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paraíso das vidas anormais

Mari Hart- Photo & Soul's, Marcha das Vadias Rio de Janeiro

Mari Hart- Photo & Soul’s, Marcha das Vadias Rio de Janeiro

Há uma narrativa de vida das pessoas normais. Todxs nós sabemos bem qual é, é a história mais contada de sempre. Toda a gente conhece o seu princípio, meio e fim, toda a gente sabe mais ou menos os passos que é suposto seguir para a fazer acontecer, toda a gente vai andando por essa narrativa, mais ou menos à frente, com pequenos ajustes de personalização. A narrativa já não é a mesma dos nossos avós, sabemos. É, de facto tem algumas diferenças. Agora supostamente temos maior liberdade nas nossas escolhas e podemos realmente fazer umas excursões fora da narrativa – género Erasmus da vida – e depois voltar ao tronco principal. Supostamente há uma grande diferença entre aquilo que era uma mulher no tempo da minha avó e aquilo que é uma mulher agora. Eu não vejo assim tanta diferença, só nuances. Na verdade, o que é esperado de mim agora é tudo o que era esperado dela. E mais algumas coisas. A narrativa das pessoas normais – ou pelo menos as pessoas normais privilegiadas – envolve mais ou menos estas coisas com alguma personalização: é suposto termos formação, é suposto trabalharmos em qualquer coisa, é suposto termos amigos, é suposto termos a pessoa com quem partilhamos a vida, é suposto termos uma casa com essa pessoa, é suposto eventualmente mais tarde termos filhos (um pelo menos) com essa pessoa, é suposto termos um carro, é suposto termos férias, é suposto termos outra pessoa se aquela não for boa o suficiente ou fizer asneira, é suposto passarmos para a pessoa seguinte, já não é muito suposto casarmos mas fica sempre bem e eventualmente fazemos isso, é suposto que crianças façam parte do plano, é suposto é suposto.

Depois há a vida das pessoas para quem estas suposições óbvias não encaixam. A narrativa destas pessoas falha alguns destes pontos, ou mesmo todos, ou parte de pressupostos que tornam impossível que estas suposições aconteçam. Essa narrativa transgressora, marginal, ilegítima é uma narrativa que poucos conhecem e que poucos contam. É também uma narrativa em que a discriminação é vivida como parte integrante. Na verdade, a discriminação é a suposição possível para as narrativas de transgressão. Não estou a falar de grandes violências, de coisas de vida ou de morte, de perigo real que tantas pessoas com vidas transgressoras têm como único factor garantido. Essas acontecem como pontos de absurda violência que olhamos sempre como acontecimentos inesperados e específicos e nunca como problemas sociais – mas que o são. Estou a falar agora daquelas mini-micro-violenciazinhas que quase temos vergonha de dizer porque parecem tão pouco importantes perante coisas realmente graves. O problema é que são estas micro-coisinhas que acontecem a cada momento, todos os dias, todos os anos, sem nenhuma ou pouca alteração ao longo do tempo. Muitos acreditam que vivemos já numa sociedade muito mais aberta à diferença e muito mais igualitária. Em alguns países e em alguns contextos isto é verdade e mesmo aqui em Portugal é verdade. Mas as micro-agressões são tão micro e tão pervasivas e tão presentes que permitem a ilusão de que não há discriminação, originando vídeos como este que vendem Portugal como um paraíso sem homofobia.

O paraíso em que as pessoas com narrativas transgressoras vivem é muito diferente daquele em que o Lorenzo e Pedro acham que vivem. É um paraíso onde tens medo de falar da tua namorada no trabalho porque toda a gente sabe que já tens um namorado e ias ter que explicar toda a tua vida no escritório só para poderes dizer uma frase. Ou pior, iam assumir que já não tinhas namorado, ou achar que o estás a trair. Por isso calas. É um paraíso onde a tua mãe diz que não pode ir a tua casa porque vives com parte da tua constelação familiar e portanto “a casa não é só tua”, ignorando obviamente que na narrativa das pessoas normais “a casa” também não é só de uma pessoa. É um paraíso onde por mais que fales das pessoas com quem estás com os teus pais, eles perguntam sempre sobre a namorada do teu irmão e nunca sobre as pessoas com quem namoras. Ou perguntam mas de forma completamente diferente e nunca com o mesmo tom de legitimidade na voz. É um paraíso em que quando se fala de futuro, o teu nunca é referido ou considerado. É um paraíso em que és um desapontamento porque não vais ter filhos de acordo com a narrativa que é suposta, mesmo que nunca tenhas dito que não os querias ter e mesmo que digas que gostarias de educar filhos com outra pessoa, mesmo que não fossem biologicamente teus. É um paraíso onde dezenas de conversas não são tidas contigo porque nem vale a pena falar nisso. É um paraíso em que a tua história é difícil de explicar e contar e mesmo depois do esforço não é realmente compreendida. Muitos amigos são compreensivos, mas sabes que lhes é, mesmo assim, uma realidade estranha. É um paraíso em que optas por não contar a tua história centenas de vezes porque estás cansadx ou porque não te apetece explicar tudo. É um paraíso em que nunca és vista de acordo com a tua identidade e sempre como outra coisa qualquer: hetero, mono. E para que isso não aconteça tens que fazer um sublinhado em cima de tudo o que fazes e mil coming outs todos os dias. É um paraíso em que por causa disso acabam a dizer que não precisas de chamar tanto a atenção sobre ti e que tu própria te sentes exausta de ter que te “representar” a cada momento porque é a escolha entre isso e ser normalizada, apagada, ignorada. Então obviamente que escolhes lutar. É um paraíso em que já tens a tua casa, pagas as tuas contas, tens o teu emprego e mesmo assim as esperanças nunca estão depositadas em ti e sempre noutro. É um paraíso em que às vezes pensas: “bastava mudar uma coisa nesta equação e eu passava a ser a melhor filha do mundo”.

E isto é só a ponta do iceberg. O resto é: comentários na rua, olhares invasivos, pessoas que na rua me dizem que devo morrer, nunca dar um beijo sem ter alguém a olhar, nunca falar da minha vida no emprego, nunca ter reconhecimento pelo que sou e vivo, levar com as histórias normativas e ter que calar, nunca receber presentes nas diversas fases da minha narrativa (ao contrário do que acontece com as narrativas normais), raramente ter ajuda e compreensão pelos meus problemas porque poucos fazem ideia de quais são. Saber que não há guiões para mim, que muitas vezes nem há quem saiba como é estar nos meus sapatos, saber que se eu não falar disto [quase] ninguém falará.

Bem-vindxs ao paraíso das vidas anormais.

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Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires]: Parte II

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Fazer-me lésbica foi uma decisão. Uma decisão consciente, auto-reflectida, política, pessoal e amorosa. Não foi uma decisão que tomei só uma vez, mas sim uma decisão que tomo quase todos os dias. Fazer-me lésbica não é um acto acabado – daí o uso do verbo fazer. É um processo de auto-conhecimento e exploração. É uma decisão consciente e performativa que acontece porque eu quero.

Acontece por exemplo quando digo: eu sou lésbica. A linguagem faz com que isto aconteça e seja real. Cada iteração de “eu sou lésbica” faz-me lésbica. Cada vez que o repito sou sempre lésbica. Cada vez que o digo crio ondas, faço acontecer.

Apesar de ser um processo, deve ter havido um momento inicial. A primeira vez que disse “sou lésbica”. Seria muito mais giro se me lembrasse da história desse momento e o conseguisse narrar e dizer: “sim, foi neste dia, eu tinha voltado das compras e de repente tive uma iluminação e percebi! Sou lésbica. Fui a correr contar logo à primeira pessoa que encontrei e que ficou embasbacada a olhar para mim.”

Não, não foi isto que aconteceu. Até pode ter sido, mas se foi não me lembro. Não me lembro desse momento inicial e primeiro de “sou lésbica”.

Mas lembro-me, sim, de esse momento ir acontecendo. E aí encontro uma narrativa. Uma narrativa que percorre várias conversas em vários dias diferentes, ao longo de meses e depois anos – porque sim, continua hoje, mais de cinco anos depois. Uma narrativa de construção pessoal e inter-relacional que se foi fazendo. Essa narrativa foi acontecendo no meu fazer-me poliamorosa. E foi um esforço colaborativo. Sim, porque eu não me fiz lésbica sozinha. Obviamente que fui e sou a grande agente nesse processo e que sem essa minha agência e vontade nada disto teria acontecido e eu ter-me-ia feito noutra coisa qualquer. Mas eu partilhei essa minha vontade no contexto de uma relação poliamorosa e queer com um homem cis. E fui-me construindo lésbica precisamente depois de começar uma relação amorosa com um homem cis.

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Aqui parece residir o problema que muitas pessoas têm com a minha identidade. Para mim é simplesmente a cereja no topo do bolo (se eu gostasse de bolos) e não perco uma única oportunidade para meter este dado ao barulho, sempre muito naturalmente, como por exemplo no seguinte diálogo:

Pessoa aleatória: Ah ontem fui ao café.

Eu: Ah que engraçado. Por falar nisso, eu sou lésbica e ando com um homem, sabias?

Pessoa aleatória: [silêncio]

(não é bem assim, é mais como abaixo – e sim, esta aconteceu mesmo)

Local: Café algures no Porto. Eu sentada com umx namoradx. Pessoa acabada de conhecer  sentada à nossa frente.

Pessoa aleatória: Ah pois mas tu és lésbica. Eu prefiro homens, o que é que queres… Tenho um fantástico lá em casa…

Eu: Ah e quem é que te disse que eu não? Por acaso também tenho, está em Lisboa e gosto imenso dele.

Pessoa aleatória: [risos] -> a pessoa pensou que eu estava a gozar com a cara dela ou que já tinha definitivamente bebido demais.

Aqui é importante pensar nas condições específicas que contribuíram para este meu fazer-me lésbica numa relação com um homem e que são fundamentais para perceber porque é que isto é possível no meu caso (e quem sabe no de outras pessoas que assim queiram).

1. Esta relação é poliamorosa.

É poliamorosa da maneira que nós escolhemos fazê-la: aberta a várias pessoas e a vários tipos de laços possíveis com essas pessoas, dinâmica e portanto sempre cambiável e amorosamente exploratória e experimental. O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer que tenho nesta relação toda a liberdade para me experimentar lesbicamente – sozinha ou acompanhada – e de me pensar lesbicamente. Isto implicou, de uma forma muito menos poética, conversar. Conversar contínua e abertamente sobre desejos, vontades, expressões sexuais e sensuais e afectos. Foi no contexto desta relação que, em conversa, me apercebi que uma das relações mais centrais da minha vida era uma amizade romântica com uma mulher a quem eu chamava amiga. Foi em conversa com este homem cis com quem estou, que percebi que esta outra relação de amizade amorosa era central na minha vida, a ponto de ser tão relevante como qualquer relação sexual/amorosa/romântica (que eu na minha cabeça andava a tentar separar sem grandes bases). Só porque não tinha sexo, não deixava de ser lésbica, não deixava de ser amorosa, não deixava de fazer parte do meu construir-me lésbica.

Esta abertura para falar foi criada no contexto de um formato relacional em que falar é fazer relação. É fazer as formas de estar e de amar. E nós fomos fazendo estas formas e fomos fazendo uma relação não-exclusiva, baseada em confiança e partilha e em auto-hetero-descobertas múltiplas. E eu fui-me fazendo lésbica em conversas de café, em conversas de fim-de-semana, em conversas à noite ou jantares. E eu fui-me fazendo lésbica nas nossas explorações eróticas e nas explorações eróticas que partilhei com ele e com outras pessoas. E nas minhas explorações afectivas. Porque eu assim escolhi. Como meu projecto pessoal e relacional. E como parte da minha narrativa pessoal. A minha identidade lésbica é indissociável da minha identidade poliamorosa. Esta questão deu até origem a uma piada:

Eu: Eu podia ser perfeitamente monogâmica! Sou perfeitamente capaz de ser um dia.

Companheiro: Ai é? Então imagina lá estares numa relação monogâmica com um homem e nunca mais na tua vida teres uma relação – ou sequer essa possibilidade – com uma mulher?

Eu: Ah… [bloqueio]

Até hoje não consegui arranjar uma resposta que me convencesse a mim mesma.

2. Esta relação parece hetero. Mas não é. 

Esta foi sempre uma parte complexa de invisibilidade lésbica. Apesar de sermos uma mulher e um homem cis, numa relação romântica e sexual, temos um pequeno problema: é que além de não sermos mono, também não temos uma relação hetero.

Ambos consideramos que a nossa relação é queer – e este é o motivo principal pelo qual a relação não é hetero e é queer – sim, porque nós dizemos que é. E porque a fazemos enquanto tal.

Eu muitas vezes não me sinto a ter uma relação com um homem – aqui leia-se homem como quem diz “ser que tem supostamente as características masculinas consideradas norma nesta sociedade”. Sinto-me a ter uma relação com uma pessoa com uma série de características que eu posso atribuir a vários géneros diferentes e que, sendo cis, não tem uma série de características atribuídas à masculinidade. Posto de forma mais simples: o homem cis com quem eu ando, muitas vezes, não é masculino. E isso é parte do charme todo da coisa. E às vezes é masculino. Um masculino desconstruído e feminista. E isso é bom, porque no fundo eu não quero namorar com géneros mas com pessoas.

Obviamente que o facto de a relação não ser para nós hetero, não faz com que ela seja magicamente vista como nós queremos. Para 99% das pessoas nós somos hetero e esta é uma relação hetero e se por acaso saímos à rua só os dois até podem pensar que somos mono. Aí entra a nossa construção de nós mesmos e o que dizemos para activamente contrariar e questionar esta percepção automática. Claro que à vezes a sociedade engole-nos.

Outra parte complicada disto, é que eu posso dizer que a minha relação não é hetero e que eu sou lésbica… e depois posso começar a rezar para que as pessoas LGBT à minha volta percebam magicamente isto. O que acontece é que, claro, não percebem. E que me lêem como hetero ou bissexual (se eu conseguir dizer que gosto de mulheres). Outra coisa que resulta daqui é que tenho de estar constantemente a dizer que não sou hetero – se quero ser lida como não hetero – ou seja, o coming out é todos os dias, várias vezes por dia, potencialmente. Ou, quando as coisas correm bem, sou lida como bissexual e tenho que ainda assim fazer o coming out lésbico – isto nunca acaba.

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Um outro efeito disto é eu dizer – sou lésbica – mas não é isto que as pessoas ouvem. Ouvem antes: “ok, também gosta de experimentar com mulheres, mas ama é aquele homem. Vou pôr-me ao fresco”. No fundo, isto acaba a funcionar também como um filtro. Só vai dar-se ao trabalho de ver para além dos pré-conceitos quem realmente o quiser fazer. E quem tem problemas com a minha identidade está longe de ser uma boa pessoa para estar comigo.

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É difícil ser visível neste contexto. Mas mesmo sabendo isto, esta foi sempre a minha escolha diária. A de nunca me heteronormativizar. A de me fazer lésbica poliamorosa numa relação com um homem também. A de me fazer lésbica todos os dias.

Mais um passo numa viagem que ainda continua e que tem todos os dias novos contornos. Os últimos ficam para um novo texto.

Este texto é a continuação de um outro, que pode ser lido aqui.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [mini-explosões queer]: interlúdio

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Pequena cena-exemplo de como a identidade lésbica queer pode provocar uma mini-revolução ou pequena explosão (aconteceu realmente, mas entretanto passaram anos e a cena é narrada com alguma imaginação dramática da parte da autora)

Há uns anos atrás, numa sala cheia de lésbicas (para quem quiser saber o que todas estas lésbicas estavam a fazer numa sala carregue aqui):

«Olá, eu sou lésbica e poliamorosa. Este aqui ao meu lado…» – aponta para homem cis de cabelo comprido – «…é um dos meus companheiros.»

*explosão de cérebros lésbicos*

*comentários para a vizinha do lado*

*lésbicas butch muito zangadas*

*eu-lésbica entre o contente com a provocação – tinha planeado obsessivamente dizer a frase tal e qual desta maneira para poder observar os seus efeitos em ambiente altamente lésbico-normal – e semi-aterrorizada com o ambiente agreste*

Primeira lésbica butch: Espanta-me que diga uma coisa dessas, aí sentada, com toda essa calma.

Segunda lésbica não-especificada: Porque é que não diz antes que é bissexual? Se está com um homem, tudo bem, mas ao menos admita que é bissexual.

Primeira lésbica butch: Você não pode dizer isto.

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Silêncio dramático.

*fim de narrativa*

Resposta a este magnífico cliffhanger e as relações entre poliamor e lesbianismo queer na Parte II: Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se assim decidires] – ainda por escrever.

Nota: a autora não tem nada contra o Clube Safo, nem defende que as opiniões acima expressas são as do Clube Safo. Ademais, a autora faz parte do dito Clube e é uma das grandes interessadas na sua sobrevivência agora e para sempre.


Não nasces lésbica. Tornas-te lésbica [se tiveres sorte]: Parte I

1780668_10201182847837632_1988650856_nComo se estivesse a ler palavras de uma estranha, leio algures num email de há 5 anos atrás, que eu (o eu da altura), não gosto do termo lésbica. Tento traçar uma linha desde então até ao presente, procurando os momentos de viragem, e encontro o termo lésbica nomeado mais de 790 vezes no meu arquivo de email. Para quem não gostava do termo, definitivamente usei-o muito.

Como é que cheguei aqui? Mas talvez esta não seja a melhor pergunta, porque o que me interessa mesmo é o caminho e não o fim. Como é que me fui fazendo lésbica todos os dias? Alguns pontos que encontro nesta história de me fazer lésbica, por uma ordem falsamente cronológica que é a que o meu cérebro recorda:

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L word. Sim, um autêntico cliché, mas esta série fez/faz parte do meu fazer-me lésbica. Vi-a às escondidas. Apesar de ser maior de idade, a minha mãe vigiava os programas que eu via na televisão e várias vezes me veio desligar o dispositivo quando eu estava a ver esta série, seguindo-se berros, críticas e censuras (é tarde, que programa é este, o que estás a fazer com a tua vida, não vais ver isto em minha casa). Uma das vezes desligou-me a TV a meio de uma cena de sexo oral de dez minutos, completamente empowering. Foi meio caminho andado para se tornar a minha série favorita e nunca mais perder um episódio. Vi todas as temporadas. Pela primeira vez estava a ver corpos de mulheres postos ali para serem vistos por outras mulheres. Tenho perfeita consciência dos problemas desta série. Sei que é uma representação irrealista, idealizada, de corpos brancos, tonificados, capazes, de mulheres de classe alta, com nenhuma representação de safer sex, com um enfoque claro na monogamia em série e quase ausência de representações de não-monogamias consensuais e responsáveis, enfim demasiada normatividade lésbica e pouco queer e imensa bifobia. Estes e outros problemas que este produto de Hollywood tem não apagam, no entanto, a importância destas representações no meu fazer-me lésbica: ver sexo lésbico em prime-time, ouvir mulheres falarem das suas atracções, problemas e relações de intimidade, estabelecendo redes de amizade e solidariedade, fazendo asneira, cometendo erros, dando passos em falso, fodendo, tudo isto foi importante. Ver, pela primeira vez, vários tipos de lésbicas, femininas, não femininas, masculinas, pessoas trans, pessoas com atitudes queer, ver mulheres que em tudo poderiam parecer hetero mas não o são, tudo isto fez parte do meu fazer-me lésbica.

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Momento polémico 1: talvez sem esta série eu não fosse lésbica. Sim, estou a dizer que o meu lesbianismo pode ser produzido culturalmente e ser resultado de um produto mediático. Provavelmente o L Word criou e produziu muitas lésbicas de diversos tipos e intensidades e colorações. Eu sou uma delas. [on a side note: eu ser do contra também deve ter provocado o meu lesbianismo, quanto mais me proibiram de ver a série mais lésbica me tornei, obrigada mãe.]

– Possivelmente decorrente do ponto anterior, tive uma enorme paixão platónica assolapada por uma rapariga na faculdade, com quem mal troquei meia dúzia de frases. Tinha cabelo cor-de-rosa, uma voz meio rouca, fumava e parecia uma versão da Shane mais sexy. Fomos colegas numa cadeira de fotografia, onde me fiz ainda mais lésbica caindo de amores por uma dúzia de fotógrafas que faziam auto-retratos, entre as quais Francesca Woodman e Claude Cahun, duas fotógrafas que me fizeram lésbica e queer e ainda mais feminista. Precisamente numa aula dessas, estava sentada ao lado da gaja de cabelo cor-de-rosa e sentia que não conseguia pensar (I can’t think straight). De repente, faltou a luz, e ela diz: “fuck me” (obviamente referindo-se ao incómodo da falta de electricidade). O meu cérebro entrou numa cena de autêntico L Word, where I would indeed fuck her and it would be totally normal and sexy. Em vez disso, obviamente fiquei petrificada no lugar a tentar respirar até a luz voltar. No resto do semestre tentei timidamente trocar umas frases com ela, sentindo-me totalmente desadequada para interacções sociais ou de qualquer outro tipo e logicamente tudo deu em nada. Entretanto percebi que ela tinha namorado e conclui então que se calhar ela era tudo menos lésbica (o que tem imensa piada, à luz da minha própria identidade hoje).

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Só fiz alguma coisa directa quanto à paixão platónica quando já tinha saído da faculdade, já era poliamorosa e já estava numa relação com um dos meus actuais companheiros, que foi precisamente a pessoa que me incentivou a não deixar isto em silêncio. Enviei-lhe uma mensagem numa rede social onde ainda tinha contacto e disse-lhe que ela tinha sido parte do meu fazer-me lésbica. Não houve resposta, mas eu também não estava à espera de nenhuma. Simplesmente, agora tinha skills que não tinha antes. Agora eu dizia as coisas claramente, ou pelo menos muito mais claramente que antes. Mais importante do que uma resposta, era a minha honestidade lésbica. E essa honestidade foi, e é, apoiada, também (mas não só) no contexto de uma relação poliamorosa com um homem cis heteroflexível.

Momento polémico 2: A Francesca Woodman e Claude Cahun fizeram-me muito lésbica. Sim, artistas e os seus produtos podem fazer lésbicas.

Momento polémico 3: Ser poliamorosa fez-me lésbica. Estar numa relação poliamorosa e queer com um homem cis heteroflexível fez-me lésbica. E no próximo texto vou explicar exactamente como é que, sim, alguns homens podem ajudar a fazer lésbicas. Principalmente se estão em luta constante com a sua masculinidade, se são também eles femininos em muita coisa e se estão interessados em construir relações não-normativas e que podem ser ressignificadas pelas pessoas que as fazem – a todo o momento.


all over the place

eu não sou uma pessoa organizada. quer dizer, sou organizada em termos logísticos, quando há coisas que quero fazer, mas mentalmente sou uma pessoa desorganizada. no meio da minha desorganização costumo encontrar uma linha de continuidade e sigo-a. é uma maneira de me manter num caos organizado que só eu entendo.

estou a perder essa linha. ou melhor, a linha continua a existir mas eu não a consigo seguir. há demasiada coisa a acontecer, há demasiada informação, há demasiada coisa que eu quero fazer ao mesmo tempo. não estou a conseguir fazer nada. criei este blogue para conseguir seguir a linha, mas todos os meus blogues acabam mal começam. sim, estou a falar do fim de uma coisa que acabei de começar. se o que importa é o caminho e não o fim, então há algum sentido nisto. no entanto, cheguei a um ponto em que não consigo pensar.

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o activismo está a esgotar-me. os activismos. é possível ser poly, lésbica, kinky, queer, feminista e tudo e tudo e tudo. mas é possível ser tudo e não ficar louca? não sei. se é sinal de uma mente saudável o facto de não estar ajustada a uma sociedade doentia, então devo estar no bom caminho. mas sinto-me exausta. sinto-me, eu mesma, doente. de dar tudo ao mesmo tempo em todo o lado.

os activismos estão a sugar-me. não há espaços seguros. não há comunicação não-violenta. há guerra e silenciamentos e opressões a serem jogadas todos os dias. eu mesma tornei-me violenta para me defender. arrogante para me proteger. vou para as reuniões activistas como quem vai para um campo de batalha e por isso vou armada. não falo com cuidado. chego e digo o que preciso de dizer. e sou agressiva. foda-se caralho merda. destilo raiva. é assim que estou a fazer activismo, movida a agressão, movida a defesas e contra-ataques. moves and counter-moves.

pergunto-me se não devia parar e qual é a razão para ficar. obviamente razões há muitas. é que se não for eu, provavelmente não há mais ninguém. pelo menos, não haveria ninguém que não seja da minha família, e portanto eu continuaria a ser afectada. não dá para fazer activismo como se fosse um hobby. não é como acordar e ir ao ginásio de manhã e pronto, está feito, põe-se de lado e passa à frente. o activismo dorme connosco, fode connosco, vive connosco e está todos os dias connosco – quando estamos no trabalho a fazer vida dupla, quando vamos na rua, quando fazemos escolhas, quando estamos a viver as nossas relações. deve haver gente a fazer activismo de uma maneira muito mais conveniente e confortável. eu sei que há. às vezes também gostava de ser assim.

mas pior que isso, há pessoas que fazem activismo-performance. talvez performance não seja o melhor termo por estar tão bem conotado com coisas queer-fofinhas. há pessoas que fazem activismo-máscara. activismo-para-o-outro-ver-que-eu-sou-tão-boa-pessoa. o activismo hipócrita está em todo o lado. para estas pessoas é normal ir a uma reunião silenciar outras. ou fazer estratégias para eliminar outrxs identidades e grupos. ou fazer eventos contra a violência e ser violentx e abusivx em privado. estas pessoas são consideradas boas activistas. têm nome e reputação. eu não estou no direito de as revelar, mas muitxs sabem quem são.

isto entretanto transformou-se num texto de denúncia. mas é só um texto de cansaço. activismos são só uma das coisas que faço, uma das linhas. o resto da minha vida é feito de poly-relações, poly-afectos, poly-complicações, poly-comunicações, poly-planos. e mais. precariedade. empregos das 9 às 5, contas para pagar, família de sangue e de obrigações, discriminações, invisibilidade, sexismos vários, conexões online, ansiedade, esgotamentos, textos queer everywhere.

sim, este texto é uma confusão. e não diz sequer metade.

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Indeed lesbians, real-lesbians and why I refuse to be lesbianized by you!

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On a nearby social network, I got mail this morning. It was… a real-lesbian.

«written about 14 hours ago:

hello. you know, most of your profile says that you are a lesbian. yet you are polyamorous with a male… can you explain how you can be both? i dont want to remove you from the group if you are, indeed, a lesbian. but if you are not, then you cant stay. and dang, but that one would be a shame… cause i like your pics! chuckles.

thanks for the coming explanation…»

«written less than a minute ago:

Hello,

I’m still trying to convince myself that it is worth my time to answer amessage like this.

I have been on this social network for four years now and during all this time I’ve had heterosexual men sending me messages that quite simply ignored my profile and sexual orientation. Almost no messages from women. When I received this message I thought – now, here’s something that might be worth mytime. I couldn’t have been more wrong.

So, are you asking me, politely, to prove to you that I’m a lesbian? I’m assuming you’re serious about this. I’m very serious about this. Let me just say that you are just one more in a series of events in my life, where lesbian ask me to show them my lesbian card.

Well, I won’t.

I don’t have to explain to you why I choose to identify as a lesbian. For most sensible people it should be enough that I say so. You are not asking me this because you want to know my story, or to listen to my experiences for your personal growth. I would be more than happy to share my story with anyone who would ask me to talk about this, to understand it better for themselves or even think about themselves.But that is not what your message implies. You are policing my sexuality and if I don’t meet the requirements, you will decide for me that I don’t belong in a group I chose to join.

Well, I’m not going to justify my sexuality to you. But, because I’m an activist and I’ve had enough of this bullshit, I’m going to write down a few more things.

My sexual orientation is not determined or defined by the gender identity of whom I fuck. Period.

Identities and practices are not the same thing. Period.

My identity as a lesbian is not dependable on who I fuck, who I kiss, who I sleep with or hold hands with, or am kinky with, or have feelings for, or have romantic feelings for or whatever. My identity is defined by me and no one has a right to come and tell me I should be otherwise.

Unfortunately many people – like you – feel that they’re entitled to tell me I should have another identity, or name myself differently. Many even think that it is not my right to name myself a lesbian. Others tell me where I belong and DON’T belong. I have had lesbian women screaming to my face that I can’t say that I’m a lesbian. And I have had messages like this.

Well, it is not YOUR right to tell people what they should be. Or where they should belong.

It’s impressive how for someone like you – who must have suffered discrimination of some type during your life – to actually hit send on a message like this. Probably because you think it’s your right to check my lesbianism, probably because you are group moderator and feel that it is your responsibility to check if the space is safe for”real lesbians”.

So, you won’t remove me from a social group I joined if I prove to you that”indeed” I am a “lesbian”?

How would you feel if someone told that it is not OK for you to identify as a”lesbian butch boi”? What if someone questioned that youapply the idea of “boi” to your identity as a woman? Ortold you to prove that you are actually a “butch”?

What if someone told your 12-year-old-self: you are not really a lesbian, you haven’t been with a woman yet. Would that make sense to you? When do you “start” to be a lesbian?

…What is”indeed a lesbian”? Do you count women that you fucked? Do you make a list of genitalia you touched? Does it count if you are in a relationship with a trans woman? Or does it only count if everyone is cisgendered? Do you account only for genitalia or should you count also the cis-guy who presents herself as a woman? Or do you check the genitalia first before playing a scene?

Well, I don’t date genitalia. I also don’t date “indeed” lesbians or”real” women. If I want to have sex I also don’t choose to have it after checking the genital area. The same thing applies to kink.

Apparently you are entitled to tell me that I can’t stay in a group of lesbians if I’m not the real deal.

I’m not – and don’t even have the slightest wish to be – so just do as you wish.

I have come to realize that most lesbians I have met have less and less to do with me. They have mostly made me feel outcast, disrespected, out of place and silenced. Our community is not loving, caring and respectful. It produces more and more exclusions, boxes and tags. It leaves more and more people out.

I don’t want to connect better with people who forget what they’ve been through to hold on to new prejudices.

It’s a shame that for you the “shame” in all this is that you actually feel attracted to a poser-lesbian or whatever you would think I am. So if my pictures were ugly it wouldn’t be such a shame, would it?»