Tag Archives: polyamory

paraíso das vidas anormais

Mari Hart- Photo & Soul's, Marcha das Vadias Rio de Janeiro

Mari Hart- Photo & Soul’s, Marcha das Vadias Rio de Janeiro

Há uma narrativa de vida das pessoas normais. Todxs nós sabemos bem qual é, é a história mais contada de sempre. Toda a gente conhece o seu princípio, meio e fim, toda a gente sabe mais ou menos os passos que é suposto seguir para a fazer acontecer, toda a gente vai andando por essa narrativa, mais ou menos à frente, com pequenos ajustes de personalização. A narrativa já não é a mesma dos nossos avós, sabemos. É, de facto tem algumas diferenças. Agora supostamente temos maior liberdade nas nossas escolhas e podemos realmente fazer umas excursões fora da narrativa – género Erasmus da vida – e depois voltar ao tronco principal. Supostamente há uma grande diferença entre aquilo que era uma mulher no tempo da minha avó e aquilo que é uma mulher agora. Eu não vejo assim tanta diferença, só nuances. Na verdade, o que é esperado de mim agora é tudo o que era esperado dela. E mais algumas coisas. A narrativa das pessoas normais – ou pelo menos as pessoas normais privilegiadas – envolve mais ou menos estas coisas com alguma personalização: é suposto termos formação, é suposto trabalharmos em qualquer coisa, é suposto termos amigos, é suposto termos a pessoa com quem partilhamos a vida, é suposto termos uma casa com essa pessoa, é suposto eventualmente mais tarde termos filhos (um pelo menos) com essa pessoa, é suposto termos um carro, é suposto termos férias, é suposto termos outra pessoa se aquela não for boa o suficiente ou fizer asneira, é suposto passarmos para a pessoa seguinte, já não é muito suposto casarmos mas fica sempre bem e eventualmente fazemos isso, é suposto que crianças façam parte do plano, é suposto é suposto.

Depois há a vida das pessoas para quem estas suposições óbvias não encaixam. A narrativa destas pessoas falha alguns destes pontos, ou mesmo todos, ou parte de pressupostos que tornam impossível que estas suposições aconteçam. Essa narrativa transgressora, marginal, ilegítima é uma narrativa que poucos conhecem e que poucos contam. É também uma narrativa em que a discriminação é vivida como parte integrante. Na verdade, a discriminação é a suposição possível para as narrativas de transgressão. Não estou a falar de grandes violências, de coisas de vida ou de morte, de perigo real que tantas pessoas com vidas transgressoras têm como único factor garantido. Essas acontecem como pontos de absurda violência que olhamos sempre como acontecimentos inesperados e específicos e nunca como problemas sociais – mas que o são. Estou a falar agora daquelas mini-micro-violenciazinhas que quase temos vergonha de dizer porque parecem tão pouco importantes perante coisas realmente graves. O problema é que são estas micro-coisinhas que acontecem a cada momento, todos os dias, todos os anos, sem nenhuma ou pouca alteração ao longo do tempo. Muitos acreditam que vivemos já numa sociedade muito mais aberta à diferença e muito mais igualitária. Em alguns países e em alguns contextos isto é verdade e mesmo aqui em Portugal é verdade. Mas as micro-agressões são tão micro e tão pervasivas e tão presentes que permitem a ilusão de que não há discriminação, originando vídeos como este que vendem Portugal como um paraíso sem homofobia.

O paraíso em que as pessoas com narrativas transgressoras vivem é muito diferente daquele em que o Lorenzo e Pedro acham que vivem. É um paraíso onde tens medo de falar da tua namorada no trabalho porque toda a gente sabe que já tens um namorado e ias ter que explicar toda a tua vida no escritório só para poderes dizer uma frase. Ou pior, iam assumir que já não tinhas namorado, ou achar que o estás a trair. Por isso calas. É um paraíso onde a tua mãe diz que não pode ir a tua casa porque vives com parte da tua constelação familiar e portanto “a casa não é só tua”, ignorando obviamente que na narrativa das pessoas normais “a casa” também não é só de uma pessoa. É um paraíso onde por mais que fales das pessoas com quem estás com os teus pais, eles perguntam sempre sobre a namorada do teu irmão e nunca sobre as pessoas com quem namoras. Ou perguntam mas de forma completamente diferente e nunca com o mesmo tom de legitimidade na voz. É um paraíso em que quando se fala de futuro, o teu nunca é referido ou considerado. É um paraíso em que és um desapontamento porque não vais ter filhos de acordo com a narrativa que é suposta, mesmo que nunca tenhas dito que não os querias ter e mesmo que digas que gostarias de educar filhos com outra pessoa, mesmo que não fossem biologicamente teus. É um paraíso onde dezenas de conversas não são tidas contigo porque nem vale a pena falar nisso. É um paraíso em que a tua história é difícil de explicar e contar e mesmo depois do esforço não é realmente compreendida. Muitos amigos são compreensivos, mas sabes que lhes é, mesmo assim, uma realidade estranha. É um paraíso em que optas por não contar a tua história centenas de vezes porque estás cansadx ou porque não te apetece explicar tudo. É um paraíso em que nunca és vista de acordo com a tua identidade e sempre como outra coisa qualquer: hetero, mono. E para que isso não aconteça tens que fazer um sublinhado em cima de tudo o que fazes e mil coming outs todos os dias. É um paraíso em que por causa disso acabam a dizer que não precisas de chamar tanto a atenção sobre ti e que tu própria te sentes exausta de ter que te “representar” a cada momento porque é a escolha entre isso e ser normalizada, apagada, ignorada. Então obviamente que escolhes lutar. É um paraíso em que já tens a tua casa, pagas as tuas contas, tens o teu emprego e mesmo assim as esperanças nunca estão depositadas em ti e sempre noutro. É um paraíso em que às vezes pensas: “bastava mudar uma coisa nesta equação e eu passava a ser a melhor filha do mundo”.

E isto é só a ponta do iceberg. O resto é: comentários na rua, olhares invasivos, pessoas que na rua me dizem que devo morrer, nunca dar um beijo sem ter alguém a olhar, nunca falar da minha vida no emprego, nunca ter reconhecimento pelo que sou e vivo, levar com as histórias normativas e ter que calar, nunca receber presentes nas diversas fases da minha narrativa (ao contrário do que acontece com as narrativas normais), raramente ter ajuda e compreensão pelos meus problemas porque poucos fazem ideia de quais são. Saber que não há guiões para mim, que muitas vezes nem há quem saiba como é estar nos meus sapatos, saber que se eu não falar disto [quase] ninguém falará.

Bem-vindxs ao paraíso das vidas anormais.

Anúncios

Hemingway escreveu um livro sobre poliamor e gender bending??…

… que na verdade é um livro sobre relações abusivas?!

CONTENT WARNING: este texto refere comportamentos de abuso psicológico e emocional

ALERTA DE SPOILERS: texto inclui spoilers da história e citações do livro

Terminei de o ler ontem. O Jardim do Éden. Não sei se é um livro conhecido ou não, sei que nunca tinha ouvido falar dele até alguém mo oferecer e dizer: “olha, este livro tem uma relação entre três pessoas, e uma delas muda de género um dia”. Ao que eu pensei: “Quê? O autor de O Velho e o Mar, que muitos de nós lemos na escola, escreveu um livro queer?” Era uma prenda e li-o de ponta a ponta. Descobri entretanto que na versão original o livro tinha 800 páginas (em vez das 200 e pouco que li) e que Hemingway passou 15 anos a escrevê-lo e que a história é em grande parte auto-biográfica e que o autor nunca a viu editada, pois só foi publicada postumamente em 1986.

Todas as sinopses que li sobre o livro estão erradas e não descrevem minimamente o que se passa no livro. Várias delas falam de um casal que de repente se apaixona por uma mulher, e de um affair que se desenvolve entre o homem e essa nova mulher. Não é bem isto que se passa.

Nas primeiras páginas conhecemos os recém-casados David e Catherine, jovens e felizes e em lua de mel por praias da Europa, nadando nus e bronzeando-se todos os dias, comendo os mais diversos petiscos e bebendo continuamente. Todo o livro é um contínuo de bebidas pela manhã, ao almoço, à tarde, ao cair do dia, acompanhados de petiscos e mais uma bebida, vinho na praia, um copo de outra bebida ao almoço, um copo entre conversas, um copo a acompanhar o jantar, um copo à noite antes de deitar. Bebidas, sol, praia, mar. Eles dormem, comem, bebem, dormem a sesta, comem, bebem, nadam, fazem amor, dormem, comem, bebem, num constante percurso de dormir e comer e dormir e falar e dormir e beber. Somos embalados e ficamos sequiosos e não sabemos como pode continuar uma vida composta só por amor, comer e beber, embora pareça um sonho.

6a00e54ee7b64288330147e3341408970b-500wi

Neste contínuo, conhecemos David e Catherine e descobrimos um dia que ela, Catherine, não quer ser mais ela, Catherine, e sim, quer ser um ele. A mudança acontece com um corte de cabelo. Catherine vai à cidade e corta radicalmente o cabelo curto, como o de David. Quando volta diz: «As pessoas estúpidas vão pensar que é estranho. Mas temos de nos orgulhar. Eu gosto de ter orgulho.»

Tão simples este acto de enunciação. Tão bom.

«Não me chames rapariga.», diz.

Agora David é que é a rapariga e os papéis invertem-se. «Estás a mudar – disse ela – Oh, sim, estás. Estás mesmo e és a minha Catherine. Queres ser a minha rapariga e deixar-me possuir-te?»

David diz sim e é aqui que a história começa realmente.

6a00e54ee7b6428833014e86b3eb0c970d-500wi

Neste jogo, e continuando os dias de sol, pele queimada, bebidas frescas e petiscos saborosos, um dia conhecem Marita. Aqui entra a parte que todas as sinopses parecem errar. Aquilo que se passa na verdade é que Catherine e David conhecem Marita e Catherine se apaixona/encanta/tem um capricho por Marita e decide que ambos – ela e David, casados – vão ter uma relação com Marita. Ambos se envolvem sexual e romanticamente com Marita e entretanto Marita e David começam a aproximar-se mais, ao mesmo tempo que Catherine vai dando sinais de estar a ficar cada vez mais mentalmente instável, entrando numa sucessão de comportamentos obsessivos e controladores (que sempre tinham existido na relação e que se vão tornando cada vez mais evidentes).

É Catherine quem traz Marita para o hotel onde estão hospedados e a traz quase como uma oferta. A primeira vez que falam do que se está a passar, Marita diz:

«A tua mulher é maravilhosa e eu estou apaixonada por ela».

David responde: «Também estou.»

E Marita continua: «Também estou apaixonada por ti. Faz mal?»

hemingwaygarden-splsh

Os três envolvem-se às claras, havendo momentos para cada uma das relações inicialmente (Catherine e Marita, Marita e David, David e Catherine), mas sempre com a primazia dada à relação de David e Catherine (os casados). A partir daqui o caminho é sempre destrutivo.

Os sinais de que algo está errado estão lá desde o início: Catherine obriga David a pintar o cabelo como o dela, contra sua vontade. Obriga David a aceitar interacções sexuais que ele não pretende. Invade o espaço pessoal de David, revistando os seus papéis e histórias (David é escritor). Traz Marita para ficar com eles quando David explicitamente diz que não quer. Mais tarde, é David a dizer que Marita pode ficar dizendo-lhe: «Gostamos de ti e achamos que és muito decorativa». A primeira vez que David e Marita se beijam é por ordem de Catherine. Catherine e Marita envolvem-se primeiro sexualmente, e percebemos que David está desconfortável e inseguro com isso. Este primeiro envolvimento resulta em culpa para ambas. Depois, Catherine diz:

«Acho que só é interessante a primeira vez que o fazemos.»

Ao que Marita comenta:

«Sempre pensei que era estúpido. É uma coisa que as raparigas fazem quando não têm melhor para fazer.»

Nunca nenhuma delas tinha estado com uma mulher. Pena que este seja o fim de um dos poucos livros que inclui personagens visivelmente bissexuais.

Depois disto, o foco muda para Marita e David e percebemos que ambos estão emocionalmente a aproximar-se cada vez mais, ocultando isso de Catherine. Catherine, por sua vez, enlouquece cada vez mais, entrando em competição com Marita e acabando a destruir os cadernos de histórias de David. Eventualmente Catherine acaba a ir-se embora depois de uma cena em que tanto ela como David reconhecem verbalmente ter vontade de matar o outro (instável, não sabemos se vive). Marita e David ficam juntos e decidem casar-se, fechando o círculo. Percebemos obviamente que este não é um livro sobre poliamor, ou que pelo menos estas pessoas tentaram fazer uma coisa não-exclusiva da forma mais errada, patriarcal, desigual, desonesta e destrutiva possível.

Uma viagem meio embriagada ao coração negro do ciúme e do vazio de comunicação e um possível vislumbre da vida de Hemingway, que talvez afinal não tenha sido tão normal assim.


aceitamos o amor que achamos que merecemos.

tumblr_newny27BqX1tumrv2o1_500

 

Quando me apaixonei pela primeira vez, uma parte de mim achava que nunca mais seria possível apaixonar-me assim de novo. Apesar de ser poliamorosa, uma vozinha dentro de mim às vezes dizia que uma química destas não se encontra muitas vezes. A pessoa por quem me apaixonei e com quem ainda estou anos depois, sempre me disse que não era assim. Sempre me disse:

tem cuidado com os sempres e os nuncas. 
como é que podes saber o amanhã?
não digas nunca.
há muitas pessoas e cada pessoa é diferente e cada pessoa nos traz coisas únicas
mas como seria isso possível?
com tudo isto que eu sinto por ti?
vais conhecer mais pessoas. 
vais partilhar muita coisa boa com muitas pessoas diferentes.
as pessoas não se substituem. são únicas.
mas tu podes sentir amor por mais pessoas.
podes sentir desejo por pessoas por quem não estás apaixonada.
podes querer ir para a cama com uma amiga.
podes apaixonar-te mais vezes.
Vivi vários anos só apaixonada por uma pessoa, mas sempre poliamorosa. Compreendi que sim, podia sentir desejo por pessoas por quem não estava apaixonada. Compreendi que os meus nuncas tão certos eram verdades absolutas que não tinham fundamento. É preciso cuidado com as verdades absolutas porque elas nos mordem no rabo na primeira oportunidade. Eis as minhas: preciso de uma pessoa só para mim; não quero partilhar a pessoa que está comigo com mais ninguém; sou hetero; não me apaixono à primeira vista; relações à distância são uma treta e não funcionam; nunca vou foder com alguém que acabei de conhecer; nunca vou conseguir tomar a iniciativa de dizer a alguém que estou interessada; as pessoas não se interessam por mim; não sou capaz de intimidade com pessoas; não sou capaz de partilhar casa com ninguém.
Uma por uma, todas elas me morderam. O absoluto oposto destas verdades tão absolutas aconteceu. Uma por uma, todas foram desmontadas e provadas erradas.
Há pouco tempo percebi que estava apaixonada pela segunda vez na minha vida. E que continuo apaixonada pela pessoa com quem já estava. Estou apaixonada por duas pessoas. Ao mesmo tempo. E não tenho que escolher.
Sem verdades absolutas o caminho não foi/é tão seguro. Felizmente tenho a sorte de nunca ter tido que o fazer sozinha. Hoje sou uma pessoa muito diferente daquela que era há anos atrás. Sem estas verdades absolutas descobri que sou capaz de muito mais do que eu estava disposta a jurar a pés juntos. E isso foi uma das coisas que o poliamor me trouxe.
As pessoas poly falam muito daquilo que não têm ou que custa: o tempo a dividir pelas pessoas, as agendas complicadas, a gestão de sentimentos e expectativas e ciúmes. Mas poucas vezes falamos das coisas boas que relações com xs nossxs companheirxs nos trazem. A pessoa que eu era antes da minha primeira relação poliamorosa é bem diferente da que sou hoje. Eu aprendi muita coisa, cresci para lados que nunca pensei, fiz coisas que jurei que nada tinham a ver comigo só para descobrir que afinal tinham tudo a ver comigo. Muitas dessas coisas surgiram no contexto da relação em que estava: conseguir falar do que quero, saber ouvir, ter confiança para dizer o que sinto na cama ou fora dela, arriscar e experimentar, parar de fugir das coisas que quero, saber falar das coisas difíceis, saber admitir fraquezas, medos, fragilidades. Eu sentia-me emocionalmente incapaz durante grande parte da minha vida. Descobri que afinal eu não era incapaz coisa nenhuma. Descobri isso com outra pessoa, que nunca me deixou ficar a acreditar nessa versão de mim mesma. Munida com essa arma de amor, eu apaixonei-me novamente.
Mas não acaba aqui. Também esta pessoa por quem me apaixonei mais recentemente me traz coisas únicas e que eu posso levar comigo de volta. Esta pessoa trouxe-me esperança renovada, energia e força, não porque eu não as tivesse, mas porque elas se multiplicaram. Com ela tive que aprender a comunicar de outros modos e descobri que nem toda a gente tem que falar da mesma maneira para conseguir ser honesto e comunicar. Com ela percebi que podemos ter medo e isso não nos parar. Que podemos estar frágeis e mesmo assim ter a coragem de dizer o que queremos. De lutar pelo que queremos. Ela derrubou mais verdades absolutas e faz-me acreditar em mais versões de mim. Pela primeira vez eu pude compreender realmente o quão difícil é comprometer-nos com mais do que uma pessoa porque pela primeira vez não era teoria, era prática. E essa prática permitiu que pela primeira vez eu pudesse realmente estar nos “sapatos” do meu outro companheiro, que tem várias companheiras. Pela primeira vez eu compreendi realmente o sofrimento dele, as falhas, as confusões, as dificuldades, as fragilidades. Eu compreendi a fragilidade de fazer isto com respeito e cuidado com toda a gente, porque eu própria estava agora na mesma posição. E ao mesmo tempo também era capaz de entender os medos dela, porque tinha estado num lugar semelhante muitos anos.
As coisas que eu descobri com estas pessoas são algo bom que eu posso partilhar com outras pessoas. São algo que faz parte de mim e que eu posso dar a outrxs. São algo que faz parte destas pessoas que eu amo e que elas não têm que dar só a mim. Que elas partilham com outros amores seus. E essas pessoas podem levar isso com elas e partilhar com outras pessoas com quem estão, e essas com outras… por todo o lado.

Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires]: Parte II

10169435_10201907809881230_580458194223255140_n

Fazer-me lésbica foi uma decisão. Uma decisão consciente, auto-reflectida, política, pessoal e amorosa. Não foi uma decisão que tomei só uma vez, mas sim uma decisão que tomo quase todos os dias. Fazer-me lésbica não é um acto acabado – daí o uso do verbo fazer. É um processo de auto-conhecimento e exploração. É uma decisão consciente e performativa que acontece porque eu quero.

Acontece por exemplo quando digo: eu sou lésbica. A linguagem faz com que isto aconteça e seja real. Cada iteração de “eu sou lésbica” faz-me lésbica. Cada vez que o repito sou sempre lésbica. Cada vez que o digo crio ondas, faço acontecer.

Apesar de ser um processo, deve ter havido um momento inicial. A primeira vez que disse “sou lésbica”. Seria muito mais giro se me lembrasse da história desse momento e o conseguisse narrar e dizer: “sim, foi neste dia, eu tinha voltado das compras e de repente tive uma iluminação e percebi! Sou lésbica. Fui a correr contar logo à primeira pessoa que encontrei e que ficou embasbacada a olhar para mim.”

Não, não foi isto que aconteceu. Até pode ter sido, mas se foi não me lembro. Não me lembro desse momento inicial e primeiro de “sou lésbica”.

Mas lembro-me, sim, de esse momento ir acontecendo. E aí encontro uma narrativa. Uma narrativa que percorre várias conversas em vários dias diferentes, ao longo de meses e depois anos – porque sim, continua hoje, mais de cinco anos depois. Uma narrativa de construção pessoal e inter-relacional que se foi fazendo. Essa narrativa foi acontecendo no meu fazer-me poliamorosa. E foi um esforço colaborativo. Sim, porque eu não me fiz lésbica sozinha. Obviamente que fui e sou a grande agente nesse processo e que sem essa minha agência e vontade nada disto teria acontecido e eu ter-me-ia feito noutra coisa qualquer. Mas eu partilhei essa minha vontade no contexto de uma relação poliamorosa e queer com um homem cis. E fui-me construindo lésbica precisamente depois de começar uma relação amorosa com um homem cis.

tumblr_mvi884I3lQ1rzdysro1_500

Aqui parece residir o problema que muitas pessoas têm com a minha identidade. Para mim é simplesmente a cereja no topo do bolo (se eu gostasse de bolos) e não perco uma única oportunidade para meter este dado ao barulho, sempre muito naturalmente, como por exemplo no seguinte diálogo:

Pessoa aleatória: Ah ontem fui ao café.

Eu: Ah que engraçado. Por falar nisso, eu sou lésbica e ando com um homem, sabias?

Pessoa aleatória: [silêncio]

(não é bem assim, é mais como abaixo – e sim, esta aconteceu mesmo)

Local: Café algures no Porto. Eu sentada com umx namoradx. Pessoa acabada de conhecer  sentada à nossa frente.

Pessoa aleatória: Ah pois mas tu és lésbica. Eu prefiro homens, o que é que queres… Tenho um fantástico lá em casa…

Eu: Ah e quem é que te disse que eu não? Por acaso também tenho, está em Lisboa e gosto imenso dele.

Pessoa aleatória: [risos] -> a pessoa pensou que eu estava a gozar com a cara dela ou que já tinha definitivamente bebido demais.

Aqui é importante pensar nas condições específicas que contribuíram para este meu fazer-me lésbica numa relação com um homem e que são fundamentais para perceber porque é que isto é possível no meu caso (e quem sabe no de outras pessoas que assim queiram).

1. Esta relação é poliamorosa.

É poliamorosa da maneira que nós escolhemos fazê-la: aberta a várias pessoas e a vários tipos de laços possíveis com essas pessoas, dinâmica e portanto sempre cambiável e amorosamente exploratória e experimental. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que tenho nesta relação toda a liberdade para me experimentar lesbicamente – sozinha ou acompanhada – e de me pensar lesbicamente. Isto implicou, de uma forma muito menos poética, conversar. Conversar contínua e abertamente sobre desejos, vontades, expressões sexuais e sensuais e afectos. Foi no contexto desta relação que, em conversa, me apercebi que uma das relações mais centrais da minha vida era uma amizade romântica com uma mulher a quem eu chamava amiga. Foi em conversa com este homem cis com quem estou, que percebi que esta outra relação de amizade amorosa era central na minha vida, a ponto de ser tão relevante como qualquer relação sexual/amorosa/romântica (que eu na minha cabeça andava a tentar separar sem grandes bases). Só porque não tinha sexo, não deixava de ser lésbica, não deixava de ser amorosa, não deixava de fazer parte do meu construir-me lésbica.

Esta abertura para falar foi criada no contexto de um formato relacional em que falar é fazer relação. É fazer as formas de estar e de amar. E nós fomos fazendo estas formas e fomos fazendo uma relação não-exclusiva, baseada em confiança e partilha e em auto-hetero-descobertas múltiplas. E eu fui-me fazendo lésbica em conversas de café, em conversas de fim-de-semana, em conversas à noite ou jantares. E eu fui-me fazendo lésbica nas nossas explorações eróticas e nas explorações eróticas que partilhei com ele e com outras pessoas. E nas minhas explorações afectivas. Porque eu assim escolhi. Como meu projecto pessoal e relacional. E como parte da minha narrativa pessoal. A minha identidade lésbica é indissociável da minha identidade poliamorosa. Esta questão deu até origem a uma piada:

Eu: Eu podia ser perfeitamente monogâmica! Sou perfeitamente capaz de ser um dia.

Companheiro: Ai é? Então imagina lá estares numa relação monogâmica com um homem e nunca mais na tua vida teres uma relação – ou sequer essa possibilidade – com uma mulher?

Eu: Ah… [bloqueio]

Até hoje não consegui arranjar uma resposta que me convencesse a mim mesma.

2. Esta relação parece hetero. Mas não é. 

Esta foi sempre uma parte complexa de invisibilidade lésbica. Apesar de sermos uma mulher e um homem cis, numa relação romântica e sexual, temos um pequeno problema: é que além de não sermos mono, também não temos uma relação hetero.

Ambos consideramos que a nossa relação é queer – e este é o motivo principal pelo qual a relação não é hetero e é queer – sim, porque nós dizemos que é. E porque a fazemos enquanto tal.

Eu muitas vezes não me sinto a ter uma relação com um homem – aqui leia-se homem como quem diz “ser que tem supostamente as características masculinas consideradas norma nesta sociedade”. Sinto-me a ter uma relação com uma pessoa com uma série de características que eu posso atribuir a vários géneros diferentes e que, sendo cis, não tem uma série de características atribuídas à masculinidade. Posto de forma mais simples: o homem cis com quem eu ando, muitas vezes, não é masculino. E isso é parte do charme todo da coisa. E às vezes é masculino. Um masculino desconstruído e feminista. E isso é bom, porque no fundo eu não quero namorar com géneros mas com pessoas.

Obviamente que o facto de a relação não ser para nós hetero, não faz com que ela seja magicamente vista como nós queremos. Para 99% das pessoas nós somos hetero e esta é uma relação hetero e se por acaso saímos à rua só os dois até podem pensar que somos mono. Aí entra a nossa construção de nós mesmos e o que dizemos para activamente contrariar e questionar esta percepção automática. Claro que à vezes a sociedade engole-nos.

Outra parte complicada disto, é que eu posso dizer que a minha relação não é hetero e que eu sou lésbica… e depois posso começar a rezar para que as pessoas LGBT à minha volta percebam magicamente isto. O que acontece é que, claro, não percebem. E que me lêem como hetero ou bissexual (se eu conseguir dizer que gosto de mulheres). Outra coisa que resulta daqui é que tenho de estar constantemente a dizer que não sou hetero – se quero ser lida como não hetero – ou seja, o coming out é todos os dias, várias vezes por dia, potencialmente. Ou, quando as coisas correm bem, sou lida como bissexual e tenho que ainda assim fazer o coming out lésbico – isto nunca acaba.

giphy

Um outro efeito disto é eu dizer – sou lésbica – mas não é isto que as pessoas ouvem. Ouvem antes: “ok, também gosta de experimentar com mulheres, mas ama é aquele homem. Vou pôr-me ao fresco”. No fundo, isto acaba a funcionar também como um filtro. Só vai dar-se ao trabalho de ver para além dos pré-conceitos quem realmente o quiser fazer. E quem tem problemas com a minha identidade está longe de ser uma boa pessoa para estar comigo.

tumblr_inline_nahhyn1kTI1senomt

É difícil ser visível neste contexto. Mas mesmo sabendo isto, esta foi sempre a minha escolha diária. A de nunca me heteronormativizar. A de me fazer lésbica poliamorosa numa relação com um homem também. A de me fazer lésbica todos os dias.

Mais um passo numa viagem que ainda continua e que tem todos os dias novos contornos. Os últimos ficam para um novo texto.

Este texto é a continuação de um outro, que pode ser lido aqui.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [mini-explosões queer]: interlúdio

revolution-as-constant

Pequena cena-exemplo de como a identidade lésbica queer pode provocar uma mini-revolução ou pequena explosão (aconteceu realmente, mas entretanto passaram anos e a cena é narrada com alguma imaginação dramática da parte da autora)

Há uns anos atrás, numa sala cheia de lésbicas (para quem quiser saber o que todas estas lésbicas estavam a fazer numa sala carregue aqui):

«Olá, eu sou lésbica e poliamorosa. Este aqui ao meu lado…» – aponta para homem cis de cabelo comprido – «…é um dos meus companheiros.»

*explosão de cérebros lésbicos*

*comentários para a vizinha do lado*

*lésbicas butch muito zangadas*

*eu-lésbica entre o contente com a provocação – tinha planeado obsessivamente dizer a frase tal e qual desta maneira para poder observar os seus efeitos em ambiente altamente lésbico-normal – e semi-aterrorizada com o ambiente agreste*

Primeira lésbica butch: Espanta-me que diga uma coisa dessas, aí sentada, com toda essa calma.

Segunda lésbica não-especificada: Porque é que não diz antes que é bissexual? Se está com um homem, tudo bem, mas ao menos admita que é bissexual.

Primeira lésbica butch: Você não pode dizer isto.

aCjiFzq

Silêncio dramático.

*fim de narrativa*

Resposta a este magnífico cliffhanger e as relações entre poliamor e lesbianismo queer na Parte II: Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires] – ainda por escrever.

Nota: a autora não tem nada contra o Clube Safo, nem defende que as opiniões acima expressas são as do Clube Safo. Ademais, a autora faz parte do dito Clube e é uma das grandes interessadas na sua sobrevivência agora e para sempre.


all over the place

eu não sou uma pessoa organizada. quer dizer, sou organizada em termos logísticos, quando há coisas que quero fazer, mas mentalmente sou uma pessoa desorganizada. no meio da minha desorganização costumo encontrar uma linha de continuidade e sigo-a. é uma maneira de me manter num caos organizado que só eu entendo.

estou a perder essa linha. ou melhor, a linha continua a existir mas eu não a consigo seguir. há demasiada coisa a acontecer, há demasiada informação, há demasiada coisa que eu quero fazer ao mesmo tempo. não estou a conseguir fazer nada. criei este blogue para conseguir seguir a linha, mas todos os meus blogues acabam mal começam. sim, estou a falar do fim de uma coisa que acabei de começar. se o que importa é o caminho e não o fim, então há algum sentido nisto. no entanto, cheguei a um ponto em que não consigo pensar.

giphy

o activismo está a esgotar-me. os activismos. é possível ser poly, lésbica, kinky, queer, feminista e tudo e tudo e tudo. mas é possível ser tudo e não ficar louca? não sei. se é sinal de uma mente saudável o facto de não estar ajustada a uma sociedade doentia, então devo estar no bom caminho. mas sinto-me exausta. sinto-me, eu mesma, doente. de dar tudo ao mesmo tempo em todo o lado.

os activismos estão a sugar-me. não há espaços seguros. não há comunicação não-violenta. há guerra e silenciamentos e opressões a serem jogadas todos os dias. eu mesma tornei-me violenta para me defender. arrogante para me proteger. vou para as reuniões activistas como quem vai para um campo de batalha e por isso vou armada. não falo com cuidado. chego e digo o que preciso de dizer. e sou agressiva. foda-se caralho merda. destilo raiva. é assim que estou a fazer activismo, movida a agressão, movida a defesas e contra-ataques. moves and counter-moves.

pergunto-me se não devia parar e qual é a razão para ficar. obviamente razões há muitas. é que se não for eu, provavelmente não há mais ninguém. pelo menos, não haveria ninguém que não seja da minha família, e portanto eu continuaria a ser afectada. não dá para fazer activismo como se fosse um hobby. não é como acordar e ir ao ginásio de manhã e pronto, está feito, põe-se de lado e passa à frente. o activismo dorme connosco, fode connosco, vive connosco e está todos os dias connosco – quando estamos no trabalho a fazer vida dupla, quando vamos na rua, quando fazemos escolhas, quando estamos a viver as nossas relações. deve haver gente a fazer activismo de uma maneira muito mais conveniente e confortável. eu sei que há. às vezes também gostava de ser assim.

mas pior que isso, há pessoas que fazem activismo-performance. talvez performance não seja o melhor termo por estar tão bem conotado com coisas queer-fofinhas. há pessoas que fazem activismo-máscara. activismo-para-o-outro-ver-que-eu-sou-tão-boa-pessoa. o activismo hipócrita está em todo o lado. para estas pessoas é normal ir a uma reunião silenciar outras. ou fazer estratégias para eliminar outrxs identidades e grupos. ou fazer eventos contra a violência e ser violentx e abusivx em privado. estas pessoas são consideradas boas activistas. têm nome e reputação. eu não estou no direito de as revelar, mas muitxs sabem quem são.

isto entretanto transformou-se num texto de denúncia. mas é só um texto de cansaço. activismos são só uma das coisas que faço, uma das linhas. o resto da minha vida é feito de poly-relações, poly-afectos, poly-complicações, poly-comunicações, poly-planos. e mais. precariedade. empregos das 9 às 5, contas para pagar, família de sangue e de obrigações, discriminações, invisibilidade, sexismos vários, conexões online, ansiedade, esgotamentos, textos queer everywhere.

sim, este texto é uma confusão. e não diz sequer metade.

exhaustion


Indeed lesbians, real-lesbians and why I refuse to be lesbianized by you!

995625_10201103469533224_2024215326_n

On a nearby social network, I got mail this morning. It was… a real-lesbian.

«written about 14 hours ago:

hello. you know, most of your profile says that you are a lesbian. yet you are polyamorous with a male… can you explain how you can be both? i dont want to remove you from the group if you are, indeed, a lesbian. but if you are not, then you cant stay. and dang, but that one would be a shame… cause i like your pics! chuckles.

thanks for the coming explanation…»

«written less than a minute ago:

Hello,

I’m still trying to convince myself that it is worth my time to answer amessage like this.

I have been on this social network for four years now and during all this time I’ve had heterosexual men sending me messages that quite simply ignored my profile and sexual orientation. Almost no messages from women. When I received this message I thought – now, here’s something that might be worth mytime. I couldn’t have been more wrong.

So, are you asking me, politely, to prove to you that I’m a lesbian? I’m assuming you’re serious about this. I’m very serious about this. Let me just say that you are just one more in a series of events in my life, where lesbian ask me to show them my lesbian card.

Well, I won’t.

I don’t have to explain to you why I choose to identify as a lesbian. For most sensible people it should be enough that I say so. You are not asking me this because you want to know my story, or to listen to my experiences for your personal growth. I would be more than happy to share my story with anyone who would ask me to talk about this, to understand it better for themselves or even think about themselves.But that is not what your message implies. You are policing my sexuality and if I don’t meet the requirements, you will decide for me that I don’t belong in a group I chose to join.

Well, I’m not going to justify my sexuality to you. But, because I’m an activist and I’ve had enough of this bullshit, I’m going to write down a few more things.

My sexual orientation is not determined or defined by the gender identity of whom I fuck. Period.

Identities and practices are not the same thing. Period.

My identity as a lesbian is not dependable on who I fuck, who I kiss, who I sleep with or hold hands with, or am kinky with, or have feelings for, or have romantic feelings for or whatever. My identity is defined by me and no one has a right to come and tell me I should be otherwise.

Unfortunately many people – like you – feel that they’re entitled to tell me I should have another identity, or name myself differently. Many even think that it is not my right to name myself a lesbian. Others tell me where I belong and DON’T belong. I have had lesbian women screaming to my face that I can’t say that I’m a lesbian. And I have had messages like this.

Well, it is not YOUR right to tell people what they should be. Or where they should belong.

It’s impressive how for someone like you – who must have suffered discrimination of some type during your life – to actually hit send on a message like this. Probably because you think it’s your right to check my lesbianism, probably because you are group moderator and feel that it is your responsibility to check if the space is safe for”real lesbians”.

So, you won’t remove me from a social group I joined if I prove to you that”indeed” I am a “lesbian”?

How would you feel if someone told that it is not OK for you to identify as a”lesbian butch boi”? What if someone questioned that youapply the idea of “boi” to your identity as a woman? Ortold you to prove that you are actually a “butch”?

What if someone told your 12-year-old-self: you are not really a lesbian, you haven’t been with a woman yet. Would that make sense to you? When do you “start” to be a lesbian?

…What is”indeed a lesbian”? Do you count women that you fucked? Do you make a list of genitalia you touched? Does it count if you are in a relationship with a trans woman? Or does it only count if everyone is cisgendered? Do you account only for genitalia or should you count also the cis-guy who presents herself as a woman? Or do you check the genitalia first before playing a scene?

Well, I don’t date genitalia. I also don’t date “indeed” lesbians or”real” women. If I want to have sex I also don’t choose to have it after checking the genital area. The same thing applies to kink.

Apparently you are entitled to tell me that I can’t stay in a group of lesbians if I’m not the real deal.

I’m not – and don’t even have the slightest wish to be – so just do as you wish.

I have come to realize that most lesbians I have met have less and less to do with me. They have mostly made me feel outcast, disrespected, out of place and silenced. Our community is not loving, caring and respectful. It produces more and more exclusions, boxes and tags. It leaves more and more people out.

I don’t want to connect better with people who forget what they’ve been through to hold on to new prejudices.

It’s a shame that for you the “shame” in all this is that you actually feel attracted to a poser-lesbian or whatever you would think I am. So if my pictures were ugly it wouldn’t be such a shame, would it?»