Tanto falamos de masculinidades não tóxicas, e outras masculinidades e tão pouco falamos de outras feminilidades. Estamos tão investidas em procurar outros masculinos que nos esquecemos de procurar femininos não normativos, rebeldes, revolucionários. Se não os há, ou se os há pouco, porque não fazê-los? Não é isso que estamos já, tantas de nós a fazer?

Entre as pessoas bissexuais, trans*, (algumas) lésbicas e pessoas queer que pude conhecer encontrei um espaço de vivência das identidades que não as encaixota e que as valoriza e acarinha. Eu conheço tantas pessoas femininas e fortes, incríveis, activistas, revolucionárias, maravilhosas. Vocês provavelmente também, basta olharem à vossa volta. Vamos parar de apagar estas pessoas e vamos começar a vê-las nas suas performances revolucionárias e femininas. Vamos parar de olhar para saltos altos como sinónimo de fraqueza e vamos sim olhar para a pessoa que os usa e para o que ela faz com a sua vida, os desafios que enfrenta, as discriminações com que luta.

Eu quero acreditar em femininos poderosos e felizmente tenho vindo a perceber que não preciso de acreditar, basta-me continuar a encontrar exemplos disso, reais. Olho para as pessoas femmes incríveis neste projecto e vejo mil possibilidades infinitas de fazer femininos e de fazermos femininos extraordinários.

Vamos explodir com o feminino encapsulante e fazê-lo finalmente nosso, de todas e todes, inclusivo, transversal e transinclusivo, fora do binário, fluído e dinâmico.

E vocês, o que fazem todos os dias com o vosso feminino?


Porque é que precisas tanto de dizer que és lésbica?

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No meu último artigo recebi um comentário que me irritou, mas que ao mesmo tempo soa como tanta coisa que já ouvi mil vezes, tanto que fiquei entre o “vou ignorar” e o “isto precisa de uma resposta”. Como acabo geralmente a cair para a segunda hipótese, achei que o comentário merecia uma boa resposta, não por consideração à pergunta, mas porque há perguntas cuja existência prova precisamente o quão longe estamos de uma sociedade não discriminatória.

A leitora Pi, que ficará de certeza feliz por ter uma resposta (provavelmente com o tempo que passou já pensava que eu tinha desistido do meu lesbianismo militante e ofensivo para heteros) fez o seguinte comentário:

“Sigo há algum tempo este blogue e fico bastante confusa com certas coisas que as vezes são escritas. Não sei se são inseguranças da escritora (o que aceito) ou mal-interpretações, por isso vou fazer perguntas afim de perceber o que este texto realmente quer dizer, pois tenho curiosidade!

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?
2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Já que pareço confundir as pessoas, vou responder o mais claramente possível às perguntas.

1- Porque é que deseja tanto ser vista como lésbica e identificada como tal?

A resposta simples e que deveria ser óbvia para toda a gente é: porque tenho direito a isso. A minha identidade é um direito, tão inalienável como qualquer outro Direito Humano. Ser reconhecida e respeitada na minha identidade é um direito de ser pessoa.

Mas como parece que esta ideia é rebuscada, vou elaborar.

Somos todes hetero até prova em contrário. Ora eu não sou hetero. Eu não quero ser vista como hetero. Alguém pode alegar: “eu não preciso de andar a dizer que sou hetero! Eu vivo a minha sexualidade discretamente, porque é que tu não fazes o mesmo?” Resposta simples: eu não sou tu. E não sou hetero. A minha sexualidade não está validada, representada e privilegiada 24 horas por dia, em todos os lados, em tudo o que se consome, vê, cria. A minha identidade não está sancionada, bonificada, carimbada, presenteada, elogiada, posta no pedestal. Isto serve também para aquelas pessoas que dizem que as Marchas do Orgulho LGBTQIA não fazem sentido porque ninguém vê as pessoas heterossexuais a desfilar na avenida com bandeiras hetero. Errado. Como diz o autor deste artigo, a vida já é uma marcha heterossexual constante, todas as horas, todos os dias em todas as situações, com bastantes bandeiras – o que é o casamento se não a maior bandeira dos últimos séculos, com inúmeros privilégios? – mas esta marcha ninguém a vê enquanto tal, ela é a norma e portanto invisível, omnipresente.

Uma pessoa hetero não tem que desejar ser vista como hetero. Não tem que querer ser visível porque já é. Automaticamente. O pressuposto de heterossexualidade está vivo e de boa saúde e é aplicado a toda gente, sem ser preciso dizer nada. As pessoas hetero têm a sua identidade como dado adquirido, a tal ponto que só quando estão entre pessoas LGBTQIA é que sentem necessidade de se afirmar: “ah, mas eu sou hetero, não jogo nessa equipa”. Uma pessoa lésbica não tem este privilégio. Uma pessoa lésbica, se quiser que a sua identidade exista, tem que a afirmar continuamente. Isto não quer dizer que toda a gente é obrigada a fazer coming outs ou a viver a sua identidade de forma visível: isso deve ser sempre uma escolha da própria pessoa.

No entanto, uma pessoa lésbica não será lésbica para ninguém se não tiver maneiras de o dizer, representar, partilhar. Poderão dizer: “ah, mas será na mesma, para si própria, o importante é a pessoa saber quem é, que necessidade há de andar a dizer?” Geralmente seguem-se a isto questões sobre não haver necessidade nenhuma de chamar a atenção, de viver publicamente aquilo que é do íntimo, que aquilo que nós fazemos entre quatro paredes é connosco e que ninguém tem nada com isso, só não precisamos de ir para a rua exibir o que somos. A isto a minha resposta é curta e grossa: vão-se foder. Ou isso, ou digam-me quando foi a última vez que viveram a vossa heterossexualidade entre quatro paredes. Digam-me os casamentos que andaram a fazer em privado e em segredo, falem-me de nunca levarem os maridos para o jantar da empresa, ou de todas as vezes que fingiram não ter namorado no jantar de natal com a família. “Ah mas eu tenho namorado e não andamos a comer-nos na rua”. Parabéns. Sabem o que se chama a isto? Opção pessoal. Agradecemos que tirem de cima de outres as vossas opções pessoais. Se estão tão preocupades com a nossa discrição, sugiro que sejam discretes. Deixem de passear a vossa heterossexualidade em todo o lado. São as mesmas pessoas tão interessadas em que sejamos discretes, que nos convidam para a sua festa de casamento com toda a pompa e circunstância possível. Demonstrações de afecto na rua devem ser uma decisão das pessoas intervenientes. A forma como alguém vive a sua sexualidade, identidade de género e/ou orientação ou identidade (a)sexual é algo que só diz respeito a essa pessoa e que não deve ser prescrito, determinado ou condicionado por outres.

Mas a visibilidade não é uma questão, apenas, de opção pessoal. É uma questão política. Fazer-me e dizer-me lésbica e poliamorosa é um acto político. Se eu não existo, não tenho direitos. Se eu não existo, não é preciso ter atenção às coisas que me afectam. Não se trata de fazer uma caixa para me pôr e me limitar, mas sim de reivindicar uma existência e depois desconstruir a partir daí. As identidades são importantes para conseguirmos falar das opressões específicas.

Estas opressões específicas são ameaças às vidas das pessoas LGBTQIA e MOGAI (Marginalized Orientations, Gender identities, And Intersex). As pessoas heteronormativas não sabem o que isto é, nunca o viveram. De que ameaças falo? A ameaça da invisibilidade; a ameaça da inexistência legal e de direitos; a ameaça de vermos as nossas vidas e identidades patologizadas; a ameaça de ficarmos sem emprego ou de nunca virmos a ter um devido à nossa identidade; a ameaça de sermos expulses de casa ou renegades pelas famílias de sangue; a ameaça da segregação social, do isolamento, da depressão, da homo/les/bi/transfobia, entre outras; a ameaça às nossas vidas quando somos alvo de crimes de ódio; a ameaça constante de sair à rua e ser alvo de olhares, comentários ou agressões. E podia continuar. Podemos alegar que estas ameaças não acontecem só com pessoas LGBTQIA – na verdade, acontece muito mais com algumas destas pessoas do que com outras. Mas a especificidade destas ameaças é dupla: as pessoas LGBTQIA e MOGAI são estatisticamente mais afectadas e a sociedade normativa é a grande responsável e veiculadora destas ameaças. Diria mais, as pessoas heteronormativas são responsáveis por estas ameaças cada vez que são coniventes.

2- Porquê tanta hostilidade sempre (não tanto neste post, mas em anteriores) e “perseguição” aos heterossexuais?”

Aquilo que tu consideras ser a minha hostilidade é uma resposta justificada à hostilidade que as minhas diversas identidades recebem todos os dias. Quando uma pessoa queer/assexual/trans*/bi/não-mono seja o que for se defende de agressões diárias, há sempre alguém, privilegiade, que vem dizer: “calma, não te estou a agredir”. Errado. Estás. O teu privilégio e ausência de reflexão e verificação desse mesmo privilégio é uma agressão constante. Esta pergunta, a que estou a responder, é uma agressão. É uma piada de mau gosto dizer que os meus textos perseguem as pessoas heterossexuais – eu até gostava de me rir mas não consigo porque este tipo de comentário acontece sempre que uma pessoa queer fala da sua identidade e aponta privilégios. A frequência com que isto acontece mostra que esta questão não diz respeito aos meus textos ou à minha atitude, mas sim a uma atitude geral de descredibilização do que as pessoas queer dizem e uma visão de “perseguição de heteros” que apaga aquilo que realmente acontece: é que, hei, caso ainda não tenham reparado, vivemos num mundo que persegue toda a gente que não o é. Heterofobia não existe, tal como racismo invertido não existe, tal como sexismo contra homens não existe, tal como cisfobia não existe – enquanto questões sistemáticas, omnipresentes e estruturantes.Esta pergunta diz mais sobre quem a faz do que sobre mim. Revela ausência de reflexão sobre privilégios. Em vez de me perguntares porque é que persigo heteros, porque é que não te perguntas a ti mesma porque é que te sentes atacada quando escrevo e falo sobre a minha identidade? Porque é que falar sobre ser lésbica te ameaça? Provavelmente é porque te deixa desconfortável. Nunca é confortável sermos confrontades com o nosso próprio privilégio. Eu sou lésbica, queer não-monossexual, poliamorosa e mulher – identidades que me trazem muitas discriminações e micro-violências diárias. Ainda assim, eu sou privilegiada em muita coisa: sou branca, sou cis, tenho um emprego, tive educação superior, nunca passei fome, sou normativamente funcional/com um corpo considerado funcional, sou considerada magra, ainda sou carnista/tenho uma dieta omnívora… Algumas destas características são de tal forma difíceis de reconhecer como privilégios que tive dúvidas ao dar um nome a algumas, tendo tido que pedir ajuda a pessoas que sabem mais do que eu, incluindo pessoas que não têm estes privilégios. Cada dia descubro mais uma coisa em que sou privilegiada e custa-me, deixa-me desconfortável, fico defensiva. Nunca é fácil confrontarmos-nos com isso. Experimenta. Deixa-te ficar no desconforto. Reconhece o privilégio que possas ter. Ouve os gritos de outres. Não imponhas. Ouve. E usa o que tens para fazer mais do que ser conivente.

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do medo de ser feminina

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Arte de Alice Eris Urchin

Quando escrevi sobre ser lésbica e ser feminina, senti medo. Escrevi o texto cheia de insegurança, com o conforto de saber que ao menos aquilo é a verdade sobre mim mesma, mas cheia de um medo permanente de ser criticada, julgada, de ser considerada tonta ou de o texto não ser visto como importante… ou seja, com medo de ser “vista como feminina”. Uma parte de mim tinha medo de aquele texto ser ridículo e por isso contive algumas coisas e não disse tudo o que podia ter dito sobre ser feminina. O medo era um bocadinho semelhante àquele que sentia quando amigas minhas conheciam o meu quarto pela primeira vez. Durante anos pedi desculpa pela overdose de cor-de-rosa presente – era a cor dominante no meu quarto. Quando um dxs meus companheirxs lá entrou pela primeira vez pedi-lhe desculpa pela quantidade de rosa e tentei dizer-lhe que aquilo não me representava assim tanto. Era um quarto de menina e eu sentia vergonha. Ele não ligou. O meu quarto hoje, que já não é decorado pela minha mãe, tem como cores dominantes o violeta e roxo. A minha cama é branca e cheia de torneados, parece uma cama de contos de fadas e fui eu que a escolhi. Tenho peluches em cima da cama. Montei o meu próprio quarto e é o mais feminino cá de casa. Nunca mais pedi desculpa a ninguém, mas às vezes ainda tenho medo. Foi mais ou menos isto que aconteceu quando escrevi sobre ser feminina. Sabia que pelo menos as pessoas próximas de mim iriam entender e não me julgar e que algumas outras pessoas queer femininas iriam encontrar ali eco – e assim foi. Muitas delas vieram falar comigo e dizer-me que não estou só e descobri aí que talvez a solução para este medo passe por estarmos juntas e falarmos sobre isto. Expormos a discriminação diária de que somos alvo e falarmos deste medo de nos mostrarmos femininas e por isso podermos ser ridicularizadas.

Mas também houve comentários contrários a estes, de quem não compreende o que é parecer lésbica, ou que acha o assunto de todo desnecessário. Engraçado como cada vez que um assunto é especificamente feminino, há toda uma tendência para o considerar de somenos importância. Ora, o que é isso de parecer lésbica? Isso não é relevante. Suponho que quem diga isto nunca tenha estado num espaço lésbico/queer e sido imediatamente colocada na caixa das hetero, vendo apagada a sua identidade, experiência e sensação de pertença. Ou que quem diga isto, nunca tenha olhado à sua volta à procura de referências e não encontrado ninguém que se pareça consigo. Quando me identifiquei como lésbica, as únicas lésbicas/dykes que eu conhecia e admirava como pessoas intelectualmente respeitáveis eram masculinas: Wittig, Butler, Rich, Rubin. Algumas que são mais conhecidas na cultura popular, têm também a mesma tendência para um visual masculino: Ellen DeGeneres, Adriana Calcanhoto, Jodie Foster, Lea Delaria. Não é por acaso que tenho tanta dificuldade em lembrar-me de alguma que seja conhecida e que seja visivelmente lésbica. Talvez por isso tenha ressoado tanto em mim o coming out feito pela Ellen Page, e mesmo ela adopta agora cada vez mais um visual masculino.

Se eu pensar nas lésbicas que conheço, em Portugal, século XXI, se olhar para as pessoas que me dizem ser lésbicas, abertamente, e para as primeiras que conheci, encontro uma ou duas que são femininas na sua apresentação e forma de estar. 99% das restantes são mulheres butch/com apresentação masculina. Quando entrei para o Clube Safo (há 2/3 anos) não havia na direcção uma única mulher que fosse simultaneamente lésbica e usasse saias. Ou melhor, havia: era eu. Não havia uma única mulher, além de mim, com cabelo que passasse os ombros. Não havia uma única mulher além de mim, que se identificasse como lésbica e usasse maquilhagem. Todas as restantes lésbicas vestiam calças, usavam camisas masculinas ou tshirts, cabelo curto e roupa prática em todas as situações em que estivemos juntas. Não é de todo coincidência que a única outra pessoa que era feminina, como eu, fosse bi. Todas as amigas mais próximas que tenho e que são lésbicas, são masculinas (tirando uma ou duas exceções). Para elas, é irrelevante pensar sobre parecer lésbica porque nunca tiveram um problema de invisibilidade. São fufas em todo o lado e a discriminação diária com que levam está lá para dizer isso.

É muito bonito dizer e pensar que as lésbicas não se têm que parecer com nada, mas para realmente levar essa ideia em diante, é preciso não ignorar o calling out feito por lésbicas femininas invisíveis. Dizer “ah as lésbicas não têm que se parecer com nada” quando sempre se foi lésbica visível, é falar a partir do desconhecimento do que é ver a sua identidade apagada em todas as situações, e ignorar o que é ter que fazer coming out todos os dias. É ignorar também que a ideia de senso comum do que é uma lésbica não tem efeitos performativos na vida das pessoas. Era giro que ser lésbica não tivesse que corresponder a nenhum visual/forma de apresentação. Mas se não corresponde a nenhum visual, então porque é que há um conceito do que é parecer lésbica? Porque é que há mulheres que são vistas como fufas e outras não? Porque é que há mulheres que levam com discriminação na rua por terem ar de fufas e outras não? Porque é que o que as distingue é sempre a presença/ausência de características masculinas? O que é que faz com que uma mulher com cabelo curto seja mais facilmente vista como lésbica e uma fufa de cabelo comprido seja considerada uma mulher hetero? O que se faz com conceitos como o gaydar, usados pelas próprias pessoas LGB? Que noções estamos a usar quando vamos a um bar LGB e nos sentimos bem lá porque sabemos que estão ali pessoas como nós? O que acontece quando o que encontramos nesses espaços são pessoas todas muito semelhantes entre si e nós somos the odd one out? O que acontece quando olho à minha volta e quero encontrar lésbicas como eu e as mulheres mais semelhantes a mim que encontro são mulheres bi?  Com a ideia de que o parecer lésbica não importa para nada, negamos a importância de encontrarmos pessoas semelhantes a nós, que nos ajudem a sentir seguras e validadas nas nossas identidades.

“Mas será que temos que ser identificáveis o tempo todo?”, perguntou-me uma pessoa, depois de ter visto o meu artigo. Quando se fala sobre a importância de visibilidade de algumas identidades – por exemplo, poly, trans, femme – há sempre vozes a perguntar isto. Eu vejo estes comentários na mesma linha exacta em que vejo as vozes de pessoas hetero, como a minha mãe, que me diz que eu posso ser o que sou desde que não precise de chamar a atenção para mim mesma. “Ninguém tem que saber, já viste alguma marcha de heterossexuais? Claro que não, porque a vida íntima das pessoas não é para ser divulgada assim dessa maneira”, cito uma pessoa imaginária que resume as milhares que pensam assim. Será que temos que ser identificáveis como gays e lésbicas o tempo todo, ou basta só em momento definidos para isso, por exemplo, uma vez por ano na marcha? Engraçado como nunca ninguém diz isto a pessoas heterossexuais – curiosamente elas não andam com a bandeira hetero, mas são sempre identificadas e visíveis enquanto tal, todo o ano, em todo o lado, no natal, no ano novo, nas festas de casamento, nos jantares lá em casa e em todos os direitos e privilégios que têm acima dos comuns mortais invisíveis. Qual é a necessidade de sermos visíveis todo o ano como aquilo que somos? Se calhar, é a necessidade de não sermos vistos como aquilo que não somos, o tempo todo, todo o ano em todo o lado, façamos o que fizermos, andemos com quem andarmos e passemos pelas discriminações que passarmos. O facto de eu não ser vista como lésbica não me impede de passar por todo um conjunto de micro-agressões diárias que, curiosamente, acontecem todo o tempo, todo o ano.

Era bonito viver num mundo em que não fossem necessárias caixinhas para nada, mas a maioria das pessoas que eu vejo a advogar pela abolição das caixinhas, são as mesmas que se mantém a si mesmas bem arrumadinhas na sua caixinha e que sempre estiveram seguras de ter um lugar de pertença. Eu, como lésbica femme, não tenho nenhum lugar de pertença, a não ser entre mulheres bi que levam com a mesma invisibilidade. O nosso lugar de pertença é o lugar das invisíveis.

Como eu, há muitas. Mas é difícil sabermos quem somos porque somos invisíveis. É difícil para nós formarmos comunidade como minoria quando somos constantemente vistas como parte da maioria hetero e cis. Mas nós somos a maioria invisível. Não nos reconhecemos na rua. Quando vejo outra mulher como eu, penso que ela é hetero e o problema começa logo aí. Eu faço parte da mesma construção de preconceito. Nós não nos conseguimos juntar porque não nos conseguimos ver. E uma fufa que sempre foi vista como fufa não faz ideia do que isso é e precisa de nos ouvir. As butch, passando por todo o preconceito que passam, têm ainda a pequena segurança de se poderem identificar mutuamente. De se reconhecerem. O poder do reconhecimento é imenso, nem que mais não seja para nos dizer que não estamos sozinhas no mundo. E partir daí nasce a possibilidade de se poderem apoiar, juntar, criar algum tipo de comunidade. Mesmo no meio da invisibilidade lésbica, há algum porto seguro no reconhecimento mútuo entre pares, na segurança de vermos exemplos de nós mesmas e podermos dizer: eu também sou assim. Para as femme não há nada disto. Há o mundo heterossexual com os seus exemplos monopolizantes de mulheres femininas. O resto, o imenso mundo de mulheres cis queer, bi, e não cis, genderqueer, fufas, trans femme, todo esse mundo, tem que ser descoberto nas nossas redes a cada coming out diário.

Portanto… será que temos que ser identificáveis o tempo todo? Sim, pelas nossas vidas e sobrevivência, sim. Só nos encontramos se falarmos. Uma fufa butch muitas vezes não precisa de dizer a outra que o é e será reconhecida na mesma. Nós, femme, nós temos que falar e falar e falar e levar com uma quantidade imensa de sexismo, femmefobia, lesbofobia, bifobia e transfobia. Comum a todas estas fobias está aquela de que falamos tão pouco em meios LGBT: a misoginia. E o problema está aí, nesse medo imenso do feminino e do que o feminino pode trazer. Que raio de lésbicas somos nós que temos tanto problema com o feminino? Que raio de comunidade somos nós que só tornamos visíveis algumas das nossas pessoas e contribuímos, com a nossa linguagem, os nossos espaços, os nossos hábitos, para continuamente apagar algumas de nós? Que raio de lógica nos faz contribuir para a ideia de que o feminino tem algo de errado e que não queremos associar connosco, tentando expurgá-lo dos homens gays efeminados, das pessoas trans e das lésbicas femme? O que faz com que feminino seja menos bom e porque é que continuamos sempre a valorizar o masculino mesmo em espaços queer e que se definem pela ausência de homens? Porque é que não temos pessoas femininas a falar nas nossas comunidades e, acima de tudo, a serem ouvidas? Porque é que as nossas vozes e valores são ainda e sempre masculinos?

São perguntas que ficam para continuar a reflectir, em conjunto, nos próximos textos. Este texto é parte de um conjunto de textos sobre femmephobia e invisibilidade:

Parte I – sou lésbica e não pareço

Parte II – do medo de ser feminina

Parte III – feminina não é sinónimo de fraca

Parte IV – femmephobia é misoginia (por escrever)
Parte V – femmes em todo o lado (por escrever)

sou lésbica e não pareço

Sou lésbica e não pareço.

Sou feminina. Sinto-me atraída no geral por mulheres e pessoas trans/genderqueer que às vezes são femininas, às vezes são masculinas, às vezes são género neutro, às vezes não têm género. Também gosto de homens feministas, não-normativos, sem masculinidade tóxica. Sou lésbica e apaixono-me por feministas – essa parece ser até agora a característica que mais me atrai.

Sou isto tudo, mas não o pareço.

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Não sou discriminada por ser lésbica. Sou uma outra coisa: invisível. Ninguém sabe que gosto de mulheres, ninguém o vê. A não ser que esteja acompanhada. Eu, só por mim, sozinha, nunca sou lésbica. Nunca sou queer. Sou uma mulher, vista como normal, feminina e normativa. Passo. Como hetero. Como monogâmica. Como normal. Ninguém vê que sou poly, ninguém vê que sou kinky, ninguém vê que sou fufa.

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Reparei que ultimamente só ando de saias. Antes vestia calças praticamente todos os dias para ir para o trabalho, por ser mais prático. As saias guardava para os fins de semana, quando vestia roupas de que realmente gostava e usava tule, renda e veludo. Agora, há uns meses seguidos que uso saias todos os dias. Só me sinto confortável de saia. Parece uma coisa pequena e até poderia ser, mas não é.

Deixei de querer ter um ar sério. Deixei de querer parecer mais profissional e segura e decidida. Deixei as calças. Ou melhor, eu não deixei isto. Eu deixei foi de associar as calças a isto. Cada vez me sinto mais feminina. Antes, havia alturas em que eu me queria distanciar do ar de princesa e boneca gótica. Havia alturas em que eu queria parecer uma mulher forte, e de saltos ou com roupa apertada não conseguia. Na rua, não é confortável. Andamos devagar, descemos as escadas mais devagar. Queria roupa prática e simples e ir trabalhar e voltar para casa, passando.

Agora tenho cada vez mais pensado: o que é que eu quero vestir hoje? O que é que me faz sentir bem? E a resposta tem sido sempre: quero vestir-me feminina. Quero cor combinada com preto. Quero os lábios pintados com o meu batom vermelho. Não uso maquilhagem mas adoro a simplicidade do batom. Quero o meu cabelo comprido até ao final das costas, solto, com brancos cada vez mais a despontar. Quero camisolas fofas e quentes e claras, e saias pretas e confortáveis. Aproveito promoções e feiras com roupa em segunda mão para comprar roupa, faço listas de coisas que quero e tenho conta no Etsy onde cada vez vejo mais roupa e acessórios que não tenho dinheiro para comprar. Uso sempre anéis. Todos os meses arranjo as unhas e as pinto de uma cor diferente. Às vezes tenho brilhantes, às vezes riscas, às vezes bolinhas. As minhas unhas pela primeira vez não são um problema tão grande como sempre foram. Arranjo-as todos os meses para não as roer. Descobri a única coisa que me impede de as destruir: estarem bonitas, pintadas, arranjadas. Ao fim de dois anos desta terapia, estão fortes como nunca foram e cresceram. Por vezes uso-as muito compridas, até me incomodarem.

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Sou lésbica e não o pareço. Outras lésbicas olham-me para as mãos e eu sei muitas vezes o que estão a pensar: unhas compridas, não és fufa. Tenho vontade de lhes explicar tudo o que sei fazer com as mãos, sim, mesmo com as unhas compridas e também tenho vontade de lhes dar a conhecer esse estranho objeto chamado luvas de latex. Eu gosto de ter as unhas grandes. E também as posso cortar curtas se me apetecer.

Mas, por causa das unhas, eu não pareço lésbica.

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A última vez que tive o cabelo curto, realmente curto, foi quando tinha 2 anos. Desde então que o meu objectivo principal tem sido tê-lo o mais comprido possível. O meu cabelo também diz que eu não sou lésbica. Não tenho nenhuma parte dele rapado, não tenho franja radical, não tenho nenhum corte que grite “sou fufa”! Também não o tenho pintado. Tenho brancos naturais, com os quais tenho estado a tentar lidar nos últimos anos e acho que os vou aceitar como são. Em breve terei cada vez mais partes do meu cabelo branco. Tenho tatuagens, que no Inverno ninguém vê. E um piercing recém feito no nariz, mas é uma argola cor de lavanda. Sim, um piercing feminino.

Adoro vestidos. Adoro só ter que pensar numa peça de roupa principal para vestir. Os vestidos de que mais gosto são com renda, com roda, com decote.

Ando de forma feminina, falo de forma feminina e quero que saibam que sou lésbica. Tudo ao mesmo tempo.

A razão pela qual escrevo isto é porque me tenho apercebido num caminho de luta pelo feminino. E por um feminino que seja forte e que seja nosso, de todas as que o queremos para nós, trans, genderqueer, mulheres cis, seja qual for a nossa nomeação.

Ontem, deparei-me com um projeto fotográfico cheio de pessoas que se identificam como femme e foi como se se desse um click final. Fiquei cheia. De vontade. De escrita. De calor. De revolta. Sou femme. Sou fufa. Quero escrever um manifesto contra a nossa invisibilidade. A invisibilidade é a nossa discriminação, a violência que cobre as nossas identidades e as anula diariamente.

É por isso que este artigo está cheio de fotografias minhas. É o princípio da reacção. Quero ir mais além no próximo artigo. Quero tocar precisamente no ponto: é que tudo o que lemos aqui parece tão tolo, tão vulnerável, tão “feminino”, só porque é isso mesmo – feminino.

 


lesbofobia de todos os dias

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Beijo a minha namorada na plataforma, damos as mãos e entramos para o metro cheio de gente. Procuramos um lugar para nos sentarmos juntas. Num hábito treinado em anos e anos de ser mulher e andar de transportes públicos, faço um rápido scan ao espaço e dirijo-me para um lugar que pareça mais seguro – que tenha pelo menos uma mulher, pessoas mais velhas ou homens de aspecto menos ameaçador (há um tipo de homem assim e nós sabemos todas qual é). Sentamo-nos, ela encosta-se a mim, ponho um braço à volta dela e beijo-a na cara, depois o meu braço encosta-se contra o peito dela e ficamos assim. Estamos ambas a fazer o que sempre fazemos: a avaliar o nível de lesbofobia à nossa volta. Já se tornou uma piada entre nós.

– Homofobia está em alta hoje, amor, não está?

Acontece em todo o lado. Na verdade, basta sair a porta de casa. Na rua, no supermercado, no cinema, no centro comercial, no médico, na sala de espera, no autocarro, no comboio, no metro, onde quer que estejamos, o que quer que estejamos a fazer. Olhares. Constantes. Como poliamorosa eu achava que já sabia o que era ser olhada constantemente na rua. Mas tinha estado sempre protegida pela presença de outro dos meus companheiros, um homem. E a presença de um homem muda tudo no desiquilíbrio de poder. Com ele, os olhares eram agressão, mas eram diferentes. Tinham outra resposta. Com a minha família poly somos muitxs. A força do grupo actua como resposta. Somos mais, resistimos juntxs. Quando estou só com a minha namorada não é assim. Não há força que nos ajude. Não há resposta que nos sustente. Somos só nós: vistas como duas mulheres, de mão dada. Nunca lhe dei um beijo em público sem ter alguém a olhar de forma crítica. Enojada. Incómoda. Invasiva. Objectificante. Depreciativa. Conhecemos cada um destes olhares. Imaginem o que seria se cada vez que beijassem alguém que amam estivessem a sentir um destes olhares. Ódio. Nojo. Imaginem sentir os olhares mesmo sem os verem, constantemente. Imaginem às vezes preferirem não dar esse beijo, para não terem que suportar essa agressão. Ou porque simplesmente não se sentem seguros para o fazer. Os olhares são a rotina. Com eles vem o resto. Comentários. Velados. Altos. Eu pensei que era cliché aquilo que imaginamos que as pessoas dizem, mas não, não era. Já os ouvimos todos, aqueles clichés. Aqui vão:

– Que desperdício.
– O mundo está perdido.
– Deviam morrer.
– Na minha terra eram mortas.
– Esta juventude…

Escolho não me lembrar de mais, mas ouvimos mais. Alguns são entredentes, de passagem, murmurados quando acham que não ouvimos. Outros são gritados do outro lado da rua, berrados contra nós. Outros são risos. Outros são piadas. A maior parte das vezes, a lesbofobia não tem coragem de falar. Sentimo-la à nossa volta como um peso. Para reagir, adaptei o tema de Lara Li, “Telepatia”, para Homofobia (ler com a melodia) e entoo no mesmo tom. Rimos sempre que faço isto. Alivia a tensão constante em que estamos a todo o momento, só por saírmos de casa.

A maior parte da lesbofobia não se ouve e quase não se vê, a não ser que sejamos o seu alvo. São olhares de nojo ou ódio puros, que duram viagens inteiras de transportes públicos. São olhares tão transparentes que conseguimos perceber o que as pessoas estão a pensar. Que sabemos que nos estão a desejar a morte. Sim. Até isso. Que se pudessem nos faziam mal. Outros são simplesmente silêncios carregados e olhares que não nos largam durante viagens inteiras de metro.

Como desta vez. De pé, do outro lado da carruagem, está um homem que não pára de nos olhar desde que esperávamos o metro na plataforma. Vem acompanhado de duas pessoas mais velhas, um homem e uma mulher, ambos com idade para serem nossos avós. Esses “avós” olham-nos com nojo, trocam impressões entre eles, com o sobrolho carregado. Como sempre, nós decidimos resistir. Não páro de a abraçar. Sei que é por isso que eles repararam em nós, mas recuso-me a retirar o braço. Ela vira-se para mim e beija-me. Eles estão a olhar. Directamente. Continuamente. Os “avós” e o homem. Nós as duas trocamos um olhar de entendimento. Sinto a tensão no corpo dela, sei que quer reagir. Murmuro: “não te passes”. Continuamos abraçadas, damos as mãos. O homem está há muito tempo a olhar para nós. Decido olhar para ele fixamente. Pagar-lhe na mesma moeda e ver se ele gosta. Muitos desistem quando lhes devolvemos o olhar. Ele pisca os olhos e desvia o olhar e depois volta. Leva a mão à barriga. Está enjoado. Percebo que ele está enjoado connosco. Está a respirar cada vez mais alto, mas não pára de olhar. Há momentos em que parece que vai vomitar e no entanto não se vira de costas para nós, aliás, tem todo o espaço para o fazer e ficar de costas, mas escolhe ficar de frente para nós, de pé, sem parar de olhar. Numa viagem de quase 30 minutos. Ele murmura coisas para os “avós”. Eles fingem que não estão a olhar para nós quando os olhamos, têm demasiado nojo para isso. Mas o homem não. Reconheço o olhar dele – cheio de nojo, mas excitado. Excitado connosco. É por isso que não pára de olhar. Quer comer-nos. Basicamente é isso. Quando percebo isto, quase vomito. O meu coração está a bater a mil. Quero um pretexto socialmente visível para lhe mandar um berro. Quero um pretexto socialmente visível para lhe dar um murro. Quero. Quero bater-lhe, quero espetar-lhe uma bota no meio das pernas. Não me afasto da Isabel. Ela está na mesma tensão que eu. Sei que não falta muito para ela se levantar e berrar para a carruagem toda. Já o fez antes. Mas aquilo que nos está a acontecer é invisível. Estamos a ser agredidas há 30 minutos numa carruagem cheia de gente e ninguém sabe e ninguém vê. Sinto vontade de gritar.

Estou a escrever isto passados dois dias do acontecimento e a minha memória já me faz partidas, como com tudo o que me custa lembrar. Comento com a Isabel e percebo que me esqueci de uma coisa. No mesmo momento em que estou a sentir vontade de gritar, alguém começa de facto a gritar. Uma mulher. Ao fundo da carruagem. A voz dela ecoa. Fala do fim, do reino dos céus, da salvação. Começa a aproximar-se. As pessoas na carruagem fingem que não vêem. O homem continua a olhar para nós, mas distrai-se momentaneamente com ela. A mulher chega perto de nós e, por obra do destino ou do espírito santo, começa a falar de pecado quando pára mesmo ao nosso lado. O meu coração está a bater com tanta força que me ressoa nos ouvidos. Aperto a mão dela na minha e continuamos abraçadas. Começo a pensar obsessivamente: “por favor não repares em nós, por favor não repares em nós”. Foi um micro-segundo, mas eu vi a expressão nos olhos do homem mudar e semi-sorrir. Sim, satisfeito. Satisfeito por aquela mulher estar parada ao nosso lado a falar de pecado e de almas condenadas ao inferno. Foi um micro-segundo. Posso ter imaginado. A mulher continua o seu caminho, alertando os passageiros para a sua profecia. Ninguém lhe liga realmente.

Finalmente o homem e os “avós” saem. A mulher que gritava já é passado. O homem continua a olhar-nos da plataforma. Mais um minuto e íamos reagir de alguma maneira e íamos ficar ainda mais em perigo. A tensão foi tal que me sinto fraca. Saímos na paragem seguinte e temos que parar. Isabel está quase a vomitar. Temos as mãos frias. Sabemos que não é a primeira e não será a última. Imaginamos mil vezes como seria se lhe tivéssemos gritado. Se tivéssemos exposto aquela agressão. Imaginamos se lhe tivéssemos dado um murro. Tinha vindo o caminho todo a imaginar outras coisas, nomeadamente o que faria se ele se aproximasse e tentasse tocar em nós. Tudo isto imaginamos, porque sabemos que se o fizermos seríamos nós a ficar em perigo. Sabemos que não podemos responder de nenhuma forma, porque somos duas mulheres contra um homem. O medo que sentimos às vezes é tanto que nem de mãos dadas conseguimos continuar. Há determinadas ruas em que não o fazemos. Há determinadas horas em que largar a mão é tentar manter um mínimo ilusório de segurança – ilusório porque continuamos a ser duas mulheres a andar na rua. Mas se damos as mãos, não ficamos mais fortes, como sempre me senti com o meu companheiro que é um homem. Não. Tornamo-nos um alvo.

No dia seguinte estou a voltar de metro, vinda do trabalho, livro na mão, procuro um lugar e sento-me. Levanto os olhos do livro e tenho um momento de autêntico pânico. À minha frente está o homem do outro dia. Levo alguns minutos a perceber que não é ele. Mas é tão parecido. Forço-me a ficar no lugar. Pego no livro. Com o medo que sinto não consigo ler mais do que a mesma frase. Mas não, não é ele. Já tinha imaginado mil coisas na minha cabeça. Todas elas horríveis. Não era ele, mas era outro homem. De olhar invasivo. Ou talvez não. Às vezes já não conseguimos saber. Sabemos é que em 99% dos casos sim, vai ser, mais um, mais um que nos olha como mercadoria ambulante. Mais um. Todos os dias. E quase ninguém fala disto.